Notas iniciais
Sei que quantidade não é qualidade, mas este capítulo, na minha opinião, é o mais completo até aqui. Devo agradecer principalmente ao Maicon Freitas pela ajuda na concepção do mesmo.

Tristan

Quando a porta se fechou, a vontade era de retirar-se de Valcorno por outra década. Liderar seus irmãos-de-armas em uma nova e longa aventura. Quem sabe até além de Westeros, certamente haveria serviço no horizonte para a Irmandade. Asshai e seus mistérios, Sothoros e suas relíquias, Braavos e suas moedas. Lá, eu serei apenas o que conquistar. Há bem da verdade, qualquer canto faria mais gosto a Tristan, desde que estivesse longe de seu pai, de suas ordens, de suas terras. Porém, a Irmandade do Oeste não desejava o mesmo... Ansiavam pela participação no Grande Torneio de Harrenhall.

Tolos. Sor Tristan Brax condenava, pois acreditava que a disputa em Harrenhall estava nas mãos dos grandes senhores. Eu sabia isso antes mesmo de Lorde Tywin chegar. Porém com a vinda do Leão, após uma reunião senhoril privada na Cúpula, ficou decidido que apenas sete casas representariam o Ocidente no grande evento, pois o Senhor de Rochedo Casterly havia entregado o broche de Mão-do-Rei à Aerys Targaryen e todos os ocidentais deveriam preparar-se para o pior: A guerra vindoura. A Coroa deve milhões de dragões para os Lannister. Tristan não desejava lutar esta guerra, portanto, ansiava abandonar os homens que lutariam nela para trás.

Há alguma maneira de sair com honra disso tudo? Sabia a resposta, o Druída me dissera. Só havia uma saída. Antes de retirar-se precisava salvar a vida de dois irmãos. O mais velho, Adrian, e o mais novo, Romney. O laço de sangue com o primeiro era mais forte, envolvia pai e mãe — o que não significa nada -, enquanto com o caçula, apenas por parte de pai. E este eu pouco conheço. Foi ele que nos colocou nisso tudo. Começou a refazer o relato de Romney em sua cabeça...

Em algum lugar entre Monte Tigre e Den Profundo, clandestinos cercaram Avahan e Romney. O cavaleiro cuidou dos forasteiros, mas enquanto o escudeiro afastava-se foi cercado pela cavalaria Lydden. Quantos cavaleiros ele afirmara ter? Tristan buscava lembrar em vão o testemunho do irmão. Romney, “o Veloz”, avançou sobre eles com a carroça e colocou-se em debandada, fugindo. Uma perseguição começou. Terminando no momento em que Sor Lotho Lydden, segundo filho de Lorde Lyonel, tentou pendurar-se na carroça do Brax em movimento e quebrou as pernas por falhar e despencar, sendo parcialmente atropelado pelas rodas da carroça. Sor Lotho ficou quebrado.

Como cavaleiro, sor Tristan Brax tinha alguém a quem culpar. Um escudeiro nunca deve sair do lado de seu mentor, mas cabe ao próprio mentor ensiná-lo isso. Infelizmente, sor Avahan Belvedere fora exilado e parecia ter esquecido de seu próprio treinamento. Inclusive, até onde Tristan sabia, Romney chegou a desertar de seu serviço por insatisfação.

Agora sor Leonard Lydden, o Texugo-Marrom, está aqui em Valcorno exigindo um julgamento por combate pelo suposto crime. E Lorde Robert permitiu que Adrian lutasse em nome dos Brax. Para piorar, havia pouco tempo, pois o próprio Senhor do Rochedo encarregara-se de acompanhar o desfecho da trama e exigia urgência por capricho.

Como se esperasse seus pensamentos cessarem, o Druída bateu na porta e entrou no quarto.

O 'velho' parecia um Selvagem do Além Muralha. Trajava os mesmos farrapos de sempre que incrivelmente nunca fediam. Os cabelos escuros em fios longos, emaranhados e encalacrados que não deviam ver a água há décadas. O mesmo podia se dizer da barba, que só possuía um aspecto 'melhor' por estar trançada. Sua algibeira de palha sempre exposta, bem como seu rígido cajado branco esculpido do galho de um Represeiro. Suas pestanas peludas estavam arqueadas como se soubesse exatamente o que Tristan iria pedir. Você ainda me assusta, velho. Estava me vendo? Confirmou quando fez um gesto para que ele sentasse, mas tudo que ouviu foi mais uma das perguntas do Druída:

— Será que temos tempo pra isso?

