Os Três Amores Da Minha Vida
22 Nunca Se Afaste
Notas iniciais
Flagrei-me novamente olhando para aquele amuleto. Aquele que o monge havia me dado a algumas semanas atrás, dizendo que representava o amor existente entre Kiseop e eu. Não conseguia entender, mas sentia algum tipo de ligação com aquele objeto.
Eu estava no ônibus, a caminho do templo.
Não havia visto JunHyung na escola, ele provavelmente não chegara de viagem a tempo, e seu celular devia estar desligado no avião, de modo que sobrevivi a manhã toda sem ele. Não sei nem dizer se foi melhor assim...
Yao Ming não abriria o restaurante naquela tarde. Sua mãe estava doente e ele viajara até sua cidade natal para visitá-la.
Aquela tarde, eu dedicaria a mim, somente a mim. Queria organizar meus sentimentos, queria entendê-los.
Apreciei calma a viajem, não perdendo nenhum detalhe sequer da cidade. Não me cansava de admirar Seul, a cidade maravilhosa dos sonhos.
Senti meu estomago roncar, implorando por um almoço. No momento em que decidi visitar o templo, nem sequer pensei em comer algo antes, agindo por impulso e embarcando no primeiro ônibus que me levaria até lá.
O automóvel me deixou a uma quadra de distância do templo, mas eu podia ver de longe os portões gigantescos que desejavam boas vindas aos visitantes. Entrei rapidamente, seguindo pela trilha de paralelepípedos que me era familiar.
Pensando bem, o que eu fazia ali?
Quer dizer, ok, é um lugar legal, bonito e bem arquitetado, mas o que eu fazia ali? O que eu procurava encontrar ali?
Talvez, procurasse encontrar a mim mesma.
Entrei no templo, lembrando-me imediatamente dos movimentos que deveria fazer. Kiseop nunca havia me explicado o porquê daqueles movimentos, de modo que senti-me insegura de fazê-los e desrespeitar alguma entidade, ou sei lá.
_ Nos curvamos em respeito a Buda. – uma voz suave surpreendeu-me.
Olhei para trás, procurando a quem me dirigia a palavra, um tanto constrangida.
_ E-eu... – gaguejei. – Pensei alto outra vez... ?
_ Não. – sorriu-me o monge familiar. – Mas sei que você não freqüenta este lugar, e provavelmente não conhece nossas crenças, ou não teria hesitado em curvar-se.
O monge com aparência serena, aproximou-se de mim, segurando em minhas mãos e encarando a fundo meus olhos.
_ Você não esta aqui para contemplar a Buda, não é? – sorriu sereno. – Você nem ao menos sabe por que está aqui...
_ Como sabe? – estava surpresa.
_ Seus olhos estão tão perdidos quanto seu coração... – acariciou minhas mãos. – Você veio em busca de uma resposta. – concluiu.
_ Bem... – eu simplesmente não sabia o que dizer. Aquilo fazia sentido. – eu estou mesmo... – hesitei. – um pouco perdida. – sorri sem jeito.
_ Venha comigo... – o monge seguiu em minha frente, agarrando uma de minhas mãos.
Nós passamos por aquele pátio, passamos pela fonte e entramos em uma sala da qual eu desconhecia. Uma sala fechada, com tapetes e almofadas espalhados pelo chão.
_ Sente-se aqui... – o monge sentou-se, apontando a almofada a sua frente.
_ Hm... Como o Senhor... Monge... – como eu deveria chamá-lo? – Qual seu nome? – perguntei informalmente.
_ Eu sou o Monge Chun Kwang. – riu de minha maneira de perguntar.
Eu me sentei a sua frente, encarando-o por alguns segundos e tentando entender o que faríamos ali. Era uma sala realmente bela, com desenhos pelo teto e pilares que sustentavam o local.
_ Então menina...
_ Ana. – informei. – Chiao Ana. – sorri.
_ Então, Chiao Ana... conte-me sobre você...
