Os Tigres de Westeros
31 Avahan V
Notas iniciais
Avahan
Dos cavaleiros que participariam, o Tigre-do-Leste era o último. O último escolhido, o último a falar, o último a sentar e o último a levantar. Também era o último da coluna formada pela Comitiva Ocidental rumo ao Grande Torneio de Harrenhall. Se eles pensam que me ofendem com isso, estão enganados… Por mais que não se sentisse afrontado com o tratamento, Avahan especulava o motivo de ter sido posicionado na extrema retaguarda, escoltando a traseira dos carroções de ladies e crianças. Talvez seja meu martelo. O Peso do Mundo deixa os seus corações inquietos. Apostava Han. Não pode ser o buraco em minha cara. Estes homens são acostumados à amputações piores e não sabem o que isto realmente significa. Assim ele esperava. Se fosse por estranheza à Rh'llor, não me responsabilizariam pela proteção de suas mulheres e filhos.
Exceto este grupo de quatro carroções, restavam outras carruagens menores com curandeiros e escribas. Também haviam soldados que carregavam pavilhões, armamentos, estandartes e provisões em pequenos veículos. Alguns servos iam a pé levando o gado sobressalente na chibata, e por fim, os escudeiros que se espalhavam em suas nobres montarias servindo de mensageiros entre a vanguarda e a retaguarda. Preciso que encham meu cantil, preciso de um escudeiro.
Pensou em Romney Brax. Ele deveria estar aqui comigo agora. Todavia, sor Avahan acabou por simpatizar com sor Tristan Brax, a quem confiara a nova tutela do garoto. Se sou tio dele, Tristan é o irmão mais velho. Na cabeça de Han, existia uma grande diferença. Assim como Belick teve o papel de me guiar. Era difícil admitir publicamente, mas em seu âmago, Avahan admirava o Senhor do Ferro que o irmão se tornara e sua gratidão a ele seria eterna. Eu sou o Tigre em Harrenhall, brindou sozinho, erguendo seu cantil. O único.
— Vamos partilhar este brinde, sor. Hehe. — Uma vistosa jovem mesurou com um cálice na mão, tão fino quanto seu sorriso. Ela é bela, lembra-me alguém.
Enquanto tentava adivinhar o nome que lhe fugira da mente, reparou na garota. Cabelos rubros e acobreados, a face centralizada por um nariz arrebitado e coberta de pequeninas sardas, pescoço de garça e quadris finos como os de uma raposa. Uma beleza nobre. Trajava um vestido púrpura de samito bordado em ouro com saias cheias, rico em detalhes dourados no corpete. As moedas do brasão dos Payne. As mangas longas esvoaçavam-se levemente, acompanhando o andar da carruagem.
— Sou Elizabel Payne e o sor é? — Deixou no ar uma intenção misteriosa, quebrando seu silêncio e avaliação. Hmm.
— Avahan Belvedere, milady. — Levantou o cantil em saudação. — A senhorita brinda à quê?
— Ao meu pai, Lorde Cedric Payne que de coração tão frouxo transformou o filho do carrasco em seu herdeiro.
Após essa amarga declaração, a donzela bebeu de seu cálice. Avahan levou o cantil à boca em respeito. Com certeza, houveram bons motivos para ter feito isso. Ao invés de revelar sua desconfiança a cerca do fato narrado, o Tigre-do-Leste inquiriu:
— Fala daquele rapaz ali? — Apontou de cima da sela para um dos escudeiros que cavalgava à oeste deles. Parecia um bom garoto, de aspecto humilde e astuto. Tinha um bom controle do cavalo. A cor púrpura só estava esmaltada nas ombreiras, de resto trajava apenas ferro, couro e linho. Poderia ser meu escudeiro. Elizabel encarava-o constante e capciosamente.
— Como sabe? — Indagou espantada.
