Os dois reis sob a montanha
65 Início do Festival
Notas iniciais
Festival Yule. Bilbo ainda não tinha formulado uma opinião sobre a dita festividade. o que realmente o incomodava era saber que tal festival tivera origem no Condado e ele, sendo um hobbit, pouco sabia a respeito do mesmo. Talvez nos livros da biblioteca do Bolsão tivessem alguma informação, antes do incêndio...
Lembrar do Bolsão fazia reviver sentimentos paradoxais de nostalgia e tristeza. E pelo visto, o Festival Yule não era para trazer rancor e sim alegria durante os meses invernais.
“Bem, não adiante ficar se amargurando a falta de conhecimento e fatos passados! “ Pensou decidido enquanto vestia o seu novo casaco de inverno. Thorin tinha ordenado aos alfaiates reais que manufaturassem uma nova coleção de vestimentas para Bilbo e seu primo Drogo, já que, pelo visto, os hobbits eram muito sensíveis as baixas temperaturas dos meses de inverno.
O novo casaco (azul, lógico) era confortável, de modo que permitia o segundo rei sair do seu quarto, quentinho devido a lareira sempre acesa e o forno sempre ativo, afinal, Bilbo, para compensar seu autoexílio (ou hibernação como Kili e Fili gostavam de definir) concentrava o seu tempo cozinhando e fazendo chá!
— Bem...Hora de ver como ficou a sala depois da “arrumação” feita por seu papai! — Anunciou para o seu bebê, que pacientemente esperava para ser pego. Frerin estava entretido brincando com o seu dragão, presente dado Bifur. Brincar para o jovem príncipe podia ser traduzido em babar todo o brinquedo.
— Vamos! — Carregou o pequeno, que aliás também tinha ganhado roupas novas que combinavam com as vestimentas de Bilbo. Thorin realmente parecia se importar com esse tipo de coisa. Anões e suas modas...
Frerin segurou firmemente o rabo do seu brinquedo e se deixou ser levado pelo seu papa, soltando resmungos inteligíveis. Oín estava impressionado com o desenvolvimento do infante, mas, como Bilbo já o tinha explicado, Hobbits se desenvolviam muito rápido, com de sete meses já estavam dando os primeiros passos e com um ano, corriam e tagarelavam pelos campos do Condado. Frerin, por ser mestiço, deve ter um desenvolvimento intermediário entre as duas raças...Pelo visto, segundo o médico real, os bebês anões demoravam quase um ano e meio para andar e falar.
Os dois seguiam pelo corredor. Contudo, uma das grandes portas de madeira se abriu revelando que eles teriam companhia...
— Bilbo! — Drogo estava usando, também, suas novas roupas. Um longo casaco de coloração azulada, porém, ao contrário do azul intenso e escuro que representa Thorin, aquele azul era mais claro como a tonalidade muito semelhante ao céu claro, sem nuvens, da primavera.
— Bom dia. — Sorriu o Bolseiro mais velho — Não sabia que gostava de azul? Sempre pensei que a sua cor preferida era o verde ou o marrom.
O questionamento e o comentário geraram, como consequência, um súbito rubor no rosto do outro hobbit.
— B-bem...Gosto de outras cores também...Ora... — Resmungou.
— Lógico que aqui, em Erebor, cores parecem significar mais coisas. Anãos, como pode ter percebido, gostam de complicar coisas simples...Tal como a etiqueta no trato capilar e até mesmo criam cores únicas para representar certos indivíduos importantes, tal como reis... Ou mesmo príncipes...
O rubor assumiu um maior grau de vermelhidão.
— Primo Bilbo, se você quer insinuar que a cor que visto representa o Kili, basta perguntar. — Disse Bilbo soando mais como um resmungar do que uma fala propriamente dita.
Bilbo sorriu, erguendo a sobrancelha.
— Creio que você vai me responder de uma forma ou outra...
