Os Tigres de Westeros
32 Belick II
BELICK
Alcançou o gume do Monte pela primeira vez com oito dias de seu nome. Agora, vinte sete anos depois, o pico ainda trazia-lhe a mesma sensação de segurança, afinal, daquela altura, daquele belveder, o Ocidente inteiro aplainava-se como um tapete creme, áspero e velho, dando-lhe uma falsa impressão de poder e controle. É bom estar por cima, de volta ao lar. Na beira do abismo, Lorde Belick ficou refletindo e observando.
À oeste, seguindo os sulcos da Estrada do Ouro, via-se o Rochedo escondido atrás de outras cordilheiras e vales, tão pequeno quanto uma torre de cyvasse ou um dedal. Valcorno, Colina de Prata, Arco do Espinhaço, Castelbroom e a Serra de Sarsfield. O Senhor do Ferro sabia o nome de cada um dos territórios vizinhos a caminho de Lannisporto antes mesmo de tê-los visitado pessoalmente. Minha mãe era uma Yew de Arco do Espinhaço. Um castelo onírico, construído entre dois abismos, como uma ponte. Belick jurava poder ver a miniatura do Arco também, ainda que àquela distância, fosse apenas um desprezível pontinho.
No leste, estendia-se a Pradaria Dourada, coberta de poeira, capim e córregos barrentos. O pedaço mais plano do tapete. O outono fazia o gramado parecer a velha careca do falecido Leão Sorridente: Louro vivo, porém escasso. O mesmo acontecia com os povoados, vilas pesqueiras e fazendas de gado que eram assolados por cruéis tempestades de vento de tempos em tempos assim como por invasões inimigas — quando haviam guerras. É a parte carcomida do país. A varanda exposta ao tempo. A Casa Bushy, que capitaneava a região, escoltava a fronteira com a Campina e com as Terras da Coroa.
Ao sul, via-se o castelo dos texugos Den Profundo e mais abaixo, o Poente das Sombras: Um remoto planalto irregular e selvagem, salpicado de telhados em ruínas nas ranhuras do solo. São as jazidas fantasmas com suas veias, há muito secas, sem riquezas. Adiante, no limiar da fronteira com a Campina, escondia-se o diminuto Forte Mastim, castelo vigia mais recente do reino pertencente à Casa Clegane. Antiga Torre do Sul. Onde minha filha foi morar e de onde nunca mais voltou. A culpa é sua, Egon. Atribuiu.
A penosa lembrança obrigou-lhe a dar um fim a sua pausa. Sem dizer palavra alguma aos homens contrariados por esperar, voltou Syrian para a parte final da trilha, rumo à sua própria Fortaleza. Ninguém reclamou ou questionou. A coluna recomeçou o galope atrás dele. Trinta e três cavaleiros. Belick contava-os com altivez, sem precisar olhar pra trás.
Havia descido para Valcorno rumo ao Conclave em um comboio com não mais que trinta homens, sendo sete deles cavaleiros Belvedere juramentados. Em seu regresso, mais de oitenta homens carregavam o estandarte alvo-anil de sua família. Sendo vinte três deles, cavaleiros juramentados à mim. Lorde Tywin Lannister ainda havia concedido-lhe uma arca com prata suficiente para pagá-los dignamente até o fim do próximo ano. Ormund e Karl morreram honrosamente, servindo-me em batalha, até o fim. Forçou contra a própria consciência que insistia em culpá-lo. No combate, perdera os dois, mas acabara ganhando outros dezoito membros para sua cavalaria. Ninguém é substituível, mas não estou contando amigos, e sim espadas. E Belick sabia, iria precisar de muitas. Se os Moreland falharem em sua missão...
O portão de carvalho havia sido reforçado com novas tábuas, estava semiaberto. Os batedores fizeram seu trabalho avisando nossa chegada. Belick acreditou quando viu as ameias repletas de Penas Azuis e Capas Malhadas em forma com seus arcos e bestas apontados para frente, em uma demostração bem organizada de disciplina. Quem ordenou tamanha vigília? Acelerou Syrian e foi o primeiro a passar pela brecha.
