Os Tigres de Westeros
20 Edric III
Edric
Guardas, cavaleiros, arqueiros e principalmente batedores com seus arcos e bestas armados; Cães de rastreio e montarias de guerra armaduradas; Estandartes verdes exibindo em quantidade o texugo marrom dos Lyddens de Den Profundo. Quando o capitão avistou que tamanho exército aguardava a chegada da comitiva do senhor seu pai, não teve escolha. Ordenou que seus homens voltassem à coluna para avisar seu Senhor, enquanto ele ficou sozinho para distrair o inimigo. Eram uma centena deles e não havia maneira de confrontá-los, ainda que sua tigreza estivesse por perto. Um contra cem, dois contra cem, não faz diferença. Calculou, apesar da ferocidade do animal próximo ter sido transportada a ele de alguma forma, pois antes de decidir exatamente o que fazer, seus lábios contorciam-se de raiva, como se rosnasse. São inimigos, é uma emboscada. Ed julgou pelo número de armas a mostra ou por eu instinto selvagem.
O terreno ali era o mais irregular possível, apesar de estarem em um planalto acima do declive, haviam sulcos de terra por todos os lados, como punhos de gigantes lutando para sair do solo. Mas gigantes não existem mais. A comitiva Belvedere estava a um quilômetro atrás, avançando na fenda de dois abismos. Ed avançou em direção aquele fronte com seu novo garrano. O animal possuía traços de boa linhagem na crina e na carcaça, mas sua coloração era comum e por isso, não havia sido tomado por nenhum cavaleiro nos estábulos Belvederes. Deu-lhe o nome de Lirinon, que significava “sorriso” em Alto-Valyriano, isto por que quando o montou pela primeira vez, a alma do garrano sorriu para ele, permitindo sua posse e aceitando-o como dono. Cavalos são fáceis de entrar na pele. Ed apostava, pois ainda não queria acreditar que seus poderes tinham voltado tão fortes. E também não superara por completo a dor de perder Zagga, seu antigo corcel, para o crime na Vila.
Quando ele e Lirinon estavam a cerca de duzentos metros dos inimigos, cessou o avanço, mas ergueu bem alto o estandarte do tigre azul no fundo branco. Com tal gesto, o capitão confirmou que todo aquele agrupamento Lydden a sua frente eram de fato, inimigos, pois rapidamente alguns arqueiros posicionaram-se e tentaram acertar-lhe projéteis. Seu cavalo se mostrou rápido e também evitou ser atingido. Então, as pressas, colocou seu plano em ação. Sem precisar assobiar ou escorregar até a pele do felino, Edric Hill fez com que Raseri aparecesse ao seu lado, mostrando suas presas e tamanho atroz aos oponentes. Em seguida, ela rugiu como uma verdadeira besta assustadora. Isso deve tirá-los do sério. Imaginou e devia ter razão, pois todos os texugos ali presentes vieram em sua direção, e não apenas uma parte deles. Ed, Lirinon e Raseri desataram a fugir. Seus animais o obedeciam sem precisar dar ordens e era exatamente isso que ele acreditava ser sua carta na manga.
Rumando para longe da comitiva Belvedere, o capitão levou os inimigos até uma região mais fechada, onde as árvores estavam mais próximas e o mato cobria suas raízes, causando a queda de cavaleiros inexperientes. Lirinon quase caiu por duas vezes, a primeira foi quando um virote acertou-lhe, rasgando o couro da canela de Ed e perfurando a couraça da sela, mas o garrano demonstrou-se resistente e manteve o galope. A segunda vez fora quando enormes buracos surgiram diante deles e o animal teve que provar sua agilidade ao saltar com o peso do capitão e o ferimento. Outro sucesso e Ed estava satisfeito com sua nova montaria. Mas a maioria dos texugos ainda estavam em seu encalço, apesar de já em número reduzido. Vai dar certo.
