Os dois reis sob a montanha

64 Desolação de Glorin & Festival Yule


Notas iniciais
(demorei a atualizar aqui, desculpe!)

Quando ocorreu o primeiro corte sentira muita dor, mas, depois, o sofrimento por ter sua carne rompida e seus dedos decepados foi substituído por uma sensação e torpor. O sentimento de dor persistia, mas tudo parecia tão distante, era mais como estivesse assistindo tudo de camarote. Um convidado especial para o show que era a sua própria condenação... Talvez sua mente estivesse, por fim, entrando em colapso.

A lâmina desceu, com firmeza e precisão. O golpe foi limpo... Demorou para que constatasse o fato que acabara de perder mais um dedo.

— Esse é pelo o sofrimento desnecessário que fez ao meu filho. — Um anão de cabelos castanhos quase ruivos, balbuciou contendo a fúria que claramente o dominava.

Glorin fitou sua mão, praticamente não havia mais dedos ali... Era uma visão horrenda, aqueles tocos vertendo sangue, podia vislumbrar o branco dos ossos de seus metacarpos. Talvez devesse agradecer que, ao fim, perderia a visão e desse modo não vislumbraria aquele horror.

— E quem você seria mesmo? — Inqueriu, sua voz podia estar débil, mas o seu tom de escárnio que lhe era característico, permanecia — Quem seria o seu filho? Se me recordo bem... O único infante que realmente importava no meu plano era o príncipe Frerin, se seu filho se envolveu foi por puro acaso...Não perderia meu precioso tempo capturando um filhote de classes inferiores.

— Como é que é? Meu Gimli não é importante? Como ousa dizer... — O anão levantou o seu machado, o mesmo que usou para decepar o dedo de Glorin.

— Glóin! — Thorin, o primeiro rei de Erebor, prontamente segurou o pulso do anão cujo o discernimento estava envolto em uma nuvem densa de cólera — Não se deixe enganar pelas palavras lançadas por essa víbora...

— Mas você ouviu o que ele disse do Gimli? — Glóin rosnava, tentava se libertar, mas o rei anão era deveras forte.

— Sim, ouvi. Mas se você acabar com a vida dele agora... Estará fazendo um favor. Esqueceu que ainda falta que seus olhos sejam arrancados e sua língua? E do exilio? Se ele morrer agora, não passará por esse sofrimento...

Thorin sentiu os músculos de seu amigo relaxarem e a expressão de seu rosto suavizou.

— Tem razão! Não desejo uma vingança efêmera. Ele merece essa expiação...

Com essa declaração Glóin foi libertado, mas não antes de cuspir nos pés do anão condenado.

— Devia medir o que falas... Aproveitar o tempo que tens a sua língua intacta. — Comentou o Durin, estavam em uma espécie de fosso, construído tão somente para situações como aquela. Na parte superior, vastamente aberta, os anões de Erebor se amontoavam para assistir a tortura/condenação de Glorin.

— Como se isso fosse realmente importante. Nada que eu diga poderá tornar o suplicio menos penoso. — Resmungou.

— Talvez, mas poderia conservar o pouco de dignidade que ainda lhes resta.

— Dignidade? Eu estou pobre! — Urrou o anão, saliva escorria de seus lábios ressecados — Sem sua fortuna... Que dignidade tem um anão?

— Quando Erebor caiu, eu não tinha nada. Nem por isso perdi minha honra. Trabalhei para sustentar a minha família e recuperei o que tinha perdido. Não é os bens materiais que acumulas que irá definir o que você é. Ouro e diamantes não compram virtudes.

— Já chega... — Rosnou Glorin — Não quero ouvir mais lições de moral!

O rei anão assentiu, fez um gesto com a cabeça permitindo que alguns guardas vestidos de armaduras totalmente escuras se aproximassem.

— Tens razão...Não é como você fosse mudar agora. O tempo seu acabou.

Glorin podia sentir seu corpo tremer, ainda mais do que antes. Talvez estivesse entrando em choque ou o pavor de seu derradeiro fim se apoderou por completo de seu espirito. Os guardas traziam um alicate de ferro e um aparato cuja a extremidade circular e os espinhos sugeririam a sua função.

— Eu não compadeço de seu destino, Glorin. Você foi o arquiteto de sua destruição. A sua alma estará pela eternidade marcada pelo sangue inocente que foi derramado por sua cobiça desmedida. O salão de nossos ancestrais não o receberá... Até receber o perdão de Mahal, você estará amaldiçoado a vagar sem descanso pela Terra Média.

