Os dois reis sob a montanha
62 Antes do Julgamento...
Notas iniciais
Uma semana tinha se passado desde da tentativa frustrada de golpe ministrada por Glorin, agora conhecido como anão-traidor da raça, renegado por Mahal e a casa de seus antepassados. Erebor ainda não tinha retornado a normalidade, era como toda a montanha estivesse a espera...Silenciosa e raivosa...Esperando pelo fim do julgamento do traidor e dos seus aliados.
Bilbo, mais do que ninguém, queria que tudo isso acabasse...Sim, aceitava que Glorin deveria ser punido devidamente, afinal, o que ele fez foi imperdoável. Colocou não só em perigo a família real como também toda o reino quando permitiu que Orcs invadissem sorrateiramente as minas...Ceifando vidas inocentes ao longo do caminho. Se fosse no Condado, Glorin seria julgado de imediato e, provavelmente, receberia a maior pena que o tribunal Hobbit poderia conferir: Confisco dos bens e afastamento de qualquer atividade e festividade que ocorresse no Condado. Era uma verdadeira morte econômica e social...Algo que era um verdadeiro desastre para um hobbit respeitável que define a felicidade de sua vida em ter uma despensa cheia, uma toca confortável e aconchegante e vizinhos tagarelas para partilhar fofocas. Para um anão as coisas não eram assim tão simples... Havia a questão da honra e lealdade, algo que chegava a ser mais valioso que as pedras preciosas que aquela raça acumulava em seus cofres. O julgamento iria ser feito em etapas, a primeira delas seria o confinamento do anão as masmorras, com mínimo de alimento, na total escuridão e sem nenhum contato com o mundo externo. Essa prisão duraria exatamente uma semana.
— Você não acha uma semana pouco tempo? — Questionou o segundo rei a Thorin quando este estava deitado ao seu lado na cama, entre eles estava o ainda adormecido Frerin II, aquela semana o primeiro rei não se afastara da ala Real... Sempre perto de sua família, como se temesse perde-la novamente — Digo... Já ouvi falar que os humanos costumam prender seus criminosos em prisões por diversas semanas e até meses antes de receberem seu julgamento...
— Uma prisão humana não se compara a uma masmorra anã. — Explicou Thorin enquanto acariciava os cachos castanhos do seu filho — Imagine perder a sua visão e sua audição... Só existe a escuridão na prisão que talhamos na profundeza da montanha, longe de tudo e de todos...Nem os ratos se aventuram naquele local esquecido. Mais de uma semana preso naquele lugar você enlouqueceria e não queremos que Glorin perca a razão...Não ainda...
Bilbo engoliu em seco. Anões são uma raça extremamente leal, isso ele já sabia...Mas agora estava vislumbrando um outro aspecto da cultura anã...O quão rancorosos e vingativos eles podiam ser. Não bastava Glorin ser julgado, ele teria que sofrer e muito pelo o que tinha ousado fazer.
— A semana de confinamento acabou. Agora virá o julgamento. — Continuou falando Thorin.
— Mas...Vocês já sabem o veredito... Glorin ainda poderia recorrer ao perdão? Ainda tem alguma possibilidade de apelação?
O rei anão parou de acariciar o seu filho para que seus olhos azuis se voltassem ao seu esposo. Olhos frios que deixaram Bilbo igualmente gelado...Não gostava de ver aquela expressão no rosto do homem que amava.
— Glorin deve ouvir todas as acusações... Ele pode até tentar se defender, não somos bárbaros, Bilbo, mesmo tendo em vista o evidente veredito, daremos chance para ele se explicar, bem que, devido as circunstâncias não tem nada a ser esclarecido... Glorin está condenado.
— Eu não estou acusando vocês de bárbaros! — Respondeu, irritado o hobbit — Eu só...Bem...Quanto a punição...
— Glorin sabia das consequências que o esperava caso a sua tentativa de golpe falhasse. Ainda mais, não acredito que esteja sentindo pena dele... Sabe o que ele planejava para você, Drogo e nosso filho? Você leu o contrato?
