Os dois reis sob a montanha
60 Mensagens gravadas na rocha
Notas iniciais
Fili e seus companheiros se esgueiraram pelo corredor que ligava a seção de arquivos a antessala circular, donde se encontrava a grande porta talhada na própria rocha com uma riqueza de detalhes que por milagre havia sobrevivido sem muitos danos ao ataque do dragão, essa porta era a entrada do conselho.
— Onde estão os guardas? — Sussurrou o jovem príncipe ao evidenciar a falta dos mesmos na antessala. Se recordava que sempre existia pelo menos dois guardas reais posicionado diante das portas.
— Algo está errado... Posso sentir o cheiro de problemas. — Comentou Bombur farejando o ar — E meu nariz é muito bom para prever essas coisas. Consigo verificar se o carregamento de alimentos tem algo podre a metros de distância!
— E o que seu nariz está dizendo? Que tipo de cheiro ele está identificando?
— Sangue. Morte. — Com aquela resposta Fili sentiu um calafrio percorrer a sua espinha.
Bifur , que estava logo atrás de seu primo cozinheiro, tinha seus olhos semicerrados, como que tivesse concentrado em algo. Suas grandes mãos calejadas tocaram a parede lisa como que buscando algo...Ou tentando sentir algo.
— O que foi?
O anão mudo fez gestos com a mão e indicou uma porta entreaberta diante deles, sim, havia uma pequena sala a qual era usado para os servos guardaram instrumentos de limpeza e outros utensílios. O grupo se esgueirou em direção a dita a porta e com dificuldade adentraram na pequena sala. Havia uma lamparina a óleo sobre uma rustica mesa, a pequena chama azulada não era o suficiente para afastar a escuridão da sala para que se pudesse identificar com clareza o que se escondia nas sombras, Fili se aproximou da mesma, talvez pudesse aumentar a chama e trazer um pouco de luz ao mistério, mas acabou por tropeçar em algo.
— Pela a barba de Mahal... — Sua voz quase se perdeu quando por fim identificou o que o havia feito cair. Um corpo.
Oín prontamente se aproximou para verificar a pulsação, em poucos instantes fez um sinal negativo com a cabeça, não havia mais vida naquele anão.
— Um guarda. — Disse pesaroso Bombur, Fili ainda estava um pouco abalado com a descoberta. Sim, já havia vivenciado a morte de perto, mas ali em Erebor, imaginava que estava seguro ao ponto que não tropeçaria em um corpo.
Bifur fez novos gestos o que culminou em apontar para as paredes.
— Desculpe...Não entendi o que quis dizer. — Confessou envergonhado, sabia que o amigo dissera algo sobre eles não estarem sozinhos, mas indicar as paredes a sua volta não parecia fazer sentindo.
— Eu também não entendi muito bem. — Bombur coçou a cabeça com a ponta da colher de metal.
— O que vocês estão resmungando? E por que Bifur parece estar tendo uma espécie de ataque de fúria?— Oín inqueriu ajeitando a sua corneta de metal no ouvido, Bifur pegou essa mesma corneta e a colocou na parede (ignorando os protestos feitos pelo anão ancião) e indicou que se aproximassem para escutar...Fili tomou a iniciativa tentando entender o quer que seja que o companheiro queria explicar e mostrar.
E então... Pode escutar algo...
Algo se arrastava por dentro das paredes!
Com os olhos arregalados, fitou Bifur que detinha as sobrancelhas levantadas e um olhar que dizia claramente “entendeu agora?!”
— Amigos... — Antes que pudesse emitir uma ordem o som que antes estava tão baixo que só a audição prodigiosa de Bifur foi capaz de captar, aumentou e se concentrou na parte obscurecida do sala, de lá também se ouviu algo se abrir...O que era impossível! Só existia uma porta para aquele recinto!
— Aye! Tem um corpo aqui! — Reclamou a voz nas sombras.
Fili e seus companheiros (menos Oín que exigia que devolvessem a sua corneta pois não estava escutando nada do que estava acontecendo) já empunhavam as suas armas, prontos para contra-atacar, mas aquela voz não era desconhecida.
— Pobre anão, o apunharam pelas costas, um ataque característico de um mercenário amoral. — Disse outra voz.
