Notas iniciais
Este capítulo não é só uma grande aventura, como também foi uma grande aventura escrevê-lo. Este volume está chegando ao fim! Agradecimentos Especiais: João Vasconcellos & Ana Carolina Machado.

AERON

Chy, seu cavalo pardo e escovado, retornava arquejante para Castelha, devido ao ritmo aceleradíssimo que Aeron exigia do bichano. O jovem ainda estava incrédulo com o ocorrido no cais de Vila Mel. Hahaha, hahaha! Sorria por dentro de empolgação. Após a derrota no duelo, sor Daronn dera-lhe a missão de resgatar dois dragões de ouro da Comitiva Belvedere a bordo do Tartaruga Negra, mas ele conseguira muito mais do que isso. Consegui duas ladys me lambendo, me chupando... Rebbeca e Tyana. Estive dentro delas, naveguei em suas nobres lagunas. Seu membro continuava pulsando enquanto lembrava das cenas. Eram até parecidas... As peles tão níveas exibindo mamilos rosados pequeninos e entumecidos. Eu amo quando não consigo encontrar defeito em uma mulher. E amo mais ainda quando falho duas vezes no mesmo dia, hahaha. Aeron acabava de descobrir que nunca tinha feito algo parecido antes. Nunca tive a chance. Essa vida de escudeiro... Seus pensamentos foram interrompidos pela imagem de sor Daronn, montando em Fúria, dobrando uma curva mais a frente, no Caminho do Espinhal, vindo em sua direção. Aeron reduziu, sorriu, enfiou a mão no bolso e alcançou as duas moedas de seu mestre. Não parece feliz em me ver. Os cavalos se encontraram.

O herdeiro vestia um rebuscado gibão índigo que Aeron ainda não conhecia. Por baixo, sua tradicional jaqueta azul e branca, com os tigres intercalados em tons opostos na altura do peito. A calça de couro negro, assim como as botas de cano alto. Onde está sua capa de tigre? Perguntou-se enquanto esperava Daronn tomar a palavra.

Isto acabou por demorar, pois o herdeiro parou para analisá-lo antes. Olhando-o de cima a baixo. O que houve? Está tão na cara assim? Um calafrio. Aeron sentiu-se incomodado.

— Deixe-me advinhar... — Começou com a costumeira voz irritadiça — Capitão Torgon não permitiu que você acessasse o báu e ainda lhe jogou no Blackwater por alguma insolência? — Daronn disse com seriedade demais para o nível de ironia. É isso mesmo que ele acha de mim? Quem imaginaria uma sauna com ladys? Arthur teve de rir.

Hahaha! Claro que não foi isso que aconteceu. — Com sua mão livre tocou o cabelo dourado e húmido. Devia ter me secado por completo. — Aqui está seu ouro, sor. — Ergueu a outra mão para entregá-lo.

O cavaleiro recebeu, mas realmente não parecia estar no seu melhor dia. Será que a derrota causou-lhe isso tudo? Indagou-se sobre o motivo. Emburrado, Daronn questionou: — Onde esteve então?

— É pessoal, sor. — Aeron sabia que acabaria contando, portanto achou por bem introduzir o assunto com sinceridade e cautela. Todavia, seu mestre não encarou dessa forma e lhe deu mais uma de suas lições.

— Esteve com mulheres, não é mesmo? E o que vai fazer quando seus bastardos nascerem sem pai? E se eles passarem fome? Acha isso justo? — Perguntou sem deixá-lo responder — E se a mãe vier a morrer no parto? Daqui há algumas décadas, haverão alguns bandidos rodeando os Sete Reinos com seu próprio sangue, Aeron.

— Isso não vai acontecer, pois elas eram nobres, sor. Haha. — Deixou o mestre constrangido por apenas um segundo e prosseguiu: — E eu não quero pensar nos meus bastardos agora.

— Nobres? Aeron! O problema pode ser maior ainda! Devia pensar no futuro com mais avidez. — Treplicou.

— Estou tão ávido que chegarei a tempo de participar na corrida final. — Assim serei cavaleiro, sor Arthur Chyttering. Nomeou-se mentalmente e ouviu seu nome ressoar nos confins do pensamento.

