Os dois reis sob a montanha
61 Charadas no escuro.
Notas iniciais
Glorin andava para o lado e para o outro, tal como uma fera enjaulada, não era uma visão que expressava total controle da situação e pelo visto o ardiloso anão percebeu, tarde demais, esse fato e parou de se mover para encarar seu público.
— Logo teremos a confirmação do cativo do seu hobbit e filho. — Disse se aproximando de Thorin — Me impressiona o quão tranquilo estás, não percebes que posso simplesmente mudar de ideia quanto toda essa situação. Podia, digamos, eliminar a concorrência... Se é que me entende. Contudo, sou um anão honrado e o infanticídio seria uma atitude covarde para alcançar o poder.
O primeiro rei cerrou o punho, como desejava quebrar os dentes tão brancos daquele anão... Mas se controlou, afinal tinha a lâmina de uma espada de um mercenário de encontro a sua garganta.
— Sim, você é muito honrado ao ponto de não desejar matar meu filho, afinal, você sabe tão bem quanto eu que um Durin deve governar, o povo nunca te aceitaria como um governante, logo se esconder por trás de um infante é a posição mais adequada...Ainda mais, não deves esquecer de meu primo Daín, das Colinas de Ferro que ficaria extremamente chateado em saber que seus familiares foram brutalmente assassinados. Uma guerra entre anões iria se iniciar, tenho certeza que isso não seria tão bom para os negócios, não é mesmo?
Um soco. Glorin deferiu o golpe contra o rosto do primeiro rei, arrancando exclamações de assombro e surpresa dos outros membros do conselho. Gloin teve que ser contido por mais de dois mercenários, já que o anão guerreiro urrou de fúria ao ver o seu rei e amigo tratado dessa maneira. Balin observou tudo, impassível, confiava que Thorin soubesse o que estava fazendo... Pelo bem de todos!
— Ponha-se em seu lugar. — Rosnou o anão traidor — Não entendeu que a sua vida está nas minhas mãos!? Como ousa me provocar? Estou sendo compassivo! Lhe dando muitas oportunidades, outro, em meu lugar teria se aproveitado e feito uma grande besteira! Eu, por outro lado, estou negociando, oferecendo alternativas...Deixando seu Breeder e filho viverem! Você devia me agradecer por minha generosidade!
Thorin lambeu o lábio ferido pelo golpe, encarou Glorin com seus olhos azuis, o primeiro rei não precisava falar, aquele olhar já traduzia tudo... Glorin sentiu seu corpo tremer, conhecia a fama do olhar de Thorin Escudo-de-Carvalho Durin, contudo, nunca fora alvo de um olhar como aquele... As palavras não pronunciadas eram bastantes claras:
Eu não serei compassivo quanto a sua punição. Não serei generoso. Não existirá negociação...Somente dor e mais dor.
Glorin engoliu em seco, deu alguns passos para trás, quase tropeçando nas próprias pernas. Aquele olhar permanecia fixo sobre ele, mesmo estando rodeado por seus aliados mercenários, se sentiu encurralado. Não, devia se recompor! Era ele, Glorin filho de Gognus e estava no controle! Não devia temer um rei caído! Na verdade, todos eles deviam estar o agradecendo por tomar a iniciativa para mudar Erebor. Não conseguiam ver que do jeito que as coisas estavam se encaminhavam, a glória da grande montanha estava sendo ofuscada pelos outros povos? Thorin, de início, até o ouvia... Aceitava suas sugestões, criando embargo sobre produtos élficos e humanos. Um anão só devia comprar de outro anão! Isso era tão lógico de entender! Todavia, desde que aquele breeder chegou na corte da montanha solitária, Thorin não mais o ouviu, aliás, percebeu que tudo iria mudar ao receber aquele soco e ser forçado a se desculpar com o reprodutor do Condado. O primeiro rei foi fisgado pela o já conhecido poder sedutor dos breeders, entendia em parte, pois ansiava ter o jovem Drogo atado a sua cama, mas não iria permitir que um reles hobbit e ainda mais breeder opinasse sobre os seus assuntos! O lugar desses seres foi e será sempre ao lado da cama, saciando seus senhores, ou seja, os poucos anões importantes o suficiente para provar daquele exótico fruto. Erebor iria crescer sobre o seu comando...Já podia ver os outros povos terem que se humilhar para conseguir comprar seus produtos exclusivos. Os anões sempre foram os responsáveis por prover os humanos e elfos os metais necessários para suas armas, armaduras, construções... Sim, alguns humanos tinham minas, mas essas pouco se comparavam as minas construídas pelos anões. Thorin não via o potencial que podiam alcançar?! Quanto ouro podiam conseguir?! Não seria nada comparado com o tesouro já existente na montanha, acumulado pelo glorioso avô do atual rei...
— Eu conheço essa expressão. — Comentou o primeiro rei cuspindo o sangue no chão, perigosamente perto das botas lustradas de Glorin — Meu avô tinha a mesma expressão, logo de início, antes de se entregar a loucura...
— Tolice. —Riu com desdém — Ter ambição não é um defeito! Você viveu com tanto medo de ser como seus antecessores que se tornou um rei medíocre...Afinal, você que criou a lei que poderia limitá-lo, dando poder o conselho, não é? — Novamente, emitiu outro riso — Se isso não é sinal de fraqueza, não sei o que mais seria.
