Os Tigres de Westeros
19 Romney II
Romney
Rom preferia estar em outro lugar. Lado a lado com seu primo que fora sagrado cavaleiro, servindo-o como escudeiro. Sor Daronn adotou dois serviçais, mas esquecera-se dele. Como sempre, o último a ser lembrado é o Escudeiro Órfão. Queixou-se consigo mesmo, chateado e escoltado pelos irmãos furões, sor Ormund e sor Narbert. No seu flanco, tão preso quanto ele, estava o Texugo-Vermelho, Leonydas Lydden. As notas agudas e insistentes da flauta do bardo soavam tão impertinentes quanto o tom da voz de seu irmão mais velho, o Texugo-Marrom que tio Avahan humilhara três dias atrás.
O jovem acreditava que Leonydas podia somar junto a ele no julgamento em Den Profundo. Talvez por ter a mesma idade, talvez por ter se tornado um protegido Belvedere. Apesar de não ter sido testemunha do acidente, podia confirmar a boa conduta de Romney para Lorde Lydden. Mas não... O bardo estava ignorando-o desde que os colocaram lado a lado na retaguarda, e após passar as primeiras horas de viagem afinando seu instrumento, começou um repertório de intermináveis canções. Os irmãos furões não gostavam daquela agudeza, mas tinham baixa moral e não reclamariam com o Senhor-do-Ferro que, na vanguarda da comitiva, não devia ouvir quase nada. A tarde caiu sob eles e logo os grilos e cigarras anunciavam a noite vindoura, quando a coluna parou pela primeira vez.
De onde estavam, só puderam aguardar. A comitiva estava flaqueada por íngremes despenhadeiros, cruzando uma estreita estrada de barro pouco arborizada que levava até Valcorno, território de seu pai Lorde Robert Brax. Rom não sabia exatamente por que estavam indo até lá, mas apostava que seu tio convidaria seu pai para o julgamento em Den Profundo. Assim terei dois juízes, Lorde Lydden ficará sozinho em sua decisão. Uma tacada genial do ponto de vista de Romney, pois ninguém teria ousadia de negar um pedido de meu pai, Senhor Robert, reconhecido e respeitado em todo Ocidente. Forçou-se a acreditar.
Leon finalmente cessara suas melodias e exibiu um ar preocupado ao dizer: – Sores, preciso ter com Lorde Belick imediatamente. Um assunto urgente. – Ele não estava algemado, assim como Rom, mas os furões os escoltavam como verdadeiros prisioneiros, e não como protegidos, pois as rédeas de seus animais estavam anexadas por uma longa corda aos deles, para impedir que fugissem. Como se fossemos fazer isto... Haviam mais de dez cavaleiros para persegui-los, incluindo seu tio sor Avahan, o Tigre-do-Leste. Com quem Rom não tinha trocado palavras desde que deixou de servi-lo. Um tio fracassado. Não merece minha espada.
– O que seria de tanta urgência? Lembrou-se de algo? – Interrogou o mais velho dos furões, sor Ormund Ferren, com seus dentes amarelados.
– Fale logo! Parece que viu um fantasma... – Intimou o outro, sor Narbert, coçando sua barba falhada. Romney também estava curioso e indagou ao bardo: – O que houve, Leon?
– Vocês estão surdos? Tenho algo a dizer ao Lorde, não aos seus porquinhos. – Falou com algum preconceito na voz, Rom não se sentiu ofendido, pois o bardo direcionou as palavras aos furões. – Então, eu vou até o Senhor-do-Ferro e digo-lhe que você quer falar com ele. Vamos ver se Lorde Belick desejava tanto ouvir suas merdas. – Retrucou sor Narbert de forma habitual. – É assim que prefere, Texugo-Vermelho? – Perguntou o mais velho.
– Surdos e cegos! Que seja! Olhem para a trilha, está repleta de lama e bosta! – Leon avisou.
– Creio que seja uma questão de olfato, cujo campeão de maior narina aqui, só podia ser você, texugo. – Sor Narbert rebateu irritado sem entender o que Leon queria dizer. Mas eu compreendi. Rom pensou ao observar a enorme quantidade de fezes por onde passavam. É um rastro de umas duas cavalarias... Calculou ao notar que tinham tentado camuflar, misturando o esterco na lama e apagando pegadas. Sor Ormund pareceu pescar a ideia também, mas nada disse, Leon insistiu: – Eu reconheço todo este merdelê! Meu irmão passou por aqui! Ele já fez isso antes! – Respirou com algum nojo e em seguida, desabafou: – Tão previsível. Precisamos alertar Lorde Belick. Caso ele ainda não tenha percebido.
