Os astros conspiram a favor de nós

4 Os meus olhos vistos pelos teus


Notas iniciais
The cycle repeated As explosions broke in the sky All that I needed Was the one thing I couldn't find And you were there at the turn Waiting to let me know - (Burn It Down) Linkin Park

Ficar deitada em uma cama de hospital era a coisa mais chata imaginável, além de ser completamente desconfortável. A cada hora que passava, eu só desejava mais ir pra casa e nunca mais passar por aquilo, mas então eu lembrava que mesmo indo pra casa, eu não me sentiria “em casa”.

Meu marido aparecia às vezes na porta do quarto e ficava me cuidando enquanto eu dormia. Geralmente eu estava apenas fingindo, porque quando meus olhos estavam abertos ele não ficava por perto. Era legal ter ele cuidando de mim assim, embora eu pudesse ver em seu rosto que ele sofria com aquela situação. Pobre homem.

Às vezes eu queria chamá-lo para perto de mim e conversar com ele, mas eu não sabia o que dizer então eu apenas continuava lá, olhando ele pelas minhas pálpebras cerradas e imaginando como foi que nos conhecemos. Não ter acesso a essas memórias tão simples me fazia sentir mal.

O médico tinha voltado mais tarde naquele dia e disse que em dois dias eu poderia ir para casa, se nada mudasse. Eu não disse para ele, mas eu secretamente desejava que algo mudasse sim. Imaginar como seria voltar para uma casa que eu não conhecia, com uma pessoa que eu tinha sentimentos que não entendia, e tentar viver uma vida que não era mais minha... Isso me aterrorizava mais do que eu deixaria alguém um dia saber.

Eu estava olhando para o teto, tentando imaginar como seria a minha casa. Será que eu tinha um jardim? Eu não consigo me imaginar cuidando de um...

Mas, bem. Eu não poderia me imaginar fazendo nada mais, não agora.

– Oi. – A voz do meu marido soou na entrada do quarto.

Aquilo era uma surpresa, já que fazia um dia e meio que ele não falava comigo. Amanhã eu seria liberada para ir para casa, e simplesmente não sabia se ele ainda ia me querer em sua vida.

– Oi. – Eu disse, porque não havia mais nada que eu pudesse dizer.

Ele entrou no quarto e veio sentar-se no colchão, ao lado do meu corpo.

– Como você está se sentindo? – Ele quis saber, e eu apenas dei de ombros. Não poderia contar a ele que me sentia aterrorizada com a possibilidade dele não me querer ao seu lado. Por mais que me sentisse como uma boneca defeituosa, ainda tinha medo da rejeição.

– Eu conversei com o médico, e ele me explicou o que aconteceu com você. – Ele fixou os olhos castanhos nos meus, que eu ainda não sabia de qual cor eram. Eu esperei.

Ele tomou uma respiração funda.

– Eu vou entender, se você não quiser mais... Ficar comigo. – Ele disse, mas seus olhos me contavam outra história. – Só... Eu gostaria que você viesse morar comigo. Você pode dormir no quarto da Gabriella, se você se sentir melhor assim. Mas por favor, não vá morar no Rio.

Eu olhei pra ele confusa. Milhões de perguntas corriam pela minha cabeça. Quem é Gabriella? Por que eu iria morar em outro lugar a não ser com ele? E o que diabos eu iria fazer no Rio?

– Rio? – Eu perguntei depois de alguns instantes. – Por que eu iria morar lá?

Ele me olhou confuso por alguns instantes. Mas então ele pareceu lembrar que eu não tinha nenhuma memória da minha vida, e isso se estendia além dele.

– Sua mãe. Ela mora no Rio. – Ele contou.

Eu apenas assenti com a cabeça, mas assim como não lembrava dele, nenhuma memória sobre ter uma mãe que morava no Rio existia na minha cabeça. Tudo continuava a ser um branco total.

– Eu não aguentaria saber que te perdi, e muito menos que perdi meu filho. Você poderia fazer isso por mim? – Ele me pediu, seu rosto parecia o de um cachorrinho abandonado procurando um lar.

– Filho? – Eu perguntei debilmente. Será que eu já tinha filhos? Mas... Quantos anos eu tinha?