— Sim... — Bilbo ainda sentia uma mescla de calafrios referente ao temor quanto o futuro que o anão havia planejado a sua família, também sentia desprezo e raiva...Glorin queria tomar o seu querido primo Drogo para si, transforma-lo em uma espécie de escravo sexual...Sim, sentia uma total antipatia por aquele anão golpista, não sentia de todo pena dele, afinal, Glorin estava apenas colhendo as consequências de suas ações, o que o incomodava era a brutalidade da condenação, talvez sua aversão a carnificina esteja relacionado a sua natureza Hobbit de ser. Sim, seus pais lutaram contra orcs e Bilbo mesmo não pensaria duas vezes em empunhar uma espada para proteger seus amigos e familiares, mas não era algo desejasse fazer do fundo do seu coração... Se houvesse uma alternativa menos violenta, optaria por ela em detrimento do derramamento de sangue. Lutava para proteger aqueles que amava e não em prol do prazer resultante da batalha e do combate físico.
Thorin soltou um suspiro, era evidente o cansaço naquele gesto, apesar daquela de folga de uma semana, já que Dís se prontificou a assumir as responsabilidades reais, talvez se punindo por ter sido tão facilmente enganada pelo esquema de Glorin. Mesmo assim, Thorin parecia esgotado, como toda aquela espera estivesse sugando suas forças vitais. Bilbo esperava que tal estado de espírito se alterasse com o fim de toda essa tensão e com a condenação de Glorin e os anões mercenários capturados.
— Me desculpe. — Falou o primeiro rei se levantando da cama, Frerin começou a choramingar, indicando que estava começando a despertar — Sei que você não sente pena do traidor... Mas nossas leis são antigas, Bilbo... E foram feitas com o propósito de além de nós proteger, educar.
Educar por meio da dor, sangue e terror? Questionou em pensamentos, não ousando deixar exposto a sua opinião em relação aquelas leis. Erebor é uma nação de guerreiros, difere do Condado em muitos aspectos...Sua estrutura de governo é embasada na honra, lealdade e confiança. Se tais virtudes são quebradas, tudo irá ruir. Não que os anões considerem a ambição por riquezas e poder algo ruim, não, também é considerado uma virtude quando controlada e quando não afetada negativamente os outros a sua volta...Além disso, depois da queda de Erebor pelo dragão que foi atraído pela ganância exacerbada do antigo rei, avô de Thorin, a ambição passou a ser encarada com maior receio.
Thorin já estava retirando a sua túnica com movimentos mecânicos. Bilbo podia sentir a tensão tomando os ombros do seu amado a cada movimento.
— Hoje não poderei me ausentar no conselho... Dís não pode tomar o meu lugar no julgamento.
— Entendo... — Bilbo murmurou também se levantando, tomando cuidado para deixar travesseiros amparando o bebê.
— Eu voltarei logo e... — O hobbit tinha avançando e ficado a frente do anão e deixou que suas mãos amparassem o rosto sério e preocupado do primeiro rei.
— Nós estaremos te esperando. — Sorriu — Estamos seguros, Thorin... Nada irá acontecer. E se acontecer, deve lembrar que além de um bom cozinheiro e tradutor, também sou um eximo guerreiro! Garantirei a segurança da nossa família.
Thorin conseguiu emitir um sorriso, suas grandes mãos se colocaram sobre as do seu hobbit.
— Eu confio que você, Bilbo...Só que... Já perdi tantas coisas no passado. Esse reino, meus pais, meus avós, meu irmão... Não posso...Não conseguirei perder mais nada e me manter são...
— Thorin II Escudo-de-carvalho Durin. — Ralhou o menor — Você não irá perder nada! Você reconquistou o seu reino, protegeu sua família e ainda foi capaz de aumenta-la! O passado é necessário para nos tornar o que somos no presente, mas não devemos voltar nossos olhos somente para feitos que já ocorreram...Pense nas coisas que irão ocorrer em nosso futuro! Vá a esse julgamento, faça o que seu coração diz que tem que ser feito, retorne a sua família e avancemos em nosso futuro!
O rei anão deixou sua testa encostar na do seu amado, sentindo o calor do seu corpo...Isso o reconfortava...O relaxava...
— Já disse que te amo hoje? — Perguntou em um sussurro.
— Acho que não.
— Te amo, Bilbo Bolseiro-Durin.