— Infelizmente, hoje não. Já vi que longe de mim, você torna-se um irresponsável. — Seu mestre era seco como o último outono. Desatou a cavalgar Fúria na direção oposta de Castelha. De volta pra Vila? Aeron pôs-se atrás deles com Chy.

— Como assim, sor Daronn? — Não esperou resposta e finalizou, deixando tudo as claras: — É o meu destino estar lá! Você não pode me impedir. — Uma carroça de abelhas passou entre os dois na estrada, exigindo concentração no comando dos animais e silenciando a conversa por alguns instantes.

— Sou sor Daronn de Monte Tigre, seu cavaleiro mestre, e decido quando está apto para se tornar um irmão da cavalaria, garoto. — Não devia me chamar assim, tem apenas dois anos a mais. Então, o "Jovem Tigre Impetuoso" confessou o que o atormentava: — Lady Anne Hawthorne segredou-me rumores negros. Devemos ficar juntos. Estou indo até o Represeiro do Lago, onde está Marwyn Hawthorne. Preciso de maiores explicações do sujeitinho.

— Eu não vou com você, sor. — Freiou Chy e Fúria foi freiado logo em seguida.

— Jurou me servir, Aeron. — O mestre fez lembrar.

— Meu nome é Arthur Chyttering, herdeiro das Terras Chytter, não muito longe daqui. Sou escudeiro há quase uma década e esta é a minha melhor oportunidade de dar o primeiro passo de volta pra casa. Ajude-me nessa, sor, e um dia seremos grandes aliados.

— Servindo-me também será um cavaleiro no fim da linha, Aer... Ar... Arthur. — Era mais fácil quebrar a Muralha do que a compostura do Jovem Tigre.
— Mas não terei a mão de Lady Anne Hawthorne, sor. Quem vencer "esta corrida", terá.

(...)

Já dava pra ouvir o clamor da multidão lá fora. O relinchar dos cavalos, o cricrilar de vagalumes e grilos, as tochas crepitando forte com o vento selvagem da mata tão próxima... As damas reclamavam dos insetos, crianças corriam e gritavam, os sores não faziam barulho, mas os lordes faziam ao comprarem cervejas, vinhos, caroços e grãos. Este será um dia para se guardar na história. Aeron tinha certeza. Já tive minha despedida de solteiro e serei sagrado cavaleiro, após a minha vigília, ao nascer do Sol, a mão de Lady Anne Hawthorne. Nem acredito que Daronn permitiu que eu participasse, ele realmente parece querer me ajudar, agora que lhe contei tudo. Estava aflito e afoito, mas quieto no seu canto. Todas as vezes que tentou levantar voz naquele espaçoso pavilhão oliva fora humilhado, portanto aguardava a chamada como uma sombra.

— Lema de donzela! "Não me toque! Não me toque! Ohhh!" Pois saiba que se você estiver no meu caminho Leo, eu irei tocá-lo com meus punhos! Hrm! — Advertiu Ed Blanetree, o grandalhão de Folharga, território ao norte de Vila Mel, mas ainda nas Terras Fluviais. Seus cúmplices Garse e Trebor vibravam com as ameaças, corroborando através de gestos e olhares. Um Harlton e um Wayn. Arthur tinha facilidade em decorar sobrenomes.

Leo Wode, obviamente menor que o grandalhão, respondeu: — O lema de minha casa é "Intocáveis". Portanto, veremos se conseguirá me alcançar, Eddy Barrigalharga, — e pela primeira vez, os "menores" riram do marmanjo em unissono — lembre-se que isso tudo será decidido em uma corrida.

— E nenhum de nós quer lutar hoje a noite, Blanetree. Jogue limpo, é só uma corrida. — Lewys Piper, o neto magrela de Lorde Yan Piper, falou como era de se esperar, afinal ele era o mais verde dos escudeiros no pavilhão, com apenas nove dias de seu nome. Não deixarei que este grandalhão te quebre, priminho. Pensou em dizer para tirar sarro da situação e contar sobre lady Rebecca Piper, mas uma sombra não fala.

Ed Blanetree berrou: — Hoje pode ser seu último dia, Lewys. A mata é perigosa... Se alguém se cortar, os animais virão pelo cheiro do sangue. Ha-ha! Não é só uma corrida, fedelho!