— Pois é, essa cor representa o Kili sim! — Falou o menor que, no momento, parecia mais um tomate maduro do que um Hobbit — As roupas que recebi, a maioria, é dessa cor! Kili exagerou consideravelmente nisso...Digo, pelo menos devia colocar um pouco mais de variação, mas não! Só azul claro!
O segundo rei riu com aquela explosão por parte de seu primo.
— Ora, você irá casar com um anão...Então, melhor se acostumar com essas atitudes. Lógico que você pode exigir uma variação de coloração! Eu faço isso com Thorin. Aliás, ele até veste laranja de vez em quando.
Agora foi a vez de Drogo rir do fato. Sem dúvida tinha visto um desses dias que o primeiro rei de Erebor optava por vestir uma roupa diferente do comum azul escuro. Laranja e Thorin pareciam não combinar muito bem...
— Você... Hum... Não é contra o meu casamento com Kili? — Inqueriu o jovem Hobbit, de forma hesitante. Afinal, tinha protelado uma conversa sobre esse assunto em específico com o seu primo já fazia semanas. Temia que a opinião de Bilbo fosse negativa quanto ao pedido de casamento.
— E por que eu iria ser contra? Era obvio, que cedo ou tarde, isso iria acontecer! Vocês podem ser jovens, mas é mais do que evidente que se amam... Ainda mais, você tem sorte de ter podido escolher o seu marido e não ter sido forçado a um casamento arranjado.
— Bilbo... — Drogo fez um cara triste o que foi acompanhado por um gemido irritado de Frerin.
— Ei! Eu não estou reclamando de minha situação! Eu amo Thorin! Todavia, não podemos negar que a situação que culminou em nosso casamento não foi uma das mais românticas. Não podemos esquecer que nossa união foi essencial para retomada da aliança entre o Condado e Erebor...E ainda têm aquele contrato idiota que assinei... Mesmo que saiba que Thorin não seria tolo em impor as clausulas do contrato! Ele sabe das consequências...
— Sem scones? — Indagou sorrindo, Drogo.
— Isso. — Piscou divertido, Bilbo — Entre outras coisas mais...
A insinuação do primo foi logo compreendida pelo Bolseiro mais novo que, novamente, corou.
— B-bem...Eu fico feliz que me apoie...
— Drogo, lógico que irei sempre te apoiar. O que mais desejo é a sua felicidade!
Drogo sorriu para o primo, estava quase chorando. Um alivio tomou conta do seu peito. Se Bilbo estava ao seu lado, não temeria em dar mais um passo rumo essa nova fase de sua vida.
Frerin fez cara feia, provavelmente aborrecido por não ser o centro da atenção, com seus bracinhos estendidos pediu colo para o seu tio Drogo.
— Que mimado! Viu? Isso foi herdado de Thorin e não de mim! Anões fingem ser durões como rochas, mas são todos moles e dengosos por dentro! — Reclamou Bilbo entregando o seu filho para o primo, que o recebeu com alegria.
— Ele é um pequeno príncipe, deseja atenção.
— Hunf! — Resmungou o primeiro rei, agora observando Drogo acalentando seu filho, uma nova questão veio a sua mente.
— E filhos? Você e Kili estão planejando algo a respeito disso?
— Bilbo! — Exclamou Drogo.
— O que? Isso é uma pergunta legitima. Já o quão ativos vocês parecem ser...
— N-nós n-nunca...Fizemos...Tipo...Você sabe!
— Isso eu sei, pois se tivessem feito a marca estaria gravada no seu peito. Mas, para sentir prazer não é necessário a penetr...
— Ah! — Drogo tentou tapar as orelhas de Frerin que sorriu divertido, balançando o seu dragão de brinquedo — Bilbo, por Yavanna! Isso não é uma conversa apropriada para se ter na frente do Frerin.
Bilbo rolou os olhos com aquilo, mas resolveu deixar aquela discussão para depois.
— Mas...Se tivéssemos um filho...Eu já pensei em um nome. — Confessou Drogo depois de um tempo.