Na galeria de entrada, duas colunas de lanceiros armadurados flanqueavam-no com escudos erguidos em formação. Mais acima, no alpendre, outros arqueiros de braços alinhados, mirando parcialmente nele.
Os homens ao seu redor trajavam capacetes em sua grande maioria então Belick identificou pouquíssimos. Lorent, Caron, Buford… até que avistou entre os presentes no alpendre, o Comandante Aladale, aquele cujo tempo descarnara. Diferente dos outros, Dale mantinha seu arco nas costas, há décadas. Sor Narbert Ferren e sor Breno Myatt já estavam atrás de Belick, quando por fim, o lorde perguntou:
— Comandante, o que é tudo isso?
— Ordens do interino, milorde. — O enferrujado Aladale deixou no ar o mistério. Deixei Elder IV como castelão. Será que… pensou em perguntar, mas o silêncio ao redor era constrangedor, como se todos soubessem o que estava acontecendo em sua casa, menos ele. Apenas dois dias em Valcorno e suas tropas tinham sido redistribuídas. Prosseguiu perante aqueles homens, atravessando o pórtico da galeria de entrada.
No pátio principal da Torre Armada, o grande corpo do exército Belvedere estava alinhado em dez colunas formadas por vinte homens cada. Fitou seus soldados dispostos lado a lado, embora não estivessem com suas armas sacadas, erguiam escudos grandes a sua frente, transformando o amplo terreiro em dutos estreitos de passagem. Praticamente intransitável. A frente dos duzentos escudos, avistou o capitão Moryn, responsável pela ronda mensal da Estrada do Ferro. O que está fazendo aí parado? O robusto capitão guardava seu capacete de penas azuis debaixo do braço esquerdo, enquanto mantinha sua lança de pé com a mão oposta. Também parecia uma estátua. Tudo parecia estar congelado há horas por ali, aguardando sua chegada.
— Capitão Moryn! — Gritou sem arriscar Syrian nos dutos. Os cavaleiros aglomeravam-se atrás dele por todo o tempo que Belick levara observando. — O que está acontecendo aqui? Por que os homens estão perfilados e não em suas rondas e guarnições?
O bastardo rijo abriu a boca e gritou sem nem virar na direção de seu lorde.
— Ordens do interino, senhor.
Mas o que que é isso? Sentia como se alguém estivesse querendo lhe pregar uma peça. Onde está Edric ou Tio Brumm? Diante daquela recepção, Belick já tinha algumas suspeitas do responsável, mas por fora, preferia acreditar que estava errado. Daronn… você não desobedeceu minhas ordens mais uma vez… Sua suspeita ganhou forças quando viu que o Portão Nobre — que levava ao segundo forte — fora repintado e envernizado, com cores tão vivas e limpas que brilhava feito metal reluzente. Algum artista devia ter sido pago pelos novos tigres desenhados nas portas. Ou Mour veio visitar Oswald... a ânsia de descobrir quem estava por trás daquilo era absoluta, entretanto, o Senhor do Ferro não podia se expôr. Principalmente para sua própria tropa. Se eu não tiver tudo sob controle, eles também não terão. Depois de lutar a Guerra do Rei das Nove Moedas como soldado, Belick sabia que o controle de cada homem era fundamental para o todo, para a vitória. “Sob a direção de um forte general, jamais haverão soldados fracos.” Egon dissera-lhe certa vez ao se referir a Tywin Lannister. Belick ganhara o mesmo apreço pelo Leão do Rochedo e pensando em agir como ele, ignorou o espetáculo do Pátio Principal e levou Syrian à esquerda, descendo a rampa rumo ao estábulo comum.
Enquanto descia com sua cavalaria no encalço, pensou estar livre de toda aquela palhaçada, pois mais abaixo e a sua frente estava o portal da estrebaria, aparentemente livre de tolas demonstrações de ordem. Tudo em seu lugar, como eu deixei. Todavia, quando o paredão a sua direita abriu-se no pátio inferior, uma horda mal cheirosa de cavalariços e servos aguardava-lhe. Um ou outro desalinhado e alguns sentavam-se no chão por tamanha espera, mas em geral, estavam enfileirados como Belick nunca vira antes. Montando a mula batizada de Serena e aparentemente no comando, estava o moreno, atarracado e maltrapilho Renatt Cascudo. Enquanto passava por eles, o Lorde indagou:
— Imagino que o interino ordenou que colocasse seu pai Oswald para madrugar, não é mesmo Renatt?