— Não, irmão. – Saudou-lhe com um aperto de mãos – Você tem razão. O tempo não está a nosso favor. – Concluiu o líder da Irmandade.

— Então dê a ordem de uma vez. O cavaleiro parece já concordar com as consequências.

— Concordar? Pareço? Não sei se consigo dar esta ordem. – O líder respondeu ao sábio com honestidade. Então, o Druída cedeu e sentou-se com paciência, mas manteve seu cajado no chão.

Tire ele do chão. Tristan pensou e o 'mago' levantou a base no mesmo instante, descansando o artefato no colo.

Fazia seis anos que o Druída fazia parte da Irmandade do Oeste. Após retirar-se às pressas das Ilhas-de-Ferro, acabou em Bosque Profundo e jurou seu machado aos Glover por uns tempos. Em certa caçada, esbarraram com o velho consertando uma cabana rústica na mata. E ele nos pediu ajuda. Por algum motivo que Tristan já não lembrava mais, acabaram auxiliando o velho e assim concluíram o serviço, mas perderam um dia inteiro de caçada. Banquetearam-se com um saboroso caldo de nabo com cebolas e alho, depois partiram. No retorno do crepúsculo, uma grande corja de homens-de-ferro surpreenderam-lhes. Estavam atrás de mim, por causa de Allyson Greyjoy. Entretanto, com seu machado nas mãos, não se rendeu. Eram trinta e dois contra dez. Foi quando a alcateia do Druída apareceu, tomando nosso lado. E vencemos. Quando o último inimigo caiu os últimos lobos se foram, o Druída apareceu, filosofando uma lição: "Se continuarem caçando os mais fracos, serão sempre caçados pelos mais fortes. Espero que o medo que eu senti no coração dos caçadores e o pesar da perda de seu Líder, lembrem-lhes eternamente como é ser perseguido, encurralado e ferido." E nos meses seguintes, o Druída acabou se tornando um irmão para todos nós. Acabou por juntar-se a Irmandade quando partiram para o Vale.

Desde então aprendera muito sobre o homem, sua sabedoria e sua magia. Além de outros dons e talentos, o Druída precisava de contato para ler pensamentos, porém com seu cajado branco junto ao solo, ele chegava a qualquer mente que pudesse ver. Portanto agora, Tristan e o 'velho' podiam conversar como pessoas normais.

— Veja bem... O cavaleiro não quer agir contra seu próprio nome de Unicórnio, eu sei... Eu sei. – O 'velho' tinha o hábito de não chamar ninguém pelo nome. E seu próprio nome é desconhecido. — O que não convém é o motivo. Não vejo uma aura de amor na sua dúvida, mas de medo. O que teme, Tristan? O Texugo-Marrom? O Xerife? O Lorde Garanhão, seu pai?

— Quando ele me perdoará por isso? – O sor indagou sem querer.

— Não me pergunte sobre o pensamento alheio ou futuro, cavaleiro. – Afirmou pela quinquagésima vez e no mesmo tom continuou: – Lembre o que exigi quando te expliquei o meu dom.

— Desculpe, Druída… Realmente não sei se consigo te autorizar a cumprir esta missão. – O 'velho' envenenaria Adrian com uma grande dose de leite da papoula capaz de adormecê-lo por um dia, assim não lutaria no Julgamento de Romney. Depois disso, ele acordaria normalmente, o Druída garantia.

— Devia estar mais preocupado com a luta.

— Sor Avahan ofereceu-se e já havia vencido ele uma vez. Por que Lorde Robert está tentando matar o seu herdeiro? – O tom que sua pergunta saiu pareceu um pouco irritadiço demais, de modo que o Druída respirou fundo antes de desatar a dar lições, como sempre fazia.

— Curioso o cavaleiro falar sobre ele… O Tigre-do-Leste possui um Deus Pagão em sua fé, não pode representar o rapaz em um Julgamento dos Deuses Ândalos. Na outra margem, o cavaleiro é um ândalo, forte, largo, acobreado e rápido. Já o seu irmão Xerife… Está gordo, pois nunca saiu deste vale. Anda curvado por ter ouvido ordens a vida inteira. Se esconde atrás da armadura, por que é odiado por todos. E ainda não teve filhos.