Agora foi a vez de Thorin rir, na verdade gargalhar. Isso enfureceu Glorin, não iria suportar ser tratado daquela maneira! Era um grande anão, conquistara fama, dinheiro e poder, o que o limitava era aquela cultura retrógada de adoração a linhagem dos Durins.
— Calado! Eu ordeno que se cale! — Gritou, sua voz já estava esganiçada.
— Estou vendo que você tem ainda muito aprender sobre liderança. — Continuou falando, Thorin, ignorando a ordem — Se tivesse participado fisicamente da reconquista de Erebor, quando digo isso, me refiro ter participado da batalha e não apenas observar a distância rodeado por comida fresca e quente, um bom vinho, enquanto outros morriam sob o seu financiamento. Ser líder não significa ser superior pelo contrário, é se pôr no mesmo nível de seu povo, ter empatia por suas necessidades e quando possível, se sacrificar por eles...Se es incapaz de ver a diferença entre liderança e autoritarismo, nunca será um bom governante a ser recordado nas canções dos trovadores e imortalizado nos livros de história.
Glorin, em um movimento trêmulo, um pouco atrapalhado, retirou uma adaga do cinto em sua cintura. Já suportara demais aquela humilhação! Thorin parecia não entender quem estava ganhando...
— Irei cortar a sua língua. — Avisou se aproximando de novo do primeiro rei — Assim você para de tagarelar asneiras... Alias, eu já devia ter feito isso antes, só preciso de suas mãos para assinar o contrato e não de sua língua idiota... Segurem ele!
Com o seu comando, mais dois mercenários se lançaram sobre o Durin, um deles puxando os cabelos negros do rei anão, forçando que sua cabeça se voltasse para cima.
— Abrem a boca dele! — Mandou Glorin, fechando o punho sobre a empunhadura da adaga. Mesmo contido por três corpulentos mercenários, Thorin não parecia temoroso de seu destino... Seus olhos azuis decaiam sobre Glorin, que sentia uma pressão abater-se sobre si, como se aquele olhar o diminuísse....O tornasse insignificante...E isso o fazia sentir tanto medo como também fúria.
— Vou arrancar a sua língua e seus malditos olhos... — Rosnou, levantando a adaga, iria acabar com aquele rei, iria mostrar que podia ser superior a um Durin. Não precisava de uma linhagem e tão pouco de uma coroa para conquistar o que tanto desejava...
Dor.
— AH... —Incrédulo, Glorin abaixou a sua mão, a adaga tinha caído e jazia no chão ao seu lado. Em sua mão, atravessando a sua carne, se encontrava a lâmina de uma adaga. Sangue transbordada do ferimento. Glorin nunca fora ferido...Nunca dessa forma...
— Acho melhor você se afastar de meu tio. — Uma voz autoritária. Glorin levantou o olhar, para então notar a presença do príncipe Fili na sala, sob os pés do jovem Durin estava dois mercenários, desacordado ou mesmo mortos. E ele não estava sozinho... Dwalin, Bombur, Oín e Nori, os aliados inconvenientes da dita companhia de Thorin.
Outros mercenários haviam caído, surpreendidos pelo ataque dos novos guerreiros anões que apareceram ali na sala do conselho, como que materializados em pleno ar! A porta principal não foi aberta! Sabiam disso, pois os dois mercenários que ali a guardavam, permaneciam em sua posição, boquiabertos com o que presenciavam. Os mercenários estavam tão surpresos que esqueceram que deviam prestar atenção nos anões que estavam contendo...Tal como Gloín, que se libertou de seu inimigo, o golpeando com o cotovelo e quebrando o seu nariz. Balin também se aproveitou do momento de confusão, furtivamente se afastando e se mesclando na multidão dos membros do conselho.
Uma batalha se início, mercenários se recuperaram do estupor inicial, começaram a contra-atacar, mas estavam em clara desvantagem... Aqueles não eram simples guerreiros, mas experientes anões e com laços de companheirismo forjados por anos de combates lutados lado a lado...Eram irmãos de armas. Um ajudava o outro, sem ao menos gritar comandos... Dwalin jogou o seu machado para Bombur que por sua vez lançou para Gloin que usou para golpear um mercenário. Nori lançou mais adagas no ar, cobrindo a retaguarda Fili que se lançou para ajudar seu tio Thorin, que ainda estava sendo mobilizado por seus capturadores.
— Vocês estão loucos!? — Gritou Glorin, segurando sua mão ferida — Não entendem que sou eu que garanto a segurança dos Breeders e das crianças!
— Garante é? — Nori deu um meio sorriso, claramente desacreditando nas palavras do anão.
— Meus homens estão mantendo eles em cativeiro! Sou eu que dou a palavra final sobre a vida deles! — O anão comerciante gritava tanto, saliva escorria de sua boca, seu corpo tremia, não sabia se era pelo choque de ver perdendo o controle da situação ou o ódio que o consumia.
— Pois eu acho que você deve rever essa afirmação. — Nori disse com um tom provocador.
— Bilbo conseguiu fugir. — Não era uma pergunta e sim uma afirmação, proferido pelo primeiro rei, agora liberto e empunhado a espada Orcrist. Glorin engoliu em seco...
