Os dois reis sob a montanha
27 Um beijo dado com amor, espanta a dor
Notas iniciais
– Ai! Eu não sabia que simples rosas poderiam... Ai...! Machucar! – Resmungou o jovem anão, tirando rapidamente as mãos de um canteiro de rosas que estava ajudando a tosar. Ora, como ele poderia presumir que um trabalho que lhe parecia simples, se tornasse mais complicado e dolorido que uma aula com Balin ou mesmo um treino com Dwalin?
“Eu estou exagerando. Só são flores! Ou seja, plantas, o que significam que nem podem contra-atacar ou me assustar! Já enfrentei criaturas diversas da Terra Média, não posso temer simples espinhos...”
– AI! – Choramingou ao ser ferido novamente por mais um espinho, enquanto tentava pegar um galho podre para ser cortado.
– Oh... Bebê chorão. – Riu Drogo, se aproximando de Kili para “salvá-lo” – Eu te disse que tinha que usar luvas. – O jovem hobbit tinha na cabeça um chapéu de palha de abas largas para proteger-se do sol, mas o príncipe anão tinha se recusado a usar um chapéu do mesmo tipo; bem como tinha se negado a usar as luvas.
– Está tudo bem, só foi um arranhão. – Disse, chupando o dedo machucado.
– Eu estou ouvindo seus resmungos e gritinhos de dor há mais de 20 minutos, então creio que não se trata de só um arranhão. – Falou o Bolseiro, se ajoelhando ao lado do anão perto do arbusto de flores que o outro estava trabalhando.
– Nós anões somos resistentes e valentes o suficiente para aguentar o mais forte dos inimigos. Já lhe disse que posso carregar rochas bem pesadas e...
– Já disse sim! – Cortou Drogo, tentando evitar rolar os olhos. Nos quatro dias que tinham se passado desde a chegada dos príncipes anões ao Condado, estes se hospedaram no Bolsão e Kili, principalmente, se voluntariou para “cuidar” de Drogo, pois o jovem hobbit ainda estava muito debilitado devido a desnutrição e ainda se recuperava da doença. De acordo com a vovó Tûk, só precisava se expor mais ao sol e comer; necessidades básicas para um hobbit ser saudável. Em resumo, para Drogo aqueles dias foram maravilhosos, pois eram como a dissipação da tempestade que tinha adentrado em sua vida desde que recebera a noticia que era um breeder e da morte de Prímula. Kili o fazia rir e relaxar; sem falar que sempre sonhara com aquele momento, o de finalmente estar ao lado do príncipe anão que dominava seus pensamentos e coração.
Kili fez um bico. Iria demonstrar o quão forte era, mas parecia que Drogo não se importava muito com aquelas demonstração de virilidade anã. O Bolseiro sorriu ao ver a reação do seu companheiro, já que adorava provocá-lo.
– Sei que és um valoroso guerreiro, Kili, mas uma coisa é certa – Drogo retirou uma rosa do arbusto e a cheirou – Acho que minhas rosas estão ganhando esse combate. – Piscou maroto.
– N-não! Definitivamente não! Eu vou mostrar para elas quem é que está no comando. – Falou orgulhoso estufando o peito. O hobbit gargalhou com aquilo.
– Kili, não seja bobo! Irá se machucar mais se continuar a tosar sem os instrumentos necessários.
Novamente o príncipe fez biquinho e Drogo sorriu; era quase como estivesse tratando de uma criança teimosa... Uma criança bastante atraente de fato. Uma criança com músculos e...
“O que estou pensando?” Balançou a cabeça, tentando dissipar aquelas ideias atrevidas. Aquilo não era próprio de um hobbit educado e honrado, não é?
– Vem. — Pegou a mão do anão – Deixe-me olhar a sua mão. Você não pode simplesmente “chupar” os machucados e esperar que cure.
– Não posso? – Perguntou surpreso.
– Não! Já pensou se infecionar?
– Já lhe disse, nós anões somos resist...
– Vem logo! – Mandou o menor, puxando consigo o anão – O que estou aprendendo sobre a sua raça até agora é que vocês podem ser muito resistentes, de fato; pois acredito que vocês, de alguma forma, devem ter algum parentesco com as rochas... Pelo menos tem cabeças duras como uma!
– Ei, isso machucou! – Dramatizou o anão, tocando o coração com a outra mão – Depois de oferecer minhas grandes habilidades de jardinagem!
– Bobo... — Sorriu Drogo – Suas habilidades precisam de muito treinamento para se tornarem verdadeiramente grandes.
Os dois já estavam chegando perto de um grande pinheiro, plantado no meio do jardim, que oferecia uma sombra apreciável. Abaixo dele havia poltronas rusticas feitas de palha. Drogo empurrou o anão para que este sentasse em uma dos assentos e logo tomou o que estava à frente, pegando a mão machucada do príncipe para examinar.