— Eu também não tive filhos. – Tristan fez lembrar.

— Tampouco, uma esposa. – O Druída sempre tinha um troco a dar.

— Não preciso de uma esposa. – Resmungou o líder.

— Não. Você precisa dar uma ordem.

— Faça então! – Quase gritou. E o Druída levantou-se na hora, mas com um sorriso no rosto, como se tivesse certeza dos próximos acontecimentos. Ele não falhou até agora. Salvou-nos dos clãs do Vale e em Pedra do Dragão. Ele sabe o que está fazendo.

— Sim, eu sei, cavaleiro. – Respondeu aos seus pensamentos, olhando para trás ainda com o leve sorriso e em seguida, saindo de seus aposentos.

Acompanhando o Druída fechar a porta, sua visão colidiu com um brinquedo de sua infância. Um cavalo de montar, empoeirado e atrás da cômoda. Seu outro irmão, Lucyus, filho do segundo casamento de Lorde Robert, costumava passar horas ali, galopando no brinquedo e atirando pequenas flechas de ponta curva. Como eu odeio este quarto, preciso sair daqui. Lucyus era o único irmão que amava. Por isso, Lorde Robert o tirou de perto de mim. Culpava o pai com argumentos. Depois me proibiu que eu fosse vê-lo. Tristan sempre questionou por qual motivo seu pai fazia de tudo para partir os laços entre os seus próprios filhos. Aliás, eu sempre questionei Lorde Robert, em todos os assuntos.

(...)

Chegou a hora. Tudo dera incrivelmente certo até ali, graças à Irmandade do Oeste agindo em conjunto: Mais uma vez os Trigêmeos Foote conseguiram fingir ser um só e enganaram Halbart, o escudeiro de sor Adrian, levando-o bêbado para longe do Castelo dos Chifres. Depois da janta, sor Tristan convenceu o irmão à dormir mais cedo, pois a luta seria na manhã seguinte. Àquela altura, a arqueira Desmera já havia acertado a poção do Druída na jarra do vinho noturno do herdeiro Brax e assim que ele bebeu, caiu em sono profundo. Rato deu o sinal, sor Titus Banefort foi buscar a armadura com Nick, enquanto sor Manfred e sor Billman prepararam tudo nas tendas erguidas no pátio do Julgamento. Os soldados de vigia, claro, fizeram vista grossa. Graças ao suborno nunca negado do Capitão Perwyn.

Por fim, o dia impar e decisivo raiou. Já na tenda, Allyson ajudava-lhe com toda a armadura do Patrulheiro do Vale. Escarpes e esporas em suas botas. Grevas, joelheiras e coxotes de metal escuro trabalhados com cascos de cavalos perolados nas pernas. Escarcela e até a cota-de-malha de seu irmão mais velho, Tristan vestiu. O peitoral era liso como se nunca tivesse sido usado, ostentando o trabalho de Aldruyn: Um garanhão em baixo-relevo, brilhando púrpura no chifre na parte frontal; Outras peças como manopla, ante-braçal, tasset, cotoveleira, braçal e espadares eram simples ou de segunda mão, mas o elmo fazia frente ao peitoral em elegância, com uma ametista violeta maior que a própria viseira do capacete. Cabia-lhe bem, pois apesar da diferença de dez anos de idade, ele e Adrian tinham a mesma estatura. A única dificuldade real era o fato de que o mais velho usava espada, enquanto Tristan, machado. Mas também fui treinado por sor Mallador Yew, o mesmo mestre-de-armas de Adrian. O capitão sentia-se seguro de um modo geral, entretanto ainda duvidava das consequências do que estava por fazer. Se eu morrer, serei um mártir, se vencer serei um traidor. Ele não sabia o que era pior. Tenho de vencer por Rom. Recordou-se no exato momento em que um cavaleiro entrou na tenda, surpreendo os dois, pois alguns irmãos-de-armas tinham ficado a postos para impedir intrusos. Era Sor Avahan Belvedere.

— Sor, não pode entrar aqui. – Allyson tomou a iniciativa.

