Os Tigres de Westeros
21 Aeron II
Aeron
Vinhos fracos foram servidos no jantar em Vale-Negro. No entanto, fervidos com especiarias para disfarçar sua baratez. O escudeiro apostava nisso ao bebericar sua sexta taça. Encabeçando a mesa longa de vinte metros, abarrotada de pratos para todos os gostos, sentava-se Lorde Ferdinand Ferren. O Senhor de Vale-Negro sorria a vontade e bebia tanto que começava a sujar seu manto jaquelado vermelho e dourado. E era sobre a bebida que ele discurssava, demonstrando-se um bom conhecedor de uvas. Ninguém o interrompia, por mais chato e metódico que o assunto fosse. Aeron gostava de beber, mas sabia que o gato estava se passando por lebre ali, pois sangrias eram servidas no lugar dos supostos vinhos mencionados. Mas devo ficar quieto. Pensou. O lorde continuava implacável:
– Este aqui é um verdelho. Vejam como é claro... – Levantou a garrafa e mostrou a bebida na cor de ouro. – É um dos principais tipos de vinho madeira, menos doce que o boal e mais doce que o malvasia dos Redwyne. – Levou a garrafa na direção do cavaleiro convidado e sugeriu: – Prove, sor Daronn. – As furonas, tão feias quanto ele, também sorriram pro sor.
– Penso que já bebi o suficiente, Lorde Ferdinand. Pretendo acordar com a cabeça limpa amanhã, pois devo seguir viagem até as terras Lyberr. – Justificou o cavaleiro a quem Aeron jurara serviço, de modo pouco elegante. As donzelas murcharam assim que pontuou.
– Imagina! Se só passará uma noite conosco, o sor deve aproveitar. Talvez não esbarre com uma bebida desse nível até chegar na Campina, meu caro. – Insistiu o Senhor de Vale-Negro.
Daronn olhou para sua mãe, milady Olga, procurando por aprovação talvez. Ela levantou seu cálice em um brinde, dizendo: – É uma chance que meu filho não deve desperdiçar, eu concordo, milorde. – Então o sor aceitou o vinho dourado, assim como todos os outros.
É bom ter um lugar a mesa. Refletiu ao observar a quantidade de nobres que comiam ao seu redor. Nos flancos do Senhor de Vale-Negro estavam suas filhas: Lady Estér, de seios fartos, pele morena e corpo maduro, mas com um queixo de cavaleiro. Não é a toa que a chamam de Estér Carranca; Lady Brabey, com suas mechas ruivas destacando-a dos demais. O penteado trabalhado de forma exuberante, que infelizmente acabava por parecer um dothraki pelo tamanho de suas costeletas, formando quase uma barba. E esta é o Furão-Barbudo. Aeron satirizou internamente, rindo consigo mesmo. E a miúda Lady Maegelle, toda loirinha e delicada. A versão duende Lannister de Lyz. O escudeiro especulou, comparando as duas que sentavam-se lado a lado. Mas Maegelle é magra demais e ainda tem um corpo raquítico, diferente de Lyz, cuja corpulência já lhe dá um aspecto de dama.
Além desses quatro nobres, outras figuras também representavam Vale-Negro: Meistre Robar, o único a beber água; O roliço castelão Talbart Chelsted; Wynton Hawthorne, um protegido de Lorde Ferdinand; E até um minerador chamado Charles Barreth, que estava tão vestido de peles, panos e couro que mal conseguia engolir a carne do garfo. Aeron notou que o Senhor de Vale-Negro não permitira que nenhum de seus cavaleiros ceiassem com eles naquela noite, o que só podia significar uma coisa: Ou os Ferren estão com a cavalaria desfalcada, ou o Lorde não quis ofender 'o mais novo cavaleiro de Westeros', colocando um veterano à mesa, para diminuí-lo. Aeron apostava na segunda opção.
Afinal, a Casa Belvedere também estava muito bem representada naqueles vinte metros: Sor Daronn vestia sua melhor túnica alva-anil e sentava-se de frente para a Senhora Olga Lyberr e sua bela filha Lyz, toda corada e empolgada pelo vinho. Ou por seu primo? Aeron perguntava-se ao estranhar a proximidade dela com o segundo escudeiro Ellyot que sentava-se ao seu lado. Alguns beliscões me parecem indiscretos. Avaliou diante da brincadeira dos dois. Mas todos parecem um pouco alegres ou bêbados demais. Refletiu enquanto saboreava uma suculenta batata corada com cebolas e um pedaço gorduroso de carne de carneiro.