– Bem, se eu tiver um bom professor... Aposto que posso melhorar. – Kili falou baixinho, como se a proposta devesse ser um segredo. Drogo sentiu suas bochechas corarem e tentou se concentrar em inspecionar a mão do outro para diminuir, assim, o seu nervosismo.
– Habilidades de jardinagem atrairiam um anão? Pelo o que meu primo Bilbo me relatou nas cartas, vocês não gostam muito flora e não entendem a sua utilidade.
– Nós podemos aprender... — Resmungou – Eu estou aprendendo.
– Mas por quê? Você é um guerreiro.
– Oras... Posso ter curiosidade em outras áreas que não sejam o combate.
Drogo levantou os olhos e encarou o príncipe a sua frente. Sentia que não era tão somente “curiosidade” que motivava Kili, mas não tinha coragem de perguntar mais, temendo as respostas que poderia obter.
– Vocês hobbits ficam se vangloriando do conhecimento das plantas e tal, mas nós anões sabemos de uma forma para aliviar a dor. – Falou como tivesse contando uma confidência.
– E o que seria? Alguma magia? – Perguntou Drogo tentando conter sua curiosidade, mas falhando visivelmente.
– Talvez... — Sorriu Kili, adorando observar as reações do menor, ávido para conhecer culturas e histórias de além do Condado.
– Me diz! – Pediu agora não contendo mais a sua excitação.
– Hum... Acho que seria um segredo da minha raça, e eu não deveria contar essas coisas para alguém que é um não-anão. – Disse, fingindo-se sério.
– M-mas... Mas eu sou membro da sua família, meio que eu sou um Durin, não é?
– Verdade, tens razão. Então eu posso contar. – Olhou para os lados, algo que Drogo também fez, copiando o anão – O segredo para sarar a dor de qualquer ferimento é...
O pequeno hobbit mordeu o lábio inferior, ansioso com a resposta.
– Um beijo. – Concluiu Kili, com um sorriso maroto nos lábios.
Drogo corou totalmente com aquela informação, depois fez biquinho e apertou o dedo ferido do príncipe anão, que choramingou de dor.
– Ai! Isso é o contrário de curar, sabia?
– Você estava brincando comigo! – Resmungou – Eu realmente acreditei que iria contar sobre um segredo mágico!
– Bem... De certa forma, eu não menti.
Drogo o encarou cético. Já estava se preparando para apertar novamente um dos ferimentos.
– Eu juro por Mahal que eu não estava mentindo! Digo, eu iria só dizer que minha mãe costumava beijar o local onde nós machucávamos quando éramos pequenos. A justificativa dela era que “o beijo dado com amor aliviava a dor!”. Mas, então, você começou fazer essa cara e eu não pude resistir e meio que exagerei demais a história...
– Que cara? – Perguntou confuso.
– A cara fofa de coelho quando vê diante de si uma cenoura suculenta. –Provocou novamente o anão sorrindo.
– Já disse para não me comparar a um coelho — Fez biquinho e virou o rosto parcialmente avermelhado para o lado – E muito menos faço esses tipos de cara...
– Não tem nada de errado nelas. Digo... Eu gosto delas.
Drogo olhou de relance para o anão, que agora corava e massageava com a mão livre o pescoço. O príncipe olhava para o lado como se o ambiente a sua volta pudesse de alguma forma diminuir o embaraço que sentia. O jovem hobbit sorriu. Kili não estava agindo de forma diferente do que o próprio Drogo agia.
– Tipo... Todos nós fazemos caras estranhas, não que a sua seja estranha! Pelo contrário, é muito linda – digo, fofa... Er... — Kili continuava a tagarelar, cada vez mais se atrapalhado com as palavras. Drogo inspirou fundo, tomando coragem, se aproximou do anão e lhe deu um beijo na bochecha, se afastando rapidamente. O monologo de Kili subitamente foi cessado.
– O que...
O anão nem tivera tempo para formular a pergunta, pois o menor logo o interrompeu.
– Você tinha dito que precisava de um beijo para diminuir a dor, não é mesmo? Então eu dei. Não gosto de ouvir alguém choramingando enquanto trabalho no jardim. – Falou, focando seu olhar em qualquer outro ponto que não fosse o rosto ainda surpreso do príncipe de Erebor.
– Bem... Mas eu disse que tinha que beijar o ferimento, que eu saiba não tinha nenhum machucado em minha bochecha. – Kili aproveitou a mão — que ainda estava sendo segurada pelo hobbit — para então acariciá-la, mesmo que esta ainda estivesse ocultada por uma luva grossa de jardinagem.