— Por que não? É uma tenda de cavaleiro. – Fez-se de desentendido. – Qual é o seu nome, garoto?

— Gu…

Allyson já começava a soltar seu falso codinome Gus Spring, mas Tristan intercedeu a tempo.

— Halbart é o seu nome, sor. – Foi difícil mentir e imitar a voz de Adrian ao mesmo tempo, logo se provou um péssimo movimento.

— Me lembro bem de Halbart e ele não se parece este aí. Onde está seu escudeiro, sor Adrian? – Apesar de ter apenas um olho, Avahan demonstrava sua empatia.

Somente após ser chamado pelo nome do irmão que Tristan percebeu que o Tigre-do-Leste realmente não o havia reconhecido. O elmo o impede de ver a verdade. Mas será que serei capaz de passar-me por Adrian e engana-lo de fato? Decidiu descobrir.

— Ele estava indisposto, então Tristan emprestou-me seu escudeiro. Mas o que faz aqui, sor? Não deve ter vindo desejar-me boa sorte. – E tentou rir de zombaria como Adrian sempre fazia, mas soou pouco convincente.

— Não. Vim lhe sussurrar o caminho para a vitória, pois já venci o Texugo Marrom, duas vezes. – Allyson parecia tão nervoso quanto Tristan após a resposta do sor.

— Seria de grande ajuda, mas não será preciso, pois minha espada é tão mortal quanto seu martelo e eu irei vencê-lo. Desculpe ser rude, mas estou preparando-me para a batalha, se me der licença.

Avahan ficou claramente chocado com a resposta inesperada. Seu único olho acirrou-se e tudo que ele fez foi bufar em desrespeito e virar-se para a saída. No entanto, quando estava retirando-se vagamente, virou-se e alegou:

— Sor Adrian dissera que como os Dothrakis, os Westerosis não deviam perder tempo com etiqueta ou bajulações. No entanto, para expulsar-me, usou toda a pompa de um verdadeiro lorde. Suspeitei do escudeiro e da voz, mas este detalhe não me deixa dúvidas. – O Tigre-do-Leste aproximou-se e Allyson tentou impedi-lo, só para ser empurrado ao chão como um saco de batatas – Tire o capacete, sor. – E agora? Tristan tirou o belo elmo do irmão.

— Bom, agora já sabe quem sou. Sinto muito por ter de mentir, sor. Meu irmão teve problemas e quanto menor o número de pessoas ciente disso, melhor para a Casa Brax. Afinal, alguém precisa lutar por Rom e eu farei isso. – Finalizou com toda a sua sinceridade e firmeza.

Avahan mirou o único olho em Tristan, como se fosse o Druída e também lesse seus pensamentos. Coçou a barba e questionou:

— Até onde sei, de fato sua honra é mais digna de Romney do que a de seu irmão mais velho. Todavia, devo perguntar... Lorde Robert Brax concorda com o que o sor considera “o melhor para a Casa Brax”?

Assim que apontou sua dúvida de forma intimidadora, seus irmãos-de-armas adentraram na tenda, como se estivessem atrás do Tigre-do-Leste. Os sores Billman e Manfred, acompanhados de seus respectivos escudeiros. O mais veterano, Manfred, indagou: – Está tudo sob controle aqui, irmão?

— Tudo em ordem. Sor Avahan e eu estamos apenas conversando. Deixem-nos, mas fiquem de guarda. E que à partir de agora, ninguém mais chegue até esta tenda. – Os quatro acataram a ordem clara e retiraram-se. Sor Avahan permaneceu paralisado, aguardando a réplica de Tristan.

— Continuando, sor Avahan Belvedere… Meu pai nunca concorda com meus atos. – Deixou o capacete sobre a mesa e o unicórnio de ametista pareceu relinchar em resposta, dirigiu-se ao barril de vinho. – Você, como segundo filho, deve saber como é viver a sombra do primogênito. – Após encher um caneco para si, ofereceu outro ao Tigre-do-Leste, que aceitou. – Óbvio que tenho meus próprios objetivos a conquistar através deste julgamento, mas acima de tudo, estou disposto a lutar por Romney, mesmo que isto custe minha vida. – Brindaram e beberam. – Sei o que veio fazer aqui. Agradeço sua atitude, por mais tardia que ela seja, mas não deixarei que ninguém tire meu direito de defender Romney. Nem você, nem mesmo meu pai.