— I-impossível... Ele é um breeder...Não poderia...
Suas palavras se perderam, novamente estava sob a pressão daquele olhar... Thorin o observava. Aqueles fulminantes olhos azuis... Glorin não sabia descrever os sentimentos do rei naquele exato momento, só sabia que uma onda de pânico começou a dominá-lo.
— Queres ver a prova? — Nori interrompeu a mirada mortal, para alivio do anão comerciante que tentava se esgueirar. Tinha que fugir...Iria formular outro plano...Tinha o seu ouro, poderia subornar alguns anões e pagar sua salvação e...
— Onde você pensa que vai? — A lâmina de uma espada atravessou a barba grisalha, se posicionando sobre o seu pomo de adão. De soslaio observou o seu capturador.
— Me recordo muito bem, quando Erebor foi envolvida pelo fogo de Smaug...Ratos foram os primeiros a fazerem sua escapada do desastre. — Falava Balin com tamanha tranquilidade que fez o sangue de Glorin gelar — Dessa vez, não deixarei nenhum rato fugir sem passar pelo divido julgamento...
— E-eu...Vocês nem tem provas ainda de...De...Que os prisioneiros estão livres!
— Calado! — Comandou ríspido o conselheiro dos reis de Erebor — Não entendo linguagem de rato... Se não quiser perder a sua língua, aconselho ficar calado.
— Aproveitei a língua enquanto ainda a tens, meu caro Glorin. — Falou Thorin de costas para o novo prisioneiro — Sabes o destino dos traidores da raça...
O anão nada disse, seu coração palpitava em seu peito. Se recusava a terminar desse modo...Esse não podia ser o seu fim!
~**~
— Aqui está... — Nori o havia guiado para um espaço obscurecido por um grande pilar, em um dos cantos da ampla sala, sem dúvida era um local olvidado que até mesmo os servos esqueciam de limpar já que uma camada de poeira ali se acumulava. Em suas sombras se encontrava uma abertura em formato de um perfeito quadrilátero, forjado na massiva rocha...A passagem secreta.
Thorin ficou de joelhos e enfiou a cabeça sobre a abertura, Nori ofereceu uma lamparina, cuja a luz embora fraca, era o suficiente para iluminar as paredes escuras do túnel. Não demorou muito para encontrar o que o seu companheiro tanto queria lhe mostrar... Inscrições em khuzdul que perfuraram a rocha que emitiam um brilho tênue, como se fossem florescentes.
— Bilbo... — Tocou com carinho as palavras, reconhecia a caligrafia precisa e delicada de seu esposo em qualquer lugar, ainda mais por ter sido ele, Thorin Durin, quem ensinou o hobbit a escrever na língua dos anões. Aquela inscrição significava que seu amado tinha fugido se utilizando de uma passagem secreta, Glorin errou ao subestimar o segundo rei. Foi então que prestou atenção o que de fato estava escrito, o significado daquelas palavras...
Orcs?
Aqui em Erebor?
— Fili! — Rosnou, se afastando da passagem, seu sobrinho prontamente apareceu ao seu lado, reconhecendo a emanação de raiva que tinha como fonte o primeiro rei — Você vai ficar aqui no conselho, guardando nossos prisioneiros, irei convocar mais guardas como reforço...
— S-sim.... Mas, você irá...
— Irei recuperar a minha família. — Disse isso como fosse a coisa mais óbvia a se fazer.
— Sozinho?
Thorin deu um meio sorriso, algo que fez o príncipe sentir um calafrio percorrer sua espinha, aquele olhar o fez recordar de imediato quando seu tio estava prestes a entrar em combate, quando avançaram sob Erebor, para retoma-la do maligno dragão. Um olhar que indicava que não importava com o resultado final...Se ele iria sucumbir na batalha ou não... Desde que alcançassem a vitória.
— Ele não irá sozinho. — Anunciou Dwalin dando um leve soco no ombro do Durin mais velho — Ele é o primeiro rei, existe uma infestação Orc nas minas, nossos guerreiros irão nos acompanhar. Ele não é um anão idiota de sair por aí fingindo ser uma espécie de mártir! Bilbo iria ficar extremamente decepcionado!
Com a garantia do Fudin, Fili relaxou, não queria que seu tio se entregasse a sua sede por vingança...As palavras de Dwalin também surtiram um efeito avassalador sobre o primeiro rei, que acordou dos fluidos de fúria que o cegaram momentaneamente.
— Vamos. — Comandou, queria rever Bilbo e seu filho... Queria tê-los em seus braços, analisar seus corpos buscando por qualquer sinal de arranhão ou qualquer outro tipo de dado. Iria ter certeza que estavam seguros... Também iria garantir que algo assim nunca mais ocorresse em Erebor.
Glorin iria servir de exemplo de como os Durins tratam um traidor da raça. Até mesmo Mahal se tornaria surdo as seus apelos e orações. Glorin, filho de Gognus, abandonado e renegado por todos... Uma vergonha para os anões...Uma vergonha para a sua linhagem.
~**~
— O próximo deve ser aonde eles estão escondidos. — Garantiu Bofur enquanto caminhava pelo túnel das minas, mesmo tendo pouca iluminação, pois muitas das tochas foram apagas, seus olhos se adaptavam facilmente a penumbra, afinal, fora um mineiro por grande parte de sua vida, andar em tais estreitas passagens e labirintos subterrâneos se tornou algo tão natural quanto beber uma boa cerveja e avaliar a qualidade de uma gema.