Hesitei a princípio, mas contei tudo que ele precisava saber. Não sabia por que precisava contar-lhe algo, na verdade, não sabia nem como ele me ajudaria, mas contei sem nenhum problema, sentindo-me até confortável. Chun Kwang transmitia confiança em seu olhar, e eu sentia como se tivesse contando a um amigo, tudo o que precisava.
Lhe contei rapidamente sobre o Brasil, e o que eu fazia na Coréia. Contei sobre minha relação com a família Lee, e sobre Kiseop, escondendo os acontecimentos do dia anterior. Contei tudo que me veio a mente, e ele somente encarou-me paciente enquanto eu tagarelava sem parar.
Dando-me conta do quanto havia falado, interrompi minha explicação de como os macarrões eram preparados no restaurante, encarando o Monge um tanto sem graça. Ele apenas escutou-me atencioso, prestando atenção até em minha tagarelice inútil.
_ Eu me lembro de você Chiao Ana... – ele disse depois de me encarar por uns segundos. – Você é a jovem que não bebeu de nossa água sagrada. – sorriu.
_ Água sagrada... – disse baixo, lembrando-me da cena.
_ Você estava com um garoto... Eu também o conheço, ele vem sempre aqui...
_ É! Ele é o Kiseop... – disse em êxtase.
Levei minhas mãos até meu bolso, pegando o amuleto que ele havia me dado.
_ O senhor me deu isso... – estendi, entregando-o em sua mão.
_ Eu me lembro... – encarou o objeto. – É o amuleto do amor! – sorriu. – Você o ama, não ama? – arregalou os olhos, questionando-me.
_ Amo? – contemplei o chão. – Não sei... – bufei. – Não sei Senhor Chun Kwang. Não consigo entender nada sobre isso...
_ É porque seu espírito ainda é jovem... – explicou, tendo minha total atenção. – Olhando pra você, não consigo ver nenhuma maldade... Seus olhos transparecem verdade, e suas atitudes, demonstram seu caráter integro. – continuou. – Todas as pessoas no mundo, têm seus defeitos, suas falhas humanas. Você não está livre disso... Você não está livre de falhar. – estapeou levemente minha mão. – Você ainda vai aprender muito, com as pessoas e com seu coração. Apenas confie nele.
_ Isso quer dizer que...
_ Quer dizer que você deve seguir seus instintos, mas um tanto atenta! – alertou-me. – Você não estará agindo certo, magoando alguém que a ama. Seja honesta! – soltou minha mão.
_ Como vou fazer isso? – ameacei chorar de desespero. – Qualquer escolha que tiver, estarei decepcionando alguém...
_ Mas existem maneiras de magoar, sem ferir gravemente. Seja honesta! – repetiu. – Você pode escolher o lado que quiser, mas não traia em momento algum, os sentimentos sinceros que alguém tenha por você...
Finalmente entendi, um pouco tarde demais.
Odiei-me.
Eu já havia traído. Havia traído meu amor, havia traído JunHyung e ele não me perdoaria.
_ Eu errei! – entreguei-me aos prantos. – Eu o traí Chun Kwang-shi, eu traí a JunHyung, e eu o amo... – disse tentando conter meu pranto.
O monge apenas aproximou-se de mim, confortando-me com suas mãos quentes.
_ Como eu disse, ninguém está livre de errar. – afagou minhas costas. – O que precisa fazer, é redimir-se. Com ele, e com você mesma.
_ Como? – encarei seu rosto.
_ Só você saberá a resposta. – acariciou-me um pouco mais, deixando o cômodo em seguida.
Eu apossei-me das almofadas, deitando-me naquele tapete e entregando-me ao choro que não cessava.
Que tipo de pessoa eu era?
Nunca havia encontrado o amor. Nunca havia encontrado alguém que me fizesse perder o fôlego, que me fizesse sentir completa e útil no mundo, e de repente, apareceu-me JunHyung. O homem perfeito, cavalheiro, engraçado, divertido, confiável, honesto, lindo... Alguém que jamais me deixaria cair, alguém que retribuía meus sentimentos e me amparava. Um homem que me protegia de todo o mal que pudesse me atingir e que estava sempre ao meu lado, desde o início. Não suportava a idéia de magoá-lo.
