Notas iniciais
Ola, Eu tive que escrever isso logo! Estava realmente inspirada! Espero que gostem!

– Se acalme, Bilbo. – Disse Dori, tentando dar os últimos retoques na roupa do hobbit, só que este estava tão nervoso que ficava andando de um lado para o outro do quarto, pensativo.

– Eu estou calmo. Quem disse que não estou? – Falou o menor, evitando olhar para os anãos que, por sua vez, se entreolhavam e trocaram suspiros.

– Bilbo... – Dori pega a mão do jovem rei e o leva para frente do espelho – Por favor, te peço que me ajude. Essa cerimônia é muito importante; os nobres e as pessoas mais importante de Erebor estarão te observando! Tens que estar impecável!

Bilbo engoliu em seco com aquela informação. Tinha aprendido a lidar com o seu título como rei na viagem, contudo, comparar os poucos anões de sua jornada com centenas de outros que residem em Erebor seria muita tolice. Tinha estudado com Balin ao longo da viagem, entretanto, a realidade era muito diferente da teoria.

“Eu tenho que me acalmar... Não é como se eu não soubesse que tal cerimônia fosse ocorrer. Eu sabia! Desde que assinei o contrato eu sabia que estava já casado, tal ritual não irá mudar esse fato!” Pensou tentando focar a sua imagem no espelho. Vestia um longo manto azul escuro — que deveria ser o tal azul-do-rei — e tinha uma túnica cinzenta por baixo, com um ideograma bordado pelo o que parecia ser em fios de prata; era algo semelhante a uma coroa sobre um par de marretas cruzadas. Abaixo deles estava um bigorna e ao redor da coroa existiam estrelas bordadas em fios de ouro. Bilbo tocou o seu peito, sentido o alto-relevo do símbolo... Tinha estudado sobre ele, trava-se do emblema da linhagem de Durin.

– Esse é o símbolo de Durin... Contudo, não é o símbolo que representa Thorin! – Disse Nori, como se tivesse notado a curiosidade do jovem hobbit.

– Thorin tem seu próprio símbolo? – Ficou surpreso com aquilo.

– Sim, cada membro da linhagem real de Durin recebe um símbolo que o representa. Você irá vê-lo na cerimônia.

– Hum... — Bilbo concordou com a cabeça, imaginando como seria o casamento segundo os anões. Se fosse no Condado teria uma grande festa, com um grande banquete, música, uma colina enfeitada com arranjos de flores diversas. A festa perdurava, às vezes, mais de uma semana... Lógico que Bilbo não vivenciou nada disso, só ouviu histórias dos mais velhos sobre tais eventos. Sobre domínio dos orcs, os hobbits não tinham muito tempo para festejar, e sim, para lamentar.

– Agora só falta... Fazer as tranças nos cabelos... — A voz de Dori parecia nervosa.

– Já sei. Não podem tocar no meu cabelo, ao não ser que sejam meus parentes próximos ou sobre as ordens de Thorin, não é? – Suspirou longamente o hobbit.

“Anões e suas tradições malucas...” Pensou.

– Se Thorin soubesse que tocamos seus cabelos... Teríamos as mãos decepadas! – Falou Nori com alarde.

– Nossa, quanto drama. — Resmungou Bilbo – Então o que devo fazer? Pedir a Thorin?

Realmente não queria ter que encontrar com aquele anão metido, orgulhoso, pervertido e cabeça dura. Deveria haver outro jeito.

– Tia! – A porta foi aberta, revelando Fili e Kili, já arrumados em seus trajes de gala. Bilbo sorriu para os seus sobrinhos.

– Já disse que não sou a “tia” de vocês... — Reclamou, porém não tinha irritação na sua voz. Já estava começando a se acostumar a ser chamado desta forma pelos mais novos – O que vieram fazer aqui? Dwalin disse que tinham escapado. Ele estava buscando vocês feito um louco!

– Hehe... — Riu Kili – Nós sabemos...

– ...Por isso, resolvemos voltar para nossos aposentos... — Começou a explicar Fili.

– ...Pois ele nunca iria nós procurar aqui, afinal estaríamos mais próximos dos nossos “inimigos”! – Completou o moreno com um sorriso orgulhoso.