Tirando os legítimos tigres da conta, restava: Meistre Ibbeorn, que comia devagar por tossir muito em seu guardanapo. Sor Eddison Turnberry, o Cavaleiro das Amoras, já quase tão bêbado quanto o Lorde, mas muito mais contido; E a maravilhosa Lady Julliet Peckleddon, com sua pele clara como a neve e olhos violetas como o brasão de sua casa. Ela parecia ter saído diretamente de uma bela canção e Aeron não conseguia encontrar defeito algum nela. Sua face é perfeita, orelhas pequenas, dentes brancos, nariz arrebitado, bochechas com covinhas, pescoço fino e cheiroso... Seu corpo mais perfeito ainda, ombros finos, quadril de donzela, mãos de rainha, pernas de cavaleira, tudo no seu devido lugar. Ele já sabia, estava apaixonado. E terei meu encontro com ela hoje ainda. Ansiava este momento.
– E então? Aprovaram o meu verdelho? – O lorde perguntou a todos e a resposta veio tão alta, que interrompeu os pensamentos de Aeron. Quando o falatório cessou, o Cavaleiro das Amoras indagou para o anfitrião: – O Senhor que plantou?
– Não. – Falou firmemente, mas depois abriu um sorriso manchado e completou: – A colheita é feita na Barreira dos Espinhos, terras comandadas por minha irmã viúva.
Aeron sabia onde ficava a Barreira dos Espinhos. Estamos a algumas horas de lá. Um salão retorcido no entre três picos, situado exatamente no caminho para Donzelarosa, as terras Piper. Então as uvas são praticamente dele. Pra quê trazer a viuvez de sua irmã à tona? Aeron estava curioso, mas não tinha direito de fala, e com todas as delícias sendo servidas, não tinha nem intenção de falar. Mas alguns já tinham comido o suficiente, como o Cavaleiro das Amoras, que retrucou: – Imaginei.
– Por que? Sor Eddison não aprovou as uvas da tia Cassana? – Uma das filhas de Ferdinand parecia um cavalo com seu queixo, a outra um dothraki com sua barba. Mas era o cavalo que relinchara agora, provocando o Cavaleiro das Amoras, que caiu como uma criança bêbada.
– Parecem diluídas no mijo. – Todos congelaram. E até Lyz que bebia o vinho na hora cuspiu acertando Daronn. Constatando o constragimento alheio, sor Eddison tentou retificar de seu modo: – E não é só pela cor... O Senhor falou que era doce, mas este aqui é ácido como gengibre e sem nenhuma maciez. Haha. – Uma risada seca e fora de hora, mas Daronn o acompanhou, como calouro da cavalaria que é, e logo alguns riram.
Aeron também riu, e riu alto. Se tinha algo que ele gostava de fazer, era dar risadas. Aprendera a olhar o lado cheio do copo. Antes sangria do que água, antes água do que nada. Esta filosofia lhe fora passada por via de seu antigo tutor, Sor Edmund, o Cavaleiro Sorriso. Tal alcunha obviamente interligada a questão do eterno bom humor. Assim, Aeron aprendeu a conquistar amigos por onde passava. Sinto saudades de Sor Edmund, já fazem três ou quatro dias... Aquilo secou seu riso, e por fim, todos foram pausando. Ninguém sabia ao certo o motivo de ter rido, mas todos estão bêbados e a alegria contagia.
– Cuidado, sor. Posso considerar isso uma desfeita. – O Senhor do Vale-Negro advertiu sor Eddison num tom que Aeron julgou ser um sarcasmo brincalhão. No entanto, sempre haveria alguém pra tentar estragar tudo.
– Ou uma ofensa, tio. – Falou o tal do protegido Wynton, então levantou-se para impactar com as palavras: – Se fosse minha tia Cassana, faria este cavaleiro beber até mijar suas próprias entranhas. – Finalizou de forma maléfica e engenhosa. O silêncio instaurou-se novamente. Está ficando constrangedor novamente.