Chorava cada vez mais, lembrando-me de seu sorriso, seus conselhos e seus desabafos.
“Ele nunca mais vai sorrir pra mim!” – chorei desesperada, soluçando.
Deixei o templo em prantos, tentando enxergar a rua com meus olhos embaçados e inchados.
*mensagem*
“Jun, onde você está? Eu preciso ver você! Preciso falar com você...
Ana”
Eu lhe contaria tudo. Eu não trairia mais JunHyung, deixaria que ele decidisse o que fazer comigo, sobre nós, não querendo lhe esconder nada.
Já passavam das 16:00 horas e eu peguei o ônibus que levava ao Namsan Park, encontraria Jun lá.
__
Segui em direção as escadarias, tomada pelas lembranças que invadiam meu coração. Aquele dia em que Jun pediu-me em namoro, e trancamos nossos cadeados um com o nome do outro. Naquele momento, eu acreditava que seriamos para sempre, estava tomada por um desejo de ter JunHyung sempre ao meu lado.
Não consegui conter minhas lagrimas, que insistiam em escapar de meus olhos involuntariamente, enquanto me lembrava de cada toque, cada riso, cada carícia.
_ Porque você está chorando? – ele estava parado a minha frente.
Estremeci. Não havia ensaiado como contaria a ele, o quão vaca eu realmente era.
_ Jun... – enxuguei a lagrima, deixando com que outra escapasse. – Eu... – não conseguia dizer, soluçando.
_ O que foi Ana? – ele disse preocupado, sentando-se ao meu lado e envolvendo-me com seus braços.
Como eu contaria a ele?
Eu não contaria! Eu seria fraca e não diria nada!
Não, eu não mentiria para ele! Eu não seria uma falsa, traidora que o faria sofrer.
_ A Jun... – livrei-me de seus braços, não queria seu carinho. Não o merecia. – Não seja assim... – pedi que ele não fosse tão carinhoso.
_ Assim como? – confuso.
_ Não me ame! – pedi. – Eu... – hesitei. – Eu não mereço isso... – chorei.
_ Certo, o que está acontecendo? – mudou para um tom ainda mais preocupado.
_ Não sei como vou dizer... – pousei minhas mãos em frente a boca.
_ Acho que já imagino. – contemplou o chão.
_ Já?! – surpresa.
_ Sim... – suspirou, acariciando minhas costas. – Na verdade, eu dormi preocupado com isso... Sabia que poderia acontecer.
Estávamos falando da mesma coisa? Como ele poderia saber?
_ Me desculpe... – aterrei a cabeça em minhas mãos.
_ Desculpo. – passou as mãos em meus cabelos.
Eu não merecia que ele fosse daquela forma comigo.
_ Não seja tão legal... – pedi, encarando pela primeira vez seus olhos.
_ Ana, eu amo você! – suspirou. – Não conseguirei ser tão duro, eu sabia que algo assim aconteceria.. Não vou torturá-la a dizer.
_ Mas foi errado! As pessoas têm razão sobre mim, eu sou uma vadia! – castiguei-me.
_ Não diga isso! – segurou firme meu braço. – Você não tem culpa pelo que sente... – fitou o chão novamente.
Ficamos silenciosos.
JunHyung era perfeito. Ele conseguia ser maravilhoso até em momentos como aquele, mostrando seu caráter impar e sua compreensão. Eu não o merecia, não merecia que ele me amasse. Não conseguia parar de me odiar!
Eu não conseguia parar de chorar, enquanto ele acariciava suavemente minhas costas. Porque eu era tão fraca?
_ Kiseop e eu conversamos a alguns dias atrás... – ele disse quebrando o silêncio. – Ele realmente a ama, e me disse que você também o amava... – encarou-me.
_ Como ele poderia saber disso se...
