Os astros conspiram a favor de nós

3 Uma noticia ruim para arruinar um belo momento


Notas iniciais
And now as long as I can I'm holding on with both hands Cause forever I believe That there's nothing I could need but you So if I haven't yet, I've gotta let you know You're never gonna be alone - (Never gonna be alone) Nickelback

Ficar deitada naquela maca estava começando a me incomodar. Por mais que o colchão fosse grosso o suficiente para ser considerado confortável, eu tinha a impressão de que meu corpo não estava acostumado a dormir naquela posição.

Um ronco baixinho soou ao meu lado, e meus olhos lutaram para se abrir. Pela janela do quarto que havia ficado aberta, a luz do sol da manhã se infiltrava e afugentava as sombras. Na parede em minha frente um relógio marcava 6 horas da manhã.

Tentei me arrumar melhor na cama, virando meu corpo para a minha esquerda. Havia um homem dormindo na poltrona reclinável. Tinha cabelos castanhos escuros desalinhados, e sobrancelhas grossas. Uma barba rala por fazer, e lábios sensuais. Sua pele era dourada pelo sol, seus ombros largos e suas pernas grossas. Tinha uma barriga um pouco saliente, também. E não parecia ser muito alto.

Ele era atraente, embora não fosse o homem mais lindo do mundo.

Sua mão era grande e forte, seus dedos grossos. Ele tinha seus dedos entrelaçados aos meus, e sua mão transmitia um calor esquisito que parecia emanar da palma das mãos dele direto para dentro das minhas.

Os lábios do homem estavam entreabertos, e ele roncava baixinho.

Tomei alguns momentos para analisar aquele que provavelmente deveria ser meu marido. Lutava contra meu cérebro, fazendo força para buscar uma memória qualquer da pessoa que dormia em uma posição completamente desconfortável ao lado da minha cama, mas nada aparecia.

Uma onda de impaciência me inundou e eu desentrelacei meus dedos dos dele e dei dois tapas na lateral da minha cabeça, assim como você faz com uma televisão que está querendo pifar.

– Merda de cérebro inútil. Não serve pra nada.

Eu não poderia dizer se ele acordou com o barulho dos meus tapas, pelo meu resmungar ou por eu ter tirado minha mão da dele, mas ele abriu os olhos sonolentos, e se espreguiçou. Por um momento ele parecia não lembrar onde estava, mas então ele virou-se de supetão para a cama como se temesse não me encontrar deitada ali.

Levei algum tempo analisando a forma como os músculos dele se moviam por baixo da camisa azul claro que ele vestia, me encantando pelos olhos castanhos claros mais brilhantes que eu já vi e sentindo uma inveja danada pelos cílios grossos e compridos que faziam sombras no rosto masculino dele. Nenhum homem deveria ter cílios tão perfeitos.

Um sorriso lento e manhoso se espalhou pelo rosto viril dele, e meu coração deu um pulo. Seus olhos se iluminaram como lâmpadas de Natal, e ele levantou da poltrona de forma rápida e deliberada.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, os braços fortes e musculosos dele estavam ao meu redor me abraçando com uma entrega que deveria ser proibida por lei. O corpo dele estava quente, e a forma como ele me segurava... Parecia prometer que nunca mais me soltaria.

Ele repousou seu nariz no meu pescoço e inspirou o ar como se pudesse encher os pulmões com o meu cheiro. E então ele me abraçou mais forte e me segurou contra ele. O homem parecia não perceber que meus braços estavam pousados sem jeito nas costas dele, e que eu não o abraçava da mesma maneira. Ou então ele não se importava. Aquele parecia ser o momento dele, e eu imagino que provavelmente ele teve medo de me perder para sempre.

Naquele momento me senti uma farsante, uma impostora. Aquele abraço, aquela entrega, aquele sentimento... Nada daquilo era para mim.

Claro, eu era a esposa dele, e meu corpo ainda era o mesmo. Quando ele olhava para mim, provavelmente só enxergava a Julie que ele amava.

Mas por dentro, eu não era mais a mesma. Eu não poderia dar a ele aquilo que ele esperava de mim, eu não conhecia mais a nossa história, e tampouco conhecia o homem que me segurava como se eu fosse o mundo dele.