— Se eu fosse você, pirralho, não entrava nessa mata não. — O asno chamado Trebor somou.

— Se você fosse eu, certamente estaria neste pavilhão, Treburror. Afinal, falta-lhe coragem e astúcia, não é mesmo? Onde você estava com a minha idade? Mamando em sua mãe? — Lewys só conseguiu completar a frase, pois todos estavam embasbacados com sua ousadia. Afinal, Trebor Wayn era mais alto e mais forte que o próprio Ed, porém, era curvado e pateta, tanto desengonçado quanto tapado. Um oponente com o qual não vale a pena discutir.

Trebor tentou acertar três socos no pequeno Lewys, mas tudo que conseguiu foi cair no chão, atrapalhado com sua própria força e tamanho. Então Leo e Ed apartaram a "briga". Trebor ainda resmungou um pouco até que Garse Harlton, o único dos escudeiros a possuir uma barba expessa, contou mais uma de suas histórias clássicas para amendrontar caçulas: — Uma vez, em Lar do Coração no Vale de Arryn, houve uma competição igual. Na correria, um dos garotos caiu e quebrou a perna. — Beliscou a fina perna de Lewys no mesmo instante para envolvê-lo no conto. — Havia um urso caçando no local. O honrado Hugh Corbray morrera para salvar o garoto, dizem que chegou a montar no urso e golpeou sua cabeça com uma pedra, só pra ser despedaçado depois.

— Uma mentira! Como alguém montaria em um urso sem sela e segurando uma pedra? — Lewys era esperto, mas acabava por demostrar inocência gratuitamente.

Ed continuou suas ameaças junto dos comparsas da sua idade, ostilizando e intimidando quem podia, assim como tentara com Aeron, que fechara os ouvidos para ele, mas também teve que se calar para conseguir isso. Esta competição está encaminhada para a vitória do Blanetree. Arthur temia.

O sétimo escudeiro à competir, um raparigo sem qualquer símbolo ou cores nas vestes, avizinhou-se e provocou-lhe:

— Você devia ganhar isto aqui. — Aeron replicou a afirmativa do desconhecido com um sorriso sincero. E o sétimo explicou-se: — Ser escudeiro daquela tigreza azulada não te levará a lugar algum. Hehehe! — Sua voz soava tão falsa quanto sua aparência. Dentes amarelados e olhos juntos lembravam a Aeron uma ratasana traiçoeira.

— E você, quem é? — Aeron perguntou com esnobismo e firmeza em doses iguais.

— Sou Karyl Farofino. — Respondeu como se conhecido fosse.

— Não vou perguntar o porquê do sobrenome. — E devolveu-lhe um de seus sorrisos sarcásticos, um dos mais esnobes dessa vez. Como este infeliz consegue participar de uma disputa como essa? — Diga-me, Karyl, quem é o sor seu mestre? Não seria sor Wendell Flowers, o Bastardo da Campina, seria? — Era fácil sobrepujá-lo no diálogo, Aeron seguiu no esporro: — Por que sor Daronn Belvedere é o herdeiro de Monte Tigre e um dia será Senhor do Ferro Ocidental, portanto, respeito-o ou terei de obrigar-lhe a parar de sorrir. — Aeron era mais alto que o rato, por isso, não se inibiu.

Só que Karyl também não era nada covarde e de queixo erguido, ofendeu:

— E quem são esses bostas de Belvederes? Onde estão seus nomes na história de Westeros lhe pergunto.

— Está vendo o que está acontecendo debaixo das suas ventas? — Aeron abaixou o tom de voz para que os outros não notassem: — Este é o jogo de Ed. Que nós quatro estejamos um contra o outro.

— Este é o jogo da noite, Tigrinho. — E Karyl sorriu novamente, seboso e implicante. — O jogo das nossas vidas. Somos sete e apenas um se tornará cavaleiro. O primeiro a alcançar o Represeiro do Lago. Um contra o outro.

— No entanto... — Arthur ia explicar que haviam grupos entre os sete, como Ed, Garse e Trebor, mas percebeu que não confiava naquela ratasana. Não conhecia nada de Farofino. Para quê me aproximar? Ele está certo. É cada um por si. — Esquece. Apenas me deixe em paz.

