Os dois reis sob a montanha
5 Khuzdûl e Barbas
Notas iniciais
O ar da noite era reconfortante. O cheiro da relva fresca, o barulho do farfalhar das folhas secas das árvores; algumas delas se soltavam e bailavam ao vento. Sim, Bilbo observava tudo aquilo com alegria. Pelo menos diminuía o sentimento de saudade que já sentia de seu antigo lar. Só fazia dois dias que tinha deixado a sua casa em Hobbiton — capital do reino do Condado -, sua família e o único local que lhe era íntimo. Estavam a caminho de Bree, e o pequeno Breeder nunca tinha visto tais terras. Mesmo vivendo no Condado, nunca se aventurara para além da capital, afinal não era seguro com a invasão constante de orcs.
Agora, pela primeira vez, via tais terras. Suas terras. Era o seu reino, afinal. Inspirou fundo e começou a olhar a sua volta. Não muito longe, no alto de uma colina, estavam os anões que arrumavam o acampamento. Além de Balin e Dwalin, existiam mais quatro: seus nomes eram Floin, Dolin, Jour e Glin; eram os melhores anões guerreiros de Erebor, cuja missão era proteger aquela pequena comitiva em sua jornada. Contudo, Bilbo sabia que eles não pareciam estar gostando nada daquela dita missão. O hobbit pôde ouvir os resmungos entre eles em uma língua desconhecida, além de olhares reprovadores dirigidos a si. Até mesmo naquele momento, enquanto o quarteto rondava as imediações da colina, rindo e conversando entre si, ficavam silenciosos quando passavam pelo Breeder, sussurrando palavras estranhas. Bilbo já estava perdendo a sua paciência! Sabia que nem todos os anões pareciam concordar com aquela situação, mas não precisava servir de alvo para fofocas. Já iria se levantar e dizer algumas palavras para aqueles anões, contudo, fora detido por Gandalf, que estava sentado ao seu lado fumando o seu longo cachimbo.
– Bilbo, meu rapaz, por que esse semblante irritado? Não está gostando desta noite calma? Não está feliz que agora podes aproveitar as noites no Condado, tranquilo? – Perguntou alegremente.
– Sim. Eu estou feliz por causa disso – De fato, estava. Naqueles dias de viagem, notara presença de grupos de anões que viajavam ao longo das estradas e bosques do condado. Eles estavam caçando orcs e os expulsando do pequeno reino dos Hobbits. Como não poderia estar aliviado por causa disso?
– Então, o que te preocupas?
– Bem... Muitas coisas! Primeiro: como posso governar um reino de anões? É evidente que eles me odeiam! – Disse lançando o olhar para o quarteto de guardas – Se eu pelo menos soubesse que línguas eles estão falando...
– Oh. Trata-se do Khuzdûl, a língua sagrada dos anões. – Respondeu o velho mago, dando baforadas em seu cachimbo, ignorando a primeira pergunta do hobbit.
– Então, eu devo aprender essa língua? Afinal, sou o segundo rei! – Disse o menor já ávido para aprender. Sempre fora curioso com relação a línguas.
– Receio que seja algo um pouco complicado...
– O que? Trata-se de uma língua difícil?
– Não é isso. Bem... Por que não pergunta a Balin? Ele é o responsável pelo o seu “treinamento”, não é mesmo? Acho que já seria o momento de iniciar seus estudos dentro da cultura anã! – Disse apontando para o alto da colina, onde uma fogueira já tinha sido acendida.
– Certo. Acho que estás certo! – Nisso, subiu a colina. A cultura dos anões era algo de que tinha total desconhecimento. Apesar do Condado ser um reino que dependia de Erebor, havia poucas informações sobre os anões. Parecia que eles não gostavam de trocar ou de exaltar a sua cultura, diferente dos elfos. Ah! Bilbo tinha fascinação por elfos, desde criança queria conhecê-los. Sua mãe sempre lhe contava histórias sobre aquele povo, havia diversos livros no Bolsão sobre eles... Afinal, os Bolseiros partilhavam uma linhagem élfica; isso estaria relacionado com a possibilidade de seus descendentes se tornarem Breeders, sendo uma característica partilhada pelo o povo élfico.
– Oh. Jovem Bolseiro, já estamos preparando o jantar! – Falou Balin, indicando o caldeirão que fora posto ao fogo por Dawlin. Bilbo suspirou ressentido. Uma coisa de que não iria se acostumar, era da comida feita por anões! Até o fim daquela viagem teria de pensar em um modo de tomar a posição de cozinheiro; afinal, um hobbit preza muito por uma boa refeição, algo que os anões pareciam não entender muito bem.