Já um pouco distante da fenda por onde seu pai atravessava com os tigres, Ed não buscava só afastar-se, mas também, entrar em uma floresta mais densa, que ele sabia existir por ali. A Floresta das Armadilhas. Conhecida pela abundante quantidade de caça, e logo, de caçadores da região. Eu sou o caçador aqui e minhas presas estão vindo até as minhas armadilhas. Forçou-se a acreditar, precisava ser positivo, pois eles estavam quase o alcançando através do rastro de Lirinon. Alguns virotes assobiaram ao passarem rente a sua cabeça, dois ou três, Ed ficou nervoso e impôs um ritmo mais elevado ao garrano. Raseri já não estava mais ao seu lado, mas ele sentia sua presença canibal nos arredores. Ela está pronta pra caçar. Avaliou ao sentir um aperto no peito, preciso tomar cuidado com as armadilhas, advertiu-se antes de dar continuadade a sua missão. Encontrou uma penca de arbustos secos que cresceram lado a lado na sombra de uma árvore morta pelo último inverno e saltou do cavalo em direção a grande moita. Lirinon continuaria seu trote até Monte Tigre se fosse preciso, Ed já estava ligado ao animal, mas agora escondido, precisava ser um predador e adentrar na pele de Raseri, fechou os olhos para abrir seu terceiro olho.
Literalmente, como num estalo, seu mundo mudou, sua fome mudou, sua sede mudou, sua respiração mudou e seu corpo mudou. As crias... O potente coração da besta estava disparado e seus ecos eram como marteladas em seu crânio, ampliando sua escuta e visão. Quando escorregou para sua pele animal, Raseri estava em fuga, mas assim que tomou o comando de sua força vital, Ed mudou a direção e subiu na primeira árvore que julgou ser facilmente escalada. Lá de cima, a floresta ganhou vida e todo estardalhaço emitido pelos oponentes em sua perseguição puderam ser ouvidos. Sentia-se realmente poderoso ao conseguir distinguir até mesmo as palavras trocadas entre os inimigos. “Fiquem atentos! Estamos atrás do Tigre! Prestem atenção!” Alarmavam suas presas. Poderia ir atrás delas, mas ainda parou para ouvir o galope dos homens que ficaram a perseguir Lirinon, já bem longe dali. Ele conseguiu, e eu também. Presumiu por não notar a pausa de nenhum cavalo para conferir a moita onde seu corpo de capitão repousava. E ainda consigo ouvir meu coração humano.
Os algozes de Raseri passaram bem embaixo do grosso galho onde esgueirava-se. O instinto de sua tigreza queria atacar, percebeu quando as garras projetaram-se afiadas para fora. Ed também estava babando para saltar, mas usou de sua astúcia e só o fez quando o último da coluna passava. Dois passos ligeiros árvore abaixo e saltou por cima do cavaleiro, derrubando-o de sua montaria e mordendo-lhe a boca para não gritar. O gosto de carne e sangue humano era tão suculento quanto carne de boi assada e a vontade de banquetear-se com aquele moribundo era enorme por parte do animal, mas sua consciência não permitiu e assim que matou, retirou-se agilmente para longe, pois ouvira o garrano relinchar alto quando o homem caíra para a morte. “Albert? Albert?! Sor! Albert fora ferido!” Conseguiu distinguir o grito das presas tão alto como o pulsar de terror de seus corações. O cheiro de medo saciava-lha as narinas. Eles eram tantos que sua mente animal não poderia contar, todavia, nos anos em que se manteve distante de sua tigreza, a criatura havia crescido em disparate e agora era uma temível besta predadora com mais de meia tonelada de peso e o dobro disso em força.
A floresta estava ao seu favor, o terreno era cruelmente fechado e ele saltou mais uma vez, fazendo outra vítima. Como viera do chão, não tivera tanto impulso para abocanhar a mandíbula do homem, que dessa vez, gritou antes de seu pescoço ser rasgado em um jorro de sangue. A fibra humana era mais fina que a de veados e javalis, demantelando-se na sua bocarra sem precisar mastigar muito. Uma flecha quase o atingiu, mas escapou novamente.
Conforme aparecia e desaparecia, matando um a um todos os integrantes daquele grupo de perseguidores, o pânico tomava a atmosfera e uma espécie de fúria o atingiu. Raseri começou a ter algum controle das ações e quando Ed percebera, a morte havia se espalhado para todos os lados naquela relva seca, agora úmida de sangue inimigo. A terra cheirava a carne, a carne cheirava terra. A velocidade dos movimentos de Raseri era incalculável. Quando Ed pensava que um dos algozes iria atingi-la por ter agido abruptamente, sua tigreza inclinava-se e esquivava-se com maestria. Ainda assim, antes que a metade deles morressem, o felino fora ferido.