— Você falou isso na última vez... — Resmungou Kili, seguindo o outro anão, com passos incertos, ao contrário do companheiro, não tivera tanta experiência na mineração para confiar nos passos dados na escuridão...O processo se tornava ainda mais difícil ao se depararem com os corpos dos minérios assassinados.
— Mas esse eu tenho certeza... Essa é a última passagem secreta. Eles têm que estar lá! — Isso despertou um sentimento de desespero em Kili Durin, pois se eles não estivessem lá...Só podia significar que tinham se aventurado além do esconderijo... Rumo aos possíveis Orcs que se encontravam ali embaixo.
— Aqui! — Bofur apalpou a parede solida a sua frente, não demorou para encontrar o símbolo oculto e sussurrar a palavras em élfico. A passagem se abriu, Kili ainda se assombrava com aquele processo, antes não havia marca nenhuma na rocha e logo depois uma linha se destacava, gerando a abertura para a túnel.
A porta se abriu, Kili já iria chamar por Drogo quando foi recebido por uma miniatura de espada de madeira.
— P-p-para trás! — Falou Gimlin se posicionando logo a frente, em posição de guarda.
— Por Yavanna! Gimlin! Volte aqui! — O pequeno anão foi puxado pela túnica.
— Eu tenho que te proteger! — Tentou argumentar o menor.
— Drogo... — Kili nem esperou a resposta, soltou para dentro do túnel. Encontrou o dito hobbit amparando um bebê meio adormecido e uma criança anã afoita em exercer seu papel de guarda. O príncipe praticamente atacou o Bolseiro, o abraçando com tamanha força que Frerin II começou a choramingar, por ser despertado com tamanha ação desconfortável.
— K-Kili... — Falou arfando por ar. O abraço era deveras apertado.
— Você está bem? Eles te bateram de alguma forma? Te machucaram? — Inqueriu o anão se apartando o suficiente para observar o rosto do seu hobbit.
— Eu estou bem. — Sorriu.
Kili deixou sua cabeça cair no ombro desocupado do hobbit, já que o outro se encontrava um mal-humorado bebê;
— Você está bem... — Repetiu o príncipe anão, seu corpo estava tão tenso desde o início daquela loucura, o sequestrado, a busca...As minas... Sempre pensando que o pior estava para acontecer. Que falhara não conseguindo proteger aquele que mais amava...
— Ei... — Drogo acariciou com a mão livre os cabelos negros do seu anão — Você me encontrou.
— S-sim, mas eu quase te perdi...
— Quase. Não me subestime, viu? Como você não desistiu de me encontrar, também não desistiria de te buscar!
Kili soltou uma risada rouca, ergueu a cabeça para fitar os olhos castanhos do seu amado hobbit. Queria beija-lo... Queria comprovar que aquilo não era uma ilusão. Tinha sim conseguido reaver o seu amante perdido. Aproximou o seu rosto do outro, seu nariz tocou o pequeno nariz de Drogo, podia sentir o ar quente de sua respiração de encontro aos seus lábios entreabertos.
O choramingo de Frerin meio que quebrou o momento, somado com a pergunta que Gimlin fazia a Bofur.
— O que eles estão fazendo?
— Coisas de adultos, pequeno. Coisas que deviam ser deixadas para depois, principalmente quando não estávamos em uma mina possivelmente infestada por Orcs!
Kili afastou-se abruptamente, batendo com a cabeça no teto baixo do túnel.
— Eu ainda não compreendo muito bem o khuzdul... — Falou Drogo acalentando o bebê — Mas o senhor Bofur falou sobre Orcs. Vocês encontraram algum quando vieram para cá?
— Na verdade, não. — Confessou Kili massageando a cabeça dolorida — Só corpos.
— E Bilbo? Vocês, por acaso, o avistaram? — O hobbit perguntou em um tom nervoso.
— Como assim? Ele não está aqui com você?
— Bem...
— O segundo rei não está aqui? — Repetiu Bofur alarmado com o fato.
— Ele saiu. Foi buscar uma saída para voltar para o senhor Thorin. — Respondeu Gmilin fungando — Ele vai voltar, não é? Os monstros não vão pega-lo? Tio Bilbo é forte... Mas... Tinha tantos anões no chão quando viemos para cá...Eles não se mexiam, tio Bofur...Eles estavam dormindo com os olhos abertos...Eu...
— Está tudo bem, garoto. — O anão mineiro amparou a criança — Nós iremos sair daqui e buscar o seu pai Gloín. Ele vai ficar orgulho em saber que seu filho protegeu a família real com tamanha coragem.
— E-ele vai? — Gimlin inqueriu em língua comum — E-eu fui corajoso não é?...Eu não chorei...Eu... F-fui um anão guerreiro como o papai me ensinou... — Mal conseguira terminar pois lágrimas começaram a brotar de seus olhos castanhos, vertendo em seu rosto.
— Gimlin... — Drogo sentiu seu coração apertar com a cena, mas ao mesmo tempo se sentira mais aliviado por Gimlin finalmente relaxara, o garoto tinha permanecido estranhamento calado durante todo o sequestro...