_ Se nem você sabia? – ergueu uma sobrancelha. – Ana, digamos que você seja a pessoa mais previsível do mundo para certas coisas... Prestando mais atenção, eu também percebi que você o amava, mas tentei fazer com que o amor que sentia por mim, fosse maior do que o que sentia por ele... – passou os olhos rapidamente pelas arvores.
_ Eu não sei ao certo, se o amo. – criei coragem para dizer aquilo, admitindo até a mim mesma. – Não sei se posso amar alguém que odiei por tanto tempo...
_ Pode. – ele disse enquanto brincava com meus dedos. – É assim que nasce o amor mais forte, com o ódio inexplicável. – continuou. – Eu sinto que não me ame de tal forma...
_ Jun, eu amo você! – disse convencida.
_ Eu sei! – sorriu. – Pelo menos me tranquilizo tendo certeza disso... – entrelaçou nossos dedos. – Mas você também ama a Kiseop, e eu não sei se posso com isso... – encarou-me. — Não sei se como homem, posso aguentar ver a mulher que eu amo, tendo olhos para mais alguem...
_ Me desculpe... – era só o que podia dizer.
_ Não se desculpe... – gargalhou. – Na verdade, você é tão inocente, que foi traída por seu próprio coração... Ou eu deveria chamar isso de estupidez?
_ Chame do que quiser... – apenas disse, com o pensamento longe.
_ Bem... – ele suspirou novamente, depositando suas mãos atrás de sua cabeça. – Agora, precisamos decidir o que faremos... – franziu o cenho.
Eu apenas me calei. Deixaria que ele decidisse, e o que ele escolhesse, eu faria.
_ Vou deixar você! – ele surpreendeu-me, dizendo tal coisa.
Não esperava aquilo, de modo que as lagrimas voltaram a jorrar de meus olhos novamente.
_ Não quero fazer isso... – seus olhos marejaram. – Mas não vou prender você a um relacionamento, impedindo-a de ficar com quem quiser... – continuou. – Vou deixa-la livre para escolher, um de nós, ou nenhum no fim das contas...- encarou-me segurando seu choro com orgulho.
_ Não! – me opus aquilo. – Não faça isso! – implorei desta vez, ridícula. – Eu quero ficar com você! Não quero pensar, não quero escolher... Eu quero você! – enxuguei uma lagrima.
Eu não me cansava de ser patética.
_ Como você é cabeça dura! – esbravejou. – Você vai viver sempre assim? Lutando contra seus sentimentos e fazendo as coisas para agradar os outros? – encarou-me. – Ouça seu coração com atenção, e não se magoe... Por mim... – continuou. – Existe uma forma de não me fazer sofrer, que é sendo feliz! Por favor Ana, seja feliz. Não se torture, não torne as escolhas tão mais difíceis... – levantou-se.
_ Jun eu... – não sabia o que dizer. Ele estava me deixando, tudo porque eu era uma idiota, que não conseguia controlar meus impulsos.
_ Eu sempre vou amar você! – puxou-me, fazendo com que eu me levantasse. – Sempre vou amar a pessoa que você é, mesmo errada, mesmo cega! Eu vou esperar por você, esperar por sua escolha... – beijou minha testa. – Porque você precisou vir der outro lugar do mundo, para que eu entendesse o porquê das pessoas sentirem a necessidade de ter alguém por perto, e eu não vou desistir de você tão fácil, mas vou deixá-la seguir seus sentimentos... – selou nossos lábios uma ultima vez, deixando que eles estalassem vagarosamente.
Eu não queria que os lábios de JunHyung afastassem-se dos meus, nem que sua respiração deixasse de chocar-se contra a minha, mas ele deixou-me ali. Eu apenas vi sua figura afastando-se sem olhar para trás. Sentei-me novamente, perdida em meus pensamentos enquanto escurecia.
Segui caminho até em casa, a pé. Queria andar, espairecer, e livrar-me de tantos pensamentos, mas era impossível. Não conseguia conter minhas lagrimas, pensando que JunHyung havia me abandonado.