— Er...Dwalin? — Inqueriu o príncipe, hesitante.
A resposta à sua pergunta foi o resmungo de alguns anões que parecia estar saindo de algum lugar desconhecido, depois os mesmos se aproximaram do centro da sala se deixando iluminar pela à luz da fraca emitida pela lamparina. Sim, era Dwalin e ele não estava sozinho, ao seu lado estava Nori, ambos sujos de poeira e restos de teias de aranha.
— Saudações. — Disse o Fudin — Pelo visto, as complicações se alastraram até as portas do conselho.
— Complicações? Alastraram? Isso significa que não ocorreu só aqui? — O Durin soltou diversas perguntas, apesar de já saber a respostas das mesmas, Bifur havia sentindo as bombas, além disso, aqueles guardas mortos só serviam para constar o fato que algo muito sério acontecia em Erebor.
— Infelizmente, sinto ser portador de más notícias... Mas... Mercenários se infiltraram na montanha. — Revelou Nori.
— Mercenários! Aqui? — Bombur arqueou as sobrancelhas assombrando com aquela informação.
— Hã? — Oín finalmente tinha reavido sua corneta e tentava acompanhar as conversas com o cenho franzido.
— Isso não é o pior. — Os olhos de Dwalin pareciam encobertos por uma sombra de ressentimento — O segundo rei foi pego como refém...Assim como o príncipe Frerin II, mestre Drogo e o pequeno Gimlin.
Fili teve que se segurar na parede, sentiu seu mundo rodar por alguns instantes... Bilbo, o seu tio Bilbo e seu priminho estavam em perigo! E não só eles! Drogo e Gimlin! Como seu tio reagiria a tal notícia?
— Onde está Kili? — Prontamente perguntou vendo a ausência de seu irmão, ainda mais temia os atos do outro Durin, tendo em vista que Drogo fora sequestrado...Não, Kili não iria simplesmente ficar parado esperando pro reforços ou mesmo um plano!
— Seu irmão e Bofur seguiram em uma missão diferente de tentar resgatar o nosso segundo rei.
— Eles sabem para ondem tio Bilbo foi levado?
Dwalin negou com a cabeça.
— Mas, segundo Bofur, nosso Hobbit tem o conhecimento das passagens secretas. — Nisso o anão guerreiro apontou para atrás de si, indicando o local de onde haviam saído a momentos atrás — Ele pode escapar.
Fili assentiu. Sim, devia confiar na capacidade de Bilbo, afinal, por muitas vezes o seu tio provou seu valor tanto como guerreiro como estrategista. Se alguém poderia escapar por debaixo dos narizes daqueles anões sem pátria, esse seria Bilbo!
— Se mercenários estão aqui, alguém deve tê-los deixado entrar... — Murmurou o príncipe para si mesmo.
— Traição. — Nori completou a linha de pensamento do outro — Isso tudo é um grande golpe!
— Tio Thorin! — Exclamou por fim, alarmado — Ele está a muito tempo no conselho e agora descobrimos guardas mortos! É obvio que ele deve estar em perigo!
— Seja o que for que esteja ocorrendo, o epicentro é o conselho. — Concluiu Oín.
— Mas... Entraremos no conselho e atacamos? — Inqueriu incerto Bombur — Digo, agora que sabemos que estamos lidando com mercenários, não podemos estimar quantos estão naquela sala e se Thorin e nossos amigos foram tomados como reféns.
— Seria tolice entrar pela frente e perder o ataque surpresa. — Piscou Nori — Ainda mais quando temos um modo de adentrar de forma mais furtiva...
— Existe uma passagem para dentro da sala do conselho? — Fili questionou esperançoso.
Nori não respondeu, apenas fez com a mão para segui-los, era mais fácil mostrar o caminho que o explicar, além disso, não tinham tempo para hesitar, tinham que agir o quanto antes e salvar o destino de Erebor e de seus queridos companheiros.
~**~
Seguiam pelo estreito túnel em relativo silêncio. Frerin havia adormecido, o que era um grande milagre tendo em vista a situação...Ainda mais, como um bebê consegue relaxar diante de um sequestro e agora fuga em meio a túneis, rumo as minas de Erebor que podem estar infestadas por Orcs? Enfim, pelo visto é um intrépido aventureiro mesmo na tenra idade que ignora o perigo dormindo profundamente. Bilbo os guiava a frente usando a sua espada élfica que emitia uma tênue luz azulada permitindo visualizar o caminho a frente.