Bofur carregou o infante o acalentava, falando palavras de carinho em khuzdul. Enquanto isso, Kili ajudava Drogo a sair do túnel, Frerin estava totalmente acordado agora e mirava a tudo e a todos com seus grandes olhos azuis esverdeados, curioso com o que ocorria.
— Temos que buscar Bilbo. — Declarou Kili — Ele pode ter se perdido nos túneis.
— Mas quanto as crianças... — Bofur disse incerto.
— Toma... — Drogo entregou o bebê príncipe para o anão mais velho que amparou com dificuldade, afinal, no outro braço também segurava o ainda choroso Gimlin — Eu vou com Kili buscar meu primo, você pode retornar ao esconderijo... Estará seguro ali.
— Agora estou recebendo ordens dos jovens? — Resmungou o mineiro, mas parecia resignando com quanto a situação — Kili, você acha mesmo que consegue se guiar aqui em baixo?
— Sou um anão, Bofur! — Respondeu indignando — Posso ser jovem, mas túneis são e sempre serão o habitat natural de nossa raça... Irei encontrar meu tio Bilbo!
Bofur soltou um longo suspiro.
— Está bem. Que Mahal os guie.
— Mahal nos guiará. — Ao falar isso Kili segurou a mão de Drogo o puxando para uma passagem próxima, não demorou para que ambos fossem envolvidos pelas trevas.
— Espero que Thorin não me mate por essa decisão. — Resmungou Bofur indo para o esconderijo.
~**~
Devia ter prestado atenção. Quando engatinhou, se afastando da estranha criatura, enquanto a mesma se deliciava com a carne fresca do Orc assassinado, não prestara atenção que caminho tinha tomado... Estava retornando? Se afastando dos elevadores? Agora sem a luz da espada tudo estava tão escuro que era difícil se locomover sem esbarrar em alguma pedra ou entulho. Queria ser silencioso, mas cada vez que tropeçava, tinha total noção do som que gerava nos silenciosos e mórbidos túneis das minas de Erebor. Rezava a Yavanna que a criatura estivesse bastante entretida com sua refeição para nota-lo.
Tropeçou novamente, desta vez sentiu seu corpo rolando uma encosta... Rolou até colidir com o líquido frio. Um pequeno lago subterrâneo, pelo menos naquele local havia perfurações no teto de modo que um pouco de luz dos níveis superiores se propagava dissipando as trevas do ambiente. Bilbo se levantou, suas vestes agora estavam empapadas, mas iria se preocupar com isso depois, talvez encontrasse alguma pista nos arredores, aquele lago devia ter alguma utilidade para os mineiros.
— Sem voz ele grita, sem asa ele voa, sem dente ele morde, sem boca ressoa... — Uma voz esganiçada se propagou e ecoou, Bilbo empunhou a sua espada, mirando em volta buscando a fonte... A criatura o havia encontrado.
— Ele não sabe, precioso. — Continuava a falar a voz — Que pena, que pena...O Orcoso também não sabia... Bem que orcosos não são muito espertos...Não é mesmo precioso?
“Não sabia...” A mente de Bilbo trabalhava com rapidez. “ Espere...Isso é uma charada?”.
— Sem voz ele grita, sem asa ele voa, sem dente ele morde, sem boca ressoa ... —Repetiu com lentidão e depois mais alto falou — Eu sei a resposta!
— Sabe? — A voz estava mais perto — Você mente.
— Não! Eu não mentiria em relação a isso, no Condado eu era conhecido por fazer as melhores charadas e também por resolve-las. — Sim, estava mentindo! Sempre gostara de charadas, era verdade, lera algumas delas em livros, mas sua vida conturbada no Condado o impedia de jogar tais jogos com frequência.
— Condado. — A criatura parecia testar a palavras em seus lábios rachados — O que é um Condado, precioso?
— É de onde eu vim. Uma terra com colinas verdes e aconchegantes tocas. Cheia de hobbits alegres e educados.
— Hum... — Agora podia vê-lo, estava logo a sua direita, nas margens do grande lago, a poucos metros de distância, a criatura o observava com os imensos olhos azuis — Esse nome não é estranho... Sim...
— Você conhece o Condado? — Como aquilo podia conhecer a sua terra? Tinha certeza que nunca vira ou ouvira falar de um ser como aquele antes. Agora, o observando mais de perto, podia notar que se tratava de um ser humanoide, magro, pele tão pálida que quase era translucida, grandes pés e grandes mãos, era de pequena estatura...Não como um anão, mas parecido a altura de um hobbit.
— Nós não conhecer isso! — Respondeu a criatura bruscamente — Gollum! Gollum! — Começou a repetir.
— Esse é o seu nome? — Insistiu Bilbo.
— Chega de papo. — A criatura mudara a voz seus olhos também se tornaram mais cruéis — Você sabe ou não sabe a resposta?
— Sim, sim, precioso! A charada! — A voz mudou novamente, agora era mais alegre quase infantil. As duas vozes viam da mesma criatura — Nós adora charadas! Mas não temos muitas companhias... Não é precioso?
— Sim... Infelizmente somos sozinhos, meu amor... Mas agora encontramos uma deliciosa companhia.
Bilbo não estava gostando nem um pouco do rumo que estava seguindo aquele diálogo.