_ É melhor assim... – comecei a falar sozinha, como um ato de loucura. – Assim ele não corre o risco de se machucar mais com qualquer coisa que eu possa fazer... – solucei. – Eu também vou esperar por ele... esperar até que ele me perdoe... é. – chorei, totalmente tentada a adentrar em um bar.
Bom, meu refúgio, meu porto seguro chamado JunHyung, não era mais meu. Eu não tinha como escapar da dor que estava sentindo, convencendo a mim mesma a esquecer por algumas horas toda a culpa e pressão que sentia sobre mim.
Entrei no bar suspeito, onde alguns homens encontravam-se embriagados de uma forma que eu pretendia estar.
Sentei-me sobre um balcão, pedindo logo uma garrafa de soju. O empregado apenas atendeu meu pedido, sem questionar minha idade ou pedir por algum documento.
Comecei então a embebedar-me em meio as lagrimas. Tentava ao maximo esquecer-me de tudo aquilo enquanto me lembrava das palavras de JunHyung.
*mensagem*
“ Onde você está? Nós podíamos comer algo juntos, o que acha? Que tal um frango?
Onew”
_ Onew! Que saudade Onew... – disse um tanto alto, enquanto alguns homens encaravam-me como louca.
Eu já estava completamente fora do normal, enxergando embaçado e falando sozinha.
*mensagem*
“ONEWWWW! Esto aki no bar... Vem k me vê! Saudari..kekeke~
Ana”
Enviei a mensagem sem saber se estava certa. Não conseguia enxergar muito bem o teclado, estava sem paciência para digitar com calma.
Assustei-me com meu celular tocando alto em cima do balcão.
_ Yeoboseyooooo... – disse rindo, sem prestar atenção no identificador de chamadas.
_ Ana? – uma voz preocupada. – Ana, onde você está?
_ Aqui! – ri.
_ Aqui onde Ana? – certa afobação do outro lado da linha.
_ No bar ué! Quem é? – perguntei impaciente.
_ Sou eu, Onew! Em qual bar?
_ No da... Como chama essa rua aqui mesmo moço? Hm...
_ Deixa eu falar com o moço! – Onew ordenou.
Eu simplesmente o fiz, sem entender o porquê de estar obedecendo-o.
O garçom tomou meu celular em suas mãos, conversando por um segundo com Onew, informando a localização do bar, e prometendo-lhe que não me deixaria sair dali.
_ Alô? – tomei o celular de volta. – Onew, você vem me ver? – empolguei-me.
_ Estou a caminho já! – suspirou. – Não saia daí...
_ Ta! – desliguei, debruçando-me sobre o balcão. – Moço... – conversava com o garçom. – Ele me deixou sabe... Eu sei que eu estou apaixonada pelo outro, eu sou uma vaca apaixonada por dois homens... PODE UMA COISA DESSAS? – berrei. – Mas ele não podia ser só um pouquinho filho da puta, e metido um tapa na minha cara? Eu ia me sentir tão melhor! – desabafei.
O garçom apenas riu, ignorando meu equivoco e voltando a seus afazeres.
Não demorou muito e Onew chegou, tropeçando afobado no tapete da entrada, procurando-me com os olhos.
_ ONEEEW – ergui os braços animada.
Ao me ver, ele seguiu caminho até o balcão, com olhos preocupados.
_ Ana... – olhou-me de cima a baixo. – Porque está aqui?
_ IIIHHH... LONGA HISTÓRIA! – porque eu estava gritando?
Ele segurou em meu braço, arrastando-me para uma mesa para que conversássemos melhor.
_ Conte-me – sentou-se a minha frente. – O que aconteceu? Porque ainda está com o uniforme da escola?
_ Aish... – tentei me lembrar do motivo. – AH! Eu fui da escola para um templo, conversar com um monge ninja e depois fui para o parque levar um fora de JunHyung... AAAI ONEW... – suspirei. – Hoje foi um dia terrível...
_ F-fora? V-você e JunHyung não estão mais juntos? – arregalou os olhos.
_ Não! – enchi seu copo com soju. – Beba!
_ Não, eu estou bem... – recusou.