Uma porrada seca, na altura de uma costela. Fora tudo que o maldito conseguira antes de partir-se em dois. Ed não previra aquilo e sua decisão de comando pestanejou. O felino estava voraz e bestial, mas subitamente, talvez por instinto, decidira fugir. Em seguida, uma flecha alvejou seu rabo, que quase ficou preso ao solo, mas estancou-se em um ardido ferimento. Ainda conseguia correr com facilidade. Estava em seu habitat natural e cada raiz que servia de obstáculo para o oponente, servia-lhe de degrau para a fuga. Nada o impedia: Árvore, árbusto, declives, pedras, insetos, galhos ou poças. Era como caminhar na praça da Vila, em dias vazios, mas não demorou muito para que seus ferimentos começassem a cobrir seu corpo selvagem com cansaço. Quase desequilibrou ao saltar para cima de um grande pedregulho rachado, no entanto, sua carcaça permanecia firme e não vacilou.
Quando encontrou um perímetro seguro repleto de folhas secas, onde pôde repor seu fôlego. Salivou em cima de suas feridas, lambento os machucados do rabo e da costela. A alma de Raseri o induzia a isto, e ele sabia que era o melhor curativo que podia fazer naquele instante. Ao menos, cessaria a ardência. Antes que isso pudesse acontecer, um estalido e uma forte dor no calcanhar. A queimação da ferida na pata esquerda traseira rapidamente remeteu a mente de Ed para seu tornozelo ferido pela queda no Bigode do Tigre, e sem querer, ele voltou ao seu corpo humano, como se fugisse da dor que o animal estava sofrendo ao ser pego por uma armadilha.
Abriu os olhos e a primeira coisa que viu foram suas mãos grossas de capitão. Estou perdido! Tenho que voltar! Edric pensava e agora de olhos fechados, não queria ficar nem mais um segundo em seu corpo humano, dentro daquele arbustro seco. Todavia, apagar o sentido da visão não bastara dessa vez. Tentou imaginar-se onde estava, lembrou-se das folhas secas, do gosto de sangue em sua mandíbula, coçou seus braços com as unhas para remeter as garras. Nada funcionava. Preciso voltar! Minha tigreza corre perigo! Ele clamava internamente aos deuses antigos. Levem-me até ela. Levem-me. Orações tão vazias que nem uma brisa fora soprada de resposta. Como último recurso, Ed bateu com a nuca bem forte no tronco seco.
Sua mente devagou. Estava em uma noite qualquer em Monte Tigre, num cômodo luxuoso repleto de tapeçarias expondo os tigres azuis Belvederes. Não sentia sua forma, de modo que não estava em corpo algum, humano ou animal, apenas sua consciência observava nitidamente cada detalhe daquele cômodo. A enorme cama com mosquiteiros e sedas finas de Myr. Um baú forjado de ferro com ametistas azuis em sua tranca. A iluminação era pouca, mas haviam dois candelabros de prata reluzente e bem polida acesos. Então Edric avistou a janela. Tenebrosamente escancarada, com as cortinas tremendo como mãos dos lendários morto-vivos da Longa Noite. Algo o instigava a fechá-la, mas debruçou-se no peitoril para avistar um corpo estraçalhado no pátio abaixo, como num suicídio. Pela capa, um Belvedere.
Sem pensar duas vezes, Edric jogou-se torre abaixo. Vamos acabar logo com isso. Ao retomar a consciência, esperava que entrasse no corpo de Raseri, ainda tinha sua tigreza em mente, apesar do sonho em que vivia. E talvez graças a isto, conseguira alcançar seu objetivo e novamente estava na pele do animal. Contudo, logo arrependeu-se. Raseri fora presa a uma grossa rede de caça e estava sendo carregada por um bando de guerrilheiros, que pelo aspecto, eram realmente caçadores. A alma do animal estava fraca e isolada, mas ainda que controlasse totalmente a carcaça de sua tigreza, não havia o que fazer. Ao menos não são os Lyddens. Tentou ser positivo.
Com olhos de felino e ouvidos de bastardo, coletou o máximo de informações sobre seus sequestradores. Assim, quando deixou a alma de Raseri sozinha e escorregou para seu corpo de capitão, Edric Hill já sabia para onde ir. Valcorno, aldeia Tronco-Branco. Quando interceder. Em um dia lá estaremos, antes disso, preciso agir. E como interceder. Se for preciso, matarei todos eles. Sem sentir qualquer dor na nuca, o capitão levantou.
Fale com o autor