“Oh, Drogo, seu grande idiota...!” Agora sim Kili iria achá-lo um atrevido. Na verdade ainda não sabia ao certo o que o levara a agir daquela forma. Que hobbit respeitável iria beijar a bochecha de alguém, assim, do nada, sem um bom motivo?
“Eu ainda posso sentir cócegas nos lábios...” E inconscientemente levou a mão livre aos seus lábios. Sim, ainda sentia a sensação fantasma dos pelos da barba do príncipe anão que pareciam pressionar a sua pele sensível. “Por Yavanna! Eu não devia me perder nesses tipos de pensamentos. Tenho que pensar em uma resposta bastante razoável e lógica, de acordo com que deve ser esperado de um Bolseiro!”. Abriu a boca para falar, contudo sentiu algo molhado em sua bochecha, e parou. Para sua surpresa, Kili tinha se valido do momento de meditação para se aproximar e lhe dar um beijo. Tudo que tinha pensado referente à desculpa que deveria ser dada foi esquecida com o selar daqueles lábios em seu rosto, agora totalmente avermelhado, de modo que faria inveja aos tomates premiados de seu primo Bilbo.
– M-mas... Mas eu não estava machucado... — Sua voz tremia e se apresentava em um sussurro. Kili ainda estava perto do seu rosto, sentia o seu respirar, o seu cheiro que lembrava tanto a relva e a terra úmida. Drogo mordeu o lábio inferior, nervosamente.
– Eu beijei porque queria beijar. Como você também o fez, não?
Drogo não saber o que responder já estava se tornando comum entre eles; ou seja, Kili fazia questionamentos que deixavam o jovem Bolseiro literalmente sem fala.
– E outra coisa que você esqueceu sobre a pequena história que eu acabei de te contar...
Drogo conseguiu reunir forças para ter coragem de perguntar:
– Que coisa?
Kili acariciou a face do menor, e apesar das mãos ásperas características dos anões, o toque era dotado de carinho e uma leveza, tal como não desejasse causar danos, ou mesmo achasse que o hobbit fosse muito frágil para um toque mais brusco.
“Não sou feito de porcelana! Não preciso ser tratado como uma donzela!” Pensou Drogo teimosamente. Sua mente já estava divagando para outras questões quando foi puxada de volta a realidade pelas palavras seguintes do príncipe anão.
– Para curar o ferimento deve-se beijar com amor para espantar a dor. Logo só iria funcionar se tivesse...
– Amor. — Completou Drogo inconscientemente. Sua boca era mais rápida que sua mente.
– E quer saber? Meus ferimentos não doem mais.
Drogo engoliu em seco e, tomando por uma estranha coragem (apesar de não ter sangue Tûk correndo em suas veias), levantou os olhos azuis para fitar os olhos castanhos do anão. O farfalhar das folhas devido ao vento e a queda de algumas sobre os cabelos de ambos não parecia desviar a atenção que um tinha em relação ao outro.
– Drogo... — Kili começou a falar. Parecia tentar buscar palavras, o jovem anão, antes tão eloquente agora parecia perdido.
– A resposta é sim.
– Hã? Mas eu nem fiz uma pergunta. Quero dizer...
– Eu estou respondendo à outra pergunta que você fez.
– Qual? Eu sempre faço várias perguntas, tipo agora, eu fiz uma pergunta, não? Ops. Fiz de novo.
Drogo rolou os olhos. Às vezes, Kili era mesmo difícil de decifrar.
– Aquela referente ao beijo. Se eu fiz isso por que queria ou...
– Oh, lembrei! Espera. Você disse que sua resposta é “sim”? – Perguntou afoito, como tivesse recebido a melhor notícia de sua vida.
– E-eu... A-acho que sim. — Gaguejou nervoso.
– Isso significa que posso te beijar mais vezes sem ter que inventar desculpas?
– Então toda essa história foi uma desculpa para me beijar? – Perguntou Drogo, arqueando as sobrancelhas.
– Hã? Não, não desta vez. Juro!
– Desta vez?
– Eu vou explicar, não fique bravo! Não que não tivéssemos outras oportunidades para nós beijar; digo, eu até estava pensando em alguns planos e... – Drogo realmente não era conhecido por sua paciência — logo, irritado, puxou o anão pelos cabelos e colidiu, de forma desajeitada, os seus lábios no dele. Um beijo meio atrapalhado foi trocado. Quando finalmente estavam começando a se acostumar e iniciar o beijo de fato, a porta do quintal foi aberta de forma estrondosa, o que fez que os jovens enamorados se afastassem subitamente.
– Drogo! Kili! Eu trouxe um pouco de chá com biscoitos. – Anunciou primo Ada – Hã? Por que Kili está caído no chão?