— Ou? — Interrogou aproximando-se mais ainda de Aeron, revelando um terrível odor de podridão, que de tão forte, parecia a verdadeira intimidação de Karyl Farofino. Será que o "faro fino" é por isso?

Aeron empurrou o escudeiro imundo para longe, não forte o suficiente para que ele caísse e esclareceu: — Ou começará a corrida com um dente podre a menos nessa sua boca suja. — Fechou o punho e o cenho, imaginando mil maneiras de acerta-lhe um soco surpresa, assim que Karyl abrisse a boca pra falar. Todavia, o momento não chegou, pois a ratasana afastou-se abatida.

Eu vencerei todos eles. "Bem rirá quem rir por fim." Aquele era o ditado mais rotineiro do Cavaleiro Sorriso, seu antigo mestre. E chegou a minha hora de ser cavaleiro e ter meus ditados, graças a permissão de Daronn. "Ao Poder Através Da União". Pensou no lema de sua família Chyttering. Mas nessa corrida, não consegui união alguma, terei de vencer sozinho. As sete trombetas tocaram lá fora, da mais grave a mais aguda e quando todas juntas formaram uma só sinfonia, os escudeiros saíram da tenda em fila.

A noite estava perfeitamente agradável. Houve uma calorosa recepção por parte da plateia trajada de vestes excêntricas. Claramente se via torcidas distintas nas colorações de suas famílias. Hawthorne, Pipers, Wodes, Wayns, Harltons, Blanetrees, Rygers e até alguns Keaths. Era muito mais do que uma arquibancada vibrante, parecia uma grande festa, ou um grande ritual. Lordes e miladys, outras damas que Aeron não tinha visto em Castelha. Ninguém veio abraçá-lo ou saudá-lo, pois ninguém conhecia Aeron. Não preciso que torçam por mim, eu vencerei. Já tive meus beijos e abraços de boa sorte hoje. Pensou onde Rebecca estaria naquele momento. Mas nem lady Rebecca, nem a noiva prometida lady Anne Hawthorne estavam ali.

Em sequência, uma distinta cerimônia baseada na crença aos Deuses Antigos de acordo com os velhos costumes das Terras do Rio começou, mas tudo acabou passando em alguns segundos para Aeron, de tão tenso que estava. O sacrifício de uma cabra, o choro incessante de um bebê, tintas e pastas sendo esfregadas no seu rosto, tambores ecoando por entre os troncos e corpos, as tochas eram centelhas de poder flutuando ao seu redor. Quando percebeu estava nu. Nu como viera ao mundo, com o corpo sujo de sete óleos diferentes, com sete cores distintas. Cabelos presos e corpo na posição de largada. Correremos a pé. Lado a lado com os outro seis competidores igualmente prontos, aguardando o sinal. Só preciso seguir os archotes. Os tambores e a cantoria gutural cessaram subitamente e a Senhora Cassana Hawthorne discursou de maneira risonha e persuasiva:

— Sei que normalmente corridas desse porte são feitas a cavalo, afinal, sagraremos um cavaleiro. Todavia, também sagraremos um novo Hawthorne hoje. E nada melhor do que correr descalço em nossa floresta para entender o que é ser um Hawthorne. "Toda flor tem espinhos" são nossas palavras. — Alguns homens de armas de Castelha bradaram com ela. — Basta de sermão! Quem tocar no Represeiro primeiro é o cavaleiro e meu novo genro. Corram rapazes, corram!

Os primeiros passos foram largos e acelerados. Aeron não quis saber de nada ou ninguém, apenas disparou. Então situou-se. Leo Wode está na minha frente. Não parou para olhar para os flancos, muito menos pra trás. Conforme a mata se fechava em volta dele, enegrecendo os arredores e apontando claramente a direção a ser tomada pelos archotes da disputa, ouviu um ronco crescente atrás de si, como se um pedregulho grosseiro estivesse rolando em sua direção a ponto de causar um tremor no solo. Aeron havia usado todo seu fôlego na largada, agora não tinha como manter a posição, apenas esquivar. Tomou um dos flancos da trilha, dando passagem. Acabou comendo terra na beirada.