— Esse túnel é bastante longo... — Comentou Drogo ajeitando o príncipe no colo, Gimlin os seguia segurando a túnica do jovem Bolseiro, o pequeno anão não reclamava e nem ao menos chorava, isso meio que preocupava Drogo, afinal Frerin II podia não saber o que estava acontecendo a sua volta, mas Gimlin estava consciente da gravidade do caso, além disso, o modo como ele segurava sua frágil espada de madeira era um indicativo do quão assustado ele devia estar.
— Já devemos estar chegando no final. — Sussurrou Bilbo ao primo.
— Ainda bem que você tem essa espada mágica...Sem ela não estaríamos vendo nada.
— Pois é... — Drogo notou uma leve hesitação no segundo rei, algo que não podia significar boa coisa, resolveu esperar, se fosse algo realmente importante o seu primo não iria simplesmente se calar!
Continuaram andando por mais alguns minutos até encontraram o fim do túnel que consistia de uma parede sólida, estavam encurralados.
— Irei abrir essa parte do túnel. — Esclareceu o Bolseiro mais velho — Afinal, as portas de entrada e saída não poderiam ser abertas simultaneamente, ora...Senão não seria uma passagem secreta!
— Lógico. — Sorriu Drogo, mesmo falando isso observou que o outro hobbit parecia procurar algo no chão.
— O que está fazendo?
— Ao sairmos, confesso que não saberei aonde devemos estar... A mapa das minas é bastante variável, cada semana um novo mapa é desenhado... Desmoronamento e aberturas de novos túneis são coisas recorrentes aqui. Além disso, Thorin fez questão de me afastar das vistorias dos níveis inferiores da montanha por achar que eram muito perigosos... Logo, não tenho muita experiência por essas partes.
— Entendo. — Drogo engoliu em seco, não desejaria se perder no meio daquele labirinto de túneis tendo mercenários e só Yavanna sabe que mais inimigos em seu encalço.
— Mais uma vez devemos agradecer a genialidade dos anões... Essas passagens secretas, de algum modo, estão conectadas. Afinal, nunca se sabe o que poderia ocorrer em algum desastre. Você escapa por uma passagem, mas fica preso sem poder sair da mesma por causa de um desmoronamento ou ataque inimigo...O anão ilhado pode pedir socorro para outro anão que também esteja em alguma passagem secreta em Erebor. Eu já tinha mencionado que poucos sabiam dessas passagens, por isso, que era bem provável que esses poucos privilegiados trocassem segredos entre si pelas as paredes desses túneis.
— E como faziam isso?
— Ah! Achei! — Bilbo segurou uma lasca de preda que tinha encontrada no chão do túnel com tamanho triunfo que bem poderia ser um valioso diamante. Agora se voltando para Drogo continuou a explicar — Eles escreviam mensagens...
E ao dizer isso começou a escrever na negra parede do túnel. Não era a língua comum nem élfica e sim khuzdul, de modo que Drogo não conseguiu traduzir, ainda estava aprendendo a decorar o exótico alfabeto em segredo, já que para os anões se tratava de uma língua sagrada que não deveriam ser ensinadas e muito menos faladas por estrangeiros.
“Mas como essa mensagem será um pedido de ajuda? Estamos nas entranhas da montanha... Nossos amigos estão nos níveis superiores! Se a lógica é deixar uma mensagem gravada na rocha para que um outro anão a encontrasse caso adentrasse nesse túnel... Então, estamos em grandes apuros!” Concluiu meio desesperado.
— Observe. — Mandou Bilbo apontado para a mensagem recém-escrita, de início Drogo nada viu, mas logo depois as letras se iluminaram e em poucos segundos depois sumiram, como se tivessem sido absorvidas pela própria rocha.
— O ...O que aconteceu?
