Notas iniciais
I was just guessing at numbers and figures Pulling the puzzles apart Questions of science, science and progress Do not speak as loud as my heart - ( The Scientist) Coldplay

Hospital de Santiago

Três semanas depois

Metade da tarde.

UTI

Tentei abrir meus olhos, mas eles pareciam feitos de concreto. Parecia um esforço imenso tentar abri-los, e por um momento eu pensei que não valia o esforço. Eu só queria voltar a dormir.

Um bipe soou ao meu lado e eu senti meu coração disparando por causa do som. O bipe soou mais rápido dessa vez, e eu ouvi barulho de passos no quarto. Alguém mexeu no bipe e ele voltou a soar tranqüilo e lento, mas aquele barulho continuo estava me deixando incomodada.

Tentei novamente abrir meus olhos e consegui abrir uma pequena fresta. Uma luz branca e estéril quase me cegou e eu cerrei as pálpebras novamente. Involuntariamente eu levei meu antebraço até meus olhos, como se tentasse criar uma barreira para a luz, mas senti um puxão na divisão do braço com o antebraço e resolvi abrir os olhos novamente para ver o que era aquilo.

A luz não parecia tão ruim agora, e eu podia enxergar bem. Eu estava em uma sala completamente branca, com macas espalhadas por todo o cômodo. Suportes de soro ladeavam as camas e uma mesa com todo o tipo de aparelhagem em que fios e mais fios ligavam a maquina aos pacientes. Eu estava próxima a porta, que tinha escrito UTI, e era uma das únicas residentes do espaço além de um homem que estava no canto oposto completamente apagado.

Minha boca estava seca, minha garganta parecia uma lixa. Tinha um cano esquisito que passava por trás das minhas orelhas e se ligava ao meu nariz, levando oxigênio. Aquilo estava me incomodando, então eu tirei com um puxão.

O bipe começou a surtar ao meu lado novamente, e uma enfermeira veio apressada para dentro da sala e tomou um susto quando viu o cano na minha mão.

Ela não era uma mulher bonita, mas também não era feia. Seu cabelo escuro estava preso em um coque rígido e sua pele era morena. Ela tinha uns quilos a mais, e era bem baixinha. Mas ela sorriu com ternura e felicidade ao ver que eu estava acordada, e enquanto ela sorria seu rosto se suavizou e se tornou um pouco como um rosto de mãe carinhosa.

– Tati! – Ela gritou em uma voz rouca. – Chama o doutor Willenberg correndo.

Ela se moveu até parar ao meu lado. Tirou o cano da minha mão e guardou em um compartimento em baixo da maquina que fazia aquele bip irritante.

– Como você está se sentindo, Julie? – Ela perguntou.

Eu sei que ela provavelmente estava falando comigo, afinal ela estava me olhando e além do cara que estava completamente apagado, eu era a única pessoa na sala com ela. Mas quando ela disse esse nome, Julie, eu não sentia como se ela estivesse falando comigo. Era como se esse nome não fosse meu, e meu cérebro não respondia a ele. Eu apenas fiquei olhando para ela.

– Você não consegue falar ou algo assim? – Ela perguntou preocupada, enquanto verificava meus pulsos e os fios que estavam ligados ao meu corpo.

– Acho que consigo. – Respondi. Minha voz estava rouca e fraca pela falta de uso, e o som dela parecia completamente estranho para mim.

A enfermeira sorriu para mim alegre. Um homem de uns quarenta anos entrou na sala com uma enfermeira magricela atrás. Os dois pareciam chocados com alguma coisa, e eu imaginei que fosse com o fato de eu estar acordada.

Agora eu ficava me perguntando por quanto tempo eu estive desacordada.

– Você acordou! Ótimo, ótimo. – O medico disse divagando. – Sua família vai ficar satisfeita. Vamos ver como estão seus sinais vitais.

O medico tinha tantos cabelos grisalhos que parecia que seu cabelo era cinza e não preto, mas ele tinha olhos sorridentes, e isso fazia toda a diferença. Ele me fez olhar para seu dedo enquanto focava uma lanterna nos meus olhos.

Vou te contar uma coisa. Aquilo incomodava.

Ele me fez umas perguntas bobas, como quanto é dois mais três e a quantidade de dedos que ele mostrava. Até então, tudo estava normal e bem.

Mas então, ele fez uma pergunta que ferrou com tudo.