_ Beba! – ordenei. – Não me deixe sozinha... Tudo que sempre quis foi alguém que afogasse as mágoas comigo. – pisquei lentamente.
_ Porque está bebendo tão cedo? Agora são 19:30 – olhou no relógio. – A noite mal começou...
_ Porque Onew, eu sou uma vaca! – virei outra dose de soju. – Ninguém poderá me amar por muito tempo, porque eu decepciono todo mundo... É só uma questão de tempo!
_ Pare com isso... – ele tentou tirar o copo de minha mão.
_ Beba comigo! – implorei.
Onew resgatou seu copo, bebendo com muito esforço.
_ Você não costuma beber não é? – ri.
_ Não! Eu fico bêbado facilmente, prefiro manter-me são. – explicou.
_ As vezes, esse é o meu melhor amigo! – mostrei-lhe o copo com soju. – Me faz esquecer de tudo, de toda a dor, e me diverte. – chorei involuntariamente.
_ O que aconteceu afinal? – perguntou preocupado.
_ Ah Onew... promete que não vai me odiar também? – ele apenas afirmou com a cabeça. – Sábado... É, no sábado, Kiseop disse que me amava, em alto e bom som, e eu estou tão confusa... – baguncei meus cabelos.
_ AAH, ele finalmente disse! – sorriu.
_ Como? Você por acaso já sabia? – estava confusa.
_ Claro!
_ AISH... Quer dizer que todo mundo sabia, até JunHyung, menos eu? – inconformada.
Onew ignorou minha pergunta, bebendo novamente outra dose.
_ Ta, mas você está confusa sobre o que? Você o ama também, não ama? – riu.
_ Não sei! Ai é que está o problema... – murmurei. – Eu amo JunHyung, mas retribui o beijo de Kiseop...
_ O QUE? – arregalou seus olhos. – Vocês se beijaram? – notei certa alteração na voz de Onew.
_ Aham... – afirmei com a cabeça, matando a ultima dose da bebida.
Deixamos o lugar em silêncio, ignorando o carro de Onew na frente do estabelecimento, e cambaleando pela calçada.
_ Não sei o que dizer sobre isso... – ele encarou o céu estrelado. – Eu acho que você também o ama... – completou.
_ Por quê?
_ Porque conversei com Key recentemente, e ele convenceu-me de que nós podemos mesmo amar duas pessoas ao mesmo tempo.
_ Você acredita mesmo que isso é possível?
_ Sim! – sorriu. – É o que acontece comigo, por exemplo... Com o que eu sinto com relação a Park Min, e a você. – surpreendeu-me dizendo isso.
Eu apenas gargalhei, embriagadamente envergonhada.
_ Não brinque assim Onew... – empurrei-o, esbarrando meu corpo contra o dele.
_ Não estou brincando. – suspirou. – Você realmente me amou certo?
_ Sim... – ri.
_ Não sabe o quanto me arrependo por não ter percebido isso na época...
_ Isso já passou. – encarei as estrelas também, sentando-me em frente a um estabelecimento fechado.
_ Eu sei! Mas se eu tivesse percebido isso antes, você não seria nem de Kiseop, nem de JunHyung. Você seria minha! Eu corresponderia seu amor, sem deixar que você chegasse a ter olhos para alguém mais... – sentou-se ao meu lado.
_ Só não pense mais nisso...
_ Não consigo! Não consigo me perdoar por ter deixado alguém como você escapar...
_ Como assim alguém como eu Onew?! – irritei-me. – Olha bem pra mim! Eu estou fedendo a álcool, covarde e confusa... O que tem de admirável em alguém assim? – contemplei o chão.
_ Nada! – ele disse. – É isso que me intriga... Quer dizer, você é tão humana! Não é como as garotas que são projetadas para serem boas donas de casa, boas esposas e mães... Você foge a esse padrão robótico, sendo desastrada e engraçada... Fazendo sempre o que quer a sua maneira... – encarou-me. – Você é diferente.
_ Talvez seja esse o problema Onew... Eu sou diferente! É por isso que magôo a quem eu amo, sempre! Não é assim só aqui... No Brasil também era assim, a diferença, é que lá meus problemas com álcool eram bem maiores...