— Oh! Sério? E qual seria? — Inqueriu, com interesse.
— Frodo... — Sussurrou um tímido sorriso nos lábios.
— Parece um belo nome...
Drogo apenas assentiu, ainda mais tímido, uma característica que Bilbo achava particularmente adorável.
— Ah! — Uma voz alegre se fez ouvir no corredor, um príncipe anão que ambos conheciam. Frerin soltou um gritinho animado. Afinal, conhecia muito bem uma de suas babás preferidas.
— O que estão fazendo aqui? Tio Thorin está quase tendo um ataque de ansiedade! E ele está descontando em mim, já que Fili conseguiu escapar com a desculpa de estar recepcionando a comitiva élfica... — Choramingou Kili indo ao encontro deles.
Não demorou para Frerin pedir colo para o primo.
— Ohh! Só Frerin me apoia! — Dramatizou o príncipe que pegou o pequeno de Drogo, e logo começou a brincar com o infante, lançando no ar e o pegando. Frerin gargalhava entusiasmado.
— Cuidado! — Reclamou Bilbo, apesar de saber que os anões são muito habilidosos com as mãos, de tal maneira que raramente deixando um instrumento ou arma escorregar das mesmas. Mesmo assim... Bilbo ainda sentia um receio!
— Por que a demora...? — Resmungou alguém, agora o próprio primeiro rei foi escolta-los rumo a sala reformada — Vocês preferem o corredor, é isso?
Bilbo sorriu, Thorin estava tão animado em relação ao Festival Yule, mesmo com aquele rosto bravo e os resmungos, conseguia ver que ele desejava mostrar a sua família as decorações...
“Parece uma criança querendo mostrar seu melhor desenho aos pais...” Pensou o segundo rei indo de encontro ao seu marido.
— Já estávamos indo! — Disse segurando o braço de Thorin com afeto. Com aquele gesto, Bilbo conseguiu que um sorriso se formasse na carranca irritada.
O grupo seguiu para o corredor rumo a sala donde estaria a árvore.
— OH! — Sim, Bilbo não pode conter a som admirado ao ver a árvore que antes achara destoante dentro de uma sala e, principalmente, dentro da montanha. Entretanto, agora... A árvore estava toda decorada com esferas coloridas de vidro, encrustadas com pedras preciosas. Era lindo. Sem falar que a sala toda estava decorada com estrelas prateadas. A lareira estava acesa, grandes sofás foram dispostos ao redor da lareira.
— Isso...Isso é...Lindo... — Balbuciou Drogo, igualmente admirado.
Havia uma mesa de carvalho donde havia bolos em formato cilíndrico, parecendo um tronco de madeira, a qual, Bilbo notou, serem de diversos sabores.
— Bombur fez questão de fazer algumas receitas para a ocasião. Ori conseguiu recuperar um livro parcialmente queimado...Ali continha receitas do Festival. Isso inclui bolos, tal iguaria só era feita no Festival... Esse bolo, por exemplo, se chama Lenha de Yule— Explicou Thorin.

— Então, anões sabem assar bolos, agora? — Inqueriu, interessado pegando uma faca e cortando o bolo, o interior era de coloração castanha e outro amarelado, formando camadas concêntricas bicolores, pelo cheiro, Bilbo já sabia o que era — Oh! Chocolate! E creme de manteiga!
— Sério? — Drogo praticamente estava salivando — Quando você diz chocolate, você fala que que isso é formado por sementes torradas de cacau? Quase não existe cacaueiros no Condado! Tipo, só na fronteira ... Os Tûks eram os únicos que cultivavam!
— Sim! Esse chocolate! — Bilbo pegou um pedaço e comeu. Deve admitir que não foi muito delicado quando enfiou o bolo na boca. Fazia anos que não comia chocolate. Com os ataques de Orcs, que ocorriam com mais frequência nas fronteiras, as plantações de cacaueiros foram negligenciadas, logo, o chocolate era escaço.
— Hummm! — Gemeu com jubilo Drogo e Bilbo.