– Viu? Somos muito espertos! Entendemos de estratégia!

– Mas, de qualquer forma, vocês serão capturados. Terão que ir a cerimônia! – Falou Nori risonho – Vocês só estão adiando o inevitável!

A dupla faz biquinho, meio tristes com o comentário.

– Bem, que bom que vocês vieram... Preciso de ajuda com o meu cabelo! – Disse Bilbo tentando tirar os cachos castanho claros que caiam sobre seus olhos.

“Se eu tivesse a minha tesoura...”

– Oh, sim! Será uma honra... — Falou Fili se aproximando do hobbit, e com delicadeza pegando mechas do cabelo do menor e começando a trançar de um lado. Kili logo também se aproximou e imitou o irmão, sendo responsável por fazer uma trança no lado oposto.

– Então, como foi conhecer o nosso tio? – Perguntou o mais velho dos irmãos herdeiros de Durin.

– Horrível! Ele é tudo o que vocês descreveram. Mas bem pior! –Resmungou Bilbo – Ele, além de ser orgulhoso, teve a audácia de insinuar que iria me despir!

– Ora... Ele é seu marido! Isso não é normal? – Perguntou curioso Kili –Levando em conta que terá a noite de núpcias e tudo mais...

O moreno recebeu uma cotovelada do mais velho. Os dois perceberam que as orelhas pontiagudas de Bilbo estavam vermelhas, indicando o seu embaraço.

– Er... Eu lhe asseguro, tio Bilbo, que tio Thorin nunca agiu assim antes. -Falou o loiro, tentando defender o primeiro rei – Na verdade, ele nunca mostrou interesse para esse tipo de coisa... Só, talvez, ao trabalho. Ele sempre foi fanático por isso...

– Bem... O que mais odiei foram aqueles sorrisos estr... AI! Fili! Kili! Vocês estão puxando o meu cabelo!

– V-você disse sorriso? – Fili parecia abismado com aquela revelação.

– Tio Thorin sorriu? – Perguntou o outro jovem.

– E mais de uma vez... – Comentou Nori.

– AI! Não puxem! – Choramingou Bilbo – Se querem ficar surpresos, tudo bem. Mas não descontem no meu cabelo!

– Oh! Desculpe, tio Bilbo, é que... Tio Thorin não costuma sorrir! A não ser em raras ocasiões...

– Muito raras! – Acrescentou Kili.

– Sério? – Bilbo estava agora confuso. Isso seria algo bom ou ruim?

A porta do quarto se abriu e Balin adentrou no recinto.

– Ora, vejo que encontramos nossos príncipes “desaparecidos”! – Sorriu o velho anão – Thorin já estava pensando em mandar guardas vasculharem toda Erebor...

– Ops... — Sorriu, meio nervoso, Fili.

– Mas vejo que na verdade vocês estavam ocupados, exercendo suas funções, cuidando do seu tio Bilbo! – Concluiu Balin piscando para os jovens –Irei informar Dwalin e Thorin mais tarde sobre o bom comportamento de vocês...

– EBA! – Comemorou Kili, levantando as mãos para o ar.

– ...Mas isso não irá mudar o fato que serão punidos!

Kili abaixou as mãos, tristonho.

– Eu vim aqui pois pensei que vocês dois não estariam aqui para auxiliar nas tranças, fico feliz que tenha me enganado. Oh, Bilbo! Você está muito belo. – Disse Balin o que fez Bilbo corar.

– Acha mesmo? Essa roupa tem bordados de ouro e prata... E... Por favor, me diga que não será essa roupa habitual dos anões. Não gostaria de andar com algo que valesse uma fortuna! Não quero ser um tesouro ambulante! – Diz Bilbo contrariado.

– Não se preocupe, tal roupa é só para eventos especiais e de gala. Contudo, não irei negar que nós anões gostamos de joias, trata-se de uma forma de mostrar nossas qualidades. Um anão é caracterizado pela habilidade de batalha e mineração... Ostentar gemas preciosas enfatiza o grau de riqueza que acumulamos! — Explicou.

– Nós hobbits não somos acostumados com joias. Nossos maiores tesouros são nossos jardins e despensas...