— Também te amo, anão tolo. — Riu o hobbit dando um leve puxão em uma das tranças do se rei, o trazendo para mais próximo de si para que assim o beijasse...Primeiro beijou o seu altivo nariz para depois tomar os seus lábios. Uma coisa Bilbo havia aprendido em relação ao seu marido: Thorin nunca beijava superficialmente, seus beijos rapidamente evoluíam para algo mais profundo, algo que decididamente deveria ser destinado a intimidade do quarto e não a exposição pública, mas o primeiro rei parecia sempre esquecer desses fatos ou fazia questão de jogar o bom-senso pela a janela e se entregar totalmente ao seu desejo. Não demorou para a mão do anão começar a explorar o corpo do seu hobbit, se infiltrando por baixo da túnica de algodão do seu esposo, ansiando por sentir a sua pele macia.
O choro, entretanto, interrompeu o momento. Bilbo riu e Thorin soltou um suspiro tristonho.
— Quando todas essas coisas... — O segundo rei fez um gesto de espantar moscas com as mãos, claramente querendo representar o julgamento, punição e outros assuntos pertinentes — ... Forem resolvidas, podemos pedir para Ori e Dwalin servirem de babá por uma noite. O que acha?
— Uma noite só?
— Thorin... — Bilbo fez sua famosa voz de vou dar sermão, algo que o anão achava incrivelmente atraente (não que fosse revelar tal fato ao hobbit).
— Está bem. — Riu o rei indo amparar seu afoito filhote que choramingava pedindo atenção — Parece que ele acabou de nos deixar presentes dentro de sua fralda.
— Eu posso troca-lo, você deve estar atrasado para...
— Não. Eu quero fazer. — Disse o anão acalentando o filho, beijando com carinho a testa do pequeno. Bilbo sorriu com a cena, ainda mais por ver que Thorin estava mais relaxado e que o olhar frio tinha abandonando aqueles lindos olhos azulados.
~**~
Drogo andava rapidamente pelos corredores da Ala Real de Erebor, dormira demais, na verdade, aquela semana fora tudo menos um verdadeiro descanso... Suas noites foram preenchidas de pesadelos referente ao anão Glorin. Nos sonhos o referido anão ganhava e tomava Drogo para si, colocando uma coleira em seu pescoço, sendo essa presa a uma corrente de metal que estaria firmemente fincada na parede ao lado da grande cama de Glorin. Acordava ofegante e se sentindo sujo, passava horas no banho, tentando lavar a sensação fantasma do abuso que de fato não tinha ocorrido e nem iria ocorrer, mas isso não impedia que seu subconsciente reverberava a possibilidade do “SE”... Se Glorin tivesse vencido...Se não fosse encontrando nas minas por Kili...E outros Ses que fazem questão de atormentarem suas noites. Era uma grande tolice, sabia que devia abandonar tais medos sem lógica...Mas simplesmente não conseguia. Na noite anterior fora a único que conseguira dormir isso por que Kili o tinha visitado. Sim, recordava de terem passado a noite assando biscoitos e depois Drogo leu em voz alta um dos seus livros preferidos, deitando a frente da lareia tendo o jovem príncipe ao seu lado, fazendo comentários bobos e o fazendo rir... Fora uma noite maravilhosa e...Agora que uma nova manhã veio, Kili havia sumido.
— Ele nem ao menos esperou que eu fizesse o café da manhã... — Resmungou enquanto se direcionava para o quarto de Fili, o príncipe mais velho deveria saber o paradeiro do irmão fujão.
Bateu na porta e esperou, batendo o seu grande pé no chão com impaciência. Devido a demora, acabou por bater de novo... Será que viera tarde demais? Não podia esquecer que aquele dia era o julgamento de Glorin, mas não esperava que os príncipes já estivessem se direcionando para a sala do conselho, ainda faltava uma hora para a ocorrência do evento...
“Glorin seria condenado.” Pensou imaginando que se sentiria aliviado ao recordar do fato, mas a sensação de alivio simplesmente não o alcançava.
“Como posso ainda me sentir inseguro.” Criticou a si mesmo, não queria ser um fraco... Não podia se deixar vencer pela a sombra do medo, prometera a si mesmo ser um guerreiro e ao invés de ser sempre o protegido.
Levantou a mão para bater novamente quando a porta fora aberta, mas para a sua surpresa não fora Fili que atendera e sim...
— Legolas? — Drogo franziu o cenho, meio perdido. Como o príncipe elfo estava ali?
— Oh... Drogo! — Sorriu Legolas colocando uma mecha loira para trás de sua orelha pontuda, outro fato que notou foi que o príncipe estava meio que... Sem roupas! Bem, não totalmente, ele usava uma coberta azulada que o hobbit reconheceu como sendo pertencente a cama do príncipe herdeiro.