— Seus olhos violetas não largavam o rapaz. — A gentileza incomum saíra ao acaso. Talvez o clima de torneio já estivesse embalando a Comitiva e o coração de Avahan. Talvez seja o vinho. Assumiu internamente. O cantil está começando a ficar leve...
— Estou olhando é para você, sor Avahan Belvedere. — Ela acomodou-se no corrimão da sacada. — Nobre em sua armadura prateada, com um ardiloso tapa-olho e essa capa listrada lembrando-nos que vocês Belvederes são os únicos nobres estrangeiros do Ocidente. De onde vieram, afinal? Volantis ou Valyria?
Era estranho ouvir falar na estrangeirice de sua família, pois além da Casa Belvedere ser ancestral, Avahan estivera em várias das Cidades Livres de Essos e não sentiu-se em casa em quase nenhuma delas, apenas em uma: Volantis. Lá eu tinha um lar. Um lar e uma família. Mayrê e Nikai. Começou a lembrar da luz do Sol entrando no salão, pôde jurar ouvir seus dois amores conversando atrás dele. Quase parou para chamá-las, se perdendo em seus pensamentos, mas o semblante de lady Elizabel também surgiu-lhe, exigindo uma resposta. Ou também deseja cortejos? Lorde Payne pode não gostar. Talvez eles estejam me testando, por isso me colocaram na retaguarda.
— Onde a Milady quer chegar com isso? — Avahan perguntou de forma menos delicada.
— Volantis seria civilização, família e crescimento? — Ele a encorajou a continuar sem responder aquilo. — Pois bem, Valyria seria destruição, poder e domínio. Assim como nunca sabemos o que esperar de um Targaryen… Nunca sabemos o que esperar dos Belvedere. Aliados impetuosos demais costumam ser suspeitos.
“Nós somos o Ímpeto.” Lembrou-se do lema dos Tigres. Esta aí sabe cavar. Surpreso pela a insistência da jovem, reconheceu:
— Seu pai não lhe deu o assento de sua casa, mas lhe permitiu afiar sua inteligência. A senhorita parece ter estudado minha família de verdade, Lady Elizabel. O que mais sabe?
— Só o que interessa, sor Avahan. Hehe, o que as ladies do Ocidente podem fazer para evoluir além de tricotar e estudar, sor? Se o leiteiro conseguiu um castelo do meu pai, o mínimo que eu poderia desejar era uma biblioteca do tamanho de Solarestival. E consegui isso aos doze.
— Não sabia que a Casa Payne estava tão afortunada. Bom pra vocês. — As palavras saíram de forma concisa, mas acabaram por deixá-la insatisfeita.
— De que adianta ouro se não temos ferro? — Falou de forma pausada e sugestiva.
Avahan mal podia acreditar no que estava ouvindo. Ela sugere uma aliança entre as Casas. Pressupôs e resolveu falar abertamente também, seguindo os trejeitos intrigantes da lady. Han questionou:
— É isso? — Reagiu desconcertado. — Você propõe um casamento entre as nossas famílias?
— Claro que não, sor. — Ela respondeu rapidamente, mas apesar do tom de troça, não deixou Avahan constrangido. Na sequência, explicou-se: — Só quis dizer que os Belvedere tem ferro, ímpeto, impulsão e poderio. Enquanto nós temos ouro, sabedoria, orgulho e tradição. — A lady realmente devia ser bem letrada, pois possuía um vocabulário sagaz na ponta da língua. Concluiu: — Nenhum desses me serve agora.
— A Milady precisa de um favor?
— Sim, um simples favor que precisa ser secreto. — Confessou a Payne como se previsse todo o diálogo deles até ali.
— O que quer?
Não estou gostando dessa conversa. Aproximou Ardhan, o presente de quatro patas dos Brax que relinchava demais. Eu não devia me envolver. Han advertiu-se em seu interior.
— Não muito longe daqui, há um bosque discreto e esquecido. — Elizabel esperou algum sinal positivo dele e quando obteve, continuou: — Uma cabana onde uma vidente anciã mora. Um oráculo. — Repetiu o gesto anterior e finalizou: — Eu gostaria de ir até lá para ouvir meu futuro.
