Os dois reis sob a montanha
63 O decreto Real
Notas iniciais
O salão de julgamentos em Erebor se encontrava no mesmo andar que o salão do trono e sala do conselho, contudo, fora construído e talhado na roça de modo que ocupasse também andares inferiores, de modo que ao final parecesse um anfiteatro, uma escavação profunda e em forma de semicírculo, em que em sua base se encontraria o acusado que seria disposto a frente a uma tribuna esculpida em mármore a qual exibia anões carregando em seus ombros uma grossa tábua lítica negra, sob ela se erguia tronos de igual coloração, ali se encontraria os juízes e a família real. Havia Também uma série de assentos dispostos em filas sucessivas, em vários planos, que permitiam que o público visualizasse o julgamento.
— ... Meu senhor? — Um anão de longa barba branca (tão longa que se arrastava pelo chão) chamou a atenção de Thorin que estava imerso em pensamentos enquanto observava seus súditos se acomodaram nos assentos do anfiteatro.
— Desculpe, Lorde Juiz Ardosius. — Falou o rei dando um meio sorriso nervoso, aquele ancião era um dos poucos remanescentes da época do governo de seu avô (ou mesmo antes dele!), uma relíquia viva sem sombra de dúvidas.
— Só estava lhe recordando a sua função como juiz desse julgamento em específico, vossa majestade. Eu posso te auxiliar, mas em um caso de traição o encargo do processo é conferido ao primeiro rei. — Informou Ardosius com severidade, Thorin engoliu em seco, aquele velho também fora seu professor da legislação anãs quando ainda era uma criança, se recordava de como sofrera naquelas aulas intermináveis de leituras de longos pergaminhos e livros empoeirados, além das perguntas constantes e punições com uma vara caso o jovem príncipe Thorin errasse a resposta.
“Eu ainda sinto a dor daquela maldita vara!” Pensou enquanto olhava de relance para o Juiz verificando se o mesmo não trazia a vara consigo.
— Esse julgamento não terá muitos contratempos legais. Glorin não tem como se defender em relação aos seus atos. —Argumentou Thorin.
— Isso é verdade. — Assentiu acariciando a sua longa barba — A verdade é que não me preocupo com os tramites legais em si, o que desejo saber é se terás coragem em fazer o que deve ser feito.
O segundo rei se voltou ao seu antigo tutor portando um sorriso feroz.
— Eu não vacilarei em minha espada, Lorde Juiz Ardosius. Glorin irá sofrer e servirá de exemplo para outros que cogitam por Erebor em perigo...Por a minha família em perigo. Não, não haverá clemência nem relutância de minha parte. Farei o que devo fazer, muito além do meu dever como primeiro rei, mas por honra a aqueles que amo e devo proteger.
O ancião sorriu, o que era raro de ocorrer, de modo que pegou Thorin desprevenido.
— Você realmente cresceu, não é mais o príncipe manhoso e incapaz de aguentar minhas leves punições... Se tornou um Durin que terei orgulho de servir. — Falando aquilo fez uma pequena reverência e se afastou, arrastando sua longa barba atrás de si.
— Pelo visto, passou no teste de nosso Lorde Juiz. — Comentou Balin — Thorin, recomendo fechar a boca... Não é uma visão adequada para um rei.
O Durin fez o que lhe foi pedido com certo embaraço.
— Ele estava me testando? — Sussurrou estarrecido.
— Sabe como o velho Juiz é... Sempre seremos seus pupilos e logo, sempre estaremos sob a sua avaliação constante.
— Sim... — Thorin ajeitou a sua coroa de prata sob a sua cabeça, saber que Ardosius o apoiava e lhe era fiel lhe dava maior confiança sobre a sua própria regência, afinal, aquele ancião já tinha presenciado Erebor no seu auge e glória, sabia o que aquele reino tinha sido em comparação com o presente.
“E eu tornarei Erebor melhor do que ela jamais foi...Para isso, devo eliminar parasitas como Glorin”.
— Estamos atrasados? — Inqueriu um ofegante Fili acompanhado por um sorridente Kili, os príncipes usavam seus melhores trajes e usavam suas respectivas coroas de prata que os identificavam como membros da família real anã. Thorin notou que havia vestígio de terra fresca no casaco de pele de Kili.