— A mensagem vai aparecer agora em todos os túneis secretos de Erebor. Não sei que tipo de magia antiga os anões utilizaram para isso, mas sei que o que escrevi vai ser lido por qualquer anão que se aventure por uma passagem secreta... E esses são poucos e de confiança. Nori e Bofur são um desses privilegiados anões que sabem os segredos das passagens. Vamos torcer que eles vejam a mensagem e saibam aonde procurar.
O hobbit mais novo soltou um suspiro de alivio.
— Então, ficaremos esperando dentro do túnel secreto?
Bilbo negou com a cabeça.
— O certo seria que sim, pelo menos vocês deveriam ficar.
— Como assim, nós? — Drogo franziu o cenho não gostando da expressão séria que seu primo detinha no rosto.
— Entenda, Drogo... Erebor está em perigo, mais precisamente... A família real está sob um ataque. Um golpe. E a moeda de barganha para o quer que esteja sendo negociado somos nós. Não posso ficar aqui esperando quieto enquanto Thorin nem ao menos sabe que escapamos e estamos seguros. Ele pode estar agora mesmo assinando algo que comprometa o futuro da linhagem Durin-Bolseiro, ou pior que comprometa o futuro de Erebor! Tenho que tentar alcançar a saída... Encontrar uma maneira de avisa-lo.
— Mas e a mensagem? Você acabou de envia-la?
— Sim, mas ainda teremos que levar em consideração o fator sorte e tempo para que ela seja lida e que as medidas cabíveis sejam feitas para que nós resgatem...Até lá, coisas ruins podem ter acontecido.
— E o que pretende fazer? Sair andando por aí sem direção?! Você mesmo disse que não conhecia as minas!
— Existe uma lógica nos túneis... Digo, Bofur me explicou que existem alguns sinais escritos nas paredes para identificar pontos de referências, de modo que posso segui-los até algum túnel principal...Esses são mais fortemente sustentados e normalmente levam direto a algum elevador, de modo que poderia ir aos níveis superiores.
— Bem, então devemos ir com você. — Disse prontamente Drogo, não iria deixar seu primo se aventurar lá fora.
— Não. Você ficará aqui e cuidará de Frerin e Gimlin.
— N...
O jovem Bolseiro não teve tempo de protestar pois Bilbo movimentou a espada de modo que a lâmina azulada agora estava a poucos centímetros da face de Drogo.
— Sabe por que essa lâmina está brilhando?
— Er...Por ser mágica?
— Ela só brilha em uma determinada ocasião. Quando Orcs estão nas proximidades.
Drogo arregalou os olhos com aquela nova informação. Isso significava que lá fora... Naquele momento...
— Só eu estou armado e não confio na minha capacidade de combate para proteger três indivíduos, sendo dois infantes. Ainda mais, sei que sou silencioso...Essa uma das principais características dos Hobbits, não temos pés grandes e cabeludos a toa! Sei que sozinho poderei me esgueirar pelos túneis e encontrar uma saída...E assim, poderei reverter a situação. Thorin não deverá temer e poderá acabar com o traidor sem nenhum ressentimento.
— B-Bilbo... Mas...
— Eu tenho que fazer isso, perdemos tempo precioso discutindo isso, e assim menos vantagem irei ter...Os mercenários ainda não sabem que fugimos, ao saberem disso irão vasculhar os túneis também! Esse é o momento ideal de tentar escapar.
— Bilbo...Será que tudo isso vale o risco? Digo, sua marca...Se você mor...Quero dizer, se algo ruim te acontecer...Thorin também irá sofrer e...O que vai ser de Frerin? De mim?
O segundo rei abaixou a lâmina e abraçou o agora trêmulo Drogo.
— Eu não irei morrer. Sou teimoso demais para isso. Mas não posso ficar aqui sem fazer nada... E se não tiver ninguém para ler essa mensagem? E se nossos amigos foram capturados? Não posso me valer da sorte? E ainda mais, não sou um hobbit indefeso...Sei lutar e irei lutar com ainda mais ímpeto pois não desejo que Frerin II cresça órfão... Não desejo perder um futuro que tanto batalhei para conseguir. Sou feliz em Erebor e vou lutar por manter essa felicidade.
Drogo apenas assentiu. Não podia impedi-lo, sabia quando seu primo estava decidido, dificilmente poderia dissuadi-lo. Ainda mais, havia lógica em seus argumentos... O que valia ficariam ali seguros se tudo lá fora fosse destruído. Bilbo precisava ir... Precisava alcançar Thorin e dar um fim naquele golpe.
