Os dois reis sob a montanha
6 Lições na viagem e novos companheiros
Notas iniciais
Semanas tinham passado. Já tinham deixado a fronteira do condado e passado por Bree, contudo, Bilbo não pôde adentrar naquela cidade humana. Segundo Balin, a partir daquele momento a viagem ficaria perigosa; fora dos limites do Condado e longe dos domínios de Erebor. Agora eles estavam à mercê de bandidos, orcs, entre outros seres das trevas e de má índole, estariam sem a proteção dos anões que tinham ficado no reino do Condado. Desta forma, teriam que esconder o objetivo de tal pequena expedição, que envolvia escoltar o segundo rei de volta a Erebor. Dwalin ordenou os guardas anões para irem a Bree e comprassem provisões necessárias a longa viagem; o restante do grupo ficaria fora da cidade, esperando.
Bree era uma cidade cuja população era bastante diversa; hobbits, elfos, homens e anões adentravam e saiam de seus portões, constantemente. Era uma cidade que estava voltada para os viajantes, logo, não deveria ser muito segura. Rumores e boatos se espalhavam fácil por Bree, assassinos e caçadores de recompensa andavam por entre suas ruas enlameadas buscando trabalhos diversos. Sem dúvida, não era um ambiente seguro ao jovem segundo rei.
Bilbo suspirava, observando de longe a cidade; já estava anoitecendo e as lamparinas na rua estavam sendo acesas, as casas começavam ficar iluminadas, o cheiro de álcool e esterco vindo dos estábulos e tabernas dominava o ar. O pequeno hobbit estava curioso, nunca adentrara em alguma cidade do tipo; mas sabia que no momento não se podia dar ao luxo de saciar sua curiosidade.
– Então... Vamos continuar com seus estudos? – Perguntou Balin sentando ao lado de Bilbo – Enquanto os guardas retornam da sua pequena missão... Temos bastante tempo!
O Bolseiro assentiu. As aulas estavam se tornando rotinas constantes naquela viagem.
– Aqui está! – O velho anão abriu vários mapas, que trazia debaixo do seu braço, no colo do hobbit.
– O que é isso? – Perguntou Bilbo, analisando com curiosidade o material.
– Trata-se dos mapas de Erebor – Explicou – Estão mais para plantas, mostrando como é o nosso reino, por dentro da Montanha Solitária.
Bilbo ficou impressionado. Afinal, cada mapa mostrava incontáveis túneis, salas, quartos, corredores... Isso tudo estava debaixo da terra? Ele iria se perder, com certeza. O Bolsão podia ser construído debaixo de uma colina, mas não tinha tamanha proporção!
– Bem, esse mapa aqui é mais didático – Balin indicou um mapa de perfil da montanha, mostrando com se esta tivesse sido cortada ao meio.
– No topo da montanha, onde se encontram os níveis mais altos, é onde irás morar... Nesse nível é onde a família real reside! Devo explicar que Erebor é subdividido em níveis: que trata-se de andares a qual o interior da montanha foi lapidado e construído a nosso grande reino!
O hobbit notou que tal nível era o menor, se comparado aos outros, por se encontrar logo no topo da montanha. Pelo menos, parecia que iria residir em um local mais aconchegante e com menos túneis.
– Logo abaixo dele está o nível onde fica a sala do trono, salas de reunião, a biblioteca real e escritórios. Nesse andar é onde o rei mais fica. Afinal, é nele que se concentra as reuniões com o conselho dos lordes anões, onde o trabalho burocrático reside...
– Uma biblioteca! Vocês tem uma biblioteca? – Bilbo precipitou a felicidade, afinal adorava ler.
– Sim, mas temo que a maioria de nossos livros esteja em Khuzdûl. Mas... Ori é responsável pela a biblioteca e é um ótimo tradutor! Poderia traduzir alguns livros nossos para você... Se quiseres!
– Hum... Seria interessante. — Bem que Bilbo iria querer livros em Khuzdûl também, afinal queria aprender não só falar a língua secreta dos anões, como também escrevê-la e lê-la.