Belick conhecia ambos desde que pisara ali pela primeira vez. Renatt era o mais novo dos três filhos de Oswald Caniço Azpind com Tia Bethany, a lavadeira. Mour, o primeiro tornou-se um artista: Um exímio bardo e igual pintor que no décimo quinto dia de seu nome, foi embora pra conquistar o mundo e nunca mais voltou; o segundo filho, Robert, tentou se tornar um batedor como o pai, mas não tinha talento para a arte da artilharia e falcoaria. Não enxergava bem, mas depois de se casar com Glenna, filha de um alfaiate, foi morar na Vila e suas mãos firmes garantiram-lhe um ofício na mineração da Garganta do Tigre. Já Renatt, que não cantava, não pintava, não tinha mãos fortes e nem queria deixar a Fortaleza, acabara nos estábulos, limpando bosta e criando mulas. Quando Belick tornou-se Senhor do Ferro, fez questão de transformar Renatt em chefe da estrebaria, para que seu velho e enfermo pai Oswald — homem que o havia ensinado a cavalgar de verdade — tivesse uma sopa mais grossa no almoço e na janta.
— Sim, senhor. Ordens do interino. — Ao menos o “cavaleiro de Serena” não esbanjava uma falsa obediência ou gratidão no tom de voz. Praticamente com as mesmas palavras dos anteriores, ele conseguiu demostrar a Belick que não estava satisfeito em cumprir tais ordens.
— Pois todos vocês estão dispensados. Voltem aos seus turnos. — Rugiu subitamente, como um tigre em um banquete de abutres. De repente, todos se dispersaram, um pra cada lado, um mais rápido que o outro. — Os mais velhos podem tirar duas horas de descanso. — Ordenou vendo Oswald estalar as costas. Coitado. — Você não Renatt… você irá cuidar de Syrian — Informou enquanto desmontava de seu alazão. — Tire essas selas, dê a ele um bom banho, escove as patas e os dentes, feno suficiente para empanturrá-lo, — Entregou as rédeas nas mãos do atarracado mestre da estrebaria — quero que Syrian descanse para acordar novo em folha.
— Sim, senhor. — Olhou para seu alazão. — Vamos lá, garotão.
— E mais uma coisa, a viagem foi longa. — Aproximou-se e sussurrou à Renatt: — Quem foi que eu deixei como interino mesmo?
O fedorento criador de mulas pareceu embaraçado para responder. Como se Belick estivesse o ameaçando. E talvez de fato esteja. Quando a resposta chegou, ele entendeu:
— Elder, milorde, mas quando sor Elmmer chegou, todos nós ouvimos Elder decretá-lo como novo lorde interino. Então ele mudou tudo e…
— Está bem, já entendi. — O Lorde Belvedere cortou e virou-se. Como não tinha imaginado antes? Deixou Renatt na companhia de Syrian e Serena. Pôs-se a frente da comitiva que o seguira de Valcorno até Monte Tigre. Olhou nos olhos dos cavaleiros mais próximos. Os sores Axell Lorch, Narbert Ferren, Breno Myatt, Eustace Jast e Garrison Inchfield portavam-se dignamente na vanguarda; na fileira de trás, viu Lester Bushy dar um tapa no escudeiro distraído e Lucimore Wythers olhá-lo com uma felicidade inexplicável. — Cavaleiros! Bem-vindos à minha fortaleza! Fizemos uma viagem rápida até aqui, os cavalos merecem descanso. Renatt Azpind é o Mestre da Estrebaria. Dispensem seus escudeiros e cavalariços, ele cuidará de seus alazões como cuida do meu. — Por mais que quisesse, não virou para ver a reação do maltrapilho. — Sintam-se em casa. — Apontou para a estrutura que os cobriam de sombras. — Aquela é a Torre Armada, onde encontrarão seus alojamentos. Antes da folga que lhes é devida, peço que acompanhem-me até a Torre Nobre, onde farei alguns anunciamentos urgentes. — Encerrou disfarçando seus reais intuitos. Quando os cavaleiros já estavam no solo, Belick solicitou: — Venham. — Os sores seguiram-lhe. Ótimo, não ficaria bem solicitar uma escolta.