— Primeiro arrancarei a sua língua. Por último os seus olhos. Quero que sua última visão desse mundo seja de mim...O primeiro rei de Erebor que traíste e que ironicamente você tentou arrancar a língua. Recordas?

Glorin não respondeu estava ocupado demais suplicando, rogando por clemência. Não fizera isso no julgamento, mas agora, diante do momento fatal, o desespero era maior que seu tolo orgulho.

Sua boca foi forçada ser aberta pelos guardas. Thorin enfiou o alicate, pode sentir as clavas das pontas dentadas do instrumento aprisionando a sua língua e esta foi puxada para fora. Seu grito era agudo, puro terror.

A lâmina rompia a língua. Líquido quente passou a preencher a sua boca. Estava se afogando em seu próprio sangue.

Mais gritos de alegria.

Glorin não mais os ouvia. Seus ouvidos tinham se rebelado em sua função de escutar o ambiente ao seu redor. Continuava a gritar emitindo um som horrível e gorgolejante.

E o pior? Ainda não tinha acabado. Thorin agora pegava o outro instrumento. Seus olhos azuis focaram nos olhos aflitos de sua vítima.

O primeiro rei deu um sorriso. Ele falou algo, mas Glorin, em seu pânico, não foi capaz de decifrar as palavras...

***

Escuridão.

Solidão.

Ele nunca pensou quem um dia se encontrariam assim. Totalmente desamparado. Crescera na opulência de um digno anão que acumulara por gerações um grande tesouro. Observava o passar das estações no conforto do seu lar...Nunca passara fome e frio. Se orgulhava por não exercer um ofício que requeria trabalho duro, que o levasse a suar ou mesmo se machucar. Aliás, só aprendera a empunha uma espada e um machado por ser algo exibido para ser um anão "honrado". Se desejava algo, normalmente, conseguia. Se não fosse comprando, seria utilizando de outros subterfúgios, como a extorsão, lábia, acordos e traições.

E agora estava ali. Aonde, precisamente? Não sabia. Seus olhos foram extirpados assim como a sua língua. Suas feridas ainda não tinham cicatrizado apesar de unguento que fora espalhado por seu corpo quando o despiram. Ele não devia morrer pela falta de sangue. Não ainda...

Foi lhe entregue trapos finos, sem seus dedos fora difícil de se vestir...Ainda mais, recordava, que na sua antiga vida eram seus servos que o vestiam.

Sentiu frio. Sentiu fome.

Algo caiam sobre a sua pele praticamente nua. Gelado.

Neve?

Na base da montanha, sob os primeiros flocos de neve da estação invernal...Ali estava Glorin, o anão traidor iniciando o seu exílio. Cambaleando rumo o desconhecido com suas mãos deformadas a sua frente.

As trevas era sua única e eterna companheira.

Nem Mahal estaria vigiando os seus passos.

Aquela era a sua Desolação.

***

Duas semanas depois...

O clima tinha mudado, não só o inverno havia começando, como toda aquela atmosfera pesada que dominava a montanha nas vésperas do julgamento tinha se dissipado. Bilbo poderia dizer que as coisas estavam se encaminhado à normalidade, ou melhor, em um novo tipo de cotidiano que não envolvia se envolver em alguma aventura épica! Afinal, antes mesmo de se casar com Thorin, o Breeder já tinha se envolvido em diversas confusões...De modo que parecia que sua vida seria continuamente um somatório de eventos perigosos, imprevistos e intrigas.

— Até parece que você não gosta de se ver mergulhado em uma nova aventura... — Resmungou para si mesmo se espreguiçando em sua grande cama, tomando cuidado para não incomodar Frerin II que estava ainda adormecido ao seu lado. Thorin tinha escapulido do quarto ainda na madrugada deixando apenas um recado sussurrado no ouvido do sonolento Bilbo...Algo sobre uma surpresa.

"Ele voltou a ser o Thorin de sempre..." Pensou deixando que um sorriso preguiçosamente se formasse em seus lábios. Sim, seu marido tinha retornado do julgamento renovado, na verdade, mais parecia que o anão tinha renascido, de modo que estava animado para compensar o tempo perdido! Isso incluía passar mais tempo com Frerin, como também com seu amado esposo. Bilbo sentiu suas bochechas esquentarem só de lembrar dos três dias seguidos que ficaram praticamente ilhados em seu quarto. De fato, o primeiro rei de Erebor tinha retornado com todo o seu poder e virilidade!