— Por Yavanna! — Corou de imediato ao deduzir a situação que tinha interrompido. Sua mente entrou em parafuso... Como agir agora? Devia pedir desculpas? Devia fugir e fingir que nada tinha acontencido? Sim, Legolas e Fili já haviam flagrado Drogo e Kili em um momento íntimo, mas mesmo naquela situação quase morrera de vergonha...
— Drogo! Respire! — Pediu o elfo preocupado ao ver a mudança rápida de coloração das faces do amigo.
— D-d-d-d-desculpe...M-mil perdões! — Choramingou o hobbit.
— Oh... — Legolas deu uma risada nervosa — Não se preocupe, nós já havíamos ...Er...Acabado...
— Acabado!? — Drogo não queria ser indiscreto, mas seus olhos navegaram pelo corpo do elfo, a coberta deixava exposto o tronco do príncipe de Mirkwood e foi ali que o Bolseiro cravou o seu olhar.
— Não tem a marca, como você pode notar. — Disse Legolas inferindo a ação do amigo.
— E-eu...Eu... Desculpe. — Desviou o olhar do peitoral sem a famosa marca que indicava a união das almas do casal. Marca essa que surgiriam assim que o casal fizesse amor pela a primeira vez...Tecnicamente falando: deve ocorrer a penetração!
— Não, está tudo bem. Nós não fomos até esse ponto... Tenho certeza que meu pai iria fazer mais do que me condenar a uma centena de anos de prisão domiciliar se soubesse que me deitei com Fili antes do casamento.
— Meio que você deitou comigo, Legolas. — Drogo ouviu uma voz atrás do elfo, este, por sua vez, ficou vermelho de imediato.
— Fili! — Ralhou Legolas — Eu falei deitar no outro sentindo! Estou usando eufemismo, anão idiota!
— Ui! Não é assim que deve falar com o seu futuro esposo! — Riu o príncipe anão que surgiu na porta, pelo menos estava vestido, para o alivio de Drogo.
— Eu falo com você do jeito que eu quiser, não é por que somos noivos que terá tratamento especial.
— Er...Acho melhor eu voltar mais tarde. — Sugeriu o hobbit, pois realmente sentia que estava incomodando.
— Oh! Não! Está tudo bem! — Interpôs Fili — Você veio aqui por um motivo, não é mesmo?
— S-sim. Era sobre o Kili... Você por acaso o viu? — Inqueriu timidamente.
— Hum... Confesso que não o vi desde de hoje cedo, quando ele... — O príncipe pigarreou como tivesse tentando disfarçar algo que iria dizer.
— Quando ele o que? — Insistiu Drogo desconfiado.
— Olha, era para ser uma surpresa...
— Surpresa, é? — O hobbit cruzou os braços diante do peito — Então, Kili estava escondendo algo de mim?
— Por que você mesmo não vai investigar a dita surpresa ?— Sugeriu Legolas antes que Fili falasse algo para encobrir o seu irmão mais novo — Posso te dizer aonde príncipe Kili está.
— Legolas! Kili me pediu para guardar segredo! — Falou aflito o anão loiro.
— Pois é...Mas Kili não me pediu para fazer essa mesma promessa, não é mesmo? — Piscou o elfo para Drogo que sorriu compactuando com Legolas.
Fili soltou um suspiro, desistindo de tentar discutir com o seu noivo...Pelo visto, pressentia que seu futuro estaria repleto de vitórias da parte de Legolas Greenleaf em relação a discussão por ele travada.
“Irmão, eu tentei...” Pensou se sentindo totalmente culpado, mas sabia que talvez fosse interessante que Drogo visse a surpresa logo, quiçá melhorasse o ânimo de todos em relação ao tenso julgamento que iria se iniciar.
~**~
A batida da porta foi ouvida e Bilbo, ainda embalando o birrento Frerin, se encaminhou para abri-la.
— Ori? Que faz aqui? — Perguntou não escondendo sua surpresa — Pensei que todos os membros da companhia estariam no julgamento...
— Pois é... — O jovem anão bibliotecário corou um pouco e os dedos nervosos puxavam a aba da túnica negra — Você não vai me convidar para entrar?
— Oh! Onde estão meus modos? Lógico que pode! — Nisso o segundo rei abriu ainda mais a porta e permitiu a entrada do seu melhor amigo anão.
