Os dois reis sob a montanha
34 Fuga para Valfenda
Notas iniciais
Cap: Fuga para Valfenda
– De novo! – Bradava Glóin, forçando Kili a aguentar outro ataque de Drogo. Não que fosse difícil se defender do pequeno hobbit, mas por ser inexperiente os ataques eram meio imprevisíveis, como agora: o jovem Bolseiro tropeçou e a sua espada voou no ar quase acertando o pé do príncipe, que emitiu um gritinho de susto. Glóin gargalhou alto com a cena. Fili, que observava tudo do alto da colina, mordia o lábio inferior para não rir, afinal sabia que o irmão nunca o perdoaria caso o visse rindo.
– Pelo menos eles finalmente se desculparam... — Falou Legolas, que também observava a cena com atenção – Menos um problema para nos preocuparmos.
– Não creio que essa será a ultima briga entre eles – Disse Fili dando os ombros.
– Realmente. – Concordou o elfo – Eles ainda são jovens, têm muito que aprender.
– Não fale como fosse tão velho assim. Sei que vocês elfos vivem bastante e envelhecem mais lentamente, contudo você tem a mesma mentalidade que a minha, logo estamos na mesma idade mental. Desta forma, concluo o meu raciocínio com a seguinte afirmação: não somos tão diferentes de Kili e Drogo.
– Hã? Mesma idade mental? Mesma mentalidade? – Legolas cruzou os braços diante do peito – Eu não tenho não! Melhor repensar essa teoria maluca!
– Givasha, admita... Não tem nada de errado em estarmos no mesmo nível. – Riu Fli ao ver que o seu amado estava se controlando para não fazer biquinho. Franziu o cenho no mesmo momento e disse:
– Nossa diferença de idade... Não te preocupa? – Perguntou.
– Hã? Ah, por quê, eu deveria?
– Bem... Elfos são imortais. – Legolas praticamente sussurrou essa última parte. Fili sentiu um peso em seu peito. De fato aquilo era a verdade, e uma das principais diferenças entre as suas raças.
– Nós anões vivemos muito, se comparada a outras raças, e além disso, o futuro é imprevisível. Quer um exemplo? Minha mãe se casou muito jovem com um anão andarilho de nome Vili. Ele não advinha de uma família de nobres ou algo do tipo, mas naquela época, após a queda de Erebor, poucos ligavam para a linhagem real de Durin. Meu tio Thorin trabalhava o dia todo como ferreiro e minha mãe o auxiliava nas entregas. Vili se apaixonou por ela, apesar de meu tio ser contra por achar que Dis era muito nova para se casar... Você ainda não conheceu a minha mãe, não é? Pois, ela é uma anã muito forte, capaz de fazer até o próprio rei de Erebor se curvar às suas vontades. – Riu baixo. Legolas, por outro lado, tremeu um pouco. Será que conseguiria impressionar a princesa anã? A queria como aliada e não como inimiga – Enfim, Dis conseguiu casar com Vili, Em poucos anos de casados eles já tinham dois filhos, o que é era uma raridade para os anões, já que nossa fertilidade e taxa de natalidade são muito baixas. Muitos imaginaram que aquilo era um sinal de boa sorte para a linhagem dos reis... Mas eles estavam errados. Meu pai foi fazer uma entrega para o meu tio em uma cidade vizinha, contudo, a comitiva que fazia parte foi atacada por orcs... E...
Legolas colocou a mão no ombro do príncipe, e podia sentir a dor que atacava seu companheiro.
– Fili... Eu sinto muito... — Falou baixinho.
O anão de cabelos dourados sorriu, tristonho.
– Não, tudo bem. Isso ocorreu há muito tempo, eu era muito pequeno na época. Kili ainda um bebê, e nós realmente não nos lembramos de como o meu pai era. Só sei que, os cabelos loiros, herdei dele. Tio Thorin se culpou durante anos por sua morte... Acho que ele se sente também responsável por nós, assumindo o papel de pai, já que Vili não poderia mais exercer sua função. Mas o motivo real de contar essa história é que depois de um tempo, quando eu já era mais velho, perguntei a minha mãe se ela se arrependera de se casar com meu pai, já que eles tiveram poucos anos de felicidade. Vili nem tivera tempo de saborear a vida de casado e tampouco a paternidade. Parecia que tudo tinha sido em vão... Sabe o que ela me respondeu?