Aquilo me encheu de uma tristeza dolorosa, que rasgava meu peito por dentro. Novamente, eu amaldiçoei o meu cérebro inútil que se recusava a liberar as memórias que eu precisava. Acredito que qualquer mulher gostaria de ser o mundo de alguém, e eu tinha isso bem claro aqui na minha frente, me abraçando. Mas eu não poderia pegar isso para mim sem sentir que eu só machucaria a ele. Era como se estivéssemos de lados opostos de um trilho de trem, e tentar atravessar ele machucaria quem tentasse.

Eu permaneci quieta, enquanto o homem tomava o que precisava de mim. Deixar o coração dele cicatrizar para depois dilacerá-lo novamente ao contá-lo que não conseguia me lembrar de nada, me parecia algo horrível de se fazer, mas eu não poderia me impedir. Enquanto os braços dele estavam ao meu redor, meu coração também se acalmava. Era como se somente ele pudesse trazer a paz que meu corpo precisa.

– Eu te amo tanto, tanto. – Ele murmurou e se afastou o suficiente para ficar de frente para mim.

Ele estava sentado na beirada da minha maca, seu corpo de frente para o meu, seu rosto a um palmo de distancia. Seus olhos castanhos estavam marejados e dor e alivio brigavam dentro deles. Um sorriso triste tomava conta do rosto dele. Sua mão direita afastou o cabelo do meu rosto enquanto seus dedos roçavam no meu rosto em um gesto carinhoso que parecia ter sido feito milhões de vezes.

Meu coração pulou uma batida e eu inclinei meu rosto para sentir o toque carinhoso da mão dele. Não parecia certo aproveitar daquele carinho que não era meu por direito, mas meu corpo parecia precisar daquilo mais do que do ar que eu respirava.

– Nunca mais me dê um susto desses, ta me entendendo? – Ele disse. – Eu pensei que tinha te perdido, Jú. Eu acho que não conseguiria passar por uma dor dessas novamente.

Meu coração se quebrou ao ouvir essas palavras dele. Pobre homem, mal sabia ele que a sua preciosa “Jú” havia partido para nunca mais voltar, e agora ele estava preso com uma cópia imperfeita dela que nunca poderia ser quem sua amada esposa havia sido.

Eu não poderia me forçar a contar isso pra ele, mas também não poderia fingir que ainda era a mesma pessoa. Embora meu corpo e coração parecessem querer acolher aquele homem como parte de mim, meu cérebro se recusava a aceitar. Infelizmente, era meu cérebro quem comandava meu corpo, e não o contrario.

A porta do quarto se abriu e uma enfermeira baixinha e loira entrou, com o doutor Willenberg logo atrás.

– Tenho más noticias, minha querida. Quando você sofreu o acidente, a caixa de som que caiu em cima da sua cabeça danificou o lobo temporal, e você acabou tendo um traumatismo cerebral grave. No momento em que você veio até nós, não conseguimos definir exatamente o seu diagnóstico, e seu cérebro funcionava normalmente apesar da concussão. Mas quando você alegou não se lembrar de coisas simples como seu nome ontem, levamos em consideração que você poderia estar sofrendo de amnésia global transitória, o que deveria se estabelecer em apenas umas horas e você voltaria a lembrar-se de tudo. – O médico fez uma pausa. – Mas nos seus exames, acabamos descobrindo que a sua amnésia é total, não parcial. E é retrograda, aparentemente. A boa noticia, é que tudo o que acontecer a partir do momento em que você acordou ontem será arquivado na sua memória e você irá se lembrar a longo prazo. A má noticia, é que tudo o que você viveu até o momento em que sofreu o acidente está completamente apagado. Você não vai lembrar de coisas simples, como sua data de aniversário ou o nome dos seus pais. É como se você tivesse arrancado todas as paginas de um caderno para reescrever o conteúdo. – Ele explicou.

– Então... ela não se lembra de mim? – O homem perguntou lentamente como se tivesse medo da resposta.

O médico negou com a cabeça. – Sinto muito.

O médio se despediu e saiu do quarto com a enfermeira logo atrás.

O homem olhou para mim com descrença e medo estampados por todo o seu rosto, e meu corpo queria puxar ele para meus braços e o abraçá-lo forte até que aquilo tudo passasse.

Eu não fiz isso, é claro. E ele apenas levantou da cama e murmurou que precisava de um tempo pra pensar, assimilar tudo aquilo.

Eu somente assenti com a cabeça enquanto ele saia pela porta com os ombros curvados, levando meu coração dentro de um dos seus punhos cerrados.

Meu Deus, o que é que eu tinha feito?

Notas finais
E quantas vezes nosso corpo não nos traiu, desejando aquilo que não podemos ter?