— Deseja um pouco de chá? — Sua oferta quase foi abafada com as fortes cordas vocais do pequeno príncipe — Peço perdão... Frerin está mais chato do que o normal hoje, acho que pode ser cólica...Não sei ao certo.
— Pode ser o clima meio pesado de Erebor, li em um livro que infantes são mais sensíveis as mudanças de humor dos pais e como também do próprio ambiente a sua volta.
Bilbo soltou um suspiro.
— Devo concordar com essa informação. O ar da montanha está deveras pesado...
— Se quiser posso segura-lo e tentar distraí-lo. — Se ofereceu Ori.
— Bem, se aceitas o risco.
O anão deu um sorriso amável, algo que lhe era característico, e pegou o choroso bebê dos braços de Bilbo.
— A oferta de chá ainda está de pé.
— Irei adorar uma xícara. — Falou sorrindo novamente e sentando na mesa no centro do amplo quarto do casal Real de Erebor.
— Perfeito.
Quando o hobbit colocava a chaleira no forno, observou Ori cantando algo na língua anã para Frerin que aos poucos foi se acalmando.
— Você tem que me ensinar essas canções... Thorin também canta algumas baladas, mas ainda não consegui copia-lo...Acho que não consigo encontrar o tom certo.
— Nos anões levamos a sério as aulas de canto, mestre Bilbo... Afinal, é nas canções que contamos as nossas mais épicas histórias e relembramos nossas maiores perdas.
Bilbo assentiu, concordando.
— Mais um motivo para eu aprender essas coisas. Além do mais, vocês anões levam tudo muito a sério... Barbas, Roupas, Matemática e agora Canto?
Era para ser um comentário divertido, mas Ori abaixou os olhos e fitou o bebê em seu colo, evitando o olhar confuso que Bilbo lhe lançava.
— Ori... Aconteceu algo?
— Eu...Bem...Talvez eu não seja um melhor representante de minha raça...Digo...Deve notar que não sou um guerreiro e tão pouco me interesso muito por metais e gemas preciosas. Minha vocação sempre foram os livros e até mesmo tentei aprender élfico as escondidas ...
— Ori. — Bilbo sentou a frente do amigo — Existem diversos tipos de anões...Se todos fossem iguais Erebor já teria ruído a muito tempo! O reino necessita de anãos como você, com mente aberta e ávido por aprender... Ainda mais agora que estamos lutando contra os preconceitos da sociedade anã, preconceitos esses que foram até aproveitados por Glorin em seu plano de destituir o poder de Thorin. Não se menospreze, Ori! Não vejo Dwalin reclamando de seu jeito de ser...Alias, Dwalin seria o verdadeiro estereótipo de um anão: forte, desconfiado e cabeça-dura! E olha quem ele foi se apaixonar, hein?
Ori foi dominando por um rubor mais intenso, de modo que Bilbo ficou meio receoso que o amigo passasse mal...
“Dwalin nunca me perdoaria se algo acontecesse com o seu querido Ori, sendo eu o segundo rei ou não!”.
— V-você tem razão... — Sussurrou o bibliotecário — Mas...Será que estou errado em não querer participar do julgamento? Serei menos anão por não suportar ver a condenação Glorin? Não que eu tenha pena dele...Mas...Arrancar seus olhos, língua...E os dedos!?
— Besteira, Ori! Você continua sendo anão mesmo que se despisse e corresse pela a montanha, pelado cantando alguma balada élfica! Espera... Você disse os dedos? Que eu saiba a punição por traição consiste apenas na retirada dos olhos e no corte da língua, depois o condenado é jogado para fora da montanha em exílio. Não me lembro nada de dedos.
Ori o encarou com as sobrancelhas erguidas.
— Você não sabe?
— O que? O que não sei? — Franziu o cenho, confuso e levemente irritado.
“Thorin...Você me esqueceu de contar algo, querido?”.
— Glorin será julgado por dois atos abomináveis para a cultura anã...A traição a raça e tentativa de infligir dano a um infante anão. Você deve saber como para nós é difícil o nascimento de bebês...
— Sim, Oín fez questão de me enfatizar esse fato todo o santo dia durante a minha gravidez de Frerin.
— Pois é, por causa desse fato, para nós uma criança chega a ser tão preciosa quanto uma montanha do mais puro ouro! Glorin botou em risco duas crianças anãs...Frerin e Gmilin, logo é o dever sagrado de suas respectivas famílias puni-lo.
— E nesse caso, a punição seria?