– Isso sim é uma ofensa. – Sor Daronn afirmou e levantou-se como Wynton, igualando-se.
Parecia que lorde Ferdinand ia erguer-se, mas antes dele, seu castelão (que estava ao lado do protegido) puxou o protegido para a cadeira, ordenando em voz alta: – Peça desculpas ao sor, Wynton.
O jovem engoliu em seco, devia ter a mesma idade de Daronn e é tão arrogante quanto ele, mas preferiu ofender sor Eddison: – Pensei estar falando com um cavaleiro do Ocidente e não com uma rosa da Campina.
Agora o anfitrião apoiava as mãos nos braços do cadeirão, arrastando o assento pra trás para ganhar espaço e erguer-se, mas como o cadeirão era pesado, houve tempo para o Cavaleiro das Amoras interceder:
– De fato, não me ofendeu. Coisas piores podiam ter sido ditas. – As damas sorriram pela humildade do cavaleiro, enquanto os homens pestanejaram e Daronn novamente agiu como líder ferido, tomando voz:
– O que poderia ser pior que beber até mijar suas entranhas, sor? – Como Sor Eddison ficou pensando em alguma resposta, seu novo tutor concluiu: – Não há nada mais terrível pra ser dito do que isso em um jantar entre famílias.
– Há piores, filho. – Senhora Olga afirmou. Não fosse por esse comentário, Aeron duvidava que a janta continuaria, mas graças a réplica de sua mãe, Daronn reservou-se, sentando novamente também. E finalmente, o Senhor de Vale-Negro ficou de pé para tomar voz perante a atenção de todos.
– Façamos o seguinte: – Olhou para seu protegido Hawthorne e continuou: – Wynton, retire-se daqui por trazer discórdia e asneira para nossa ceia. – Segundos depois, sem qualquer gesto ofensivo ou de escárnio, o rapaz já estava fora do salão. Então o lorde retomou de forma agradável: – Vamos falar de coisas boas... – Servos entraram com novas jarras. Mas sem garrafas dessa vez.
– O grande torneio de Harrenhall! Os Sete Reinos estarão lá! – A miúda Lady Maegelle trovejou de sua cadeira, demonstrando a todos que claramente não tinha resistência a bebida.
– Nós não estaremos, burra. – Coiceou a carrancuda mais velha. Alguns, como Aeron, riram.
– Nem Sor Daronn, minha tola irmã. Deve estar inconformado, não é mesmo? Jovem e forte desse jeito, com uma espada de fio lendário e uma alma de lorde... – Provocou o dothraki ruivo que passava-se por filha de Lorde Ferdinand, Lady Barbrey.
– Basta! – O Senhor de Vale-Negro ordenou e o silêncio se fez entre as monstrengas. – Sor Daronn está cumprindo seu dever. – Ele lembrou e seria interrompido em seguida, mas não permitiu, continuando: – Assim como negou nosso hediondo baile-de-máscaras, absteve-se de brincar nos jogos de Harrenhall. – Novamente a mais velha iria relinchar algo, mas ele não permitiu. Seu tom estava firme e não faltava-lhe folego para impedi-las de replicar. – Vocês três... – Apontou para suas crias. – Vejo que já acabaram de comer. Retirem-se também.
As indóceis donzelas iam saindo frustradas e silenciadas, então a etique da Senhora Belvedere mostrou-se afiada: – Devo aproveitar que as ladys sairão e acompanhá-las com minha filha. Vamos conosco, Julliet? – Mirou um olhar indiscreto para a jovem Peckleddon. – Creio que chegou o momento de conversarem como homens. – Finalizou, acabando com os motivos de Aeron para ficar ali. Já estou de barriga cheia e pra lá de bêbado.
– Muito bom, minha Senhora de Lyberr, fique à vontade. – O Senhor de Vale-Negro saudou e confortou: – Sinta-se em casa. – Então todas as damas começaram a despedir-se e todos os homens, sem exceção, levantaram de seus lugares para cumprimentá-las. Aeron estava bêbado, mas logo percebeu a movimentação de Ellyot para cima de seu novo tutor, aonde vai? Indagou-se e sua curiosidade o fez aproximar-se para ouvir o que estava sendo dito naquele momento entre os dois. “... acompanhá-las até nossos aposentos. É mais seguro.” Aeron entendeu a sacada do segundo escudeiro e intercedeu aos murmúrios: – Eu as escolto em segurança, sor. Ellyot é sobrinho do Lorde Ferdinand, devia permanecer neste momento de diplomacia. – E sorriu para ele, depois para Ellyot, que fechou o cenho. Sor Daronn devia gostar de seu sorriso, pois o imitou de bochecha a bochecha, agradecido.