Avahan estava pronto para negar-lhe, porém quando ouviu a palavra final “futuro”, seu olho-fantasma começou a formigar, o que não acontecia há cinco dias, desde que salvara o bastardo. Tenho que levá-la até essa cabana então… Concordou devido sua forte superstição.
— E espera me pagar com ouro?
Agora negociava como um mercador de Pentos. Quem não bate, não ganha. Tomou mais um gole do cantil. Da posição que estava, ela poderia saltar na sela dele e ambos irem juntos para o bosque naquele instante. Toda essa beleza sem decotes, suas curvas são tão perfeitas quanto os ladrilhos de Myr. Elizabel sequer parecia uma lady do Ocidente, de tão incrível personalidade. E tão nova… Deve ter uns quinze dias de seu nome.
— Não, sor Avahan. Não lhe tomo por um mercenário. E sim por um cavaleiro. — Afastou-se dele e deixou seu cálice vazio na janelota traseira do carroção. Do outro lado da sacada, continuou: — Um cavaleiro merece um cavalo de verdade. Este palafrém cor de burro quando foge não lhe trará vitória alguma nas justas de Harrenhall.
— Imagino que o cavalo de verdade seja de sua senhoria Lorde Cedric, não?
Como seu olho-fantasma parara de fervilhar, Han voltara a ficar receoso quanto a situação e enquanto lady Elizabel explicava, prestou um pouco mais de atenção aos arredores. Ninguém está me olhando.
— Ele não é meu senhor. É meu pai. — Reagiu como a adolescente que era por trás do vestido de mulher. — Trata-se de Ursa, minha égua prateada de sangue puro e raça nobre. Treinei a montaria desde potro seguindo não só as linhas de Meistre Geromyn em Os Centauros de Essos como os conselhos de meu tio sor Illyn, Alto-Cavaleiro e Mestre-de-Armas de Payne.
Pela forma como ela dissera o nome de seu tio, Avahan soube que havia algo a mais naquilo. Em Valcorno, Han descobrira que sor Illyn perdera a língua para o Rei por mais um de seus gracejos. Nunca fui com a cara dele e suas ameaças vazias. Mas preferiu deixar o passado e sua presunção de lado e direcionou sua curiosidade para o lado oposto:
— Quem fora Meistre Geromyn?
Elizabel pareceu encantada com a pergunta. Ou está me embalando em sua lábia. Gostaria de ver essa égua logo.
— Nunca ouviu falar sobre ele? O Meistre do Khalasar? — A lady estava ansiosa.
— Não. — O sor mostrou-lhe o quão rígido é o ferro.
— Às vezes me esqueço como vocês cavale…
Han assobiou e levantou a mão interrompendo a garota. Ouvira aproximação de outro cavalo do lado oposto de onde estava. Afastou seu palafrém do carroção. Era o Machado de Ouro, sor Tygett Lannister, que após chegar de forma abrupta, disse:
— Precisamos conversar.
O cavaleiro cortou a relva galopando em Nemeyo pesadamente, estava tão equipado quanto Avahan, em seu peitoral, ombreiras, manoplas e saiote. As peças de Tygett eram esmaltadas de negro e dourado em tons opacos e até na capa possuía fios de ouro que formavam pequenos leões em padrões ornamentais como bordura do carmesim Lannister. Carregava o machado que lhe dera sua alcunha, nas costas. Exceto a lâmina, a arma era toda de ouro maciço, forjada pelo engenhoso Donal Noye de Ponta Tempestade.
Ambos distanciaram-se da comitiva, ficando para trás enquanto conversavam.
— Passe pra cá esse cantil, tigre. — Sor Tygett Lannister solicitou, aproximando-se com o puro-sangue que Avahan cuidara em seus tempos de escudeiro. O alazão estava velho e lento, mas voltar a vê-lo, acariciá-lo e abraçá-lo fora a melhor coisa que Avahan havia sentido desde que retornara do exílio.