— Agora, primo... — Bilbo havia se afastado, acariciava os cabelos encaracolados do seu filho, se despedindo em silêncio — Quero que preste atenção...Irei te ensinar como abrir a porta secreta, caso a ajuda demore muito para chegar, você deverá tentar escapar de alguma maneira. Não irei deixá-los trancados aqui...Obviamente.
E assim começou a explicar...Drogo tentou prestar atenção, mas seu coração estava acelerado. A luz azul da lâmina que antes o havia acalmado, agora surtia o efeito oposto.
“Que Yavanna proteja Bilbo...” Rezou em pensamentos.
~**~
— Quanto tempo teremos que esperar aqui? — Perguntou Kili, queria poder se movimentar para assim gastar a ansiedade que dominava todos os seus nervos, mas naquele apertado túnel impossibilidade tal atividade... E paciência, ficar quietinho no canto enquanto os “adultos” resolvem os problemas...Não Isso nunca foi uma qualidade pertencente a Kili Durin. Ele estava se controlando e muito para não sair buscando Drogo por todos os cantos da montanha, mas por onde começaria. A irracionalidade dessa busca inibiu o seu impulso imprudente. Além disso, não se tratava unicamente de salvar o seu hobbit! Não podia esquecer de Bilbo e tão pouco das crianças!
“Se algo acontecer com qualquer um deles...” Sua mão segurava o cabo da sua espada.
— O tempo necessário para algo acontecer. — Informou Bofur que usava uma pequena lamparina para observar as paredes a sua volta, parecia que estava verificando a resistência das mesmas, pois sua vistoria era minuciosa, passando os dedos por sobre as lisas paredes, talvez buscando imperfeições.
— Algo...Que tipo de algo?
Como se algum ser sobrenatural tivesse escutado a pergunta, a resposta foi produzida com uma estranha luz que se manifestou sem causa aparente. Tal luz parecia desenhar símbolos...Não! Eram letras! Sobre a rocha negra do túnel.
— Esse tipo de algo! — Bofur estava extasiado com o fenômeno — Eu disse que Bilbo iria escapar!
— Essas palavras... — Kili estava atônito, não espera mesmo que um pequeno texto aparecesse assim do nada. Magia. Algo que anões não utilizavam muito, afinal, preferiam focar no desenvolvimento de habilidade manuais do que algo misterioso e imprevisível como a magia — São de Bilbo?
— Aye! São sim! Ele deve estar em alguma passagem secreta e... — Falava isso enquanto lia rapidamente a mensagem gravada na roxa — Ohh...
— Ohh? Como assim Ohhh? — O príncipe constatou a mudança no semblante do companheiro — Algo ruim aconteceu? Drogo está bem? E as crianças?
— Eles estão bem. — Acenou com a mão, como para espantar tais perguntas, como se elas não fossem de fato importantes — Eles estão nas minas, apesar de Bilbo não saber precisar o local, não teremos muito que procurar, devido a constância reformulação dos túneis das minas, existem poucas passagens ainda funcionais naquele nível da montanha. Na verdade, a maior parte das passagens secretas se encontra nos primeiros níveis, onde as construções são permanentes.
— O que estamos esperando então? Vamos!
— Espere garoto...Tem mais.
— Mais?
— Os mercenários não são nossa única preocupação... Na verdade, parece que os safados tiveram uma grande ajuda para o seu plano.
— Ajuda de quem?
— Do que seria a pergunta correta. Orcs. Eles também entraram na montanha com auxilio desses traidores...Em troca esses malditos Orcs mataram anões das minas, permitindo que os mercenários se escondessem ali sem serem detectados!
Kili soltou um tremendo palavrão. Glorin merecia uma punição ainda maior do que prevista pela traição. Se aliar a Orcs. O que ele estava pensando.
— Iremos para as minas.
— Garoto! Não ouviu o que falei? Tem Orcs lá embaixo...Devemos comunicar a guarda e...
—Essa mensagem vai aparecer em outras passagens secretas ou só nessa? — Kili o ignorou e continuou a perguntar com tamanha seriedade que deixou Bofur confuso se aquele era mesmo o Kili que conhecia...