O gosto molhado e verde, a textura tão incomível, quase o fizeram vomitar. Ed Blanetree havia acertado-lhe um murro na cara. Um pequeno corte abriu em sua face, seu sangue fora derramado. Precisou de alguns segundos para recuperar o fôlego. Assistiu sua segunda posição transformar-se em sétima rápidamente. Todos passaram por ele... Garse, Trebor, Karyl e Lewys. Levantou-se o mais rápido que pôde e seguiu o caminho iluminado. Graças aos deuses, antigos ou não, logo em seguida acabou por subir num barranco que permitiu-lhe visualizar toda a Floresta dos Espinhos no plano abaixo. O percurso é bem maior do que imaginei. O rastro de luz até o Represeiro parecia um desafio tão perigoso que escudeiros como Lewys Piper por exemplo, jamais poderiam superar. Mas outros conseguirão... Não podia deixar que conseguissem.

Aeron buscou o fôlego da partida novamente e imprimiu um bom ritmo, acelerado e consciente. As raízes machucavam a sola do pé, mas não tanto quanto as pedrinhas naturais do solo. As plantas ainda não se aglomeravam a ponto tornar-se um obstáculo, portanto, Aeron não sabia por que não alcançava o sexto lugar. Acelerou mais ainda, arriscando-se aqui e ali em busca de um atalho. Até que enfim, pouco depois de atravessar um trecho brejoso, onde fora obrigado a saltar entre as pedras para não cair num lamaçal escuro, o sexto lugar surgiu na trilha a sua frente.

A visão era terrível. Se Aeron estava sujo, o asno do Trebor Wayn estava imundo. E sangrava. Mancava tão lentamente que morreria antes de arrastar-se até a linha de chegada. Será que havia uma armadilha de espinhos no lamaçal escuro? Aeron pensou em averiguar o ferimento e talvez aconselhá-lo a retornar para a largada em segurança, entretanto a vida do ignóbil brutamontes pouco lhe importava. Enquanto o ultrapassava, começou a lembrar dos motivos disso. Ele me disse que sor Daronn nunca será lorde. Por que "a maioria dos lordes não são os primeiros filhos. Estes tendem a morrer rápido ou serem traidos por serem alvos fáceis." Agora, o pateta ainda clamava por ajuda, mas logo ficou pra trás.

Depois de algumas curvas ladeira abaixo, onde Aeron quase saiu rolando pela pressa nos calcanhares, a disputa voltou a ficar emocionante para ele. Observou adiante e avistou todos os outros cinco escudeiros, um à um, apesar da distância e da escuridão. A trilha de archotes ali, era uma reta extensa e conforme progredia inclinava-se, de modo que ao final do trecho, era preciso escalar para prosseguir. Desprovido de equipamento e completamente nu. Não acreditava no nível do desafio dos Hawthorne.

Leo Wode ainda está na frente. O ágil escudeiro de sor Marq Piper já estava no meio da escalada final. Ed Blanetree continua em seu encalço. O grandalhão violento mostrava que o favoritismo não era atoa, mantendo sua segunda posição. Bem mais abaixo vinham Garse, Lewys e Karyl. O rato perdendo para o menino, haha. Um ânimo o revigorou e Aeron estava pronto para igualar-se a eles. Isto está só começando. Começou a percorrer a extensa reta de archotes.

Muito antes de alcançar a escalada final, emparelhou-se a Karyl Farofino. A ratasana não permitia que Aeron ultrapassasse com dignidade, fechando-lhe sempre. Não posso perder tempo. A velocidade era alta, qualquer tropeço multiplicaria as chances de um fracasso. Aeron deu um leve toque na lateral externa do pé de Farofino, como uma rasteira em movimento, e a ratasana tropeçou em seu próprio rabo, rolando e se arranhando todo na queda.

Essa foi por pouco. A verdade era que Aeron começava a acreditar que os Antigos acompanhavam a prova, pois quando Karyl tropeçou, ele esquivou-se de forma milagrosa, como se antecipasse o tombo do adversário. O destino está correndo conosco essa noite. Só foi alcançar Lewys Ligeiro no topo da rampa, durante a escalada. Mesmo assim, o garoto de nove anos superou o obstáculo muito antes dele.

Escalar o paredão final foi difícil, pois o novo último lugar, Karyl Farofino, jogava-lhe pedras à distância. Eu devia ter socado você, rato. Todavia, o ataque acabou estimulando Aeron a escalar mais rápido para não ser atingido e quando por fim, chegara ao topo, viu-se diante de uma discussão razoável.