— Você tem o seu, leão. — O enorme cantil de seu antigo mestre sempre ficava nos bolsões da sela, dez anos não mudariam isso, Avahan apostava e acertou.
O Machado de Ouro esticou-se até o bolsão e catou seu cantil dourado. Diminuindo o ritmo, os dois se distanciaram da cauda da Comitiva, que pouco a pouco, afuniláva-se no horizonte. Depois de alguns goles silenciosos, os dois voltaram a conversar.
— Atrapalhei alguma coisa entre você e a garota Payne? — Sor Tygett perguntou francamente.
Avahan respondeu de supetão: — Está louco? Só estávamos conversando.
— Sor Illyn Payne perdeu a língua por causa de Tywin. Nós estamos em dívida com a Casa Payne. Você já perdeu um olho, quer ficar sem língua também? Afaste-se dela.
— Não tenho interesse nenhum na garota.
— Você mente mal, Avahan, sempre mentiu. — Ele coagiu como de costume.
O Tigre-do-Leste recordou-lhe pela terceira vez: — Eu não sou o Avahan de sempre.
— Não está bravo comigo, está?
— Nunca, sor. — Afirmou com precisão.
— “nunca” é tempo demais para promessas. — O Machado de Ouro era cheio de nuncas, mas não podia ouvir um sequer, nem em um caso como esse. Ele me tratará para sempre como escudeiro. Han pensou decepcionado.
— É que já fiquei bravo contigo por tempo demais, Tygett.
Aquele era o tipo de comentário que derrubaria a moral do Machado de Ouro, pois dez anos antes, quando Han fora deixado em Braavos para morrer em exílio por uma ofensa tola, fora sor Tygett o responsável por levá-lo até lá. E quando nos despedimos, eu disse que nunca o perdoaria. Ainda se questionava se perdoara o velho amigo por completo.
— Pois bem, espero que entenda o que vou dizer.
— O sor enrola mais do que as ladies que escolto. — Os dois riram. — Diga.
— Sumner, Damon e Meric convenceram meu sobrinho a parar pra caçar... — O leão introduziu o assunto. Parar a Comitiva Ocidental por uma caçada? Não fazia sentido.
— Como? — Indagou lembrando-se da última conversa que tivera com Tygett. “Ele sabe que o Rei Louco quer dar-lhe um manto branco” O leão lhe dissera. Será que não deseja tal honra com afinco? Lembrou-se que sor Jaime era apenas um jovem de quinze anos, como sor Daronn. Como eu fui. Estúpido. Ainda assim, comentou: — Ele me soou tão muito ciente do que o aguarda em Harrenhall.
— Um dos batedores foi pago para mentir sobre uma grande caça.
Quando o Machado de Ouro falou “uma grande caça” seu olho-fantasma fervilhou mais uma vez. Ao mesmo tempo que coçava, também ardia. Como se mil formigas travassem uma batalha em chamas no seu globo ocular vazio. Avahan já estava acostumado com isso e só estava surpreso pelo seu sexto sentido ter sido “ativado” duas vezes no mesmo dia.
— Que caça? — Perguntou à sor Tygett forçando um tom casual.
Ele respondeu no mesmo tom: — Um leão, eu acho.
Um leão? Você acha? A Comitiva Lannister parou para matar um leão, sor Jaime precisa de um nova capa. Ridicularizou internamente aquilo tudo. Sor Avahan parecia estar cercado de crianças. Ou ele está escondendo algo… Decidiu jogar.
— Você acha? Que fera vamos caçar, sor?
— Um felino negro.
Avahan nem precisava mirar seu único olho em sor Tygett. A resposta veio com uma nova onda de dormência. Avahan pressupôs que realmente se tratava da caça. Deve ser Raseri, o felino de Edric. Ou fugiu ou está atrás de mim. Preocupou-se.