—S-sim. Eu sei a resposta...É o vento! — Disse tentando controlar a aflição e desejando que tenha acertado.
Gollum rugiu e bateu com as mãos no solo, raivoso.
— Não importa, precioso... Se ele acertou ou não! Nós iremos comer!
— Acho que agora é minha vez de fazer uma charada. — Falou rapidamente o Bolseiro, vendo uma oportunidade de escapar daquela perigosa situação — Nada mais justo, não é mesmo? Você fez uma, logo tenho direito de fazê-lo!
Os olhos de Gollum brilharam, como uma criança diante de um novo brinquedo.
— Oh! Sim! Preciosos! Nós gostar de charadas! Sim! Sim!
— Calado, idiota! — A outra voz falou — Nos devíamos comê-lo!
— Mas...
— Eu faço um acordo com você...Digo...Vocês. — Interrompeu o hobbit — Se vocês acertarem a minha charada vocês podem...Er...Me comer....
— Oh! Comer! — Gollum lambeu os lábios rachados.
— Sim, mas se não conseguirem... Então, terá que me deixar ir!
— Ah... Mas qual é a graça nisso!? — Resmungou infantilmente Gollum.
— É assim que o jogo funciona. Você gosta de jogos, não é?
— Sim! — Sorriu, seus dentes pontudos a mostra — Nos gosta! Jogos!
— Então... Deve conseguir ganhar o jogo para conseguir o prêmio.
—Faça a charada. — A voz novamente ficou séria e o olhar frio.
Bilbo engoliu em seco.
— Esta coisa tudo devora: árvore e ave, fauna e flora; rói o ferro, morde o aço: mói a pedra sem deixar traço; mata o rei, destrói a aldeia, do alto monte faz areia. — Falou nervoso, esperava que fosse difícil o suficiente para a criatura Gollum se entreter, devia buscar uma escapatória e logo... Não confiava que aquele ser fosse cumprir a sua parte do trato caso perdesse.
Gollum tinha fechado a cara, começou a rodar de um lado para o outro, resmungando para si mesmo...Ou melhor discutindo com a sua outra voz. Era como existisse duas pessoas dentro de um mesmo corpo.
Bilbo se afastava lentamente, seus pés imersos na água congelante. Deveria existir algum lugar para correr... Olhou em volta, buscando...Buscando... Até que....
— Não! Isso é muito difícil! Queremos outra charada! — Exigiu a criatura.
— Isso não é certo. — Reprimiu o segundo rei, tal como faria com uma criança mimada — Vocês teriam me dado outra chance caso eu não desejasse responder a primeira charada?
Gollum fechou ainda mais a cara.
— Talvez nos desse...
— O orc não teve segunda chance.
— Orcosos são burros, eles não acertariam nem que tivéssemos dado milhões de chances! — Reclamou batendo com os punhos no chão.
— Respondam logo a charada...Será que tenho que colocar um limite de tempo para que admitam a derrota. — Sorriu, provocando um pouco.
— Não! Não! — Choramingou Gollum se debatendo no chão. Bilbo estava quase chegando a margem, tinha avistando uma passagem, ao fundo e também notou uma polia...Era um elevador! Por Yavanna! Tinha conseguido encontra-lo! Só precisava se livrar de Gollum... Ou distraí-lo por mais tempo...
— Tempo... — Gollum paralisou, olhos faiscando em um misto de alegria e determinação — Essa é a resposta, não é? Preciso! Essa é a resposta!
Bilbo tremeu e não era pelo frio... Queria mentir, mas podia ver que a expressão do seu rosto o delatara.
— Agora nós come... — Sorriu a criatura e Bilbo correu, precisa alcançar o elevador e assim, talvez, se salvasse. Podia ouvi-lo correr atrás de si, ele era rápido...
Bilbo tropeçou, aquele não era um momento para isso! Pode escutar a comemoração de Gollum quanto ao feito...Mas, algo rolou do seu bolso devido a queda...Era o anel. O hobbit não soube dizer que força o impeliu a segurar o objeto e o enfiar no dedo, mas quando viu, já o estava fazendo... E o grito de desespero e dor de Gollum cortaram o ar como uma faca afiada.
Tudo em sua volta mudou. As sombras se tornaram claras, o mundo se tornou fosco, como uma pintura feita por um artista desleixado. Bilbo se levantou abismado com o que via. Gollum avançou em sua direção e o hobbit se afastou, assustado.
— Onde está!? Onde está!? Ladrão! Ladrão! — Gollum olhava para os lados, olhava por debaixo das pedras, cavava o chão... Aflito, perdido.
“Ele não está me vendo”. Notou, afinal estava apenas a alguns passos da criatura. Ainda segurava a sua espada...Agora era o momento ideal de mata-lo. Sim, devia livrar o mundo daquela abominação...
— Ladrão... — Choramingou Gollum, lágrimas escorriam de suas grande olhos — Devolva! Devolva para nós! Devolva nosso precioso!
Pena.
Bilbo abaixou a espada, sentido nojo de si mesmo por ter cogitado a mata-lo. Gollum mais parecia uma criança perdida e desamparada do que o monstro de momentos atrás. Não sabia a história de Gollum, mas tinha o pressentimento que ainda havia algo bom ali...Aquela voz infantil era o indicativo de uma personalidade quase que inocente. Havia algo ali a ser salvo.