— Decepar um dedo do infrator correspondendo a cada familiar afetado. Ou seja, no caso de Gimlin seria dois dedos: um para Gloin e outro para a sua esposa.
— Por Yavanna...No caso de Frerin?
— Seis dedos... Fili, Kili, Dís, Drogo, Thorin e você.
— Eu não sabia disso. — Falou levando a mão ao rosto, não queria imaginar, mas a imagem de um Glorin cego, sem língua e agora sem oito dedos veio a sua mente.
— Talvez, o primeiro rei não quisesse te contar...Ainda mais por que cada familiar teria direito de decepar o dito dedo. Thorin, provavelmente, irá cortar o dedo correspondente a você, Bilbo...E Kili tinha dito que iria cortar o dedo correspondente ao Drogo.
— Compreendo a sua decisão de não assistir esse julgamento. — Disse Bilbo, estava meio chateado por Thorin ter ocultado sobre a outra acusação a qual Glorin estava sendo julgado, mas mesmo se soubesse...O que iria fazer? Contudo, sua mente vagou para outra coisa que o incomodara nessa semana de “recesso”. Algo que atormentara suas noites...Um sentimento de dever não comprido e de dívida para as almas perdidas para o plano do anão egocêntrico e ganancioso.
— Me diga, Ori... Em relação aos familiares dos anões mortos nas minas. Existe algum tipo de indenização para eles?
— Bem...Er... Creio que eles ficarão honrados com a condenação de Glorin.
— Sim, mas...Eles perderam parentes, irmãos, pais, tios, primos...Enfim! Sei que a prisão e a condenação de Glorin é importante, mas essas famílias ficaram desamparadas! Glorin possuiu uma fortuna, não mesmo? Ela poderia ser repartida a essas famílias.
— Acho que nossa legislação não possuiu alguma lei que garanta essa repartição.
O apito da chaleira chamou a atenção de Ori e do bebê que começou a choramingar novamente, mas Bilbo parecia absorvo em pensamentos.
— Er...Bilbo... ?
— Me diga, Ori... O segundo rei teria autoridade para impor um decreto?
— B-Bem...S-sim, mas teria que ter a concessão do primeiro rei.
— Creio que Thorin irá concordar comigo nessa questão. — Nisso se levantou e se direcionou para o armário.
— Bilbo! — Clamou Ori, confuso.
A chaleira apitava de forma estridente.
— Sinto muito, meu amigo... — Falou enquanto jogava vestes sobre a cama, roupas destinadas a eventos oficiais — Mas terei que pedir para me acompanhar... Não sei como um decreto deve ser escrito, você deve ter mais experiência do que eu nessa área.
— Para onde? — O anão perguntou, temendo a resposta.
— A um julgamento.
~**~
Drogo estava praticamente sem ar ao subir as escadas para um nível superior, uma ala ainda em fase de reconstrução a qual recebeu as rajadas de fogo do dragão durante a sua invasão. Ali era aonde Kili estava escondido...Ocupado com a sua dita surpresa.
— Que frio. — Reclamou abraçando o próprio corpo, havia quartos cujas paredes estavam totalmente destruídas, logo o vento frio do inverno adentrava livremente. Estava tão ansioso para descobrir a verdade que esquecera de se agasalhar de forma adequada.
O corredor que se encontrava terminou em uma varanda e ficou totalmente abismado com a visão...Às vezes esquecia que estava dentro de uma grande montanha. Ali estava a paisagem privilegiada das terras em torno da Montanha Solitária. Tudo parecia tão belo...Como a natureza estivesse fazendo uma apresentação particular para seus olhos somente.
— Não entendo o motivo dos anões se enfurnarem na montanha quando poderiam vislumbrar essa paisagem maravilhosa aqui fora! — Disse sorridente.
— Ei! Falando assim até parece que nos anões somos estranhos...Só temos gostos peculiares.
A voz o fez despertar de sua contemplação. Drogo se virou para encarar Kili, o príncipe anão estava ao seu lado e...Estava todo sujo de terra.
— Por Yavanna, Kili! O que está fazendo? Sabe o quanto te procurei?
— Bem, ao final, você me encontrou, não é mesmo? — Disse o anão moreno com um sorriso maroto nos lábios.
— Me pouparia o trabalho se tivesse me dito aonde estava e ... — Percebeu que o príncipe usava luvas...Reconhecia aquelas luvas em qualquer lugar, pois eram luvas de jardinagem — Kili...