— Preciso falar com esse batedor. — Han acelerou o cavalo.
Tygett o alcançou um segundo depois, negando e ordenando: — Não, Avahan.
A vontade foi de dar-lhe uma troncada e jogar-lhe no chão. Se não fosse Harrenhall, eu lhe daria uma lição. Viu a si mesmo demonstrando o ímpeto dos tigres e jogando o leão para longe de sua montaria. Ao invés disso, insistiu, era tudo que podia fazer:
— Você sabe que você está caçando um dos meus.
Eu fui abrir a boca. Fui falar do animal. Agora eles querem caçá-lo. Han acabou por contar em uma noite de bebedeira em Valcorno. No dia seguinte, a história alastrou-se. Conversas de tabernas crescem mais que a Muralha. Raseri virou um leão cinza de juba negra, comparado com o leão ruivo dos Tarbeck. Os Lannister não falavam de outra coisa. Eu pensei que estivessem zombando. Até que alguns saíram naquela manhã em busca da “Besta Negra”. Belick Belvedere, irmão de Avahan, fora o primeiro deles. Só que não para matar e sim para salvar a fera. Como eu salvei.
— Não é o gato das sombras de ‘seu’ sobrinho. Não tem fera nenhuma! É só um contratempo para atrasar ‘meu’ sobrinho. — Ambos reduziram a velocidade de seus animais.
Sor Tygett podia ser tudo, menos mentiroso. Por que meu olho-fantasma está ardendo então? Colocou sua astúcia para funcionar e tentou juntar as peças, prevendo movimentos. Talvez sor Jaime corra risco de vida.
— Espero que ele não se machuque muito. — Avahan alertou para Tygett.
— Não irão machucá-lo. — O Machado de Ouro ratificou.
Então trata-se apenas de um atraso ao Jovem Leão. Han não via muita razão naquilo. Para que todo esse escarcéu? Para que sair da vanguarda? Nada estava fazendo muito sentido, muito menos agora que seu cantil estava vazio.
— Ah sim… que tédio teremos pela frente, anh?
Imaginou-se na longa caçada naquelas planícies. Estavam na divisa entre o Ocidente e as Terras do Rio, há algumas horas do Olho de Deus. Não deve haver muito além de lebres e raposas. Han não lembrava de ter visto cães na comitiva, portanto, talvez até pequenos animais conseguissem despistá-los.
— Você não irá. — O Tigre-do-Leste parou sua montaria e ao invés de parar também, sor Tygett começou a circulá-lo. — Ficará no comando de meu pelotão protegendo os nossos pavilhões e o…
— Já entendi, sor. — Avahan virava Ardhan mantendo-se de frente pro Machado de Ouro. Nemeyo se exibia graciosamente com sua eterna alma de potro. — Manter minha função. — Ambos manobravam os cavalos com maestria, essa era a verdade. — Antes de partir, disponha estes soldados à mim.
— Não fiq…
— Não ficarei bravo, sor. — Assegurou mais uma vez. — Pare de girar?
Sor Tygett acatou o pedido de Han, retomando o curso lento com ele até a comitiva. Desde o reencontro, era a primeira vez que os dois se estranhavam, sem tato para lidar um com o outro. Foram os formigamentos, me confundiram.
— É que seu envolvimento é delicado nest…
— Sor Tygget Lannister! Eu protegerei o acampamento. — Avahan sabia que ele começaria mais um de seus discursos tediosos de preservação, defesa ou estratégia, então tentou liquidar o sermão no início.
— Mas o comando interino será de Lorde Cedric Payne. Como eu disse, estamos devendo a eles e os Lannister sempre pagam as suas dívidas.
Tinha vezes que Avahan gostaria que o olho-fantasma formigasse e isso não acontecia. Como essa agora. Refletiu. Porém na incerteza, Avahan só pôde abaixar a cabeça:
— Estou indo para Harrenhall, lutar na frente do Rei. Não tenho do que reclamar, sor.