“O que ele andou fazendo?”.
— Não. — Tranquilizou Balin — O prisioneiro ainda não foi trazido, os preparativos ainda estão sendo feitos.
— Bom... — Suspirou Fili aliviado.
— O que houve com o seu irmão? Isso é um julgamento por traição, seria preferível que ele tirasse esse sorriso bobo da cara! — Questionou Thorin puxando o referido sobrinho para próximo de si, aproveitando o momento para ajeitar o seu casaco.
— Deve ser algo relacionado a um determinado hobbit que conhecemos. — Dís se aproximava da cena, elegantemente vestida e lançando um olhar crítico aos filhos.
— Ao Drogo?
— Ao Bilbo que não seria, Thorin! Não seja estúpido, senão irei começar a duvidar se compartilhamos o mesmo sangue em nossas veias!
Thorin mordeu o lábio inferior, contendo a vontade de soltar um grande e elaborado palavrão.
— Pois é... — Interpôs Fili tentando apaziguar os ânimos — Kili, por que não conta a eles o motivo de sua felicidade?
Falando isso deu um tremendo chute no calcanhar do seu distraído irmão.
— Ouch! Ah? Já estamos no salão de julgamento? — Pelo visto, o jovem príncipe despertou do seu devaneio e estava diante de duas figuras com caras sombrias.
— Oi... — Acenou — O que está acontecendo?
Kili mirou o seu irmão que como resposta sinalizou com os olhos para que prestasse atenção aos Durins mais velhos.
— Me diga você, meu sobrinho... Percebo que tem terra úmida em seus trajes e apresentava um irritante sorriso estampado nos lábios...
— Oh! Sim... — O dito sorriso irritante voltou a aparecer em seus lábios — Eu pedi a mão de Drogo em casamento e ele aceitou!
— Pela barba de Mahal! — Exclamou Dís — Outro noivado? Não faz nem quinze dias desde que Fili anunciou o seu noivado com o elfo.
— Legolas. Seu nome é Legolas. — Corrigiu, fastidioso, Fili, mas a sua mãe continuou falando, acenando para o filho como para espantar o aborrecimento sobre o uso ou não do nome do príncipe de Mirkwood.
— ... Meus filhos estão querendo fazer-me sentir velha! — Concluiu dando uma cotovelada em Thorin — Faça algo! Ele é muito novo para se comprometer assim! Nem tem barba ainda!
— Eu tenho sim! Ao fim do inverno, tenho certeza, terei uma estupenda barba! — Se defendeu, Kili, corando levemente e passando a mão por sua face e sentindo os pelos que ali “germinava”. Não eram muitos, mas o suficiente para indicar que não era mais um adolescente e não devia ser tratado como tal!
— Kili deve ter seus motivos para ter assumido tal compromisso. — Respondeu o primeiro rei, surpreendendo os sobrinhos pelo apoio — Ele já não é mais uma criança, Dís... Ele é um príncipe de Erebor, meu sobrinho e meu guerreiro.
Dís fechou a cara, evidentemente desgostosa do que tinha ouvido.
— Eu tenho sim um motivo... — Anunciou prontamente Kili — Além de amar Drogo, não quero que outros como Glorin... Desejem toma-lo para si. Digo, sei que Drogo sabe se defender, ele está treinando justamente para isso, contudo, haverá anões que ainda enxergaram nele como apenas um Breeder e ainda mais um membro da família real solteiro. Quero mostrar para todos que Drogo Bolseiro tem seu destino entrelaçado com o meu! Ele me pertence como eu pertenço a ele...
— Você leu as palavras escritas por Glorin naquele contrato. — Concluiu Thorin, sua mão caiu sobre o ombro do seu jovem sobrinho — Foi por isso que decidiu agir.
— O que Glorin queria fazer com Drogo... — Kili cerrou o punho, seus ombros tremeram, contendo a fúria que o dominava.
— Oh! Querido... — Dís sentiu seu coração apertar, tinha vislumbrado a referida carta e sentira nojo do seu conteúdo, ainda mais quando o alvo da cobiça do anão comerciante se estendia para o jovem Breeder recém-chegado ao reino.