– Tenho certeza que, se conversar com Thorin, ele vai entender que não se sente muito confortável com tantas joias. Mas terá que usar pelo menos algumas.

– Certo. Posso sobreviver com isso... — Suspirou Bilbo.

– Bem, também vim para te explicar alguns detalhes do casamento – Nisso, Balin retirou uma pequena caixa de seu casaco e entregou ao hobbit, que logo a abriu. Notou um broche em formato cilíndrico feito de prata, com um símbolo em uma forma do que pareciam colinas.

– O que é? – Tocou o broche e acariciou o símbolo; sentia que já tinha visto aquilo antes.

– Ora... Esse é o emblema do Condado, de sua família real... Não sabias?

– Eu... Eu nem sabia que tínhamos um. — Bilbo estava surpreso com aquilo – Muita coisa foi destruída desde o ataque dos orcs. A história dos Bolseiros foi praticamente dizimada quando o Bolsão foi queimado durante um ataque... Quando eu reconstruí, não pude recuperar muita coisa. Mas eu me lembro deste símbolo, na minha infância... Acredito que meu pai usava esse símbolo em um colar em seu pescoço.

– Sinto muito por isso, Bilbo...

– Está tudo bem, Balin — Sorriu o menor – Fico feliz de recuperar parte da história de minha linhagem. Mas para que serviria esse broche?

– Você deverá colocar na trança de Thorin. Sei que hobbits compartilham a forma de casamento semelhante à da raça dos homens; trocam anéis e votos. Com os anões não é tão diferente, só que ao invés de anéis, trocamos tais broches com nosso símbolo, nossa marca.

– Entendi. — Assentiu com a cabeça, fechando a pequena caixa e a guardando.

– Terminamos! – Anunciaram os irmãos anões.

Bilbo olhou sua imagem no espelho e por alguns segundos não se reconheceu. Afinal, desde que saira do Condado não tivera muito tempo para cuidar da sua aparência e nem tinha trazido algum espelho; agora via o quanto tinha mudado. Suas cabelos tinham crescido e agora se detinham na altura de seus ombros; as tranças feitas pelos seus sobrinhos se dispunham atrás de suas orelhas, de modo que a franja não mais caia sobre o seu rosto. A roupa parecia bem grande para o seu tamanho, mas de certa forma parecia ressaltar suas formas e o cinto em sua cintura, feito de prata, ressaltava a sua fisionomia esguia. Não era o mesmo hobbit do Bolsão... Agora era de Erebor. Não teria que pensar no seu jardim, se iria chover amanhã ou não... Se seus parentes iriam tomar o Bolsão... Ou se orcs iriam invadir a fronteira ou não. Não, aquela vida agora era o seu passado.

O que seria o seu futuro, agora que vivia em outro reino?

– Majestade... – Falou Balin, acordando-o de seus pensamentos – Já está na hora.

Bilbo inspirou fundo e expirou. O nervosismo já o tinha dominado novamente.

A porta se abriu de súbito, fazendo os anões se sobressaltarem.

– Ora! Finalmente encontrei... — Sorriu um velho com roupa cinzenta e com um longo cajado – Sabe quantos túneis passei até chegar aqui? Sem falar os quartos, salas, corredores, elevadores... Vocês anões deveriam, sinceramente, começar a colocar placas por aí.

– Gandalf? – O jovem hobbit sorriu, alegre em ver o mago novamente.

– Bilbo, você está tão belo...

O Bolseiro correu de onde estava e abraçou o velho amigo.

– Sua mãe iria ficar muito orgulhosa ao te ver agora – Falou Gandalf, acariciando os cabelos cacheados de Bilbo.

– Ela estaria? – Perguntou o menor, levantando a cabeça para encarar o outro.

– Lógico que sim. Que mãe não estaria no casamento do seu único filho? E seu pai também.

Aquelas palavras trouxeram algum conforto ao coração de Bilbo.

– Por onde andou? Eu precisei de você. — De fato, considerava aquele velho mago quase como um membro de sua família; afinal, esteve presente em sua infância e conhecia seus pais.

– Precisou mesmo? Eu sei que fez novos amigos, companheiros que iriam apoiá-lo e protegê-lo sempre. Beorn, por exemplo.