– Bem... No nível mais abaixo, se encontra as salas dos guardas reais e também salas de treinamento. Os guerreiros jovens ali residem para receber instruções iniciais, e é nesse nível também que ficam os guardas responsáveis por proteger a família real. No nível abaixo desse, se encontra a cozinha real e a sala de jantar. Para acessar esse andar pode ser feito direto do nível da residência da família real, ou seja, o primeiro, logo se quiser fazer suas refeições não precisaria passar pelos dois níveis que expliquei anteriormente. Nos níveis mais abaixo... Bem, como você pode observar, existem vários níveis, e cada um deles possui um objetivo. Há os níveis aonde residem os artesões, ou seja, as suas casas, outro nível onde reside a casa dos guerreiros, além de níveis destinados as forjas. Não irei me deter muito nisso, pois muitos desses locais você não irá ter muito contato. Nos níveis mais basais se encontra o comércio e a residência dos civis. E no nosso subterrâneo se encontram as minas, bem, essas se estendem por quilômetros abaixo da terra, existem diversos túneis e camadas... Mapas sobre elas devem ser refeitos constantemente, afinal desmoronamentos acontecem e novas áreas são escavadas diariamente.
– Oh... Isso é impressionante... – Bilbo estava era meio assustado. Balin só tinha lhe explicado, mais detalhadamente, os níveis aonde iria de fato viver, mas existem incontáveis níveis naquele mapa.
– Ligando os níveis existem escadas e elevadores — Continuou a explicar Balin, apontando para diversos pontos nos mapas. Depois, ele começou a explanar sobre o nível onde se encontrava o trono; Bilbo teria um lugar à esquerda de Thorin e deveria comparecer todos os eventos tradicionais. Mas nas reuniões de conselho não seria obrigatória a sua presença. Bilbo parcialmente agradecia por isso, mas ao mesmo tempo se sentia excluído; tais reuniões seriam onde, de fato, as decisões sobre Erebor aconteceriam. Porém ele, por ser estrangeiro, seria excluído; além disso, era obrigado a participar de eventos que são unicamente sociais e de aparência. Ele seria apenas um objeto a ser ostentado ao lado do primeiro rei de Erebor? Aquele que lhe conferiria herdeiros e somente isso? Suspirou tristonho, mas logo sacudiu a cabeça para tais pensamentos, não iria ser assim! Iria mudar tal futuro.
– Ah! Os guardas chegaram! – Falou Dwalin, interrompendo a aula, apontando para os quatro anões que se aproximavam cheios de provisões e alguns pôneis e um cavalo para o mago. A jornada iria recomeçar.
– Esperem. Eu... Eu irei montar em um pônei? – Perguntou o Bolseiro, meio inseguro.
– Ora... Sim! Por quê? Tens medo? – Perguntou Dwalin sorrindo, um tanto provocador.
– N-não! Lógico que não. E-eu só... Nunca montei em um antes! Nós hobbits preferimos andar. Por isso temos grandes pés! – E para enfatizar o fato, apontou para o seu pé cabeludo.
– Não esperas que irás andar daqui para Erebor a pé, não é? Isso seria impossível! – Riu Dwalin, descendo da colina onde estava para receber os guardas.
Bilbo, relutante, desceu também a encosta e se aproximou dos póneis.
– Isso não vai dar certo... – Resmungou, mas logo se viu levantado por Dwalin e colocado sobre um pônei – Ei! Espera! E-eu não sei... Como... Cavalgar!
– Tens bastante tempo para aprender. A viagem será longa! – Piscou o anão se afastando e indo montar no seu próprio pônei. Bilbo lançou-lhe um olhar irritado.
– Pensei que gostasse de aprender coisas novas! – Riu Gandalf, já montado em seu cavalo, ao lado de Bilbo.
– E-eu gosto. Mas... — O pequeno hobbit segurou as rédeas, ainda incerto no que deveria fazer.
– Será uma aventura! Sei que o Tûk dentro de você deve estar adorando! – Nisso, o mago dá um pequeno tapa no traseiro do pônei, com o seu cajado, o fazendo andar, para o desespero de Bilbo.
– Ah! Ah! Como eu faço ele parar?! Dwalin, socorro! – Gritava desesperado se segurando nas rédeas, tal como se pudessem salvar-lhe a vida; apesar do animal só estar dando pequenos passos.
Dwalin somente ria alto e Balin massageava as têmporas. Aquela comitiva, às vezes, poderia ser bem infantil.