— E ele está noivando agora, não significa que casarão de imediato! — Ajudou Fili.
— Pelo menos não no inverno! —Acrescentou Kili com novo sorriso bobo estampado nos lábios — A primavera seria uma ótima data...
Dís olhou estarrecida para Thorin, sim ela podia até concordar com aquele súbito noivado, mas um casamento? Fili ainda não se casaria tão cedo com Legolas devido a implicação entre a união deles em relação a sucessão de Mirkwood e Erebor, mas Kili não tinha essa restrição!
— Falaremos disso depois... — Decretou Thorin — Agora devemos nos concentrar no julgamento, mais do que isso... Em implementar a punição.
Isso foi o suficiente para arrancar Kili de seus sonhos romântico e não só eles, todos os Durins assumiram uma expressão séria, sabiam do seu dever, ainda mais queriam fazer pagar o anão que trouxera tamanho sofrimento a sua família.
As grandes cornetas forjadas em bronze rugiram, ressoando o seu som pelos pilares de pedra. Esse era o anuncio da chegada do acusado e dessa forma o início do julgamento. De fato, dois guardas traziam um macilento e abatido Glorin, uma onda de vaias foi proferida pelo público. O ex-membro do conselho parecia apenas uma sombra do que era, sua barba fora raspada (o que era já uma grande humilhação), seus olhos perderam o brilho e afundavam em seu rosto, rodeados por imensas olheiras. As roupas eram apenas farrapos, uma semana em uma cela fétida e em total escuridão impedia de se ter o mínimo asseio.
Glorin tentava manter a cabeça erguida, mas vacilava ainda mais quando se defrontou com a mirada fulminante de Thorin, primeiro rei de Erebor, do alto da tribuna, portando sua coroa prateada, usando um manto negro e azulado, segurando a empunhadura de sua espada. Majestoso e impiedoso... Glorin sentiu inveja, ódio e medo... Dessas emoções foi o medo que venceu, fazendo suas pernas tremerem e sua cabeça abaixar, tentando fugir, em vão, de Thorin.
Só estava adiando o inevitável.
~**~
Drogo segurava o seu novo caderno de desenho contra o peito, o caderno fara o presente que tinha recebido de Kili a alguns dias atrás. E pensar que fazia tanto tempo que não desenhava... O Bolsão, principalmente seu quarto, era repleto de esboços de paisagens fantásticas e seres místicos, frutos de sua imaginação, inspiradas nas histórias que lia e nos relatos que Kili lhe oferecia em suas incontáveis cartas. Drogo se sentia meio que culpado por ter, mesmo que momentaneamente, abandonado o seu passatempo... Mas desde a sua chegada a Erebor tantas coisas ocorreram. O nascimento de Frerin. A “prisão” de Legolas. A tentativa de golpe de estado. Será que, por fim, poderia relaxar e se acostumar com o seu novo lar?
— Bem... Aposto que primo Bilbo também esteja desejando relaxar e se distrair em um dia como esse. — Pensou em voz alta, não queria ficar trancado em seu quarto, ainda mais agora que todos os membros da companhia estavam no julgamento...O ala real estava estranhamente silenciosa.
Ou não...
Ouvira os passos rápidos de alguém se aproximando, não demorou a ver o seu primo vestido formalmente e equilibrando a corou de prata com pedras de diamante em sua cabeça, seguindo logo atrás estava Ori amparando um animado Frerin nos braços.
— Vamos, vamos! Quero pegar o julgamento ainda em seu início! Se tardarmos muito veremos a punição...E nenhum de nós deseja presenciar isso, não é mesmo?
Ori assentiu nervosamente.
— Primo Bilbo! — Exclamou Drogo abismado com a presença do hobbit mais velho.
— Ora, Drogo! Saudações! Não posso ficar e conversar, infelizmente... — Disse dando um meio sorriso e parando a frente do seu jovem primo.
— Achei que você não desejasse participar do julgamento... — Comentou avaliando a roupa do segundo rei, um casaco de pele caia sobre seus estreitos ombros e cobria a túnica azul escura com bordados de ouro e prata. Bilbo não se sentia confortável com toda aquela ostentação, mas em ocasiões burocráticas e eventos cerimônias aquele tipo de vestimenta era exigida.