Seu antigo mestre lhe deu uma boa olhadela, uma daquelas que valia ouro quando escudeiro dele. Coçou a barba e concluiu:
— Tem razão, você agora é um Avahan diferente, sor.
— Sim, eu sou, confie nisso, milorde.
Ele cavalgou para longe rindo e não dizendo o que sempre costumava dizer quando o chamavam de milorde... É, ele também está diferente. Ainda não sabia dizer se isso era bom ou ruim.
(...)
Àquela altura, já parecia um pesadelo.
Vai dar tudo certo, nem que eu tenha que matar essa bruxa. Han esperava, mal confiando em seu martelo, já que o inimigo lidava com magia negra. Não são represeiros… árvores negras entulhadas de vermes e cupins caiam aos pedaços nos arredores; corvos de todos os tamanhos tentavam expulsá-los gritando “morte, morte, morte” pelo caminho; raízes mofadas permeavam o grupo com um bafo quase tóxico; ventos cortavam seus rostos com finos galhos podres e o pior de tudo: sombras que os acompanhavam como espiãs conforme adentravam naquela “floresta”, rindo deles disfarçadas de morcegos e corujas. Isto mais parece um cemitério, não há futuro aqui para nenhuma delas. Avaliou mais uma vez e, apesar do seu olho-fantasma não arder, o pressentimento de Avahan aumentava a cada vez que via uma runa encravada no chão. São como eles enterram os mortos. Realmente parecia uma lápide, mas de gigante, pois a pedra talhada era maior que o sor. Estão dispostas em uma sequência. Em algum desenho. Refletiu e ia contar as jovens tagarelas, mas foi interrompido.
— Vejam! É ali.
Avahan havia concordado apenas com Lady Elizabel Payne, porém quando a hora de atravessar o Olho de Deus atrás da ilhota chegou, a lady púrpura trouxe duas amigas, sendo uma delas ninguém menos do que a filha do leão, Lady Cersei Lannister. A outra era sua aia Margery. Eu não devia ter aceitado. Pensava agora com os bolsos cheios de ouro. “A outra metade quando voltar.” Ela me disse. Com esses cento e cinquenta dragões terei a melhor armadura do torneio, a melhor égua, o maior pavilhão, escudeiros, cavalariços e criados a minha disposição. Ou seja, terei tudo pra ganhar. Sua atenção desviava-se em pensamentos e reflexões, enquanto as jovens seguiam sozinhas para a cabana, mas Han pôs-se atrás delas. Preparado com seu martelo na mão direita, escudo nas costas e o cantil pela metade na mão esquerda. Tomou outro gole na nova retaguarda que assumira. É tudo ou nada para o Belvedere. Brindou mentalmente ao sentir o amargor suave entorpecer sua língua, escorrer pela garganta até desembocar na barriga, aquecendo-lhe o coração. Lembrou-se de Mitigan, o sacerdote que acendeu sua fé: “Se ao invés de um cantil, você segurarasse uma tocha, seria um Mão-Ardente.” mas esta era a parte mais difícil em seguir o poderoso Rh’llor. Um dia quem sabe, descobrirei meu limite.
Dessa vez, tinha ultrapassado algum limite com certeza, ainda que não estivesse tonto, Han sentiu como se tivesse tomado uma pancada na cabeça. Ondas de ar tremiam os arredores e ele não podia respirar. Preciso me manter de pé. Forçou. Um cavaleiro não cai. Pouco a pouco, o ar foi voltando, apoiou-se num tronco. Suas botas estavam úmidas, cobertas de lama e limo. As meninas estavam mais a frente, discutindo no fronte da cabana. O mundo parecia ter voltado ao normal. Estava enganado. Conforme caminhava em direção as garotas, mais pesado era para levantar os pés, quando por fim as alcançou, parecia ter escalado os jardins suspensos de Monte Tigre. O que está acontecendo? Agora não, Avahan. Desafia a si mesmo mentalmente. Somente Lady Elizabel estava presente.