Ele sorriu como uma criança que acabou de ganhar do papai Noel o que tinha pedido o ano inteiro, e pousou sua mão na minha barriga.

– Sim, Ju. Você ta grávida de um filho meu. – Ele sorria orgulhoso.

Eu fiquei um bom tempo só olhando pra cara dele. Esperando ele dizer que era uma brincadeira, que ele estava assustado e estava usando aquilo como desculpa para eu não ir embora. Mas ele não piscou em nenhum momento, e finalmente eu acreditei no que ele dizia.

Merda, eu to grávida. A ficha caiu.

Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, vindas Deus sabe lá de onde, e espasmos dominavam meu corpo enquanto o terror enchia minha mente. Eu estava grávida! E eu não podia nem sequer me lembrar do homem que era pai do meu filho. Deus, aquilo tudo estava tão, tão errado...

– Hey, não chora, por favor! – Ele tinha uma expressão desolada no rosto e aquilo fez com que eu chorasse com mais vontade. – Por favor, eu não gosto de ver você chorar.

Meu marido me puxou para os braços dele e apoiou seu queixo na minha cabeça. Ele cheirava tão bem, e estar nos braços dele me trazia uma sensação tão boa. As lagrimas continuavam caindo e iam diminuindo com o passar do tempo, até pararem por completo. Ele me afastou do peito dele e segurou meu rosto com a palma das suas mãos, limpou meus olhos marejados com os polegares e beijou minha testa em um gesto carinhoso.

– Fala comigo, Ju. – Ele pediu.

– O que você quer que eu diga? – Eu resmunguei. – Eu não lembro nem de coisas simples como a cor dos meus olhos!

– São os olhos mais lindos que eu já vi. – Ele sorriu pra mim. – De manhã, são azuis claros. Quando você fica irritada, eles ficam verdes. Quando chove, eles ficam azuis escuros. Quando você está feliz, eles ficam cinzentos. Você sempre teimava comigo que seus olhos não eram verdes, e sim azuis. Mas eu ficava te irritando só pra ver eles mudarem até ficar de um tom de verde que só vi em você.

Meu coração disparou com essa declaração. O homem que estava aqui na minha frente conhecia mais sobre mim do que eu acharia que um marido conheceria sobre sua esposa. E nós só havíamos falado sobre a cor dos meus olhos.

– Você faz parecer como se eles fossem olhos especiais. – Eu declarei.

– Eles são. E nosso filho irá ter os teus olhos. – Ele sorriu alegre.

Era tão bom ver ele alegre e sorridente. O rosto dele todo se iluminava e eu acho que aquele sorriso ficaria gravado para sempre na minha memória como uma pintura.

– Se ele tiver o teus, já irá fazer sucesso. Se vir acompanhado do teu sorriso, então... Pobre das meninas. – Murmurei encantada.

Tá certo, então eu não deveria dizer aquilo para alguém que eu mal conhecia, mas não era uma mentira, tampouco. O sorriso dele era tão lindo que fazia com que eu tivesse vontade de emoldurar e levar pra casa, pra poder ficar admirando por horas. Eu senti o sangue correr para as minhas bochechas enquanto ele gargalhava uma risada melodiosa que sacudia todo o corpo dele, enquanto ele ria com gosto. Seus olhos castanhos brilhando loucamente e eu contive minha vontade de puxar ele para os meus braços e beijá-lo.

Deus, eu mal o conhecia! O que tinha de errado comigo?

– O piá veio vai ser bagual. – Ele riu, e eu sorri confusa. – Luan Conrado. Vai ser laçador.

– Esse vai ser o nome? Luan Conrado? – Eu questionei.

– Sim. Foi você quem escolheu, antes do acidente. Você tinha feito um teste de farmácia, mas deu negativo. Eu disse que provavelmente você tinha feito errado, mas você teimou que não. Mas eu tava certo, e você ta grávida de seis semanas.

Eu concordei com a cabeça. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, afinal eu não lembrava de nada mesmo.

– É um bonito nome. Pelo visto eu tinha bom gosto. – Afirmei.

– O melhor do mundo. Casou comigo. – Ele declarou convencido.

Eu ri com gosto daquela afirmação. Ele era divertido, eu tinha que admitir.

Notas finais
WOOOW, revelação meio tensa essa... :X