Frerin começou a se remexer e produzir sons de desagrado. Bilbo ensaiou a sua saída da cama quente. A lareira do quarto estava ascendida, mas nem o vigoroso fogo parecia conseguir afastar todo congelado ar invernal.

— Odeio o inverno. — Disse convicto enquanto, envolto com as cobertas, conseguira tomar coragem o suficiente para se afastar de seu confortável leito. Frerin jazia em seus braços, seus olhinhos abriam aos poucos, seu choramingo se tornou mais alto. O hobbit se direcionou para a cozinha, prepararia o leite matinal do seu faminto e dramático filho antes que este resolvesse demonstrar o quanto as suas cordas vocais eram fortes.

Inverno.

Não só odiava o inverno por ser frio. Afinal, hobbits são criaturas que amam a primavera e o verão, aquela estação congelante e sem cor, parecia ser a total oposição tudo que os hobbits presavam... Entretanto, o incomodo associado a essa estação era algo além do clima. Foi no inverno que os pais de Bilbo e Drogo foram assassinados pelos Orcs, na última tentativa do Condado de proteger suas terras. Com a derrota, as investidas Orcs aumentavam mais a cada ano...E para conferir uma conotação ainda mais negativa a estação, era no inverno que os Orcs acompanhados de seus grandes lobos, caçavam. Sim, aqueles monstros aproveitando que os Hobbits ficam isolados em suas casas, pois ali estaria sua despensa e não havia campos a serem arados ou colheitas a serem feitas, e as atacavam, causando um verdadeiro massacre. Todo o inverno, os Hobbits rezavam a Yavanna que fossem poupados, que pudessem sobreviver para ver mais uma primavera.

— Mais isso tudo acabou. — Falou firme Bilbo, tentando extinguir as lembranças ruins que ressurgiam das sombras de sua mente. O Condado estava salvo!

Com a mamadeira pronta e seu bebê se alimentando com avidez, o segundo rei passou a ficar meio desconfiado pela a ausência de seu marido.

— Ele tinha falado de uma surpresa. O que acha que seria? — Comentou para Frerin que o ignorava, totalmente concentrado em sugar até a ultima gota do leito morno de sua mamadeira — Alias, ele parecia muito animado ontem a noite... Tagarelando sobre como a paisagem ao redor da montanha tinha mudando nessa ultima semana.

"E eu ainda não fui vê-la..." Pensou, talvez sua aversão ao inverno o estivesse fazendo, inconsequentemente, se isolar.

— Isso não é apropriado de minha parte. — Concluiu, retirando a mamadeira vazia do seu filho que emitiu um gemido de irritação. Frerin devia ter herdado o estomago de um hobbit!

Enquanto fazia o seu filho arrotar começou a ouvir resmungos, barulho de algo sendo arrastado e moveis sendo afastados. Thorin deveria ter retornado e não estava sozinho.

— Vamos ver o que seu pai está aprontando... — A resposta de Frerin foi um longo arroto. Os modos do bebê estavam tendendo a sua herança anã, mas Bilbo iria corrigi-lo antes que fosse tarde demais!

Os dois seguiram pelo corredor rumo ao salão comunal, conforme se aproximavam os resmungos passaram a ser uma discussão.

— Eu disse que devíamos ter escolhido um menor... — Comentou a voz que pertencia a Fili.

— Menor? Mais o divertido é quando se escolhe o maior! — Animação na voz de Kili era mais do que evidente.

— Que adianta escolher a maior se nem conseguimos fazer que caiba na sala? — Argumentou o príncipe mais velho.

— Talvez devêssemos colocar no salão do trono. — Sugeriu Kili.

— Outros anãos já foram designados para decorar ali... Além disso, desejo fazer algo mais pessoal e familiar! Esse será o primeiro festival Yule de Bilbo, Frerin e Drogo! Devemos fazer que seja inesquecível!

— Festival Yule? — Questionou Bilbo ao adentrar na ampla sala...Bem que agora não parecia tão ampla assim.

— Por Yavanna! O que vocês fizeram aqui?