— Romney é seu irmão. É um Brax. Entendo. – Bebeu um segundo gole, esvaziando a caneca. – Porém, ele foi criado em Monte Tigre e estava a meu serviço quando cometeu o crime. – Serviu-se de outra caneca por conta própria, falando: – Isso faz de mim, responsável por seus atos. É de meu conhecimento que Lorde Robert também entende desta forma. Portanto, se eu revelar a ausência de Adrian, seu pai irá dar preferência ao meu martelo em defesa de Romney neste julgamento. – Finalizou a segunda caneca no mesmo instante em que Tristan terminava sua primeira.

— Peço encarecidamente que não o faça, sor. – O caolho já dava mais atenção ao barril que a Tristan, mas o líder da Irmandade continuou: – Além do mais, você possui outra crença, por isso não pode representar meu irmão em um Julgamento dos Sete. Vencendo ou perdendo, seria profanar sua própria fé participar disso. – Fez lembrar, assim como o Druída.

— Vocês, unicórnios, são muito orgulhosos. Que seja. Então deixe-me ao menos lhe adiantar o ponto fraco do Texugo, pois não terá uma luta fácil pela frente. – Resmungou enquanto bebia a terceira caneca de seu vinho.

— Alguns veem como orgulho, eu vejo como dever. Mas é claro que seu conselho é bem-vindo a nossa causa, sor. – Explicou sor Tristan.

— Sor Leonard tem um golpe de direita forte e rápido, mas na esquerda é fraco e lento como um magíster gordo. Golpeie seu escudo e rapidamente, ele abrirá sua defesa. – Avahan falava incrivelmente bem para quem havia tomado tanto vinho tão rápido e passado tanto tempo em Essos.

— Isso é tudo, sor? – Indagou e soou rude por ser curto.

— Sim, faça como eu estou lhe dizendo e sairá vivo. – Respirou fundo e olhou para o barril. – Imagino que este vinho seja de Adrian, certo? – Tristan balançou a cabeça positivamente. – Posso levar comigo? – Solicitou como se fosse uma recompensa pela sua informação.

— Fique à vontade, sor. Agradeço-lhe a orientação e compreensão. – Sor Tristan estava satisfeito, muito mais do que Allyson que arranhara o joelho na queda e ficara quieto desde então. Ambos assistiram juntos o Tigre-do-Leste retirar-se da tenda, atabalhoado com o barril embaixo do braço.

Minutos depois, o arauto chamou por Adrian e era Tristan quem retirava-se da tenda violeta dos Brax, rumo à arena do Castelo dos Chifres, trinta metros a frente. Será que mais alguém irá perceber?

Pelo que dava pra ver através da viseira, não se parecia com uma disputa de torneio. Não havia clamor ou sorrisos em sua direção, apenas uma grande plateia nobre e recatada. Ouviu Allyson Greyjoy dizer: – Acabe com ele, sor. – atrás de si, mas não virou. Isto o fez desconcentrar-se do centro da arena e vagar por entre os incontáveis rostos conhecidos que o observavam adentrar na quadra.

Romney estava destacado no tablado, flanqueado por dois guardas, um Brax e um Lydden, olhava pro chão estalando os dedos de nervosismo. Havia um palanque mais alto, onde os grandes senhores concentravam-se. E eram muitos naquele dia: Brax, Belvedere, Lydden, Clegane, Yew, Lefford, Drox, Marbrand, Crakehall, Payne, Serrett e outras mais. A presença mais imponente de todas certamente era Lorde Tywin Lannister e seu filho prodígio sor Jaime Lannister nos assentos mais elevados. Ao lado deles, Lorde Robert Brax. Sorria para ele, Adrian, como nunca sorrira para ele, Tristan. Parece orgulhoso. Orgulhoso de quê? Aquele sorriso lhe trazia raiva e desgosto.

O arauto retirou-se do centro da arena de terra, pois os desafiantes já estavam perfilados. Encarou seu inimigo de cima a baixo, no pouco tempo que tinha até que a trombeta soasse.