– Não, não vim devido ao jantar. Na verdade, queria saber... Quando vão iniciar as minhas aulas?
Balin sorriu.
– Mas já? Está tão interessado assim?
– Ora. Não deveria? Afinal, vou viver dentro da sua cultura! Tenho que saber! – Disse se sentando em um pequeno tronco velho caído, próximo a fogueira.
Dwalin deu uma risada, enquanto jogava alguns pedaços de carne salgada na dita “sopa”, a qual Bilbo observou de forma reprovativa.
– Se o pequeno quer aprender sobre anões, quem somos nós para negá-lo esse conhecimento, não é mesmo, irmão? –Disse.
– Tens razão... – Concordou o anão de cabelos e barba esbranquiçados – Então, mestre Bolseiro, tens alguma pergunta a fazer? Talvez, a partir dela possamos iniciar as nossas aulas.
– Sim, eu tenho! Quero aprender Khuzdûl! – Falou firme. Os outros dois anões paralisaram com aquelas palavras e se entreolharam. Bilbo ficou confuso, falara algo de errado?
– Infelizmente, não cabe a nós ensiná-lo. — Falou Balin, depois de um longo silêncio pelo qual o anão parecia analisar o que deveria dizer ao menor.
– Ora, e por que não? É tão difícil assim? Eu sou muito bom com línguas!
– Creio que és um hobbit bastante inteligente, de fato! Entretanto, o ensinamento do Khuzdûl não está relacionado com o grau de dificuldade... Essa língua é algo sagrado para nós, não ensinamos para indivíduos não-anões.
– Espere um pouco. Eu sou o segundo rei de Erebor, reino dos anões, e não posso aprender a língua do povo que irei governar? – Perguntou incrédulo.
– Infelizmente, como eu disse antes, não cabe a nós lhe ensinar. Se o conselho e o rei aprovarem... Posso ensinar, contudo, até lá, não posso.
– Então, como irei me defender? Como vou saber se estão me insultando? – Rosnou lançando olhares para os guardas que estavam na base da colina – Eu acho que tenho esse direito, não?
Balin não respondeu; parecia inseguro no que dizer.
– Sinto muito, majestade. Mas essa é nossa limitação... — Disse por fim, derrotado.
– E quanto aos guardas — Agora era a vez de Dwalin falar – Se eles falarem algo de ruim referente a você, lembre-se do que falou para mim quando saímos de sua casa: que iria provar o seu valor por meio das suas ações. Logo eles irão ver que é um rei digno.
Bilbo corou. Ver Dwalin falando assim tão francamente o deixava desconcertado, principalmente porque o pequeno hobbit não achava que de fato fosse digno de ser um rei.
– Então... O que posso aprender?
– Acho que uma lição inicial ideal seria falar sobre barbas! – Falou o anão mais velho sorrindo.
– O que? Barbas? – Bilbo estava confuso. Ele não devia estar falando sério.
– Para nós, anões, as barbas são muito importantes! Simbolizam nossa honra, maturidade e relações familiares...
– Relações familiares? – O jovem Bolseiro estava cada vez mais confuso.
– Sim, para vocês Hobbits deve ser meio estranho. Afinal, como uma simples barba pode ser tão importante, não é? Mas, deve-se levar em conta que seu povo não apresenta barba... Não é verdade?
Bilbo confirmou com a cabeça. Sim, nos hobbits, de forma geral, só cresciam pelos na cabeça e na parte de cima dos pés.
– Para nós, anões, a barba tem sua importância; tanto estética quanto simbólica. – Explicou, enquanto alisava a própria barba. Logo mostrou uma trança presa no final com uma estrutura cilíndrica, semelhante a um broche, que era adornado com pedras preciosas e apresentava escrituras e desenhos talhados a ouro. Era muito belo. – Trançar nossos cabelos e barbas é algo especial. Só deve ser feito por membros da família ou amigos muito próximos. Um estranho tocar nossas barbas, e tais tranças e broches, trate-se de um ultraje que pode até levar a duelos e que culminam na morte. Deve-se lembrar disso!
O Bolseiro assentiu com a cabeça e fez uma nota mental: “Nunca tocar na barba de um anão”.
– Como você está casado com Thorin, vai ter que aprender a fazer tranças nas barbas e cabelos dele. Pois, és o esposo e terás essa função! Se desempenhar errado tal função, a imagem do nosso rei irá sofrer e ele pode ser ridicularizado.
– Entendo... — Suspirou Bilbo, meio irritado. Agora teria que cuidar da barba e dos cabelos de seu “marido”? Que mais coisas teria que adicionar à sua lista de deveres “reais”?