Narbert, o furão mais novo, porém mais barbudo, respondeu: – O próprio bastardo do lorde lidera um grupo de batedores! Estamos seguros, deixe essa conspiração de lado, texugo.
Exatamente no momento em que o barbudo pontuou, Rom teve um enorme calafrio ao avistar uma cavalaria pesada chegando pela retaguarda. Inumeros brasões trêmulos pela velocidade em que se aproximavam. Ele reconheceu alguns. Entre eles: A banda ondeada marrom em campo negro dos Ruttiger; O vermelho e dourado no bobo da corte dos Falwell de Gaiola Negra; Um xadrez de roxo e branco que ele julgava ser da casa Payne; Um esquilo cinza no fundo branco, são os Wythers, previu, e até os três leões dourados sobre o temível negro dos Jast. Contudo, não avistou o texugo dos Lyddens e agradeceu por isto.
Vinham como loucos por sangue, com lanças apontadas pra baixo, levantando terra com fulgor a cada metro de descida cumprido. A única trombeta que soou foi a flauta de Leon e a retaguarda Belvedere conseguiu se alinhar em cinco cavaleiros a tempo: O Castanho, sor Leobald Moreland, sor Breno Myatt e os dois furões. Além de seus escudeiros: Baren, Edwyle, Jason, Igon e Jonos. O problema é que ninguém rompeu a corda que prendia os animais, e quando Rom e Leon foram arrastados para esta barricada, o bardo saltou da montaria. Romney pensou em fazer o mesmo, mas estava armado. Já matei cinco, posso enfrentar os cavaleiros. Sua bravura e honra falavam mais alto. Até por que a maioria dos escudeiros ali foram seus colegas de treino e ele não os deixaria para trás. – Eles estão em seta, espalhem-se! – Ordenou o Gatuno do Montês, sor Breno, poucos segundos antes das cavalarias se encontraram. E num golpe de sorte, tal ordem teve um sucesso inesperado.
Quando dispersaram, sor Ormund Ferren levou seu corcel para a direita, enquanto Rom direcionou-se para a esquerda, e as duas cordas esticaram-se. Uma armadilha. O impacto foi fortíssimo e levou alguns inimigos ao chão, ferindo-os gravemente. Os cavalos de Romney e sor Ormund também caíram ao serem subitamente puxados pra trás, assim como eles dois.
Seu mundo embaraçou-se diante de seus olhos. Sentiu um fisgão no tornozelo e um corte no queixo, que ardeu instantâneamente. Dá-me forças! Agradeceu em oração ao Guerreiro por conseguir se levantar. Suas pernas ainda tremiam quando ergueu a visão para um cavaleiro montado que vinha em sua direção. Certamente morreria, pois a ponta da lança inimiga passou a um palmo de seu rosto, graças a uma machadinha arremessada por sor Harwyn nas patas do cavalo do Clegane, a alguns metros de distância. O cavaleiro amarelo e negro caiu, mas estava tão bem armadurado que pouco sofreu com a queda, diferente de seu cavalo que relinchou de dor por não conseguir ficar de pé. Romney esqueceu todas as lâminas que chocavam-se ao seu redor, todos os gritos de dor e esforçou-se para alcançar o inimigo que buscava erguer-se. Quatro longos passos ágeis e seu primeiro golpe não surtiu efeito algum.
Como o Titã de Braavos trajando um elmo de cão, a armadura do inimigo suportou sua força e seu fio. Apenas amassando levemente na altura da orelha esquerda. Eu devia ter arrancado-lhe a cabeça. Rom começou a desesperar-se diante dos olhos cruéis do homem. Ele vem até mim. Não sabia o que fazer, pois no canto direito de sua visão, viu sor Ormund perder o capacete num golpe parecido com o que tentara aplicar. Confiando que Igon protegeria o furão, concentrou-se em sua própria defesa. Levantou seu escudo redondo para proteger-se, mas o primeiro golpe da montante do cão, jogou-lhe mais longe do que a primeira queda, porém, fora bem menos doloroso. A não ser pelo braço do escudo. Os segundos eram valiosos e dores não conseguiam sobressair-se diante da fervura da ação. Rolou para o lado e com isso, a pesada lâmina do inimigo fincou-se na lama. Ele praguejou e Rom não discerniu as palavras.
Não existia qualquer rota de fuga visível a ele. Morte por todos os lados. Tentou atacar seu oponente acima do quadril, entre o peitoral e o saiote de placas, usou toda sua força, mas soou lento e errou. O cão elevou a montante preparando um golpe vorpal, mas ao invés disso, chutou Rom, que pela terceira vez, provava o gosto da terra. E da bosta... Ele é muito forte.