– Você conhece Beorn?

– Sim, claro! Ele é um velho amigo. Me falou sobre o caso dos trolls quando o visitei. Aliás, que bela história, não é? – Riu Gandalf, olhando de relance para os príncipes, que coraram envergonhados em saber que a “história” deles estava se propagando pela Terra Média.

– Não respondeste a minha pergunta. Você não falou aonde esteve... -Observou o hobbit com um sorriso ardiloso em seus lábios – Só mudou de assunto.

– Ora, Bilbo Bolseiro... — Agora o mago parecia desconcertado – Eu estive resolvendo algumas coisas, investigando outras... Nada que deves se preocupar no momento! E pelo o que sei, alguém que conheço está muito atrasado para uma certa cerimônia de casamento!

– É mesmo! – Disse alarmado Nori.

– Vamos logo, majestade! – Começou a conduzir Bilbo para fora da sala, o menor nem teve tempo para protestar. Kili e Fili o acompanharam, alegando querer lhe dar apoio moral.

– Fico feliz que tenha vindo – Disse Balin.

– Eu não iria abandonar o pequeno Bilbo em um dos momentos mais importantes de sua vida, devo isso aos pais dele. — Disse o mago – Aliás, como vai Thorin? E... Bem... Como foi a reação do encontro entre os dois? — Um sorriso se fez nos lábios de Gandalf e logo foi correspondido por Balin.

– Digamos que... Suas previsões podem estar certas, pelo menos por parte do primeiro Rei. Não sei quanto a Bilbo...

– O amor não floresce de um único vislumbre. Uma relação se constrói e se conquista, aos poucos... Thorin já enfrentou muitas batalhas e irá ver em Bilbo um terreno novo a ser explorado, contudo, não será pela força que irá conquistá-lo.

– Concordo... — Suspirou o velho anão – Mas você conhece o jeito de Thorin.

– E você já deve conhecer o jeito de Bilbo.

– Por isso temo por essa relação...

– Não se preocupe, velho amigo — Gandalf deu leves tapas no ombro do anão conselheiro – Eu já vivi muitos anos, vi amores seres construídos e desfeitos... Sei identificar aqueles que estarão destinados a viver juntos.

– Você pode se enganar... — Provocou Balin.

– Ora. Por que todos duvidam das minhas habilidades? – Perguntou o mago, em um tom alegre – Agora não é o momento para essa conversa, além do mais, cabe aos dois descobrirem sobre a relação deles e não nós! Somos meros observadores.

– Tens razão, vamos. A cerimônia não tardará começar!

Os dois saíram do quarto. Ao longe podiam ouvir o som das cornetas, que ressoavam pelas paredes de pedra. Era o aviso do início da cerimônia.

~TKATC~

– Não imaginei que te veria nervoso. – Riu baixo Dwalin – Mesmo nas vésperas do combate, não te vi deste jeito...

– Cala a boca, Dwalin — Resmungou o Primeiro Rei, nem sequer olhando para o amigo; afinal, já sabia o que veria: um sorriso no rosto e um olhar divertido. Como o seu melhor amigo poderia se divertir com a sua aflição? Não que estivesse realmente nervoso. Ora, aquele era o seu casamento, sabia que sua espada ou seu escudo de carvalho não iriam ser úteis em uma situação como aquela. Na verdade, tudo aquilo era muito novo... Estranho era que, até o momento, não tinha pensado no casamento. Sabia que, tecnicamente, já estavam casados, tinham assinado o contrato, mas de certa forma tudo parecia meio irreal... Até a chegada do seu esposo, encontrá-lo... Tocá-lo. Agora sim sabia que tudo aquilo de fato tinha acontecido.

As cornetas foram tocadas, anunciando o início da cerimônia. O som se propagou no amplo salão que estava preenchido por anões. Em um altar elevado estava Thorin junto a Dwalin. O jovem rei buscava entre a multidão por seu esposo e quando não o viu ficou temeroso. Diversos pensamentos vieram a sua mente. Será que tinha ocorrido algo com o pequeno Hobbit? Tinha se perdido? Fora atacado? Tinha fugido?

