Os dias contados de Branca
3 O Hospital
Acordo com algo ao redor do meu nariz e boca. É um aparelho de oxigênio. Minha visão está desfocada, mas consigo identificar por volta de sete ou nove silhuetas ao redor da minha cama. Minha visão toma foco, e logo, vejo todas as Femininjas, uma enfermeira e um médico, ambos os funcionários do hospital me olham com desconfiança, vejo o preconceito em seus olhos. O modo como as Femininjas se esquivavam de perto deles indicava que elas também haviam percebido. Engulo em seco, tirando o aparelho de oxigênio e soltando um longo bocejo. Nenhum dos presentes na sala o repete.
Arqueio as sobrancelhas, nenhuma delas sorri ou faz algum gesto carinhoso.
– Espero que saiba o porque de não estarmos sendo gentis, Branca. – Fala Carmen, seus cabelos loiros estão um pouco despenteados e seus olhos estão com órbitas fundas, como se não tivesse dormido. Não sinto fome nesta hora, não consigo sentir nada além de medo. O que eu tive para acabar no hospital? – Você é anoréxica, Branca. Já se olhou no espelho, e viu uma pessoa acima do peso? Essa não é você, sua aparência, na verdade, é pálida e magra. Você está se prejudicando por nada.
– Eu... hãm... – Tento dizer algo, mas o médico me corta.
– A anorexia é um distúrbio alimentar que provoca mais perda de peso nas pessoas, do que é considerado saudável para a idade e altura. – Então ele olha para mim, e continua: – Você, Branca, tem dois dos três tipos de anorexia. A Anorexia Alcóolica e a Anorexia tipo sintoma, que causa perda de apetite crônico. – Ele termina sua frase, e eu fico perplexa. Isso era impossível, eu realmente era gorda, sentia e via isso. O que eles estavam falando para mim era totalmente surreal.
– É adorável que vocês estejam tentando me convencer de que não estou acima do peso, mas eu estou sim. Eu vejo isso. – Enfatizo a ultima frase. De repente, Ariana se levanta, lágrimas correm seu rosto e eu vejo raiva em seu olhar. Sento-me na cama, e ela começa a gritar:
– SE ENXERGA BRANCA. VOCÊ ESTÁ MAGRA, PÁLIDA, E AINDA POR CIMA QUER NOS CONVENCER DE QUE VOCÊ NÃO ESTÁ DOENTE, POIS ESTÁ SIM. TODOS VEEM ISSO, VEJA SEUS CABELOS SECOS, POR FALTA DE NUTRIÇÃO QUE VEM DA COMIDA, MAS AINDA POR CIMA, VEJA VOCÊ MESMA. NÃO VOU NAMORAR ALGUÉM QUE NEM AO MENOS VÊ QUE ESTÁ MAL NA VIDA, QUE ESTÁ COM UMA DAS PIORES DOENÇAS QUE JÁ VIMOS. – Então, ela sai do quarto, batendo a porta. À essa altura, lágrimas já escorrem de meus olhos, e eu me sinto em pânico. Barulhos estranhos começam a explodir da minha garganta, e momentos depois, estou vomitando tudo o que enfiaram para dentro de mim través de um tubo, provavelmente. Carmen se levanta e vai atrás dela, seguida por Eliza e Carla. Permanecemos na sala apenas eu, Anna, Carolina, Victória, o doutor e a enfermeira. Solto diversos soluços enquanto choro, e de repente, me sinto leve, não de um jeito bom, mas fraca. Olho para mim mesma, estou pálida e ossuda, minhas tatuagens não têm mais aquela cor de vida, estão fracas em minha pele que já está amarelada. Levo os dedos aos meus cabelos, eles estão ásperos e secos. Estou me vendo. Estou vendo quem verdadeiramente sou.
Fale com o autor