— E não desejo! Yavanna bem sabe disso! Mas tem algo que tenho que fazer... Estamos falando de justiça e não acho que ela seja feita apenas furando os olhos, cortando a língua e dedos de Glorin.
Drogo fez uma careta de nojo, tentara não pensar muito naquilo.
— Dedos você diz? — Questionou surpreso com aquela informação extra. Bilbo fez um sinal com a mão, como se enxotasse aquele assunto tenebroso e sanguinolento.
— Enfim, existe algo que pode ser feito para compensar os danos cometidos por aquele anão e é isso que vou propor. — Bilbo mostrando um pergaminho cuja a tinta fresca era mais do que evidente nas marcas borradas ao longo da folha — Você irá me acompanhar?
Drogo deu um relutante assentir com a cabeça, não queria ficar sozinho! Ainda mais, queria falar com Bilbo sobre o pedido de noivado...Iria morrer de ansiedade esperando pelo o momento adequado para a revelação. Segurando com mais força o seu caderno de desenho de encontro ao seu peito assentiu com mais firmeza.
— Mas eu não estou vestido de forma adequada para...
— Besteira! — Cortou Bilbo com impaciência — Só eu devo sofrer com essa pesada roupa! Vamos!
Bilbo recomeçou a sua jornada a passos rápidos, Drogo e Ori o seguiam. Frerin soltou uma risada, pelo visto, alguém estava adorando aquele pequena “aventura”.
~**~
—...Glorin, filho de Gognus, você está sendo acusado de traição contra Erebor, a linhagens do Durins e assim contra a própria raça anã. — Anunciou Lorde Juiz Ardosius — Além disso, você foi o responsável por enfraquecer nossas defesas ao permitir a entrada de Orcs em nossos túneis acompanhado por anões renegados e esses causaram o derramamento de sangue inocente de dezenas senão centenas de anões. A montanha solitária a muito já absorveu sangue anão em suas rochas. Antes, devido ao ataque do dragão...E agora por um ataque arquitetado por um irmão anão. Não sei quanto a vocês, irmãos, mas acredito que aceito mais a perda de meus entes queridos devido a fúria de um monstro do que por alguém que podia ser meu vizinho, pai, irmão...Um membro de nossa sociedade, de nossa raça! Hoje estamos aqui para recobrar a nossa honra como anões e clamar pela a justiça de Mahal!
A multidão que lotava o anfiteatro aplaudiu, gritou e bateu com seus machados e espadas no chão de pedra fazendo ecoar uma verdadeira orquestra de sons de fúria e ressentimento pelo o grande salão.
Ardosius sabia mesmo como estimular o seu público, mas o seu papel era só fazer a introdução...Cabia Thorin continuar o julgamento. O velho Juiz ofereceu uma discreta reverência e permitiu que o primeiro rei assumisse o seu papel.
— Meus irmãos, meus amigos, traição que ocorreu aqui foi um ataque direto a Erebor e ao que estamos tentando reconstruir aqui...Um novo reino anão, cujos erros passados não sejam repetidos no futuro! Não devemos nos esquecer de nossas falhas...Eu principalmente, pois sobre minhas costas estão os erros de meus antepassados. Meu avô foi aquele que atraiu o dragão ao nosso lar, devido a sua avareza...Sua ganância. Ouro e pedras preciosas! Para ele, isso nunca era o suficiente para saciar seus desejos! Tinha que ter mais e mais! Anões são estereotipados erroneamente pelo o nosso materialismo, o valor que damos as nossas joias, nossas manufaturas, nossas forjas... Mas o povo da Terra-Média não entende que esse valor é derivado de nosso esforço! Valoramos os resultados de nosso suor, minerando nas estranhas da terra, moldando o metal e produzindo algo maravilho e único! Esse é nosso legado dado a nós pelo grande Mahal! Avareza não pode ser confundida com a virtude presenteada por Mahal! Anões como Glorin, assim como meu avô, desejam poder e riqueza...Não se importam quem e o que devem destruir para alcançar seus desejos egoístas! — Falou Thorin aos seus súditos que ouviam em um solene silêncio as suas palavras.