O príncipe elfo negou com a cabeça.
– Se Mahal lhe desse a oportunidade de voltar no tempo, faria tudo de novo. Ela nunca irá se arrepender de ter experimentando, mesmo que por curto tempo, o verdadeiro amor. E mesmo com a morte do meu pai, suas lembranças permanecem vivas em seu coração e nos frutos deles, ou seja, em nós. – Sorriu, e desta vez, mais real e mais feliz. Sua mão segurou a mão de Legolas, que ainda estava disposta em seu ombro – Mesmo que não tenhamos o mesmo tempo de vida, não significa que não podemos amar e aproveitar esse momento que temos juntos. E, no fim dos tempos, nos encontraremos novamente no lar de nossos antepassados.
Legolas soluçou. Nem percebera que lágrimas escorriam de sua face, estivera chorando silenciosamente enquanto Fili falava, absorto em seus pensamentos. Aquelas palavras tocaram profundamente o seu coração.
– Ei, não chore! – Fili puxou o elfo para perto de si e o abraçou – Não era uma história para te fazer ficar triste! Digo... Eu não me importo com o fato de você ser um elfo e muito menos que seja um homem, não me importo que não possamos ter filhos, e...
– Quem disse que não podemos? – Sussurrou o outro, com o rosto afundado na túnica do anão. Ele disse e sua respiração fez cócegas no pescoço de Fili, que se sobressaltou:
– O que...? – O de cabelos ondulados tentou mirar o seu amado, mas este escondia a face em sua roupa, além disso, podia ver o corar em sua pele alva, até na ponta de suas orelhas – O... O que você quer dizer com isso?
– Bilbo não te explicou o que é um breeder? – Legolas disse, com a voz ainda abafada.
– B-bem... — O príncipe naquele momento estava gaguejando, como só fazia quando estava muito nervoso. Sua mente estava um turbilhão de pensamentos desconexos – Eu só sei que ele pode ter filhos, e...
– Certamente. Os Bolseiros são uma linhagem de hobbits especiais por terem sangue élfico em suas veias... Isso lhes confere a habilidade de albergar vida em seus ventres.
– Espera, espera! – Fili segurou os ombros de Legolas, o forçando a encará-lo – Iss-isso significa que v-você... P-pode... Digo... Se nós fizermos aquilo... V-você poderia...
O elfo corou ainda mais, já que agora era quase forçado a encará-lo, e assentiu com a cabeça.
– Eu posso entender se você não desejar. Digo... Muitas raças não entendem essa habilidade, por isso nós evitamos o contato com outras. Isso deveria ser um segredo partilhado unicamente entre nós, e...
– Não desejar? – Fili colocou as mãos no rosto delicado do elfo, com urgência – Como posso não desejar formar uma família com você? Essa foi a melhor noticia que recebi! –Nisso, puxou o ainda surpreso Legolas para um beijo.
Legolas se deixou relaxar no contato, ainda que não tivesse contado tudo sobre a verdadeira natureza dos elfos. Afinal, seu povo preferia manter esses segredos dentro de sua raça, e além disso, não sabia como seria a relação deles, de fato. Bilbo e Drogo só tinham vestígios élficos em seu sangue e seus corpos se comportavam de forma muito parecida com o de um elfo puro. Será que isso ocorreria da mesma forma com Legolas? Muitas dúvidas e receios passavam por sua cabeça e coração... E se não pudesse, no final, dar um filho a Fili... Será que ele o abandonaria?
– Legolas... — Fili se afastou acariciando a face do outro, um pouco preocupado. Tinha percebido que este não havia correspondido ao beijo – Eu te amo. Não me importa as diferenças que temos. Foi por elas que me apaixonei.