~THEKINGANDTHECONSORT~
Em uma manhã, Bilbo observou que o Gandalf parecia entretido com o pássaro que estava pousado em seu cajado. O jovem hobbit até tivera a impressão de que o velho mago estava a conversar com o pequeno animal alado... O que deveria ser um tolice! O pássaro logo alçou vôo, deixando o mago pensativo fumando o seu cachimbo.
– Algum problema? – Perguntou Bilbo se aproximando do amigo.
– Nenhum, acredito. Eu definiria mais como algo que devo investigar... Se será um problema ou não, só depois de analisar com mais cuidado aí poderei concluir e gerar um conceito de mal ou de bom!
Bilbo estava confuso com tal resposta, o que significava?
– Sinto muito, jovem Bolseiro, terei que ir. – Falou por fim Gandalf.
– Hã? Por quê? – O menor estava extremamente triste com aquela noticia. Tinha se apegado ao mago. Este, ao longo da jornada, tinha sido o seu confidente, além de ter-lhe contado diversas histórias de seus pais, que o menor desconhecia.
– Como lhe expliquei... Tem algo a ser investigado! – Disse simplesmente — Mas não se preocupe, você não estará só. Logo terá um novo companheiro de viagem.Ou deveria dizer dois?
– O quê? Como assim? Espera, Gandalf! – Mas já era tarde; o mago já subia em seu cavalo e se despedia de Balin e Dwalin, que já estavam acordados fazendo o café da manhã.
– Novos companheiros... — Bilbo estava cada vez mais confuso com as palavras do mago; nunca entendia o que, de fato, ele queria dizer.
Mas no futuro, aquelas palavras iriam fazer sentido.
~THEKINGANDTHECONSORT~
– Dwalin, eu acho que eu poderia fazer o jantar! – Informou Bilbo ao ver o anão já começando a “cozinhar”; algo que o pequeno hobbit não considerava realmente palatável.
– Você poderia... Mas não deve! – Respondeu simplesmente.
– Mas... Eu sei cozinhar! Seria o mínimo que poderia fazer por vocês... Afinal, vocês me protegem... Me ensinam... – Tentou convencer.
– Fico honrado com essa atitude, mestre Bolseiro, contudo... É minha função lhe servir! – Piscou Dwalin, que parecia entender as reais intensões do mais novo. O menor tentou não fazer biquinho, afinal já não era mais uma criança que viu seu doce lhe ser retirado, por isso se afastou da fogueira e foi resmungar em algum local distante... No limiar do acampamento.
– Malditos anões e seus paladares estranhos. Além de não entenderem que hobbits fazem mais de 6 refeições diárias não conseguem fazer algo de fato gostoso! Se em Erebor a comida for igual a essa... Estou perdido! Não! Não! Eu vou fazer uma lei contra esse tipo de comida! – Resmungava, contudo suas lamúrias foram cessadas quando ouviu o som galhos quebrando, algo se arrastando...
– BILBO! – O grito de Dwalin foi o alerta necessário para o pequeno hobbit concluir que algo de ruim iria acontecer, mas antes que começasse a correr, sentiu sendo pego por algo. Na verdade... Abraçado. Fechou os olhos, temendo ter sido feito refém de algum monstro, orc ou qualquer coisa assim. Esse seria o seu fim? Não! Não podia se deixar que sua aventura terminasse antes mesmo que começasse, e além disso, tinha que proteger o Condado; se morresse, a aliança estaria desfeita! Tais pensamentos lhe deram coragem necessária para chutar o pé do seu agressor e lhe dar uma forte cotovelada, se libertando dos braços que o prendiam.
– AI! Isso doeu! – Choramingou uma voz desconhecida. Bilbo caiu de bunda no chão e se virou para ver quem o tinha pego; Dwalin e os guardas já empunham seus machados para o desconhecido encapuzado, que na verdade eram uma dupla.
– Eu te disse que não era uma boa ideia... — Falou um deles.
– Disse? Se me lembro, foi você mesmo que sugeriu... Essa ideia! – Resmungou o outro.
– Não me lembro te ter visto você recusar.
– Ora, de início parecia divertido. Eu não sabia que ele saberia contra-atacar!
– Isso foi bem interessante!
– Verdade.
– Devíamos fazer de novo, em outra oportunidade!
– Apoiado!