— Eu iria te contar, mas eu apenas comecei a trabalhar nesse projeto agora...Esperava que até a primavera eu tivesse terminado!
— Projeto?
Kili retirou uma das luvas e ofereceu a mão limpa para o confuso hobbit que aceitou hesitante.
— Estou retirando o piso da ala oeste da varanda, pretendo retirar todo o piso e transportar terra e adubo... Mas, devido ao inverno, creio que o trabalho vai ficar meio difícil, ainda mais se começar a nevar! — Tagarelou o príncipe guiando Drogo para a ala referida. De fato, grande parte do piso fora removido e havia um saco de terra e adubo apoiado em uma das paredes.
— Para que tudo isso?
— Thorin construiu uma estufa para Bilbo. Sei que vocês hobbits gostam de natureza e... Sei que você sente muitas saudades do Bolsão, do Condado. Quero criar um jardim para você...Aqui você poderá cultivar suas flores! Eu até mandei algumas cartas para Bard perguntando se ele teria sementes para roseiras e ele me garantiu que irá me enviar uma remessa o mais rápido possível e...
— Espera! Espera! — Drogo agitou as mãos diante do rosto de Kili o fazendo calar — Você está construindo um jardim para mim? Por que?
— Você não gostou da ideia? — A expressão no rosto do anão era de total desolação.
— Não seja tolo! Lógico que gostei...Só...Não entendi o motivo!
— Desejo corteja-lo... Eu ainda não fiz isso propriamente, como Fili fez com Legolas! Quero te cortejar para que assim...Possa te pedir em noivado! — Explicou Kili com convicção.
— Por tudo que é mais verde... — Sussurrou Drogo levando as mãos ao rosto já corado — Você está falando sério?
— Drogo... — O anão se aproximou do seu amado e deixou que sua testa encostasse na testa de Drogo. Seus olhos se encontraram, os castanhos fitavam com intensidade os azuis — Eu te amo... Sei que ainda somos jovens, mas o que sinto por você não é algo passageiro. Sonho com um futuro com você ao meu lado, como meu esposo! Não temo me deitar com você e ter a minha alma entrelaçada a sua...Pois eu já sinto que minha vida está ligada a sua. Quero que todos vejam o quão sério estou em relação aos meus sentimentos... Pretendo mudar! Juro que serei mais responsável! Serei o melhor marido que você poderá ter!
— Oh...Kili. — Lágrimas começaram a rolar pela a face avermelhada de Drogo — E-eu não quero que mude para me satisfazer. Eu te amo pelo jeito que você é... Sempre irei amar! Sei disso!
O príncipe sorriu e tentou conter as lágrimas do hobbit com os dedos, limpando o rosto do seu amado.
— Eu tenho que mudar um pouquinho, Drogo... Não quero ser sempre visto como um anão muito jovem para ser tomado a sério. Ainda mais, se meu irmão no futuro será rei...Tenho que estar ao seu lado, o apoiando! Quero me tornar mais forte, te deixar orgulhoso por estar ao meu lado como esposo.
— Quanto a isso não precisa se preocupar...Eu já estou orgulhoso. — Sorriu o hobbit.
— Então, você aceita o meu presente...Mesmo que ele... — Deu os ombros — Meio que não esteja pronto...
— Bem, de fato, ele ainda não está pronto... Difícil de avaliar. — Drogo coçou o queixo como estivesse pensando com seriedade sobre o assunto.
— Drogo... Por isso não queria que visse antes! — Choramingou fazendo biquinho.
— Mas...Eu também ainda não te entreguei um presente. Pelo visto, tenho até a primavera para te entregar algo e assim cumprir os requisitos de um cotejamento apropriado. Ainda mais, também desejo uma festa de noivado maravilhosa e a primavera seria a estação ideal...
Kili deu um imenso sorriso, tomou o pequeno hobbit nos braços e o levantou.
— Kili! Cuidado!
O príncipe não o ouviu, pois estava ocupado dançando com o seu embaraçado futuro noivo para se importar com algo irrelevante como ter cuidado.
Drogo gargalhou feliz... O fantasma de Glorin minguava em seu consciente a cada passo louco de dança que Kili fazia. Logo, os pensamentos do jovem Bolseiro estavam preenchidos de esperanças e planos futuros.
“ Que venha a primavera...” Desejou por fim, tomando os lábios de Kili em um profundo beijo.
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