Estava moído e a derrota parecia iminente pela demora que levou para içar-se de novo. Só então entendeu o motivo de ainda estar respirando. O Tigre-do-Leste estava ali, entre ele e o cão, impedindo que o mesmo o matasse depois do chute. Rom até pensou em ajudar seu tio, mas viu sor Ormund cair de joelhos com a garganta cortada pelo cavaleiro Payne, depois da fuga de seu escudeiro Igon. A cena não o aterrorizou, ao contrário, despertou-lhe raiva. Como o escudeiro desertor devia ter feito, Romney fez. Investiu pelas costas do executor do furão, impedindo-lhe de dar um golpe de misericórdia. A ponta de sua espada encravou acima do glúteo do Payne, atrevessando uma das moedas bordadas em sua capa roxa. E quando ele sentiu a picada era tarde demais para reagir... A lança-longa de sor Narbert Ferren perfurou-lhe o baço, atravessando-lhe no mais puro desejo de vingança do furão mais novo.
Devido aos despenhadeiros, não havia espaço para a fuga dos animais, então um amontoado de carroças e cavalos impediam que sua visão alcançasse toda a batalha, mas Rom podia ouvir combate no fronte, pra onde Leon tinha corrido, e onde tio Belick está. Refletiu, mas focou-se na retaguarda em que estava. Avistou o Gatuno do Montês destroçar dois escudeiros com sua alabarda; Ainda em cima de seus cavalos, o Castanho e Baren enfrentavam três cavaleiros ao mesmo tempo, com habilidade singular; Sor Leobald lutava heroicamente sob o corpo de seu escudeiro, Edwyle, cercado por três cavaleiros de negro e dourado; Sor Avahan e o Clegane trocavam golpes duros, amassando suas placas e escudos, até que um cedesse; Igon, em sua tentativa de fuga, fora jogado no chão por um cavaleiro de capa verde e sua lança com a flâmula Clegane. E ele estava no meio daquele caos, com a ponta de sua lâmina pingando sangue Payne. Ouviu seu nome ser gritado. – ROMNEY! VÁ PARA A VANGUARDA!
A voz grave de seu tio Avahan foi reconhecida. Não vou seguir suas ordens. Pensou. Não sou mais seu escudeiro, sor. Encontrou tempo para inflar seu orgulho, mas isso só serviu para lembrar-lhe de suas dores. Mas não fugirei. Retomou o fôlego e correu na direção de Igon, para salvá-lo. E como um verdadeiro cavaleiro sagrado, ele conseguiu. Esquivou de um golpe anônimo, montou em um cavalo livre, alcançou o Capa Verde e com seu escudo amassado, derrubou o cavaleiro de sua montaria antes que o oponente furasse o crânio de Igon agonizando no solo. Em seguida, desmontou rapidamente e alcançou o inimigo quebrado pelo tombo. Era um homem novo, tão imberbe quanto ele e pedia misericórdia. Seis mortes.
Romney fez o mesmo que fizeram com sor Ormund Ferren: Degolou o homem com a espada, jorrando sangue inimigo sobre si. O gosto de ferro substituiu o sabor de sangue em seu paladar. O primeiro cavaleiro que mato. No instante em que se orgulhava do feito, dois surgiram em seus flancos. O jovem Igon estava desmaiado a sua frente, mas ainda respirava. Rom defendeu-se do mais forte, que tentara acertar seu rosto com uma larga sabre, mas o mais fraco o acertou em cheio, superando seu julgamento em dobro e rasgando-lhe a coxa direita. Ele caiu de joelhos, perdendo toda a força para ficar de pé. Dois novos golpes, que milagrosamente ele conseguiu defender, mas que o levaram ao chão pela quarta vez naquele incomum entardecer.
Caiu de costas, barriga na lama. Sentia a proximidade do seu fim mais forte que o tremor em sua ferida. Morrerei com honra. Quando pensou que a sabre inimiga fosse entrar em suas costas, varando-lhe o coração, Romney ouviu uma trombeta de guerra. Longa e duradoura a ponto de parar até o mais furioso dos combatentes daquele confronto. Todos congelaram ao notar o leão dourado no fundo carmesim surgir em cada metro acima dos despenhadeiros. Mais de trezentos homens Lannisters e seu comandante logo surgiu no gume da ladeira de onde os inimigos Cleganes desceram: Lorde Tywin Lannister, a Mão do Rei. E ao contemplar tal figura, Romney sabia que cada ato traiçoeiro cometido, não sairia impune.
Enfim, a Justiça chegou.
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