— Parte do meu objetivo, como primeiro rei de Erebor, é mudar nosso modo de vida...Quero que nosso povo evoluía, que preconceitos passados sejam esquecidos e que possamos mirar o futuro com a cabeça erguida sem grilhões de ódios e falhas do passado que nos prenderiam eternamente em um ciclo vicioso de intrigas! Falo isso em relação aos elfos... Sim, irmãos, sei que eles erraram a não nos ajudar, mas também erramos de diversas formas...Cada um de nós aqui tem sua parcela de culpa com o abandono de Erebor. Quando chamei, levando em conta meu título como herdeiro ao trono, por ser um Durin a qual vocês devem lealdade, para que retomássemos Erebor das garras de Smaug...Quem veio ao meu encontro?
Os anões que compunham o grande público abaixaram as cabeças envergonhados.
— Muitos de vocês não agiram diferente do que os próprios elfos ... Dando as costas aqueles que clamavam por ajuda.
Protestos começaram a ser ouvidos, mas Thorin levantou a sua mão em sinal firme para que se calassem.
— Por isso digo, não podemos manter nosso ódio aos elfos. Eles não nos ajudaram por terem por suas vidas imortais e muitos de vocês fizeram o mesmo. Não os culpo, meus irmãos... Pois agora vejo que preservar a vida daqueles que amo, mesmo que isso requeira sacrifícios, trata-se de algo nobre. Tolice seria perpetuar nossa antipatia para com os elfos, sendo que, antes de Smaug, erámos aliados e amigos. Nossos filhos que nada vieram da queda de Erebor, como também os filhos dos elfos de Mirkwood que não participaram da traição de Thranduil devem ainda cultivar esse ódio? Devemos eternizar a culpa? Não, meus irmãos... Nunca retornaremos Erebor ao seu brilho de outrora se não abandonarmos a angústia que consome nosso coração! Eu digo não ao preconceito! Digo não ao ódio! Digo sim a aliança! Uma nação só crescerá quando tem aliados... Seja eles elfos, homens ou hobbits!
Os anões aplaudiram, bateram com o cabo de suas armas no chão de pedra entoando cânticos em Khuzdul exaltando Thorin e Erebor.
— Nosso preconceito é nosso ponto fraco e foi valendo-se disso que Glorin envenenou os corações dos membros do conselho contra mim...Isso porque meu sobrinho e herdeiro ao trono se apaixonou por um elfo... — Thorin pigarreou e acrescentou — O príncipe Legolas Greenleaf, filho do fadinh...Digo, do rei de Mirkwood! Erroneamente pensaram que essa união iria significar que os elfos iriam tomar Erebor! Lhes garanto que isso não irá ocorrer! Primeiro o senhor de Mirkwood está bem vivo e por ser imortal pode se perpetuar vivo por gerações! Legolas pode não ser obrigado a subir ao trono! Além disso, soube que o nosso vizinho de orelhas pontudas está enamorado novamente, quiçá não tenhamos outro herdeiro elfo em um futuro próximo!
— Tio! — Sussurrou Fili assombrando com aquela suposição levantada por Thorin, mas o primeiro rei apenas piscou divertido para o seu sobrinho.
— Glorin corrompeu o coração com mentiras embasadas em nosso preconceito e por isso devemos nos livrar desse sentimento que como podem ver...É um veneno e arma que pode utilizar por nossos inimigos para nos consumir e destruir. Vocês desejam que Erebor caia novamente? Não? Pois então mudem! Como o metal pode ser moldado e até mesmo modificar suas propriedades ao misturarmos com outros minérios! Também podemos nos modificar...Nos tornando melhores e mais fortes!
Os anãos gritaram em euforia concordando com as palavras do primeiro rei. Balin respirou aliviado com aquela aceitação, temia que o povo oferece uma maior relutância a proposta oferecida por Thorin. Ainda levaria muito tempo para que os anões abandonassem os antigos hábitos e pensamentos, mas a semente foi plantada. Erebor iria evoluir....
— Voltando a Glorin... — Thorin voltou seu olhar a figura mirrada e trêmula do traidor — Ele deve ser punido por seus erros. Sabemos que ele fez, provas e testemunhas são coisas que não faltam... Não acredito que nada que ele diga seja capaz de aliviar a sua pena, contudo... Não somos bárbaros! Ouviremos sua defesa.