– Qual é seu nome completo?

Eu fiquei olhando para aqueles olhos castanhos como se eles tivessem a resposta para a pergunta que ele havia feito. Ele sabia a resposta, é claro. Mas eu não sabia.

– Não sei. – Respondi enquanto franzia o cenho tentando buscar a resposta dentro da minha mente, mas tudo o que voltava pra mim era um grande e branco vazio.

– Seu primeiro nome, então. – Ele tentou novamente.

– Eu acho que é Julie. Quero dizer, a enfermeira me chamou assim, então deve ser esse, não é? – Eu questionei.

O médico franziu as sobrancelhas em uma carranca.

– Você não lembra seu nome então? – Ele perguntou, e eu somente neguei com a cabeça. – O nome da sua mãe? Seu pai? Seu marido? Onde você mora? Quantos anos você tem? – Ele continuava a perguntar e eu somente fazia que não com a cabeça, eu não lembrava.

Mas a coisa do marido me chamou a atenção o suficiente para eu questionar.

– Eu sou casada? Quero dizer, eu tenho um marido? – Eu perguntei confusa.

– Receio que sim. – O médico disse triste.

Eu não entendi o porquê de ele parecer triste com aquilo. Deveria ser uma coisa boa ser casada, não é?

– Enfermeira Tatiana. – O médico chamou a magricela. – Por favor, prepare tudo para que possamos fazer uma tomografia cerebral da paciente.

A enfermeira assentiu e saiu às pressas da sala.

– Onde está ele? – Eu perguntei ao médico, que verificava alguma coisa no monitor.

– Quem, querida? – Ele perguntou sem me olhar.

– O meu... Marido. – Nossa, até falar isso parecia esquisito. O que será que me deu na cabeça de casar?

– Ele está na sala de espera. Tem estado aqui durante as três semanas em que você ficou em coma. Ele te ama muito. – O médico me lançou um olhar solidário.

Eu apenas assenti.

Tudo era uma grande revelação pra mim. Eu era casada, eu me chamava Julie. A cor da minha pele era branca, e meus cabelos eram loiros. Eu só sabia dessas coisas porque me disseram, ou porque pude ver. Eu não lembrava como era meu rosto, não lembrava o som da minha própria voz. Era como se eu tivesse acabado de nascer, sem memórias, sem história. Eu apenas estava ali, uma mulher adulta – quero dizer, eu devia ser adulta né? Tipo, eu não podia ser casada e não ser adulta...

– Tudo pronto, Doutor. – A enfermeira Tati disse da porta da UTI.

O Doutor tinha acabado de remover os fios do meu corpo, e a principio estava satisfeito com meus sinais vitais, já que começava a mover minha cama pelos corredores do hospital até outra sala em que ele realizaria a tomografia. Dois homens fortes me tiraram da maca em que eu estava e me colocaram em outra. Meu corpo doía tanto que parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim. Eu só não lembrava de ter anotado a placa.

Os exames correram bem e tranqüilos, pelo menos era isso que parecia pra mim. Eu não podia ver nada de mais, além daquele negocio girando ao redor da minha cabeça e me deixando meio zonza. Eu fechava meus olhos e ficava tentando buscar na minha mente alguma memória qualquer em que eu pudesse me apegar. Não tinha nada. Minha mente era como um caderno em branco.

Eles me moveram de volta para a maca, mas não me levaram mais para a UTI. Ao invés, me colocaram em um quarto com uma pintura horrorosa, amarelo cor de ovo. Eu era a única residente do quarto, e ao lado da minha nova maca, havia uma poltrona reclinável. E até tinha um banheiro no quarto, mas eu imaginava que não poderia ir até ele sem ajuda, então não disse nada. Ao menos a nova maca era confortável.

Acho que o colchão era mais grosso.

Tão logo eles me colocaram na nova maca, o sono começou a me chamar.

– Assim que eu tiver os exames prontos, eu venho lhe ver. Por agora, descanse. – O médico disse enquanto dava tapinhas na minha mão de uma forma que era pra ser supostamente carinhosa. Na verdade, era apenas estranho e irritante.

Eu concordei meio sonolenta e me aconcheguei mais no travesseiro.

O sono me pegou nos braços e me levou para longe do meu corpo doente, e por algumas horas eu estava a salvo da dor.

Notas finais
Que agonia, nao lembrar de nada modeus >.