— É a nossa chance de passar a frente. — O barbudo com uma árvore branca pintada no peito brigava com o ligeiro Piper. Aeron aproximou-se para entender melhor a situação.

Eles haviam escalado as costas de um penhasco e agora teriam de saltar em uma queda d'água que desembocava em uma pequenina laguna à quase cem pés de altura. Ou poderiam descer trepando-se rocha à rocha do paredão íngreme e úmido como Leo Wode e Ed Blanetree estavam fazendo.

— Eu não irei saltar, é suicidio. — Lewys decidiu um tanto quanto entristecido.

— Você irá saltar. — Garse falava em uma mistura de incentivo com imposição. Pareceu que o escudeiro da árvore branca fosse agarrar o pequeno de Donzelarrosa, então Aeron intercedeu.

— Garse Harlton, deixe Lewys Piper em paz. — Fez-se notar, dando-lhe uma ordem também.

— Ou o que você fará? — O barbudo questionou tentando intimidá-lo.

E o que você fará? Todos estamos sujos, todos estamos nus, todos estamos atrás. Pensou usar a voz para responder, mas apenas seu semblante e olhar sério bastaram para isso, Garse claramente acuou-se, no entanto, em seguida Farofino começou a dar sinal de alcançá-los representando a aproximação do último lugar, Harlton voltou a pressionar:

— Lembre-se da história do Vale? Eu sou o urso! — Deu um tapa no braço esquerdo para matar um inseto que picava-lhe. E concluiu: — O garoto saltará primeiro.

— Não! — Coagiu seriamente. — Não estamos no Vale. Você não é um urso. Lewys não irá saltar. — Uma pausa e finalizou: — Eu vou saltar. — Garse pareceu satisfeito ao ouvi-lo, já Lewys...

— Pois eu não ficarei aqui para assistir ao seu suicídio. — E afastou-se da beirada.

Aeron olhou uma última vez para além do abismo. Leo Wode já estava quase alcançando o solo. Depois foi até o Piper, tomando distância da borda, e aconselhou:

— Pois volte logo então, primo. — E após contemplar a cara de desentendido de Lewys, Aeron acelerou os passos em direção ao precipício, gritando: — Venha Garse! Venha limpar essa sua bunda suja! — Escolheu a direção certa e pulou: — Ao poder através da uniããããããããooooooooooouuuuuuuummmmmmmm!!!

O coração já estava disparado desde que dera o primeiro passo de impulso, mas o "frio na barriga" viera apenas quando ele de fato saltou. Foi como se uma espada feita de ar atravessasse-lhe o abdômem e ficasse fincada durante todo o curso até a água fria da lagoa. Assustador. Pensou embaixo d'água.

Aeron mal sabia nadar direito, muito menos mergulhar da forma correta e isto quase matou-lhe, pois acabou pulando de maneira divertida e corajosa, gerando grande impacto e assim que saiu da pequena lagoa, sentiu seu rosto e peito amassados como se o peso de um castelo estivesse sob ele. Mesmo assim, sorriu. Não planejei sair intacto desta disputa. A adrenalina não havia deixado seu corpo.

— Pulem! Pulem! — Gritou enquanto limpava a tinta que escorrera pros olhos. — Vamos deixar Ed e Leo pra trás! Haha!

Sua risada ainda ecoava quando Lewys foi empurrado do topo. Aeron reconheceu pelo tom do grito, um jovem aaaaaaahhhhhhhhhhhhhooooooo terminado em um baque seco e fatal. O som dos ossos quebrando ecoou num crashashashashash horripilante. De onde estava, não viu sangue, mas também não viu movimento depois do choque. Ele pensou em correr até o corpo estatelado para ver se ainda podia ajudar, porém Garse saltou subita e sileciosamente, emergindo no meio da lagoa como um verdadeiro assassino. Leo começou a arriscar-se mais na descida, em alguns segundos estará no solo. Diante disso tudo, Aeron continuou a disputa, mas agora, na primeira posição.