“Como alguém que conheci há tão pouco tempo pode gerar tamanhas preocupações?” Pensou, abismado pelos próprios sentimentos.

– Oh, ali está ele – Falou Dwalin, dando um toque de leve no amigo e apontando para as figuras que se aproximavam sobre o tapete azulado. Os anões saiam da frente do caminho fazendo reverências e dando espaço para que o segundo rei se aproximasse, escoltado pelos príncipes.

Thorin engoliu em seco ao vê-lo. Bilbo realmente ficava lindo vestido de azul. O hobbit levantou os olhos, que antes focavam no chão, para encarar o primeiro rei. Olhos verdes se encontraram com os azuis. Por um momento, pareceu que a sala tinha se esvaziado — não havia mais anões, sons de cornetas -. Não havia nada. Somente eles dois.

Bilbo se aproximou do altar, subindo os degraus de mármore. Thorin ofereceu a mão ao menor, que parecia receoso em aceitá-la. Porém, logo o hobbit levantou sua trêmula mão para o outro, que prontamente a segurou.

– Você está lindo. – Sussurrou Thorin, se deliciando com o corar das bochechas do menor com o elogio.

– O-obrigado. V-você t-também... — Gaguejou o hobbit, abaixando os olhos novamente, focando no chão. Thorin sentiu um impulso de acariciá-lo. Puxar o queixo do menor como fizera antes, forçando a encará-lo. Queria ver aqueles olhos verdes novamente.

– Bem, vamos iniciar a cerimônia! – A voz de Gandalf interrompeu o momento, fazendo o casal se sobressaltar. Nem tinham percebido que o mago estava ali no altar. Logo o que o encanto foi quebrado, as cornetas foram novamente ouvidas e os anões “retornaram” ao salão. Thorin suspirou longamente. O que estava acontecendo com ele?

~TKATC~

Momentos atrás...

– Chegamos a tempo! – Falou ofegante Nori, na entrada do salão. Dori dava os últimos retoques na roupa.

– O... O que devo fazer? – Perguntou Bilbo, ao ver a multidão de anões diante dele, o imenso salão estava repleto. Como iria passar? Temia ser empurrado por aqueles seres corpulentos.

– Nós iremos abrir passagem... — Disse Kili, segurando a mão de Bilbo.

– Eles irão permitir a sua passagem... Por sobre o tapete azul! – Explicou Fili pegando a outra mão livre do tio – Você é o rei deles, afinal.

– Azul, sempre azul. Já estou odiado essa cor. — Resmungou o hobbit. Os dois irmãos riram daquilo, e então guiaram o menor para onde estaria o tal tapete. Os anões perceberam a movimentação e logo começaram a se afastar, mas não antes de fazer uma reverência ao segundo rei. Aos poucos, o caminho foi se abrindo. Bilbo estava impressionado. De início, pensou que aquilo tudo fosse um caos; mas agora percebeu que havia uma sintonia e organização. Todos se afastando para que ele passasse. Alguns o olhavam com admiração, outros com simpatia... Mas havia alguns com olhares semelhantes a inveja, ódio e crítica. Bilbo abaixou os olhos; agora estava se sentido mais nervoso e inseguro. Como poderia ser o rei deles? Era óbvia a diferença de cultura e de raças. Será que tal casamento deveria ter ocorrido?

– Oh! Ali está o tio Thorin! – Falou Kili animado. Com isso, Bilbo levantou os olhos e de súbito sentiu o olhar do primeiro rei sobre si. Aqueles olhos azuis intensos. O pequeno hobbit sentiu seu coração bater forte com aquele simples cruzar de olhares. Não havia ódio ou crítica naquele olhar... Muito menos simpatia ou admiração. Tinha algo mais que o jovem Bolseiro não sabia como definir.

Não mais ouvia os anões ao seu lado, nem o tagarelar de Kili e de Fili, muito menos as cornetas que tocavam. Sua atenção estava toda no anão que cada vez se tornava mais próximo. Thorin estava vestido com uma longa capa cinzenta, usava uma coroa em sua cabeça, que se destacava no mar de cabelos negros. Sua roupa era bastante formal, tal como um verdadeiro rei. Totalmente diferente da figura que adentrara na sala a poucas horas atrás. Aquele era, de fato, o primeiro rei de Erebor.