— Você não sentiu nada? — Questionou enquanto recuperava o fôlego.
— O que houve com você, sor? — Ela não parecia se importar de verdade. — Caiu no lamaçal? — O timbre de sua voz estava rouco. Rouco de raiva?
— Não caí. Onde estão as outras? — Interrogou de imediato, fazendo uma força sobrenatural para falar, como se lutasse contra o sono. Isso é magia negra! Isso é magia negra!
A lady púrpura respondeu:
— Lady Cersei quis entrar sozinha. Falei que era tolice, mas… — Não fazia sentido. Sozinha? E a outra menina? Meggy? Margy? … — Ela me deu um tapa por “chamá-la de tola” e cá estou.
Quase que ignorando-a Avahan atravessou a portinhola de pedras negras. Cada passo dentro do jardim morto parecia em falso, como se cada degrau fosse pontiagudo e escorregadio, tentando derrubá-lo.
— Tão perto e tão longe da bola de cristal. — Elizabel filosofou. Até sua voz ganhara uma amplitude misteriosa. Precisamos sair daqui. — É coisa do destino mesmo. — Concordou consigo mesma enquanto ele se matava para subir o quarto degrau. Isto nem é uma escada. — Sor Avahan, pare. — Ela disse em um tom sério que soou-lhe seco de repente. — Ela não quer que você entre.
— Quem?! — Perguntou gritando o mais alto que podia para tentar emitir algum som antes de cair. O cavaleiro desmoronou.
Esperava qualquer culpado: A vidente vilã e sua magia, a Ilha dos Deuses, sua própria fé e até a bebida. Talvez eu tenha bebido demais, no fim das contas. Mas não era nada disso.
— Cersei, quem mais?
— Temos que —Parecia ter que engolir uma manopla por cada palavra. — sair daqui.
Sua visão começava a ficar turva. Agora não Avahan. Fique de pé. Fazia um esforço extraordinário para carregar Rochedo Casterly nas costas, estou mais pesado que a Muralha.
— Disse que a outra metade será culpar-te por isso tudo se você entrar, sor. Não vale a pena.
Diante daquilo, Avahan desistiu. Estava de joelhos e pensou: Se eu for para longe, melhorarei... acreditando ser algum campo profano onde nenhum filho de Rh’llor era bem-vindo. Levantou na direção contrária, só para cair de frente logo em seguida e iria de cara no chão se Lady Elizabel não o segurasse.
— Ela o envenenou, sor. — Tentou olhar nos olhos violetas, mas só encontrava crateras como a sua. — Com aquele vinho. — O vinho dourado. Bebi durante a travessia. Sua mente ainda funcionava. — Você somente dormirá, sor. Não se preocupe. — Acomodou Avahan no portal da portinhola de ferro.
Ela me envenenou. Por quê? Queria perguntar. Não conseguiu. Não tinha forças. Devia carregar uma tocha, ao invés de um cantil. Estava ficando escuro mais uma vez. Ainda restava um canto de seu olho entre aberto e por essa brecha, Avahan viu e sentiu a lady púrpura pegar o Peso do Mundo com as duas mãos, rogando: — Mas ela não irá matar Margery! — e subiu em direção a cabana.
— Não…entre...vvvv… — Tudo ficou negro.
No segundo seguinte, estava embaixo d’água em um mar de escuridão. Sem precisar de impulsão ou qualquer coisa, Han sentiu que só precisava nadar para cima, pois queria respirar. Em três braçadas alcançou e abriu os olhos. Cuspiu engasgado. Não havia sangue. Não havia cabana ou ladies.