Conforme andava ligeiro em direção à segunda rampa, passando pelo canal entre a horta e a fonte, uma antiga aflição começou a tomar conta dele. Retirou as luvas de montaria para enxugar as mãos suadas no gibão. Não deixou que os cavaleiros o alcançassem, pois não queria conversar ou dar explicações aquela altura. Será que precisarei usar essas espadas tão cedo? Aquele velho e esquecido aborrecimento de família veio-lhe a mente depois de um longo hiato. Elmmer...
Quase um século atrás, o avô que nunca conhecera, Elder III Fera-Negra — assim chamado por passar mais tempo de sua vida no Vale Negro dos Ferren do que no Monte Tigre dos Belvedere — teve dois filhos com sua esposa Emma Ferren: Egon e Brumm. O primogênito foi enviado para Rochedo Casterly graças a um acordo feito entre Fera-Negra e Lorde Gerold Lannister, no término da Rebelião Blackfyre. Todos já falecidos. Um trauma que já era pra estar morto também. Elder e Emma acabaram criando Brumm como herdeiro. Até que aos cinquenta anos, Elder explodiu metade do castelo vizinho em mais um de seus experimentos imprudentes, na verdade, o último deles. Os Tigres e Furões tentaram abafar o caso como fora feito desde a primeira faísca da rocha secreta, mas aquela catástrofe fora distinta das anteriores. Muitos nobres faleceram no desmoronamento causado pela explosão e até o sangue do próprio Elder fora derramado. A Senhora Emma não tolerou o incidente que tirou a vida de Franklyn, seu primeiro e único neto até então, e denunciou Elder, enviando um corvo para o Rochedo. Fera-Negra não vingou-se de sua senhora. Decretou sua intenção em juntar-se à Patrulha da Noite e antes de fugir da fúria dos leões para a Muralha, transformou seu segundo filho em Lorde Brumm Belvedere, Senhor do Ferro e Governante do Povo Estrangeiro Ocidental. Título que o tio sustentou por uma quinzena, até meu pai chegar com os Lannister e reivindicar o que era seu por direito: O Cadeirão dos Tigres. Na ocasião, não houve derramamento de sangue. Egon governou por quarenta e nove anos à partir daquele dia, sendo aconselhado pelo irmão Brumm. Hoje eu também escuto seus conselhos. Belick fora sagrado Lorde Belvedere… e o filho de Brumm, seu primo Elmmer II, o mestre-de-armas da Fortaleza Belvedere. Na infância e juventude, rebelara-se contra ele, mas sempre através de palavras ou tolices. Apesar disso, Belick o considerava um aliado. Até agora. Deveria estar detido como protegido em Den Profundo, enquanto o julgamento de Romney não fosse resolvido. Na noite em que deixou Valcorno com seus cavaleiros, o julgamento por combate ainda seria definido entre sor Adrian Brax e sor Leonard Lydden. Não é possível que já tenha acontecido. Se bem que o Lorde Tywin estava com pressa... Seus pensamentos guerreavam entre si. Estava nervoso, pois caso Elmmer tivesse fugido… as consequências poderiam ser absurdas.
Próximo as cozinhas, presenciou a mesma afronta. Os criados, cozinheiras e ajudantes estavam organizados e a pobre Carellen de pé a frente deles. Belick nem perguntou nada dessa vez, apenas disse: — Estão todos dispensados. — Aquilo começava a irritar-lhe profundamente. Elmmer, você conseguiu.
Ao abrir e atravessar a portinhola lateral do forte interior, Belick finalmente encontrou o responsável por todo aquele ultraje no comando da Fortaleza Belvedere. Sor Elmmer estava coberto com as ombreiras opacas de sempre, ambas marcadas com um tigre. Cota de malha por baixo, protegendo pescoço e peito. Porém, vestia uma nova capa, toda trevosa em pele negra.