Lentamente se afastou, abandonando a criatura em sua desesperança. Não demorou a alcançar o elevador, praguejou ao notar que tinha que mover o mecanismo para que o elevador baixasse... Isso delataria a sua posição, mesmo estando invisível, Gollum saberia onde atacar.
“Não tenho escolha...” Começou a movimentar a alavanca, tentando ser o mais rápido possível.
— Hã...? Ladrão! Nós encontrar! Ladrão! — Como presumira, a criatura o escutou e começou a trotar em sua direção.
Uma rede negra foi lançada, caindo sobre Gollum que tentou se livrar inutilmente. Bilbo interrompeu a sua ação e prendeu a respiração ao ver algo descendo por uma das encostas, pode ouvir seus pesados passos. Um orc de pele tão branca como a neve se aproximava a passos lentos.
Azog...
— Te encontrei. — Disse somente dando um forte chute em Gollum que gemeu e chorou — Você matou três dos meus homens... Maldito...
O grande orc se agachou ao lado do choroso ser.
— Nos deixe ir...Nos não fazer nada de errado...
Azog enfiou o punho decepado a qual exibia uma estrutura metálica, substituindo a mão perdida na batalha contra Thorin em Moria, com um gancho curvo e afiado na extremidade. A lâmina do gancho roçou na pele branca de Gollum.
— Se ele não te desejasse... Eu mesmo iria cortar cada pedacinho seu e deixaria apodrecer no ermo... Tens sorte de ser importante. — Nisso enfiou o gancho perfurando a carne, atravessando a mão de Gollum que gritou em desespero. Bilbo sentiu seu coração apertar... Não podia fazer nada, só observar aquela tortura.
Mais Orcs se aproximaram, mas permaneceram distantes, como que temessem também ser alvo da fúria do orc albino.
— Levem-no! — Mandou se levantando e limpando o gancho na roupa de couro que usava — Já perdemos muito tempo aqui...
— Azog...Senhor... Anões estão descendo...Acho que o plano do seu aliado não deve ter dado certo. — Comentou um Orc dando uma risada nervosa.
— Já conseguíamos o que viemos buscar. — Resmungou Azog, claramente não satisfeito com a situação.
— Mas e Thorin? — Ousou perguntar o outro Orc — Pensei que você desejasse mata-lo...
Bilbo mordeu o lábio inferior impedido que soltasse qualquer indício de sua presença. Só então notou que sua espada não estava brilhando...Pelo visto, o anel afetava a sua arma de alguma forma, inibindo o seu poder e mantendo-o oculto.
Azog rosnou e atacou o Orc, o gancho afundou no ombro da outra criatura, arrancando um naco de carne quando o Orc branco afastou o subordinado com um chute violento.
— Eu ainda irei mata-lo, em outra oportunidade. — Disse rangendo os dentes — Temos nossas ordens... Devemos retornar.
O orc ferido amparou o ombro lesionado e se afastou com a cabeça abaixada em sinal de submissão. Os outros Orcs, rapidamente, se ocuparam em arrastar a criatura Gollum que se debatia inutilmente, tentando escapar do seu cruel destino.
Azog farejou o ar e lentamente se virou para o elevador. Bilbo engoliu em seco, os olhos azuis sem vida do orc se focaram nos seus...Será que Azog o estava vendo?
Gritos e comandos em Khuzdul foram ouvidos dos andares superiores e Azog praguejou na língua obscura e se afastou, seguindo os Orcs...Felizmente seguiam pelo caminho oposto a qual Bilbo iria se utilizar para fugir.
— Por Yavanna...Acho que vou tirar férias de aventuras por enquanto... — Sussurrou para si mesmo, suas pernas tremiam, seu coração palpitava... Desejava retornar a seu lar, beber um quente chá, acalentar seu filho e amar Thorin por toda a noite.
— Nada de estimular meu lado Tûk por enquanto... — Brincou enquanto retornava a rodar a alavanca.
~**~
— Primo Bilbo! — Drogo saltou sobre o exausto hobbit quando o avistou saindo de um túnel adjacente. Os dois hobbit caíram de encontro ao chão sujo, mas nem estavam ligando para o estado deplorável que estariam suas roupas — Por Yavanna e tudo que é verde... Você está bem...
— Tio Bilbo! — Kili também se lançou sobre o segundo rei, mais um corpo sendo adicionado a pilha...
— E-eu não ficarei tão bem se continuarem me esmagando... — Pronunciou indistintamente com dificuldade.
— Ops... — Riu Kili.
— Desculpa, primo...Mas eu estava tão preocupado...
Finalmente liberto do peso de dois jovens afoitos, Bilbo pode organizar seus pensamentos.
— Onde está Frerin? — Foi a primeira perguntar que fez, afinal não via o seu filho junto com Drogo, isso já despertou um alarme interno do segundo rei.
— Calma! Ele está seguro...Ele está com Bofur na passagem secreta, junto com Gmilin. — Tranquilizou Kili.