O príncipe anão tinha caído da poltrona de palha e agora jazia no chão, ainda tentando se recuperar do susto e do embaraço.
– Ele... Ele... — Drogo estava pensando em uma justificativa – Estava buscando umas joaninhas.
– Joaninhas? – Adalgrim arqueou uma sobrancelha.
– Sim! Não sabias que joaninhas são essências para um bom jardim? Elas acabam com as pragas.
– Hum... Verdade. Tinha me esquecido disso. – Ada parecia aceitar a explicação, apesar de ainda parecer meio que desconfiado da situação.
– Obrigado pela a comida, primo Ada. – Sorriu Drogo, pegando sua xicara de chá e fitando o anão que sentava na poltrona e pegava um dos biscoitos e enfiando na boca. Ada continuou os observando. Sentia que tinha perdido alguma coisa... Talvez estivessem escondendo algo, mas o quê? Nunca fora muito bom em charadas.
~TKATC~
– E então? – Perguntou Legolas, enquanto comia o bolinho que fora oferecido pela vovó Tûk. A velha senhora o estava enchendo de comida. Segundo ela, o elfo era demasiado magro e deveria engordar, pois alguém belo como ele não podia andar por aí tal como fosse um esqueleto vivo. Legolas achou que a matriarca dos Tûks estava exagerando, ele não era assim tão magro, ora. Tinha perguntado em outra ocasião a Fili sobre isso e o príncipe anão lhe assegurou que apresentava o físico ideal; tinha até se oferecido para tocar, para mostrar através de provas físicas que o que falara era verdade, mas logicamente Legolas recusou.
– Tsc... Estou te devendo algumas moedas de ouro. – Resmungou, se sentando ao lado de seu companheiro que exibia um sorriso triunfante.
– Eu disse que Drogo iria dar o primeiro passo.
– Não acredito. Kili trocou incontáveis cartas amorosas com Drogo e quando eles finalmente se encontram temos que esperar quatro dias para finalmente avistarmos algum avanço nesse amor platônico. E quando vejo, perco a aposta! – Pegou um bolinho e enfiou na boca. O elfo suspirou, pois já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha reclamado dos modos à mesa do príncipe anão, mas era como se falasse com uma rocha. “Os anões nasceram das rochas, se não me engano. Devem ter pedregulhos em lugar do cérebro” Pensou, enquanto limpava a boca com um guardanapo.
– Seu irmão é meio relutante em relação ao romance... Quanto ao Drogo, bem, ele é parente de Bilbo, logo apostei nele.
– Os hobbits realmente são surpreendentes. – Falou de boca cheia, Fili. Pedaços do bolinho escapavam enquanto pronunciava as palavras.
Legolas balançou a cabeça negavamente. Agora entendia como Bilbo devia sofrer tentando educar os seus anões.
– Fili, agora que já chegamos aqui, algo me preocupa. Quando iremos retornar a Erebor?
O anão suspirou. Iria limpar, com as costas das mãos, a boca. No meio do processo foi impedido por Legolas, que se dispôs a limpar a boca e barba do anão, resmungando baixo sobre a falta de modo do anão e como ele, sendo príncipe e herdeiro ao trono, deveria servir de exemplo.
– Devemos partir nos próximos dois dias. Se ficarmos mais, correremos o risco de pegarmos o inverno severo em nosso retorno. Você sabe tão bem como eu que o inverno é uma época nada propícia para viagens. Lobos e outras criaturas descem as montanhas e saem de seus refúgios em busca de comida.
– Além disso, tem aqueles orcs que avistamos. – Lembrou temeroso o elfo.
– Exato. Eles estavam indo em direção oposta a nossa; contudo quando retornarmos a Erebor, podemos encontrá-los no meio do caminho.
– E o Kili?
– Ele sabe que não podemos ficar aqui muito tempo... Temos responsabilidades em nosso reino. Mas...
– Mas?
– Tio Bilbo me deixou uma carta que devo entregar a Drogo.
– Achas que Bilbo irá fazer uma proposta ao seu primo? Que ele volte conosco a Erebor? – Perguntou Legolas, otimista.
– Eu não sei. Mas, mesmo que seja esse o caso, será que Drogo aceitaria? Ele não tem obrigação em nos seguir, abandonar o seu reino e ir viver em outro totalmente diferente... O caso dele é diferente se compararmos a situação do tio Bilbo. Ele pode escolher.
Legolas olhou para a janela onde Fili estava antes espiando o irmão e jovem Bolseiro. Será que romance que estava florescendo poderia ter esperança de um futuro?
“Drogo é quem deverá responder essa pergunta.” Concluiu o elfo, com um suspiro.
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