Ao seu redor, estavam seus filhos: Elder, Evert e Erick, muito parecidos com ele; os cavaleiros errantes que Belick havia deixado na guarda: Sor Vynna Verde, sor Algort Selvagem e sor Edwyle de Tombastela; além dos primos Moreland sor Gerold e sor Leobald; por fim o único que se movia, sor Eddison Turnberry, o Cavaleiro das Amoras, bebendo seu cantil e comendo uma ameixa.
O Lorde Belvedere aproximou-se mirando seu olhar impetuoso ao Mestre-de-Armas, porém, ao invés de ser o primeiro a tomar voz, deixou que o primo o fizesse, por questões de moral. A ele era devido uma justificativa sobre aquela absurda recepção, portanto parou diante de Elmmer, aguardando as mesuras e palavras.
Ao invés disso, ficaram se encarando. O fugitivo só abriu o bico quando sor Humfrey Falwell, o último dos vinte três que seguiam Belick, entrou no átrio, fechando a portinhola atrás de si e completando os recém-chegados, multiplicando o constrangimento no silêncio do local.
— Lorde Belick Belvedere, seja bem-vindo de volta ao lar. — Esbanjou um sorriso porco e ajoelhou. Em seguida seus filhos copiaram o gesto, mas antes que os cavaleiros posteriores dobrassem os joelhos, Elmmer se reergueu: — Deixei a mostra meus planos de defesa para a Fortaleza. O que achou deles? A guerra vem até nós mais uma vez, milorde.
A satisfação em cada palavra dita pelo primo, como se antes decorada, inflamou os nervos do lorde, que não ponderou muito a resposta.
— Espero que o motivo da guerra não seja sua presença, sor Elmmer. — No meio segundo em que respirava para continuar a falar, reparou nos homens. Os Moreland estão comigo. Turnberry também. Sentia. Continuou o raciocínio. — Até onde lembro, sua espada estava a meu serviço em Den Profundo. Não fugiu de lá, fugiu?
A pergunta final foi a chave para derrubar a máscara do primo. Após acusá-lo de fugitivo, Elmmer levantou o queixo raspado, forçando sua pequena diferença de altura através do semblante e defendeu-se:
— Eu escapei do covil dos texugos, isso sim! — Ameaçou levantar o dedo. Belick impediu com o olhar severo que herdara de Egon. — Prezo pela minha vida e pelo bem estar de…
— Desorganizou minhas tropas, expondo os mais fracos à condições indigestas. — O lorde interrompeu estoicamente.
— Treinamento! — Ousou devolver o primo orgulhoso.
— Desertou de sua missão como um covarde, retornando ao lar.
— Sobrevivência! — Elmmer repetiu a insolência, com mais vigor.
— Você trouxe guerra à Monte Tigre em troca de sua própria vida! Quantas vidas inocentes valem a sua vida covarde, sor Elmmer? — Belick foi endurecendo a voz de tal forma que ao final, o nome do primo soou como um verdadeiro rugido.
Faltava ao filho de Brumm um temperamento passivo como o dele. Belick sabia que Elmmer era mais atrevido e desleal, por isso, conseguiu antecipar-se, recuando quando o primo sacou a espada.
— Não fui eu quem fez isso. — Alegou o falso tigre.
Fora a vez do Lorde Belvedere levantar o dedo à uma distância que poderia ter a mão cortada, mesmo assim permaneceu e lembrou-lhe a lei:
— Cuidado, sacar a arma para mim pode custar-lhe a mão.
Enquanto ele abaixava a lâmina longa em silêncio, sor Gerold Moreland deu um passo a frente e declarou:
— A guerra que vem até nós é falha minha. O cão está morto, senhor. Chegamos tarde demais. — Para piorar, o pardo cavaleiro apontou para Turnberry e finalizou: — Sor Eddison também é testemunha.
É hora de por um fim nisso. Sem desviar os olhos do primo, Belick escutou o que Gerold dissera, mas questionou Elmmer:
— É o que você tem, Elmmer? A morte de outro covarde pagará a sua? — Ele abriu pela terceira vez sua boca torta, mas agora, não sorria mais. — Acha que eu não sei o que está acontecendo aqui?