– Eu- – O elfo por fim abraçou fortemente o outro, que, por sua vez, emitiu uma exclamação de surpresa – Eu também me apaixonei pelo o seu jeito tolo e idiota, Fili.
– Ei! – Resmungou o príncipe anão – Tolo e idiota?
– Você sabe que é verdade... — Legolas o provocou, enquanto ainda estava abraçado a ele, e sussurrou no ouvido deste. Mordiscou a orelha parcialmente arredondada do anão.
– E-ei... — Arfou baixo o outro – Cuidado, elfo... Quer que Glóin nos pegue?
– Não estamos fazendo nada de errado.
– Mas podemos fazer... — Fili desceu as mãos sobre o corpo esguio de Legolas, e elas, ásperas, apalpavam de forma possessiva.
– Hum... Estaríamos encrencados. E não seriamos melhores que Kili e Drogo... – Murmurou novamente, e sua voz já estava ficando falha.
– Somos mais velhos, temos direitos a certas regalias, não acha? – A mão do anão agora segurava uma das nádegas do companheiro. Legolas levou uma das mãos à boca contendo um gemido mais forte.
– F-Fili!
– Shhh... Se ficar calado não chamamos atenção...
Legolas realmente iria se esforçar para ficar calado, já que não podia negar que sentia um grande desejo pelos toques do anão. Entretanto, seus olhos vagaram de relance o horizonte e subitamente avistou algo.
– Orcs! – disse tão subitamente que Fili se assustou, antes de resmungar:
– Tsc, Legolas. Assim você quebra o clima. – Fez uma carranca que Legolas riria, se não tivesse visto o que viu.
– Fili, estou falando sério! Eu vejo orcs se aproximando, estão a umas 50 milhas daqui!
– O quê? – Fili se afastou do elfo, mesmo que relutante, e olhou o horizonte. Podia não ter a visão apurada, mas isso pareceu não importar quando ouviu os uivos dos Wargs –Maldição... Vamos! Temos que ir embora! – Disse isso enquanto descia rapidamente a colina. Podia ver que Glóin já tinha interrompido a sua aula e já guiava Kili e Drogo para os pôneis.
– Mas eles estão vindo no sentido que estávamos seguindo. Para onde devemos ir? Se sairmos da rota, podemos nos perder agora a noite. Eles estão em maior número e nossos cavalos não descansaram totalmente.
O jovem príncipe estava com um semblante sério, indicando que estava pensando em uma solução.
– Legolas. – Falou depois de alguns segundos.
– O que foi?
– Estamos muito distantes de Valfenda?
O elfo exibiu um sorriso.
– Não muito. Eu irei guiá-los.
– Glóin não irá gostar nada deste plano. – Concluiu Fili, mas era a melhor saída que tinham no momento.
~TKATC~
– Os wargs farejaram alguma coisa! – Disse um dos orcs, afoito, se aproximando do chefe do grupo. O orc albino também farejou o ar, talvez tentando presumir o cheiro que seus fieis animais sentiram.
– Seria a criatura Gollum? – Perguntou. Seus olhos azuis pálidos pareciam se iluminar num um brilho frio e penetrante que fez o outro orc perder toda a sua animação.
– N-não... Não era essa criatura.
– Então, não quero saber! Não estamos aqui para caçar humanos ou outra coisa que vocês infelizes achem saboroso. Temos uma missão e iremos cumpri-la! – Bradou Azog, fazendo o resto do grupo tremer.
– M-mas são anões, meu senhor.
A menção daquelas palavras fez a expressão furiosa do orc albino ser substituída por um sorriso pavoroso.
– Anões? Aqui? Que conveniente... – Lambeu os lábios secos e cheio de cicatrizes.
– Também há um elfo com eles, e uma criatura pequena. Achamos que é um hobbit! –Ao falar isso sua boca salivava. Não fazia muito tempo desde que o reino do Condado se tornara um dos locais de refeição preferido dos orcs, mas agora que os anões retornaram a aliança, já não mais podiam apreciar a carne macia e gorda dos nanicos.