– Por isso, terás que treinar! – Balin se aproximou e olhou os cabelos do menor – Todavia, seus cabelos ainda são muito curtos para fazer tranças...
– Bem... Cabelos de hobbits costumam ser curtos! – Se defendeu.
– Vais ter que deixar crescer. Não muito! – Acrescentou logo ao ver o olhar bravo do Hobbit – Só o suficiente para fazer algumas trançar e colocar os broches que representam a família de Thorin. Eles irão indicar que estás casado com ele, além de indicar sua posição social. É algo importante!
– Certo, certo. Mas com quem devo treinar?
– Hum... — Balin olhou para os lados e logo sorriu animado para o irmão mais novo que deixou a colher cair na sopa ao notar aquele olhar.
– Não! Não! Balin! – Falou o anão maior, gesticulando, consideravelmente rápido, com as mãos.
– É para um bem maior! Nosso jovem rei precisa aprender. Somos seus professores!
– E por que não você?
– Eu irei ensinar como ele deve fazer, preciso de um voluntário. Os guardas não irão aceitar que Bilbo toque nas barbas ou cabelos deles... Não queremos iniciar uma briga dentro do nosso grupo, não é mesmo? Ou tens algo contra ao Bilbo tocar em seus cabelos?
– N-não. Digo... Ele é nosso rei!
– Então, não tem problema nenhum! – Sorriu o irmão, pegando a mão do outro, o aproximando do hobbit.
– Se ele está desconfortável com relação a isso... Podemos deixar para depois. — Tentou argumentar Bilbo.
– Não, não se preocupe. Dwalin se sente honrado em ser voluntário! – Disse o anão mais velho, forçando o irmão a se sentar no chão ao lado do tronco onde o hobbit estava sentado.
– Voluntário? Seu conceito sobre voluntário deveria ser atualizado – Resmungou. Mas bastou um olhar de Balin para que o anão se calasse.
– Bem... Eu... Eu nunca fiz uma trança antes. — Confessou Bilbo.
– Por isso vou te ensinar. Não se preocupe, tens muito tempo para aprender! – Nisso, Balin já pegara uma mecha dos cabelos negros do irmão e desfez com rapidez uma trança.
– Refaça – Mandou.
O menor engoliu em seco e começou, debilmente, a cruzar os fios de cabelos do anão. Agora tinha certeza, a cultura dos anões era deveras estranha e mais complicada do que imaginara.
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– E como foi a aula? – Perguntou o mago depois do jantar, quando todos se preparavam para dormir.
Bilbo não respondeu e apontou para Dwalin. O pobre anão estava cheio de tranças estranhas e mal-feitas; os guardas pareciam conter as risadas ao ver o estado dos cabelos do outro. Contudo, o olhar mortal de Dwalin era o suficiente para os calarem. Bilbo não entendia por que Balin não desfizera aquelas tranças e as consertou. Ele dissera que era uma honra para o seu irmão mais novo ter o cabelo trançado pelo segundo rei e desta forma devia mostrar os trabalhos iniciais do pequeno hobbit para todos. Na opinião do Bolseiro, aquilo deveria ser uma espécie de castigo.
– Bem, não está tão mal... — Disse Gandalf – Tenho certeza que até chegar a Erebor já terás aprendido.
– É. Mas não Khuzdûl. – Resmungou, ainda meio contrariado com aquele fato.
– Hum... Pelo o que me lembro, do que sua mãe me falava de você, sempre tivera uma facilidade com línguas. Aprendeu Elvish sozinho, não?
– Sim. Aprendi! – Confirmou Bilbo orgulhoso pelo fato.
– Desta forma... O que lhe impede de aprender Khuzdûl sozinho? – Arqueou as sobrancelhas o velho.
Bilbo sorriu, compreendendo o que o mago queria dizer.
– Obrigado pelo conselho.
– Mas tenha cuidado, Balin deve ter explicado como Khuzdûl é importante para os anões...
– Não se preocupe, vou guardar bem esse conhecimento. E vou usá-lo quando extremamente necessário! – Sorriu confiante.
– Boa sorte no seu aprendizado. Sei que Khuzdûl é uma língua muito difícil.
– Gandalf! Deveria saber que por ser parte Tûk, gosto de desafios! – Piscou o menor, se despedindo e indo para a sua tenda para dormir.
– Sim, de fato. Não posso me esquecer disso! – Riu consigo mesmo o velho mago, voltando a acender o seu cachimbo com magia e a observar a noite.
“Thorin poderá ter algumas surpresas com relação ao seu pequeno esposo...” Pensou, já imaginando confusões futuras.

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