O adversário parecia tão protegido quanto ele. A diferença estava no estado das partes e peças muito mais desgastadas de sua armadura, porém todas inteiras. Ainda em menor elegância, sor Leonard possuía uma capa com as cores Lyddens, verde e marrom. E um escudo maior que o de Tristan. Antes de abaixar a viseira do elmo, gritou a plateia:

— Se os Deuses existem, estarão do meu lado. Vencerei por você, Lotho. – Encerrou como se o aleijado estivesse presente, mas não havia nenhum texugo além do próprio Leonard e alguns de seus primos.

Não vou arriscar. Tristan nada declarou, apenas levantou o aço na direção de Romney e balançou a cabeça dentro do elmo. Lorde Robert deu o sinal e a trombeta soou.

Tristan precisava convencer como Adrian para que nada fosse interrompido, portanto aguardou a ação de sor Leonard. O Texugo avançou com força descontrolada como se fosse o próprio Romney atrás da armadura. Tristan defendeu o primeiro golpe da espada Lydden e esquivou-se parcialmente de uma segunda estocada que acertou-lhe no elmo, amassando-o e fazendo alguns cacos violetas caírem no chão. O líder da Irmandade assustou-se e perdendo também o controle, atacou com espada e chute ao mesmo tempo. O Texugo apenas defendeu a espada com o escudo, e com o chute perdeu o equilíbrio, indo ao chão. Tristan impiedosamente levava a espada do irmão na cabeça de Leonard quando o Texugo levantou seu escudo. Apesar de defendido, o golpe de Tristan foi capaz de amassar o elmo do cavaleiro embaixo do escudo. E neste segundo pasmo de recuperação do Texugo no solo, Tristan bateu-lhe novamente no escudo, na altura do elmo. Na terceira vez, seu oponente estava desacordado e estirado na terra lamacenta. Alguns aplaudiram e saudaram a vitória, quando Tristan chutou o escudo torto para longe e foi constatado o estado inconsciente de Leonard Lydden, com o elmo completamente amassado e parte de sua face em pedaços, escorrendo sangue grosso e escuro entre a carne dilacerada.

Lorde Robert trocou meia dúzia de palavras com o Protetor do Oeste em sussurros. Até que o Senhor do Castelo dos Chifres ordenou que sor Leonard vivesse, fazendo um sinal positivo. Uma pena… Sor Tristan levantou a lâmina do irmão e ao invés de jogá-la ao solo, desceu um golpe vorpal na viseira de Leonard. Sentiu como se atravessasse um tronco podre com a arma. Deixou a espada fincada e com toda a velocidade que podia imprimir armadurado como estava, começou a sair da arena.

— Libertem meu irmão. – Ainda gritou.

— Espere! –A terrível e familiar voz de Lorde Robert ressoou através da plateia até ele. Tristan cessou os passos. – Por que não seguiu minhas ordens, sor? – Tristan não tinha nada a dizer, seu coração comprimiu-se e os pelos da nuca eriçaram dentro da cota-de-malha. – Sor, retire seu elmo. – Todo o ruído da plateia terminou. – Sor, retire-o, por favor… Guardas!

Nenhum lanceiro Brax ou de Lannisporto apareceu. Ao contrário. No ponto Sul da arena, um largo portão se abriu e toda a Irmandade vinha a cavalo, de modo que Tristan não pensou duas vezes, enquanto seu pai gritava para alguém pará-los, o capitão da Irmandade tirou o elmo e gritou:

— Libertem meu irmão! – A plateia ficou mais confusa ainda, como era pra ser.

Capitão Perwyn entregou as rédeas de Zora para Tristan, que ao subir em sua égua selada, gritou para seu irmão caçula já liberto:

— Venha, Rom! Venha comigo! Eu acredito em você.

— Prendam-no! Prendam sor Tristan! Cavaleiros! Senhores! – Lorde Robert gritava como um velho louco. Alguns cavaleiros até moveram-se, mas Desmera acertara duas pernas e um braço, isto manteve o resto no lugar.

Romney libertou-se das algemas e da plateia, saltou para arena, subiu em Zora e a Irmandade do Oeste partira, com um novo membro.

— Você está exilado! Não volte nunca mais a Valcorno! Nunca mais! Eu tiro sua her… – Foram as últimas palavras que ouvira de seu pai.

Notas finais
Espero que gostem! Responderei a TODOS os comentários. (Y)