— Como assim, milorde? — Finalmente recuou, como o vira-lata que era.
— Onde está Edric? Onde está seu pai? Você manipulou tudo. Ouviu falar que passei problemas na estrada. Primeiro chegou o corpo de Karl Finalâmina, depois Ormund Ferren. — Cada palavra de condenação perfurava o primo como lâmina incandescente, transformando receio em ira. — Deve ter sido quando você escreveu um corvo para seu cunhado em Vale Negro. Por fim, quando meu bastardo retornou à Monte Tigre ferido, você viu a oportunidade perfeita. Só não esperav…
— Aaaaahhh! — Seu primo sacou a própria espada mais uma vez e avançou para cima de Belick descontroladamente. Com uma passada à esquerda, o Senhor do Ferro esquivou-se parcialmente, sendo cortado no ombro, pela rebarba do golpe.
Seus homens avançaram, mas o ímpeto era dele. Lorde Belick gritou:
— Parem todos! — Percebendo que Elmmer tinha cinco ou seis que lutariam por ele. Não posso perder cavaleiros. — Isto é entre meu primo e eu. — Sacou sua espada longa, agarrando o cabo com as duas mãos nuas. Mais firmeza.
— Estão vendo? O único Lorde Belvedere da história que não carrega Dente-de-Sabre. — Provocou o desertor.
Elmmer atacou com uma voracidade imprudente. Bastou defender acima, a frente e reposicionar-se. Se não estivesse sangrando, já teria encontrado o equilíbrio entre as lâminas, a melhor posição para contra-atacar.
— Você irá perder a mão por isso. E um filho. — Belick sentenciou sem revidar.
Elmmer berrou zangado, tentando uma estocada sangrenta, mas o Tigre-de-Ferro estava mais leve que o Mestre-de-Armas com sua cota-de-malha.
— Evert, seu insensato pai condenou-lhe à Cidadela. — Explicou o lorde.
Em seguida, as lâminas chocaram-se quatro ou cinco vezes. Um impacto mais forte que o outro. Ele realmente quer me matar. A fúria de seu primo era previsível como em seus treinos, mas a intenção real de acabar com sua vida era novidade para Belick. Uma coisa era tomar o Cadeirão dos Tigres, outro era assassiná-lo com as próprias mãos na frente de todos. Começou a preocupar-se com Edric, Grelic, suas netas e até o Velho Brumm. Talvez tal apreensão tenha desconcentrado-o, porque de repente a lâmina de Elmmer estava tão rápida quanto a dele. Belick teve de baixar a guarda frontal para defender um poderoso golpe vorpal desferido pela direita e assim tomou um chute no peito, indo ao chão. Ainda com sua espada em mãos, tentou rolar pro lado, mas não conseguiu. Elmmer pisou-lhe nas costas, mas burro como sempre, começou a discursar.
— Nobres e cavaleiros! Este é o Senh...
Belick não parou pra ouvir.
Agilmente derrubou a única perna do primo que apoiava-se no solo com uma rasteira, e pela falta de armadura, levantou como um relâmpago. O falso tigre recuperou-se rapidamente do susto e do tombo, mas custou para ficar de pé. Neste meio tempo, o Senhor do Ferro determinou:
— Sor Elmmer II Belvedere, abaixe a espada agora, ou sua pena será a morte. Seu primogênito irá para a Muralha. Seu segundo filho para a Cidad…
Enquanto Belick falava, o primo recuperava o fôlego e colocara-se em posição de combate. Quando Elmmer avançou, o Tigre-de-Ferro desistiu do traiçoeiro familiar. A cólera do desertor era tão intensa que quando suas lâminas colidiram-se, o cruzamento formado pelas espadas alcançaram o ombro de Belick já ferido. Para não ter braço amputado no golpe, girou o corpo, conduzindo o primo e ganhando espaço.
— Homens, prendam-no. — Mantendo a distância, o lorde finalizou e Elmmer sumiu diante dele, transformando-se numa montanha de cavaleiros ensandecidos para imobilizá-lo.
