Os astros conspiram a favor de nós
6 Uma tarde de primeiras impressões
Notas iniciais
Primeiras impressões são, pra dizer o mínimo, algo estranho.
Você olha para algo que você nunca viu antes, e céu cérebro te bombardeia com milhões de imagens fragmentadas e sentidos captados, que se acompanham de sensações e você decide ali, naquele instante, se gosta ou não gosta daquilo que vê.
Ou ao menos geralmente é assim.
Quando Lucas e eu chegamos na fazenda, ele parou em frente a uma pequena construção de madeira que ele chamou de “Galpão”. Ao que tudo indicava, era ali que nós dois morávamos.
Lucas abriu a porta galantemente para mim, e entrou dentro do pequeno espaço sem cerimônia. Para ele, era só mais um dia em casa, embora pelo suspiro que ele deu em algum lugar lá dentro, ele sentia falta daquele lugar. Eu não conseguia mais entender como era se sentir assim. Ao menos, eu esperava não sentir falta do meu quarto do hospital.
Meus olhos corriam loucamente por toda parte, tentando assimilar tudo de uma vez. Era estranho chegar em um lugar em que eu supostamente vivi por algum tempo e simplesmente não lembrar de nada.
Logo que eu entrei pela porta, ao meu lado esquerdo havia uma estante estilo contemporânea. Era cor de mogno, cinza e branca. Tinha um microondas arrumado no lugar onde supostamente a TV ficaria. Na lateral da estante, duas prateleiras de livros exibiam títulos que destoavam muito entre si no gênero. Anjos e Demonios, O Codigo DaVinci, O Simbolo Perdido, Cinquenta tons de Liberdade, Clarissa, Elixir, Insaciável, Como deixar os homens aos seus pés, Expert em sedução, Cinquenta tons de Msr. Darcy, o evangelho segundo o espiritismo, o livro dos espíritos, o livro dos médiuns... Os livros chamaram minha atenção e eu corri meus dedos pelas lombadas empoeiradas, como se pudesse sentir a história que ali continha pela ponta dos meus dedos.
Do lado direito da entrada, havia uma poltrona de couro branco. No lado contrário, um sofá de três lugares também em couro branco. Nas duas pontas do sofá, haviam portas que davam entrada a quartos. Uma grande geladeira branca, um fogão também branco, uma pia e uma mesa branca de plástico, formavam a cozinha no canto mais oposto ao lado direito do galpão.
Na porta entre o sofá e a geladeira, encontrei aquele que provavelmente deveria ser o meu quarto. Uma cama de casal ficava ao lado direito, um guarda roupa ao lado esquerdo. Havia uma pequena cômoda na parede aos pés da cama, com a televisão e um aparelho que deveria ser a Tv a cabo que o Lucas havia comentado anteriormente. A TV havia sido ligada, mas não havia ninguém mais no quarto. Na cama, a colcha desarrumada deixava eu saber que o suspiro que meu marido havia soltado provavelmente foi após deitar na cama. Meu coração se encheu de cumplicidade.
Aproveitando o fato de estar sozinha para explorar – Eu não fazia idéia de onde o Lucas havia se metido. – segui para onde eu supus ser o outro quarto.
A porta do lado esquerdo, que ficava entre a estante e o sofá, levava a um quarto que provavelmente pertencia a uma criança. Eu passei pelo limiar da porta e parei em frente a uma cama de casal que tomava a parede lateral e uma parte da parede oposta a porta. Do lado direito, uma escrivaninha e uma mesa com um computador margeavam a parede. E, meu Deus, a parede...
Diversas mãos haviam sido “pintadas”, em tons de verde e azul. Dominavam as paredes, da altura da cintura para cima, em um tipo de arte que só crianças quando colocadas juntas poderiam fazer. Inexplicavelmente, aquela imagem me fez sorrir.
Ao que parecia, já havia uma criança em minha vida, além daquela que estava por vir. E essa criança era, eu não poderia pensar diferente, espirituosa.
– Ju. – Lucas chamou atrás de mim. – Eu quero que você conheça a Gabriella.
Eu me virei e dei de cara com uma criança que nada tinha a ver com meu marido, exceto a bunda. E sim, eu havia olhado algumas vezes para a bunda do Lucas. Mas qualquer um no meu lugar provavelmente faria a mesma coisa. Eu espero.
Gabriella, como ele havia a chamado, era uma criança linda. Era compacta, sendo baixinha e grande, com cochas grossas e uma bunda que era invejável de tão durinha e empinada. Tinha cabelos castanhos com algumas poucas mechas loiras, extremamente lisos, que caiam por seus ombros. Sua pele era morena, cor de capuccino, e seus olhos eram castanhos, mas de um tom mais escuro que os do Lucas. Tinha o nariz ligeiramente arrebitado e uma pinta linda acima dos seus lábios. E sustentava no rosto um sorriso tão natural, que só uma criança seria capaz de oferecer.
Ofereci a ela um sorriso genuíno, e ela me retribuiu com um abraço que eu honestamente não vi chegando, mas que era carregado de sentimento e meu corpo aceitou como se fosse uma dose de morfina, anestesiando minhas inseguranças.
– Eu tava preocupada contigo. – Ela me disse. E me abraçou mais forte.
Eu não sabia como responder aquilo. Ter uma criança, que visivelmente gostava de mim, me abraçando e dizendo que tinha estado preocupada comigo, era algo que me emocionou além do que eu poderia descrever. E o fato de eu não conseguir me lembrar dela, por mais força que eu pudesse fazer para trazer as lembranças de volta, me entristeceu.
E antes que eu pudesse controlar, as lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Era a primeira vez que eu chorava, desde que eu havia saído do coma.E infelizmente eu sabia que não seria a ultima.
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