– Um hobbit?! – Outros orcs praticamente uivaram.
– Um elfo? Sozinho?
– Isso é uma oportunidade que não podemos perder!
– Quietos, seus vermes! – Rugiu Azog, o que gerou um súbito silêncio – Esse grupo me parece muito estranho. Um elfo acompanhado por anões? Algo que não é comum... Acho que devemos investigar mais de perto. – Disse essa ultima parte lambendo novamente os lábios, e os orcs se animaram, sabiam que aquilo era o consentimento para que saíssem em uma caçada.
– Vamos ter carne de hobbit e elfo para o jantar! – Gritou um deles.
– Só não esqueçam que os anões são a minha presa. –Disse Azog, incitando seu grande lobo branco. Em resposta, os orcs gritavam e urravam, eletrizados com a possibilidade de carne fresca e carnificina.
Azog sentia o seu coração bater rapidamente. Fazia muito tempo desde que matara um anão... Queria sentir em suas mãos e boca o sangue daquela raça que tinha amaldiçoado destruir até o seu ultimo suspiro.
~TKATC~
Os uivos se aproximavam. Drogo se encolheu no cavalo que compartilhava com Legolas. Eles estavam na dianteira do grupo, e apesar de olhar para os lados buscando os terríveis lobos que pareciam cada vez mais perto, nada via. Aquilo só fazia sentir mais medo.
“Cedo ou tarde iria encontrar alguma criatura monstruosa... Eu já devia estar preparado para isso!” Pensou.
– Legolas! – Gritou Fili – Eles estão próximos?!
– 20 milhas. – Respondeu com precisão o elfo. Seus olhos vasculhavam constantemente o ambiente a sua volta, sem se distrair do caminho em que seguiam, aliás... Para onde estavam indo?
– Devíamos ter ficado e lutado! – Resmungou Glóin – Além disso, um anão não luta em cima de um pônei! Isso é ultrajante!
– Somos apenas cinco contra um grupo de orcs asquerosos em um número indeterminado de membros! Não teremos chance. Não deve esquecer que eles estão montados em Wargs! – Lembrou Kili, que empunhava seu arco e flecha pronto para atacar qualquer inimigo que surgisse nas sombras.
– Estamos perto! – Tentou parecer otimista Legolas.
– Perto de onde? – Arriscou perguntar Drogo.
– Exato! Perto de onde? – Rosnou Glóin.
– Valfenda. – Respondeu relutante o príncipe elfo.
– Oh! Não, não! Absolutamente não! Thorin me mataria se soubesse que deixei que seus sobrinhos adentrassem em um território elfo sem o consentimento dele! – Falou irritado o chefe da guarda dos portões de Erebor.
– Eu que sugeri essa rota! – Interveio Fili – Eu assumo a responsabilidade pelo que ocorrer.
– Espero que assuma mesmo, príncipe... – Resmungou o guarda, mas antes que Fili pudesse reafirmar a sua palavra, uma flecha negra cortou o céu, e estava destinada ao peito do jovem príncipe. A flecha foi interceptada por outra; a flecha élfica lançada por Legolas, que cortou o projétil no meio.
– Eles estão muito perto. – Disse – Temos que ir mais depressa.
Um novo uivo foi ouvido, e Drogo olhou para cima. No alto de uma colina próxima viu um orc com a pele esbranquiçada montado em algo que parecia um lobo com pelagem também branca. Aquele ser mais parecia um fantasma horrendo saído de um pesadelo.
– Azog... — Balbuciou Fili, incrédulo.
– P-pensei que tio Thorin tinha dito que ele estava morto! – Sussurrou Kili.
– Não temos tempo para discutir isso! – Bradou Glóin – Vamos, elfo, nos leve para essa maldita Valfenda! Que Mahal nos ajude...
Mais uivos e gritos aterrorizantes foram ouvidos, vindos da floresta.
Será que conseguiriam chegar à morada élfica a tempo e vivos?
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