Após fitar a cena, a dor caiu sobre seu corpo como se tivesse sido fechado em um caixão de prego. Podia respirar, mas cada movimento cortava-lhe por dentro, alcançando sua alma. No ombro direito, parecia ter um chifre de javali encravado. Os olhos mal ficavam abertos pelo sal do suor gerado no confronto e suas costas ardiam por algum ferimento desconhecido.
Mesmo assim, mesmo com todo sofrimento físico que sentia, o Senhor do Ferro prosseguiu. Não temos mais um meistre, não haverá leite de papoula. Teria que afogar-se em vinho para resistir ao ferro quente fechando-lhe os cortes. Portanto depois que apagasse não sabia dizer quando acordaria. Os homens estavam levando o primo ensanguentado para o calabouço, quando Belick gritou:
— Diferente de você, Elmmer… eu sou um cavaleiro de palavra. Tragam o traidor até mim. — Enquanto sor Eustace Jast e sor Breno Myatt traziam seu primo no braço. Belick virou-se para sor Eddison Turnberry, sor Leobald Moreland, sor Vynna Verde, sor Algort Wildling e sor Edwyle de Tombastela e ordenou: — Vocês, tragam-me os filhos dele. — Com a exceção de Erick, o mestre-de-cães, os outros dois já tinham fugido.
E fora justamente o que ficara, que decidiu interceder diante da inquietante espera.
— Misericórdia, tio! Piedade! Eu dou a vida pelo meu pai.
O primo ia responder o filho, mas sor Breno Myatt não lhe concedeu este direito, disparando mais um soco na fuça lisa do tigre falso, que àquela altura, transformara-se em uma asquerosa massa de carne, toda rachada.
— Pela sua coragem, você será poupado, Erick. No entanto, não desejo ouvir mais nenhuma palavra sua hoje. — Solicitou concordância através do olhar. Erick acatou.
Os outros dois filhos, Elder e Evert, demoraram a chegar. Belick segurou todos os presentes em silêncio. Praticamente todas as pessoas com quem cruzara naquele manhã estavam ali, olhando para o Tigre-de-Ferro. Os criados, servos, cozinheiros, coletores e mestres empoleirados nas janelas e escadas; lanceiros, arqueiros, cavalariços e escudeiros nos portões e ameias do átrio interno; nobres, escribas, amas e até as ladies Izayra e Marselle, damas da sua corte, observavam da Torre Nobre a frente deles; os cavaleiros eram os mais próximos, ocupavam o pátio ao seu redor. Dezenas de espectadores incrédulos mirando em sua direção. A descrença e o desprezo de alguns era gritante diante do silêncio que obrigava os olhares a cruzarem-se.
Gostaria até de dizer umas palavras, demostrar ordem e poder, talvez esclarecer os recém-chegados, porém concentrava suas forças em busca de energia para o próximo golpe que daria, mantendo-se em uma posição firme e de semblante sério. Apenas um golpe. Nada mais. Após um vento gelado que trouxe uma nuvem negra para cima de sua Fortaleza, sor Axell Lorch veio até ele, questionou seus ferimentos em vão, Belick permaneceria naquilo. Até ponderou em tirar-lhe apenas a mão, mas não podia. Eu sou um cavaleiro de palavra. Repetiu mais uma vez a si mesmo.
Quando enfim a hora chegou, Belick foi incisivo. Seu ânimo estava tão rígido quanto os músculos, ainda assim, posicionou-se ao lado do primo, como um carrasco. O homem que dita a sentença deve manejar a espada. Discursou:
— Sor Elmmer II Ferren Belvedere, condenou não só a si mesmo por desertar de sua missão, como aos seus filhos, envolvendo-os em sua medíocre rebelião. — O silêncio atingiu sua carga máxima naquele ponto final. Não houve vento ou mosca, não houve tosse ou farfalhar. Parte de Belick estava dormente. Não há retorno. — Quais são suas últimas palavras, sor?
