Os astros conspiram a favor de nós
5 Aceita que dói menos
Notas iniciais
A viagem para “casa” foi, pra dizer o mínimo, estranha.
O carro, que meu marido disse se chamar “Biscoito” era um Uno quadrado, cor vinho. O pobre carro estava completamente amassado na lateral e no capô, e segundo ele o coitado do veiculo nunca mais seria o mesmo depois do acidente. Ele me parecia realmente apegado ao carro, pra dizer a verdade. Eu não conseguia deixar de imaginar o porquê de alguém colocar nome em um carro, muito menos por que o carro se parecia um biscoito.
Mas eu não disse nada. Não achava que deveria.
– Então, pronta pra ir pra casa? – Ele perguntou assim que eu entrei no carro e coloquei o cinto de segurança. Não sei direito por que fiz aquilo, mas foi um gesto involuntário.
– Não. Não realmente. – Eu murmurei, enquanto me concentrava em sentir o banco sob as minhas costas. – Ajudaria um pouco saber seu nome.
Meu marido riu, como se não tivesse passado por sua cabeça que eu pudesse querer saber como ele se chamava. Eu apenas o encarei.
– Às vezes eu esqueço que você perdeu a memória. Isso acontece muito, na verdade. Principalmente quando você entra no carro e coloca o cinto. Antes do acidente você sempre fazia isso, até pra andar duas quadras. – Ele sorriu com carinho. – É bom saber que mesmo sem memória, você ainda é a mesma.
Eu discordava muito dele. Eu não me sentia a mesma, muito pelo contrário. Me sentia como uma estranha tentando viver a minha vida. Sem ter as minhas memórias, era como fazer uma prova múltipla escolha sem saber a matéria. Eu poderia até acertar algumas questões no chute, mas seria por pura sorte. No final, eu deixaria muita coisa passar.
– Mas, já que isso vai te fazer mais confortável, — Ele se virou no banco, ficando de frente para mim. Estendeu a mão direita e sorriu convencido. — Lucas Conrado, seu marido que te ama muito.
Eu apertei a mão que ele me oferecia em um cumprimento e sorri sem jeito.
– Prazer, Lucas. Eu sou a Júlie, pelo que me disseram. Não posso te dizer mais que isso.
Ele sacudiu a cabeça em negação, mas não soltou minha mão.
– Não. – Ele negou. – Se pronuncia Di-ú-lie. Só que rápido. Você nunca gostou quando diziam seu nome errado.
Eu olhei para ele, me perguntando quem realmente era esse homem. Tão atento a detalhes da minha antiga vida. Coisas que somente eu, em posse das minhas memórias perdidas, poderia corrigir e saber, ele me ensinava. Algo dentro de mim vibrou com aquilo. Eu poderia até estar casada com um homem que eu não conhecia mais, mas ele me conhecia de tal forma que me ajudaria a voltar a ser quem eu era.
Meus lábios se desdobraram em um sorriso de puro contentamento e Lucas sorriu para mim aquele sorriso que acabara por ser o meu preferido. Duvidava que eu fosse me encantar por qualquer outro sorriso depois de ter conhecido o dele.
– Agora podemos ir? – Ele perguntou ansioso.
– Sim, — Eu respondi. – Podemos.
Lucas ligou o carro, e dirigiu para longe do hospital onde eu tinha vindo ao mundo novamente, sem memórias como uma criança recém nascida. O asfalto era bom, até certa altura. E então, buracos enormes faziam com que ele tivesse de desviar como se fosse um motorista dirigindo alcoolizado. Depois, ele pegou uma estrada secundária que começava em asfalto e logo seguia para estrada de chão. Ele parecia ter experiência em dirigir por aquelas estradas, já que desviava dos buracos com uma agilidade invejável.
O som do carro soava alto, acalmando minhas inseguranças, e preenchendo os espaços vagos de silencio entre eu e Lucas. Todas as musicas tinham o mesmo estilo de ritmo, mas algumas eram melhores que as outras. Na maioria das vezes, as musicas que eu gostava, eram as mesmas que o Lucas aumentava o volume ou começava a se balançar no ritmo, enquanto dirigia.
E então, começou uma nova musica e o cantor disse: “como esquecer o beijo que você me deu?”
O Lucas olhou para mim, e então aumentou o volume do rádio mais um pouco. Esperou a introdução de violão começar, e quando o cantor começava a cantar a letra, ele cantava junto alternando entre cuidar a estrada de chão, que estava basicamente deserta, e me encarar cantando e interpretando de uma forma que só poderia ser descrita como exagerada e ridícula. Eu tive que rir.
– Como esquecer o beijo que você me deu... Não sei se era pra esquecer ou lembrar! – Lucas me deu uma olhada e engrossou a voz para acompanhar o timbre do cantor. Eu sorri sem jeito. – E ficou um pedaço de você em mim, e hoje eu quero te ver, pra me entregaa-aaaaaaar!
Agora ele batucava com os polegares no volante enquanto balançava no ritmo do refrão.
– Como eu quero... De novo um beijo seu muito gostoso. – Ele fixou seus olhos castanhos no meu rosto e sorriu malicioso. – Do jeito que cê faz é carinhoso, por isso eu quero suas mãos em mim. – Me lançou uma piscadela.
– Como eu quero... O cheiro de amor que vem chegando. – Ele inspirou exageradamente como se pudesse sentir algum cheiro além do odor delicioso do perfume que ele usava. – Trazendo o seu corpo só pra mim.
Ele estendeu sua mão direita e segurou uma de minhas mãos que estavam pousadas no meu colo. Enlaçou seus dedos grossos nos meus e acariciou minha mão com o polegar. O cantor voltou a repetir a musica desde o começo e agora o Lucas não cantava mais, nem me olhava malicioso. Apenas mexia a cabeça no ritmo e olhava a estrada atento, enquanto dirigia com apenas uma mão.
Ele mantinha no rosto um sorriso sereno, e embora para mim aquele gesto fosse algo incomum, ele agia como se fosse algo que ele sempre fazia, mas que sentia saudade de poder fazer. Eu não retirei minha mão, por mais que a idéia tenha passado pela minha cabeça. Fazê-lo seria a mesma coisa que dar um tapa nele. Machucaria da mesma forma.
E contra qualquer argumento que eu pudesse usar, machucá-lo seria o mesmo que me machucar deliberadamente. Estupidez, pra dizer o mínimo.
Meu cérebro poderia não lembrar dele, e se recusar a aceitá-lo como meu, mas meu coração já não me pertencia, desde a primeira vez que vi aqueles lindos olhos castanhos.
Eu só precisava agora convencer minha cabeça a obedecer meu coração.
Na teoria, isso parecia muito fácil. Mas só na teoria.
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