Havia um grande pinheiro bem no meio do aposento, sendo que arvore estava tombada, já que devido a sua altura, seria impossível mantê-la em pé, mas pelo visto o problema estava prestes a ser resolvido pois Thorin e Fili seguravam grandes machados, posicionados sob o tronco da árvore. Havia resto de pinhas e folhas espalhadas por todo o chão. Os moveis tombados no canto. A decoração feita por Bilbo totalmente arruinada...

— Er... — Fili olhou para o tio, buscando ajuda. Bilbo estava com aquele olhar... O olhar que iria soltar um grande sermão e iria deixa-los todos sem quitutes por um mês!

— Foi culpa dele! — Kili apontou para Thorin que soltou algo muito semelhante a um rosnado — Juro!

— Cadê a sua lealdade para com o seu rei?

Antes que o jovem príncipe pudesse se defender, Bilbo falou:

— Thorin Escudo-de-Carvalho Bolseiro-Durin. Estou esperando uma explicação. — O pé peludo do hobbit batia no chão ritmicamente, indicando impaciência.

— Querido... Isso era para ser uma surpresa. Esperava retornar antes que você acordasse, mas trazer uma árvore desse porte pelos elevadores se mostrou ser uma verdadeira aventura.

— Devo imaginar, mas a questão seria o motivo da necessidade de trazer um pinheiro para o nosso lar?

— Para comemorar o festival Yule...Na verdade, será o primeiro festival Yule a ser comemorado em Erebor desde a sua reconquista! — A animação na voz de Thorin era tanta que a irritação de Bilbo foi logo substituída por curiosidade.

— Festival Yule? Esse nome não me é estranho... — Sussurrou o hobbit, pensativo.

— Vocês no Condado não comemoram? — Kili franziu o cenho — Pensei que nós anões tivéssemos pegado essa comemoração dos hobbits!

— De nós? — Bilbo ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Sim. Devido a antiga aliança entre as nossas raças. — Prontamente explicou Fili — Costumes foram transferidos de uma raça para a outra, um desses costumes foi justamente o festival que é comemorado no inverno: Festival Yule.

— Oh! — Bilbo agora se recordava de sua avó Tûk comentando sobre isso em algum momento na sua infância. A matriarca do clã Tûk sempre recordava dos antigos festivais do Condado com amargura, afinal, com o fim da aliança com os anões devido a queda de Erebor e a vinda dos Orcs, tais comemorações foram praticamente esquecidas, principalmente aquelas atreladas ao inverno — Acho que posso ter ouvido algo a respeito...Mas... O Condado sitiado por Orcs famintos não tinha tempo para celebrar.

A expressão animada de Thorin se desvaneceu.

— Perdão...Eu tinha me esquecido. — Sussurrou o primeiro rei, cabisbaixo.

— M-mas... — Continuou falando Bilbo — Eu adoraria saber mais sobre esse festival, digo, já que ele pertence a minha cultura, originalmente!

Thorin voltou a sorrir.

— Tem certeza? Não precisa se sentir forçado a nada, Bilbo. Percebi que você não parece apreciar muito o inverno.

—Você percebeu, não é? — O hobbit deu uma risada nervosa.

— Sei que você deve ter lembranças ruins, não pretendo fazer você esquecer isso e sim adicionar novas experiências. Me permita fazer você vislumbrar um novo inverno...Um inverno ao meu lado, em seu novo lar...Um inverno em Erebor. — O rei anão ofereceu a sua mão e Bilbo não se demorou em aceita-la.

Talvez fosse hora de dar uma segunda chance a estação.

— Bom! Então, vamos arrumar a árvore! Pois o festival Yule não envolve destruição de cômodos... — Disse Fili levantando o seu machado.

— E Tio Bilbo... Você sabe que está todo enrolado em cobertas? Isso é tipo...Uma nova moda dos hobbits para a estação? Drogo age da mesma maneira!

— Oh! Droga! — Praguejou ao notar que de fato ainda estava todo protegido em sua pulpa de lençóis e cobertas. Agora teria que lavar tudo!

— Eu acho um estilo de roupa muito sexy. — Comentou Thorin — Afinal, dá vontade de desfazer essas camadas de tecido para descobrir o tesouro escondido...

Fili e Kili fizeram careta e gemeram. Bilbo, por sua vez, sorriu timidamente, seu rosto já estava totalmente corado com aquelas palavras.

— Tio! Por Mahal! — Choramingou Kili.

— Não flertem enquanto estamos aqui! — Completou Fili.

Bilbo riu, pelo visto, as coisas tinham realmente voltado a normalidade.

Notas finais
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