_ Porque você bebe? – perguntou-me intrigado.
_ Não sei. Eu gosto... – sorri. – Gosto do gosto, da sensação, e da forma que me ajuda a esquecer alguns problemas.
_ O nome disso é fuga! – julgou.
_ Talvez Onew, mas eu sinto necessidade disso! Como se sozinha, eu não fosse capaz de agüentar...
Ficamos silenciosos por um momento. Eu conseguia ouvir a respiração ofegante de Onew enquanto seus olhos estavam perdidos em um pensamento.
Seu cheiro era bom. Um perfume suave que exalava de seu corpo, espelhando-se no ar.
Encostei minha cabeça em seu ombro, cansada de raciocinar.
_ Não vai precisar mais fazer isso... – ele disse calmamente quebrando o silêncio. – Sempre que quiser beber para suportar algo, me procure... – pousou sua mão sobre a minha.
_ Obrigada... – meus olhos inchados de tanto chorar, piscavam lentamente. – Sabe Onew, você é lindo! – disse sem um pingo de vergonha, fazendo-o gargalhar. – Não, sério, você é lindo demais! Sorria de novo... – disse deixando-o envergonhado.
Onew sorriu, e meu coração alcoolizado disparou.
_ Seu sorriso sempre vai me fazer perder o chão... – como eu tive coragem de dizer aquilo? Pelo menos não estava apalpando-o.
Me calei enquanto ele encarava em meus olhos.
_ Acha que algum dia, você pode voltar a me amar? – perguntou calmo.
_ Eu já amo você! – passei meus braços por seus ombros. – Já reparou que você sempre me salva de mim...?
_ Estou falando sério! – livrou-se de meus braços. – Você acha que algum dia, pode voltar a me amar como homem? Pode voltar a ter olhos para mim? – passou os dedos em sua testa.
_ Por favor, Onew, não me pergunte isso... – encarei o chão envergonhada. – Não consigo nem entender meus sentimentos agora, quanto mais passar a entender possíveis sentimentos futuros...
_ É, tem razão... – afirmou com a cabeça. – É só que... – hesitou. – Se você passasse a me amar, acho que você seria a mulher com quem passaria o resto de minha vida... – tossiu. – Quer dizer, é cedo pra dizer isso, mas meu coração está cansado de procurar por um amor... Sinto muito não ter enxergado o seu a tempo.
Abracei Onew. Ambos sofríamos com nossos corações idiotas, e ele estava sendo um bom amigo, cuidando de mim enquanto eu atuava como uma louca bêbada.
Não conseguia expressar minha gratidão em palavras. Se não fosse ele naquele momento, eu estaria encarando todo o torpor sozinha, confusa.
Mas ele fez com que eu me esquecesse por um momento, somente por estar ao meu lado, me fazendo companhia.
Conversamos ali por algumas horas, até que o efeito da bebida passasse. Ele manteve-me acordada, por mais que eu quisesse desmaiar de sono, ele cutucava-me sem me deixar dormir até que todo o efeito do álcool saísse de meu corpo.
Ele me fez rir inúmeras vezes, contando-me histórias engraçadas e sobre o início de sua carreira.
_ Onew, obrigada! – beijei sua bochecha. – Você é o melhor amigo do mundo! – sorri com olhos inchados.
_ Você também é a melhor amiga do mundo! – sorriu. – Não devia ter chorado tanto, agora parece que seus olhos têm conjuntivite... – riu.
_ Eu precisava chorar...
_ Eu sei! Mas sabe, você é muito chorona... experimente bater em alguem ao invez de chorar...
_ Começando por agora? – soquei seu braço.
_ AAAI! – gritou brincando. – Não! Uma bêbada agressiva é o que eu menos preciso agora... – riu.
Eu amava aquele sorriso. Eu amava ter Onew ao meu lado.
_ Só nunca se afaste... – pedi.
_ Prometo!
_ Mesmo? – me assegurei.
_ Mesmo!
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