— Em todas.
— Pois bem, isso significa que Nori também deve estar lendo essa mensagem, ele também está utilizando os túneis junto com os outros. Ele está mais perto do meu tio e assim pode informar o que está realmente acontecendo e uma resposta irá ser gerada...Enquanto isso, devemos ir para as minas. Glorin foi muito esperto em escolher justamente o dia de descanso dos mineradores, que ocorre uma vez a cada 15 dias, como o dia para pôr em prática o seu plano. Os mineiros que ali estavam eram anões que vistoriavam os túneis ou aqueles que simplesmente gostam de minerar em busca de pedras preciosas. Ou seja, presumo que nem os mercenários e nem os Orcs seriam um grupo muito extenso. Se assim o fosse, Glorin não se preocuparia em utilizar Tio Bilbo e os outros como reféns, afinal... Com uma frota armada Orc infiltrada em Erebor, isso já seria o suficiente para forçar meu tio a negociar com ele... Logo, se formos só nos dois lá para baixo e resgatarmos nossos amigos, não acredito que seja uma missão impossível de ser feita! Podemos lutar com alguns orcs e mercenários, até com algumas dezenas, sozinhos!
Silêncio. Bofur fitava boquiaberto o jovem anão que, por sua vez, ficou corado de imediato.
— Por Mahal e todos seus machados! Fale alguma coisa, Bofur!
— Uau... Você pensou tudo isso sozinho? — Balbuciou o outro — Seu cérebro não deu um nó ou algo do tipo?
— Ora...Cala boca! — Resmungou.
— Rapaz, acho que subestimei sua habilidade tática. Sem dúvida você é um Durin! — Sorriu dando um soco no ombro do príncipe — Você me enganou direitinho fingindo que era só um bobão alegre!
— Eu não te enganei! Eu só... Nunca senti vontade de...Er...
— Pensar? —Arqueou as sobrancelhas Bofur — Aye, te entendo garoto... As vezes é nas situações de perigo que despertam nossas reais aptidões.
— Você concordar com meus argumentos? Acha mesmo que podemos ir as minas?
Bofur coçou sua barba.
— Olha, vou dizer o seguinte... Eu estou muito afim de chutar umas bundas de Orcs e de mercenários! Ficar me arrastando por túneis como uma droga de rato assustado não faz o meu estilo! Sou um guerreiro anão, membro da companhia! Bilbo e Drogo são meus amigos...E as crianças ?!. Não...Eu não posso simplesmente dar as costas a eles sabendo agora a localização. Vamos as minas!
Kili sorriu parcialmente aliviado e confiante pelo apoio do anão mais velho.
“Aptidão...” Pensou enquanto o seguia “Talvez eu deva também me concentrar nos meus estudos e responsabilidades, assim como Fili...Posso não ser o príncipe herdeiro do trono, mas também tenho dever para com Erebor, minha família e Drogo!”.
~**~
A minas eram verdadeiros labirintos, talvez no ponto e vista de um hobbit que está acostumado ao sol e campos verdes. Poderiam argumentar que os hobbits também viviam abaixo da terra, mas a construção das tocas de nada se comparava a exploração das profundezas de uma imensa montanha. Bilbo buscava as inscrições que Bofur havia mencionado em suas aulas...Internamente, maldizia o seu marido por limitar as suas visitas a aquelas partes do reino.
A luz da sua espada ajudava em guia-lo pelo caminho, mas também era um aviso constante de perigo. Ainda não tinha encontrado nenhum Orc... Não escutara nada e muito menos sentiu o fedor advindo daqueles seres. Entretanto, a lâmina élfica não se enganava... Havia sim algum Orc por perto.
— Deve ser isso. — Sussurrou ao ver inscrições na parede do túnel, indicava que estava ao norte de algum túnel principal. Havia números o que podiam significar algum tipo de nomenclatura para se referir aquele túnel especifico. Bem, se fosse alguma contagem, se o próximo túnel exibisse um número menor ao que estava lendo no momento, estaria regredindo e logo se direcionando aos túneis mais próximos do que seria a passagem principal, afinal, quanto mais adentrasse no naquela intricada rede de túneis... Presumia que a contagem iria aumentar estaria se afastando do ponto de inicio. Bem, era tudo dedução, esperava que não estivesse errado.