A trilha de archotes voltara a ser escura e sinuosa, em alguns trechos estava até escorregadia e irregular. Senhora Cassana deseja um genro aleijado. Lamentou ironicamente. Harlton, o escudeiro traíra vinha logo atrás e quando ganhava contato visual com Aeron, o criminoso gritava ameaças como: "Ninguém foge do urso! Ninguém!". Aeron poderia perder a concentração procurando alguma pedra pontiaguda na mata para vingar-se ou uma forma de preparar uma armadilha no caminho para o assassino. Ele matou Lewys Piper. Isso não saía da sua cabeça. Contudo, sua própria imagem como sor Arthur Chyttering casado com Lady Anne Hawthorne era mais cativante naquele instante e suas pernas começaram a funcionar como as patas de um puro-sangue dornês, e a cada passada, o impulso era maior. Ele acelerou. Sou o primeiro. Vou conseguir.

Estava enganado. Eles são mais velhos e mais ágeis. Em pouco tempo, Leo Wode, rápido como uma lebre, surgiu em seu encalço. E não estava sozinho. Ed Blanetree e Garse, o infrator, vinham atrás dele. Tentou pegar distância novamente, mas no fervor do arranque não viu que existia uma armadilha a sua frente. Uma corda estirada entre dois troncos que abraçou sua garganta deixando-o sufocado e agonizando de dor no solo. Aeron pensou que os outros oponentes cruzariam por ele, atropelando-lhe ou chutando-lhe, mas isto não ocorreu. Quando levantou os olhos para entender o que ocorria, teve medo. Todos os três escudeiros estavam perplexos na trilha, olhando para sua direção. Tem algo atrás de mim? Aeron virou-se.

Onze homens encapuzados portando espadas e machados alinhavam-se lado a lado, formando um bloqueio na prova. Alguém não quer que Anne se case. Vão matar todos nós. Aeron imaginou no mesmo segundo em que começou a tremer. Os algozes encapuzados não se moveram, dando tempo do jovem levantar-se, e assim que virou para se agrupar com os outros garotos, o motivo daquilo tudo foi revelado.

— Ed Blanetree, você é meu. — Garse deu um chute covarde atrás dos joelhos do grandalhão de Folharga. Ed tropeçou e caiu. — Irmãos do Rio, acabem com o resto. — O homem que estava no centro da barricada sentenciou.

Aeron reconheceu a voz do Exilado da Campina e enquanto corria desesperado para dentro da Floresta dos Espinhos, lembrou-se dele. Sor Wendell Flowers, o cavaleiro mestre de Karyl Farofino. O que ele quer com Ed Blanetree? Alguns bastardos vinham atrás dele, sicários sedentos. Covardes, estou desarmado. Ouviu Garse urrar como um urso na trilha, perfurado por alguma lâmina traiçoeira. A mente de Aeron começou a turbilhar, agora que sua vida estava por um fio. O coração saltava como um sapo dentro do peito nu. Seus pés deviam sangrar como os de Trebor de tantos espinhos, mas ele não sentia nada, apenas medo, apenas desespero. Fugia o mais rápido que podia. Não parou para olhar para trás ou procurar pelos outros. Só queria estar longe. Socorro! Socorro! Gritou com pensamentos, torcendo para algum Deus escutá-lo. E não é que eles existem? Pensou assim que ouviu um dos perseguidores berrar de dor. Aeron observou sua retaguarda... Quase que em câmera lenta, assistiu o último de seus perseguidores morrer. Uma flechada na nuca que trespassou-lhe a boca num jorro de sangue grosso.

Aeron caiu de joelhos, não conseguia mais pensar. Entre gemidos decrépitos e troncos negros, com uma das mãos no solo por quase não se aguentar de tanto cansaço, Aeron avistou sua salvadora. A Capitã Anne Hawthorne viera com seus arqueiros por um fim em toda aquela insanidade. E fizera isso de forma disciplinada e eficaz.

Sor Wendell Flowers, Karyl Farofino foram encaminhados as masmorras de Castelha. Ed Blanetree, Leo Wode e Garse estavam mortos, assim como Lewys e Trebor. E Aeron...

Não tornou-se cavaleiro. Não ficou com a mão da noiva.
Mas estou vivo. E livre.

Notas finais
Espero que gostem! As aventuras em Vila Mel ainda não acabaram! Responderei todos os comentários!