— Não avistamos nenhum Orc e nem mesmo os mercenários... Acho que eles fugiram... — Comentou Drogo olhando para os lados, como se esperasse um ataque surpresa a qualquer momento. Bilbo optou por não falar ainda o que tinha presenciado...Ainda mais, por que se mencionasse a louca aventura que tivera também teria que explicar sobre o estranho anel que havia encontrado...E, de alguma forma, falar sobre o anel o deixava nervoso, como se fosse um segredo a ser guardado. Mas por que? De qualquer forma, teria que falar sobre isso...Mas depois...
— Estou feliz que tenham me encontrado. — Bilbo sorriu — Acho que meio que me perdi nos túneis...
— Compreensível. — Assentiu Kili solidário.
— Nós também nos perdemos...Parece que ser anão não é garantia de nada! — Reclamou Drogo.
— E-ei! Nos encontramos o tio Bilbo, não foi!? Isso significa que eu fui um ótimo guia!
— Encontramos primo Bilbo por sorte!
— Não! Foi meu instinto anão interno! Ele nos guiou para o nosso objetivo! Eu disse que todos os anões sabem aonde estão indo nos túneis e...
— Você repetiu isso várias vezes, principalmente quando ficamos andando em círculos!
Bilbo riu, sentiu alivio, estava em meio a seus amigos... Sua família... Mas, ainda não se sentia totalmente completo. O trio ouviu o barulho passos pesados vindo de diversas direções, não demorou muito para o primeiro guarda anão avista-los.
—Segundo rei! — Disse o corpulento anão, praticamente chorando de emoção. Bilbo deu uma risada nervosa, alguns de seus súditos eram por demais emotivos... Na verdade, serem emotivos também era uma qualidade do povo anão (apesar deles não gostavam muito de fazer propaganda, mas era a pura verdade). Logo mais guardas surgiram, também chorosos por terem encontrado o seu rei são e salvo.
— Obrigado pela preocupação, mas como podem ver, estou muito bem! — Disse o Bolseiro-Durin tentando acalmar a multidão de anões lacrimosos.
— Bilbo... — O hobbit reconheceu aquela voz grave e ressoante. Os guardas se afastaram, abaixando suas cabeças e armas, dando espaço a passagem do primeiro rei que vestia sua armadura de batalha, com uma resplandecente coroa acoplado ao capacete de prata. Thorin caminhou até Bilbo, retirando o capacete e entregando a um anão qualquer, guardou a sua espada e... Bilbo não mais esperou, correu de encontro ao seu marido que o recebeu de braços abertos.
— Você demorou... — Reclamou se deixando afundar no peitoral de metal do seu Durin.
— E você não pode ficar no esconderijo me esperando, não é? — Pode escutar uma risada contida naquela fala.
— Ora, até parece que você não me conhece...Não sou o tipo de hobbit que fica sentado a ser salvo, eu me salvo sozinho! — Continuou falando hobbit em um tom de desafio.
— Sim, graça a Mahal você é esse tipo de hobbit. — Nisso Thorin deixou suas mãos ampararem o rosto Bilbo, seus olhos azuis se encontraram com os verdes, havia tantos sentimentos imersos naquele olhar...Medo, alivio e principalmente amor. Seus lábios se encontraram e um quente beijo se início. Bilbo deixou que seus dedos mergulhassem mar negro que eram os cabelos de seu marido, o puxando para mais perto de si, aprofundando ainda mais o toque... Thorin não se conteve, sua língua explorava sem pudor a boca de seu esposo. Era como saciar uma espécie de fome que consumia a sua própria alma...
Ninguém tomou a iniciativa para interrompê-los, os guardas olhavam para o lado, ou para baixo, tentando dar uma certa privacidade ao casal real. Drogo cobria o rosto e Kili observava com uma certa inveja a cena...
O choro alto que ecoou pela caverna fez que o real casal despertar de seu mundinho feliz...
— Eu já fiz de tudo... Ele não para de chorar! Acho que ele me odeia! — Bofur parecia estar prestes a chorar também.
— Deixa de ser tolo... — Dwalin reclamou — Deixa que eu o seguro e...
O choro se tornou ainda mais forte.
— Parece que Frerin também te odeia. — Concluiu Bofur — Talvez até mais do que a mim...
— Besteira! Ele não nos odeia! Ele só está...Bem... Talvez...
— Com saudade dos pais? — Sugeriu Bilbo ao ver os amigos se aproximando com um birrento principezinho nos braços. Frerin II berrava tanto que seu rostinho já estava todo vermelho, grandes lágrimas rolavam e seu nariz escorria. O bebê esperneava, querendo se livrar dos seus tios anões.
— Olá, pequeno. — Ao ouvir a voz de Bilbo, Frerin parou de imediato os seus gritos, apenas se ouviu um fungar e um tímido choramingo. O segundo rei pegou o bebê nos braços, para o alivio de Bofur e Dwalin.
— Meu filho... — Thorin acariciou os cabelos negros encaracolados de Frerin que levantou seus olhos para o seu outro pai e soltou um arroto.
— Acho que ele está feliz em te ver. — Riu Bilbo acalentando o bebê que estava visivelmente mais calmo, babando e fazendo sons fofinhos de bebê.
— E eu estou extremamente feliz em vê-lo...Vocês dois...Meus maiores tesouros. — O primeiro rei beijou a testa de seu filho e em seguida repetiu o gesto em Bilbo.
Agora sim, Bilbo Bolseiro-Durin, segundo rei de Erebor, se sentia totalmente completo.
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