Bilbo estava boquiaberto. Como aqueles dois poderiam ter aquele tipo de conversa, quando cinco anões o rodeavam com imensos machados? Não temiam morrer? Dwalin suspirou e abaixou sua arma, se aproximou da dupla, e com um movimento rápido retirou o capuz de ambos. O pequeno hobbit se surpreendeu ao ver dois jovens anões, um de cabelos negros e outro loiro, ambos sorrindo, tal como crianças que foram pegas fazendo travessuras.
– ...O que vocês dois estão fazendo aqui? – Rosnou Dwalin.
– Irmão, eu tenho uma pergunta melhor... Thorin sabe que vocês estão aqui? –Perguntou Balin se aproximando da dupla, com o mesmo olhar reprovativo que o outro anão.
– Bem... – O moreno começou a falar, mas logo olhou para o seu companheiro.
– ...Nós deixamos uma carta! – Completou o loiro.
– Uma carta? Os dois príncipes de Erebor, saem escondidos, cruzam a Terra média, sozinhos e desprotegidos, e a única coisa que deixam para trás é uma carta? –Continuou a rosnar Dwalin. O anão parecia querer acertar a dupla com o machado, mas se conteve.
“Príncipes?” Bilbo ficou mais surpreso. Então aqueles dois seriam os sobrinhos de Thorin, os quais Balin havia lhe explicado na aula sobre a família real e os nobres... Eles não eram nada parecidos com que o hobbit tinha imaginado.
– Me digam... Qual é o objetivo de vocês? Afinal, para terem vindo até aqui... Deveriam ter um objetivo... — Tentou articular Balin.
– Ou não! Esses dois são um idiotas – Ralhou Dwalin — Aposto que fizeram isso só por diversão ou por que estavam com tédio!
– Não. não é verdade! Nós temos um objetivo. Não é, Fili?
– Sim, Kili! Nós viemos aqui com um grande objetivo.
– E qual seria? – Perguntou Dwalin, meio incrédulo.
– Conhecer nossa futura tia! – Falaram os dois apontando para Bilbo.
– Como é que é? – Agora era a vez do hobbit ficar irritado. Eles acabaram de o chamar de “tia”?!
– Ora, quando soubemos que o tio Thorin iria se casar... Nós ficamos surpresos! –Começou a falar o moreno.
– Nós fomos investigar e descobrimos que se tratava de um hobbit. Nós nunca vimos um hobbit antes! – Continuou o loiro.
– Pesquisamos na biblioteca e achamos umas histórias bem estranhas... De seres meio toupeiras que viviam em colinas!
– Ficamos assustados. Não queríamos que o tio Thorin casasse com uma toupeira!
– Por isso teríamos que ver o que de fato era um hobbit!
– Então, saímos de Erebor para encontrar vocês!
Bilbo já estava com o pescoço doendo, afinal tentava acompanhar a história observando a dupla acompanhando a fala de um e de outro. Aquilo era muito confuso.
– Eu... Não sou uma toupeira, como podem bem ver! – Resmungou Bilbo.
– Verdade! Você não é. – Sorriu um deles.
– Ainda bem... Thorin tem sorte!
– Mas... Se fosse comparar a um animal, você pareceria mais com um coelho do que com uma toupeira!
– Eu, definitivamente, não sou um coelho! – Disse irritado – E vocês, apesar de serem príncipes, não são nada educados. Nem se apresentaram! Me atacaram e ainda me insultam.
– Oh! Verdade... Não nos apresentamos! – Disse o moreno sorrindo de forma infantil –Eu sou Kili.
– E eu sou Fili! – Disse o loiro compartilhando o mesmo sorriso.
– Às suas ordens! – Os dois fizeram uma reverência, Bilbo suspirou. Agora entendia as palavras do mago... Não pôde conter um sorriso se formando em seus lábios. Sentia que a jornada seria um pouco mais divertida dali para frente.
– E eu sou Bilbo Bolseiro. Às suas ordens também. — Fez a mesma reverência que a dupla.
Dwalin temia que tal encontro só causasse mais problemas. Sentia em suas barbas que aqueles três juntos poderiam causar algumas confusões.
– Parece que nossa viagem... Não será tão tranquila quando imaginei... — Murmurou Balin acariciando sua barba branca, compartilhando as mesmas apreensões do irmão.
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