Chegaram ao altar. Thorin desceu as escadas para recebê-lo, enquanto Bilbo já tinha subido alguns degraus.

Thorin lhe ofereceu a mão. Bilbo ficou meio incerto se deveria segurá-la, quando finalmente tomou coragem e levantou sua própria mão. Contudo, agora percebera o quanto estava nervoso, pois sua mão tremia. O rei anão segurou a pequena mão oferecida. Era tão estranha aquela sensação. Por que ainda não conseguia definir o que sentia? Era nervosismo? Medo?

– Você está lindo. — As palavras do anão, ditas baixas e em um tom rouco, fez Bilbo ter calafrios além de sentir uma estranha sensação na barriga, tal como se borboletas estivessem dentro dela.

“Definitivamente devo estar doente...” Pensou abaixando os olhos, voltando a fitar o chão. Podia sentir suas bochechas esquentarem, indicando que deveriam estar vermelhas.

– O-obrigado. V-você t-também... — Sussurrou de volta. Mas por que o estava elogiando? Há momentos atrás o odiava. Por que estava agindo daquela forma?

– Bem, vamos iniciar a cerimônia! – A voz de Gandalf o fez sobressaltar. O som alto advindo das cornetas fez Bilbo despertar para a situação. Estava se casando! Quase tinha esquecido.

– Gandalf? O que...

– Ora Bilbo, eu irei ser responsável por casar vocês. Antigamente, antes de Erebor ser tomada pelo dragão, era de costume que o antigo rei fosse responsável por gerenciar as cerimônias de casamento da realeza, contudo...

–Sim, nós já sabemos que aconteceu com os meus antecessores...-Resmungou Thorin desconfortável com a lembrança.

– Pois muito bem. — Sorriu cordial o velho mago – Iniciaremos o ritual de casamento. — Bateu com o cajado no chão fazendo ecoar um estrondo pelo o salão, todos se calaram subitamente. As cornetas se silenciaram – O nosso mundo está em uma era de mudanças. A Terra Média já vivenciou em seu solo diversas batalhas... Muitas vitórias, todavia, muito mais derrotas. Digo isso porque uma vitória conquistada sobre montanhas de corpos de nossos companheiros, de fato, não seria uma verdadeira vitória. Sofrimento se propagou tal como uma praga... O nascer do sol, ao invés de trazer esperança, parecia ser um preludio de mais terror. Mas, como disse antes, nosso mundo está passando por uma era de mudanças. Antevejo épocas felizes em nosso futuro, mas para que isso ocorra... Nosso passado deve ser alterado, antigas rivalidades devem ser esquecidas. Antigas alianças... Refeitas. Por isso estamos aqui hoje, para vivenciar o renascimento de uma antiga tradição, algo que irá mostrar o renascimento de uma nova Erebor.

O mago parou de falar, para focar seu olhar no casal a sua frente.

– Thorin II Escudo-de-Carvalho Durin, filho de Thráin II, filho de Thrór, Atual primeiro rei de Erebor, aceitas Bilbo Bolseiro, filho de Bungo Bolseiro e Belladona Tûk, herdeiro da linhagem real do reino do Condado, como seu esposo... Prometendo protegê-lo, amá-lo e respeitá-lo, até o fim de sua vida?

Bilbo engoliu em seco com aquelas palavras. Sentiu um aperto em sua mão e logo se lembrara que Thorin a segurava. O rei anão olhou para o pequeno hobbit, seu olhar era sério e determinado, que de certa forma passava um pouco de segurança ao jovem Bolseiro, que estava prestes a desmaiar.

– Eu aceito! – Falou confiante, sorrindo para Bilbo.

“Falaram que ele raramente sorri... Mas... Ao meu lado ele sempre exibe tal ação...” Pensou confuso “Isso seria algo bom? E por que me sinto tão estranho quando ele sorri desta forma?”

– Bilbo Bolseiro... Aceitas Thorin como seu marido prometendo, protegê-lo, amá-lo e respeitá-lo, até o fim de sua vida e além disso, aceitando a posição de segundo rei de Erebor?