Para começar, algumas carroças e patas faziam o mundo balançar um pouco. Ainda estamos na estrada. O colchão que cobria-lhe era de carmesim Lannister com um leão bordado em retalhos de cetim. O cômodo todo no ipê envernizado e na porta, havia um machado talhado. Tygett. Um feixe de luz cortava o “apertado” quarto do carroção-de-bois e a visão do Peso do Mundo encostado no cantinho à nordeste dele fora quase um delírio. Seus outros pertences também estavam dispostos e dobrados. Quanto tempo se passou? Sua cabeça doía e a boca estava seca. Vinho. Cerveja. Desejou. Levantou-se com mil vezes mais facilidade.
Avahan estava praticamente intacto. Quando ia abrir a porta, ela se abriu para a entrada de sor Tygett Lannister que forçou Han a sentar-se, pois ambos não cabiam em pé ali. Meteu a mão no cantil do Machado de Ouro e levou um tapa forte. Como reflexo, Han deu-lhe uma cabeçada na barriga e acabou acertando os rins do Leão. Ele afastou-se o pouco que podia com golpe. Subitamente, como um felino pesado, saltara para cima de Han na cama, amassando e estalando seus corpos. As mãos de Tygett iam no pescoço dele, tentando enforcá-lo. É um pesadelo! Só pode ser! Entretanto, sentia dor por ser esmagado.
— Você matou minha sobrinha! Você matou Cersei! — O Leão rugia e babava na cara de Avahan. — Eu lhe avisei para não se envolver com a garota. E agora? Quem me garante que não me desobedecerá de novo? Você é um leão ou é um gato? Decida-se!
Enquanto ele falava, a raiva e o ódio acenderam um pavio explosivo no peito de Avahan e ele transbordou em ímpeto, jogando o Leão para longe. — Eu sou um Tigre! — Gritou gravemente, intimidando-o.
— Eu sei, Han. Estou brincando. Não é nada disso. Tome aqui. — Entregou o cantil. Incrédulo, Avahan pegou, abriu e bebeu enquanto ouvia: — Cersei é uma louca. Atender o pedido de uma criada… Poderiam ter afundado naquele bote furado. Há crocodilos no Olho de Deus. — Parou de contar para alertá-lo: — Vá com calma. — Avahan cessou o gole e limpou-se. O primeiro vinho do dia era sempre o mais delicioso. E sabe-se lá quantos dias eu dormi.
— Cersei está bem? — Perguntou, esquecendo das outras.
— Sim. Minha família está em dívida com o sor… Por salvá-la dos lobos da Ilha dos Deuses. — Ele cuspia a mentira forjada como se fosse a verdade que decidira acreditar. — Avahan sentou-se. — É bom você deitar-se. A queda do barranco não deve ter sido fácil.
— E a garota Payne? — Tentou chamá-la como Tygett a nomeara antes para demostrar pouco interesse. Nada disso importava, o Machado de Ouro inclinou seu olhar de maneira tristonha e sincera.
— Que garota Payne? Somente Cersei fora com o sor para a Ilha dos Deuses.
— Lady Elizabel Payne, filha de lor…
— Avahan! Preste atenção. A vida da garota foi compensada. Você conseguiu atrasar Jaime mais do que nós. A caça era uma mentira rasa e ele logo percebeu. Ao voltarmos, meu sobrinho notou a ausência dela quase de imediato. Encontramos vocês no dia seguinte. Vocês dois, apenas. Você realizou o desejo de dois leões e pagou o preço por isso, ainda que a carne não seja sua. — Sor Tygett determinou dura e secamente. Han não soube o que dizer.
Desabou na cama. Tinha muito o que dizer, várias atitudes a tomar. Precisaria lutar para expor a verdade e no final condenar a filha de Tywin Lannister e sobrinha de seu antigo mestre.
Sor Avahan Belvedere não fez nada disso. Apenas repousou. Agora, preciso ser o último a acordar. Dois dias depois, quando a Comitiva do Ocidente chegou a Harrenhall, ele tinha o ouro e o favor dos Lannister, além de Iza, antiga Ursa, uma égua cuja a dona seria inesquecível ao sor.
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