Pela quantidade de sangue que botara pra fora, Elmmer já estava condenado antes. Ainda assim, o tigre falso arregalou os olhos na direção de Belick e depois deu uma boa olhadela para cada um de seus filhos. Ergueu o queixo estraçalhado da mesma forma opressora e orgulhosa de sempre e abriu a fenda de carne e osso, onde um dia estiveram seus lábios, para balbuciar suas últimas palavras.
— Poupe-os. — Cuspiu sangue e um dente estilhaçado. — Eu não matei ninguém.
Não matou? Agiu como se tivesse matado. Não faz diferença agora, não há retorno. Evert gritou por misericórdia pelo pai. Belick não urrou ao descer a lâmina como uma guilhotina sob a nuca de Elmmer, tampouco fraquejou quando o ferro cortou pele, destrinchando músculo e osso. A execução foi feita de maneira silenciosa e rápida. Sua espada não trespassou o pescoço do primo em um só golpe, mas também não permitira que ele mantivesse a vida após o corte feito. Os homens largaram-no moribundo e completamente ensaguentado, a cabeça pendurada pelo músculo da garganta e os restos do osso da coluna. Era a primeira e última vez que suas ombreiras não estavam opacas, mas completamente reluzentes em um mortal rubro de sangue grosso. Os tigres ornamentados esmaltados com o novo verniz carmesim pareciam leões gêmeos.
O remorso tomou conta da dor por instantes. O Senhor do Ferro continuou aplicando a lei enquanto sua consciência não desabava. Apontou para o primogênito do morto e decidiu:
— Elder IV Belvedere servirá a Patrulha da Noite. Há de haver um tigre na Muralha. — Lady Marselle gritou um “não” agudo do segundo andar da Torre Nobre e sumiu na janela. Belick continuou: — Deverá partir em breve, enquanto isso será mantido no calabouço.
— Clemência, tio. Eu nada fiz. — Parecia mais nervoso pela jovem que surtara do que pelo destino ao qual fora sentenciado ou pela morte do próprio pai.
— Confiei a chave desta Fortaleza à você. Dei autorização apenas para guardá-la, mas você a entregou para seu pai traidor. Estou sendo clemente ao permitir à ti um futuro honrado na Muralha. — Desviou o olhar e completou: — Levem-no. — Sor Lucimore Wythers e sor Lester Bushy arrastaram-no a contragosto para o cárcere.
— Eu pagarei pelos crimes de meu pai de bom grado. Irei à Cidadela. — O segundo filho do primo, Evert, dissera. Grato pela energia poupada, Belick o dispensou com um olhar. Restava o caçula.
— Erick, você está banido de Monte Tigre, deverá cavalgar até o Vale Negro da família de sua mãe e contar toda a verdade que ocorrera aqui, hoje. Entendido, garoto?
— Entendido, t-t-tio. — O “sobrinho” de quinze anos gaguejou em lágrimas. — Posso levar meus cães, milorde?
— Onde está meu filho? — Perguntou secamente.
— Na Vila. No Dama de Braavos.
— Poderá ficar com seus cães. — Dispensou o “sobrinho” caçula com um gesto. É bom que conte a verdade, moleque. Pensou enquanto dava a última olhadela pro rapaz. — Sor Axell Lorch, reúna outros cinco cavaleiros e escolte meu filho Edric até a Fortaleza. — De repente, sentiu como se um “inseto mergulhasse em sua garganta”, teve de tossir. — Vamos precisar dele. — O jovem cavaleiro retirou-se.
O catarro era sangue e o “inseto”: a realidade. Não aguentaria muito mais tempo de pé. Conseguiu esconder a fraqueza dos mais próximos.
— Todos voltem aos seus deveres!
Depois de dar a ordem, Belick Belvedere se deu conta que havia encerrado de uma vez por todas o trauma de família que seu avô iniciou. Sim, foi preciso expulsar todos da Fortaleza Belvedere, e um deles, deste mundo. Contudo, o Senhor do Ferro achou o preço justo e descansou em paz, limpo, enfaixado, inteiro e vigiado. Faltou-lhe apenas a companhia de sua senhora Olga e dos seus filhos nos quartos vizinhos para esquentar de verdade seu coração repousante e pulsante. O Ímpeto É Nosso.
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