Bilbo lambeu os lábios e agora sentia sua garganta extremamente seca. Será que conseguiria falar? Olhou de relance para os lados, notando a presença de Kili e Fili, que esperavam ansiosos pela a resposta e olhavam de forma divertida para Dwalin; este, por sua vez, tentava esconder que estava chorando, enxugando as lágrimas na sua barba. Balin, que confortava o irmão, percebeu o olhar de Bilbo e sorriu.

– Bilbo? – Sussurrou Gandalf, apreensivo pela a demora do menor.

“Apesar de não conhecer nem a metade destes anões, os poucos que conheci se tornaram a minha família. Sei que minha vida aqui não será fácil, mas eu não estarei sozinho... E como a minha mãe dizia: se a realidade que vivemos não nós traz a felicidade, mude-a, pois nós somos os instrumentos para mudá-la. Eu encontrarei a felicidade aqui, no meu novo lar.”

– E-eu... — Gaguejou – Aceito.

Urros de felicidade se propagaram por todo o salão e os ecos pareciam amplificar ainda mais o efeito daquilo. Bilbo sentiu quase ficar surdo.

Gandalf aliviado com o resultado final.

– Pois bem. Podem trocar os broches, que representam as marcas de suas linguagens! – Anunciou o mago.

Bilbo, trêmulo, retirou a caixa que Balin tinha lhe dado previamente. Thorin, por sua vez, retirou algo de seu bolso; era um broche cilíndrico, com um símbolo semelhante a um escudo moldado nas laterais.

– Eu mesmo que forjei — Sussurrou o anão rei, se aproximando mais de Bilbo e tocando de leve em seu cabelo – Esse é o meu símbolo, o escudo. Lembre-se bem disso, afinal você me pertence agora. Deverá usá-lo sempre, para que todos vejam! – Nisso, colocou o broche no fim de uma das tranças do hobbit.

Bilbo fez biquinho por aquela explicação arrogante e possessiva. Por segundos esqueceu que estava sendo observado por uma grande plateia.

– Posso não ter forjado o meu broche... Mas esse é o símbolo da minha linhagem! Os Bolseiros do Condado. Se pela a sua lógica, o broche significa que eu pertenço a você... — O jovem hobbit pegou uma das tranças do anão e a puxou de leve fazendo-o resmungar devido a dor – Do mesmo modo, você pertence a mim... Meu marido! – Colocou o broche na trança do outro com um sorriso triunfante nos lábios.

Thorin não pode se conter mais. Puxou Bilbo pela a cintura, e antes que o mesmo reclamasse, o beijou.

– Er... Bem... Acho que isso significa que vocês... Podem se beijar! – Riu Gandalf com a cena. Kili e Fili fizeram som de náusea. Dwalin começou a chorar mais alto e Balin conteve uma gargalhada.

Bilbo e Thorin nem perceberam os aplausos da multidão e nem a reação de seus amigos. Estavam envolvidos em seu próprio mundo; que consistia em sentir os lábios de um, no outro. O beijo se perpetuou por vários segundos, só se findando quando Bilbo deu um chute na perna do outro, fazendo o primeiro rei se afastar e fitar irritado o seu hobbit. O menor, por sua vez, estava ofegante, os lábios avermelhados e úmidos, bochechas coradas... Mas detinha um olhar igualmente irritado.

– Q-quem te deu o direito de... — Bilbo começou a falar mais foi calado por outro beijo dado por Thorin. Simplesmente o anão não conseguia se controlar, e como podia? Parecia que Bilbo estava o provocando de propósito! De início, o jovem Bolseiro se debateu, tentando se desvencilhar dos braços do seu marido, mas logo, aos poucos, seu corpo relaxou. O que eram antes ações e movimentos para afastá-lo de si, agora eram para puxá-lo, fazer com que, assim, o beijo se aprofundasse.

– E é assim que terá início o reinado de Thorin e Bilbo, os Reis Sob a Montanha. — Sussurrou Gandalf, contente com aquela visão.

Parece que, afinal de contas, tinha acertado na escolha.

Notas finais
O que acharam? Esperam que tenham gostado... Tão fofos os dois! Pois bem, depois será a festa e... A noite de núpcias!