Thorin e Kili, por sua vez, lançaram olhares nada castos para os seus Hobbits.
— Por Mahal! — Ralhou alguém — Se controlem, para o bem de Frerin!
Era Dwalin e ele não estava sozinho.
— Frerin! — Uma criança anã adentou, indo para Kili todo sorridente — Estou me apresentando para o retorno a m-minha... Er...
— Função, Gimli. — Uma anã falou, ela possuía cabelos encaracolados castanhos claros, quase ruivos e um sorriso afetuoso. Aquela era Cirina, esposa de Gloín e mãe do pequeno Gimli.
— Isso! Minha função como seu guarda! — Falou o garoto, estufando o peito.
Frerin, ainda no colo de Kili, apenas jogou o seu dragão para a criança anã que a pegou todo sorridente.
— Acho que o jovem príncipe aceitou o seu retorno ao serviço, Gimli. Parabéns. — Anunciou Glóin, o anão sorria de forma carinhoso para o filho e sua mulher.
— Yeah! — Exclamou animado, Frerin também soltou algo muito semelhante a um gritinho de animação, terminando em um arroto. Fazendo que todos rissem.
— Cirina... — Bilbo foi logo abraçar a anã, afinal, eram amigos. Bilbo admirava a esposa de Glóin, pois ela era a chefe artesã da oficina de ferramentas destinadas a mineração, isso significava que ela mandava em diversos anões rabugentos que tinham que engolir o fato que uma mulher anã era mais habilidosa que eles na confecção de ferramentas. Anões gostavam que suas mulheres participassem de atividades que incluíam gerenciar o lar e os filhos. Mulheres eram preciosas para os anões, já existiam tão poucas... Por isso, como verdadeiras joias de seus tesouros, as deixavam longe de tarefas consideradas perigosas ou por demais desgastantes. Cirina quebrava esse padrão... Como a própria princesa Dís, era uma forte e determinada mulher anã.
— Bilbo! Que bom que saiu da hibernação. — Disse a anã.
— Eu não estava hibernando! Por tudo que é verde, que boatos meus sobrinhos espalharam por Erebor? Hobbits não hibernam! — Reclamou o segundo rei, lançando um olhar de alerta a Kili que, ao seu turno, começou a assobiar uma canção alegre.
— Você tem que ver como Erebor está enfeitada! — Disse Ori, que também tinha acompanhado o grupo — Tudo tão lindo!
— Eu pretendo ver tudo... — Garantiu Bilbo ao amigo. Agora era ele que estava ansioso por saber mais sobre aquele Festival — Tudo mesmo!
— E teremos o prazer de mostrar isso. — Garantiu Thorin se aproximando e dando um beijo na testa do seu esposo — Esse não será só o seu Festival Yule...Mas, o primeiro Festival desde a reconquista de Erebor...Será algo especial para todos nos.
Bilbo assentiu, emocionando. Podia sentir o clima de festividades, alegria e esperança. Será que esse era o objetivo do Festival? Talvez o inverno não fosse algo tão ruim assim...
— Primo Bilbo...Se você não se apressar eu e Gimli iremos comer todos os bolos! — Importunou Drogo que, até o momento, só estava comendo, sendo que agora tinha um parceiro glutão para o acompanhar...Gimli comia com um entusiasmo contagiante. Era bom ver que aquele pequeno tinha se recuperado do evento mórbito que presenciara nos tuneis.
— E-esperem! Eu sou o rei! Vocês devem esperar por mim!
Drogo, Gimli e agora...
— Dwalin?! Como ousa?
O seu guarda pessoal tinha pegado uma grande fatia de bolo e enfiado, sem hesitação, na boca.
O anão apenas deu os ombros e sorriu de forma provocadora.
— Para quê tenho um título se não tenho o mínimo de respeito! — Resmungou enquanto corria para a mesa, pronto para batalhar por seu chocolate.
Aquele era apenas o início do Festival Yule...E já estava adorando!
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