Houve alguns resmungos por parte da plateia, eles queriam ver o sangue do traidor e não ouvir ele clamar por clemência. Não havia perdão, então por que adiar o inevitável?
Glorin olhou a sua volta, sua boca estava seca. O que poderia dizer? Sempre se sentira orgulhoso por sua lábia, mas agora as palavras fugiam de sua mente e lábios. Todavia, antes que pudesse fazer qualquer tentativa de fala as pesadas portas por trás da tribuna se abriram.
— Esperem! — Falou um ofegante Bilbo. Muitos anãos demonstraram o assombro pela a presença do segundo rei, alguns mesmos aplaudiram (afinal, o pequeno hobbit tinha conquistado diversos fãs devotos) — Antes de continuar o julgamento tenho algo a propor, se meu marido me permitir a palavra.
“Ele fala perfeitamente o Khuzdul...” Notou Glorin abismado e temoroso. Por quanto tempo o hobbit sabia usar a língua secreta dos anões?
— Eu permito... — Thorin franzia o cenho claramente confuso, mas tentou esconder tal expressão oferecendo a mão para o seu esposo que a aceitou com um sorriso.
— O que venho a propor é uma ampliação quanto a pena a ser administrada a Glorin, filho de Gognus... Sei que o que vocês pretendem fazer para com o traidor e não venho aqui para me opor as leis anãs, venho aqui adicionar algo a mais por meio de um decreto. — Nisso abriu o pergaminho que tinha em sua mão esquerda.
— As mortes causadas diretas e indiretamente por Glorin devem ser compensadas. Infelizmente Yavanna e tão pouco Mahal concederam a mim o poder de ressuscitar os mortos... O sangue aqui derramado honrara aqueles que se foram, mas não acredito que isso seja o suficiente!
“Não acha que seja o suficiente? O que ele...” Glorin estava estarrecido com a audácia daquele breeder.
— Que os bens de Glorin, que segundo as leias anãs seriam adicionados ao tesouro Real, sejam, ao invés disso, distribuídos aos familiares dos falecidos...Que o ouro sujo desse anão tenha alguma utilidade e não abarrotem os cofres dos Durins. Essa é minha proposta formalmente escrita aqui nesse documento. — Levantou o pergaminho para que todos vissem — Thorin, meu marido e rei, preciso somente de seu condimento e assinatura para que tal decreto seja aceito e sancionado.
— Não! — Glorin urrou em voz esganiçada, ter o seu tesouro divido entre aqueles anões de baixa classe, sem nenhum sangue nobre em suas veias, era uma humilhação. Ao menos, dentro do tesouro Real, suas posses seriam devidamente cuidadas e seriam, para sempre, propriedade dos herdeiros Durin... Seu tesouro, mesmo sendo um traidor, seria eternizado! — Não! Isso não! Meu ouro e minhas pedras preciosas são mais importantes... Do que...
— Mais importantes que para serem utilizados para apaziguar o coração das viúvas, viúvos e dos órfãos? — Inqueriu Thorin nem dando atenção aos protestos de Glorin, pois vistoriava rapidamente o documento entregue por Bilbo — Concordo com o meu esposo quanto a esse decreto. O que irei fazer com mais ouro? Meu tesouro se encontra aqui... — Nisso ele acariciou a face do seu hobbit e depois deixou seus olhos se direcionarem para um animado bebê que jazia no colo de um esguio anão que permanecera perto da porta de entrada, acompanhado por um jovem hobbit.
— Está decidido! Que os bens de Glorin, após o julgamento, sejam distribuídos igualmente entre aqueles que foram prejudicados direta e indiretamente por seu ato de traição! — Anunciou Thorin e sua fala foi acompanhada por euforia de alguns e choro de outros. Anões clamavam longa vida ao segundo rei!
Glorin sentiu seu mundo ruir, novamente. Suas pernas tremeram e caiu de joelhos. Nada. Não lhe restaria nada. O tesouro de sua linhagem, sendo fracionado e esquecido...
“ Eu fui um tolo...” Concluiu por fim, resignado. Tudo pelo qual lutara agora não fazia nenhum sentindo. A única marca na história anã que deixaria para as próximas gerações seria a sua traição e nada mais.
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