Continuou andando o mais silencioso possível até alcançar uma encruzilhada e havia uma grande quantidade de pedras ali...Como se um desmoronamento tivesse ocorrido e foi então quando viu o Orc cambaleando saindo de um dos túneis a frente. Ele estava sujo de terra e sangue negro... Sangue que devia ser dele. Bilbo se escondeu atrás de uma das grandes pedras, tomando cuidado de ocultar a sua espada cujo brilho se intensificada cada vez mais.
— Maldito. — O Orc falou em sua língua, a qual parecia algo mais como grunhidos e sons roucos.
— Ele está aqui. — Continuava a falar, agora em língua comum — Eu não posso captura-lo sozinho! Aquela criatura me atacou!
“Criatura?” Bilbo escutava atentamente.
— Onde está Azog... ? — Arfou se apoiando na pedra, justamente aquela que Bilbo se ocultava.
“Azog? O Orc albino? O que atacou Drogo e os outros? Ele está aqui?” Seu cérebro formigava devido as implicações daquela nova informação. A quietude era sepulcral, só era quebrada pelos gemidos e respiração entrecortada do Orc...Mas havia mais outro ruído na escuridão.
— Sssim, preciosso... — Alguém sussurrava — Noss não deixar Orcorozo escapar. Não.
Bilbo mordeu o lábio inferior, um calafrio percorreu a sua espinha. Algo se aproximava, mas não havia mais ninguém nos tuneis.
— Não. Para trás! — Rosnou o Orc desembainhado sua espada e cortando o ar — Irei cortar a sua cabeça e entregar para o lorde escuro!
— Oh! Ele quer nos cortar, precissso! Cortar! — Riu a criatura misteriosa — Mas como vai fazer isso, preciso? Hum? Como vai poder nos cortar se não consegue...Nos ver?!
Bilbo se sobressaltou ao ouvir o grito de desespero do Orc, se esgueirou um pouco do seu esconderijo, sabia que uma pessoa sensata não sairia da proteção da escuridão para bisbilhotar...Mas a curiosidade Tûk venceu a sensatez dos Bolseiros.
O Orc estava sendo mordido por algo invisível. Podia ver o pedaço de carne sendo arrancado de sua garganta. Algo estava em suas costas, algo o estava matando.
Mas o que?
O Orc caiu no chão, aquilo que estava sobre ele se afastou.
— Nós conseguimos, precisso! O Orcoroso agora está morto! Orcoroso Morto! Nos mostrar para ele...Mostramos, não é precisso. — Agora o ser parecia se engasgar e repetir uma palavra...Ou seria um engasgo? — Gollum. Gollum.
Havia alguém ali... A voz tinha que ter uma origem. De fato, tinha, pois, uma figura esquelética de grandes olhos azulados se materializou logo ali. Bilbo não pode acreditar no que seus olhos acabaram de presenciar. Aquele ser estava invisível e agora não mais estava. Como seria possível? Que magia era aquela?
— Agora nos come...Sim. Come carne orcorosa... — Nisso o ser, se movimentando como um animal de quatro patas, se aproximou do corpo falecido.
Bilbo virou o rosto, não queria mais ver aquilo e só então evidenciou que sua espada ainda apresentava uma fraca luz azul.
— ARH! — O Orc tentou socar a criatura que agora estava novamente sobre ele, a criatura guinchou assustada, mas prontamente se recuperou, atacando com os próprios punhos o Orc, desferindo vários golpes com tamanha selvageria...
A espada se apagou e algo se desprendeu da rudimentar tanga de couro que cobria a parte debaixo da criatura. Bilbo observou, como que hipnotizado, o objeto dourado que rolou silenciosamente até a rocha aonde se ele se encontrava...
Um anel.
Um belo anel.
“O que uma criatura como aquela faria como uma joia?” Bilbo se sentiu estranhamente atraído, com relutância pegou o anel. Era frio. Novamente sentiu um calafrio percorrer o seu corpo. Algo esquisito havia naquele anel... Mesmo assim, o guardou no seu bolso o tomando para si.
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