Fora daquele viveiro que eles chamavam de Salão de Jantar, a primeira coisa que Aeron fez foi ir até a sacada de uma janela e tomar um ar fresco. Lá dentro, uma mistura forte de aromas pairava impregnante, entre as essências dos nobres e o cheiro de todo tipo de comida. Antes de deixar o enjôo completamente de lado, as damas se aglomeraram ao seu redor e Senhora Olga alertou: – Nos guie até os nossos aposentos, escudeiro. Conforme lhe foi ordenado.
O ambiente todo escureceu. Aeron se deu conta de que estava bem perdido naquele castelo enferrujado de rochas negras. E agora? O que devo fazer? Eu só não queria que Ellyot... Estava pensando e se culpando, quando Estér-Carranca tomou escárnio dele: – Olhe a cara do rapaz, está mais bêbado que um gambá sarnento. Haha-Haha. – Quando todas começaram a rir, ele fez o mesmo, mas como a Senhora Olga ficou séria, ele logo respondeu:
– Estou aqui para escoltar suas beldades até seus leitos. Creio que o caminho, ahm, seja por aqui. – Apontou para a descida a esquerda, mas confessou: – Não tenho certeza. Lady Estér e Lady Barbrey, por gentileza, poderiam nos guiar? – O cavalo respondeu: – Será um prazer. – Aeron segurou uma piada terrível dentro de si e com uma mão no cabo da espada e a outra no bolso segurando a chave de seu aposento reservado, escoltou as ladys durante o tenebroso percurso. Um uivo desconhecido ressoou bem longe, alcançando corações inquietos.
O vento gélido do inverno passado ainda estava vivo nas noites em Vale-Negro. E nos corredores daquele castelo, brisas frias invadiam de algum modo, causando calafrios no grupo que escoltava. Lyz chegou até a gritar de susto quando uma bandeja de prata foi derrubada por Maegelle. – Acalmem-se, ladys. Estou aqui para protegê-las, com meu aço.
Não causou toda a comoção que desejava, mas Lady Julliet pescou uma indireta e sorriu a ele. Fofocas baixinhas sobre fantasmas começaram entre elas, mas sua apaixonante lady dava atenção a ele, na retaguarda. – Onde está a mecha? Onde nos encontraremos?
Quando ela segredou de forma tão direta, indagando-o sobre a mecha, tudo veio a sua mente. Claro, a mecha! O tufo de cabelo arrancado em sua primeira batalha. Lady Julliet mais cedo havia elogiado suas madeixas loiras e dissera que faria tudo por uma franja como a sua. Daí a coincidência. Eu já tinha uma mecha e um interesse. – Seu presente está nos meus reservados aposentos, milady. – Relatou da forma mais charmosa que pode, até engrossando um pouco a voz. Mas sem parecer ridículo. Ela riu, todos riem, fazia parte de seu carisma. O que não esperava era que desse tão certo, a ponto de sua bela paixão dizer: – Então me dê a chave e lá estarei antes da Hora das Estrelas, Aeron. – Aquilo o fez pisar nas nuvens por segundos.
O grupo continuava seguindo a frente, um pouco assustado, mas graças ao falatório das monstrengas, estavam mais calmos. O escudeiro aproveitou-se da posição na retaguarda reservada com Lady Julliet e continuou: – Virás sozinha? – Entregou a chave na mão dela.
– Não tens medo das assombrações de Vale-Negro?
Para sua alegria e surpresa, ela sorriu novamente. – Você não está aqui para nos proteger?
Parecia um sonho. Se beliscou disfarçadamente para ter certeza de que estava acordado. Talvez eu tenha batido a cabeça. Mas não, era real. Tudo estava dando certo. Inclusive quando subiram para a Torre dos Convidados, conseguiu mostrar o cômodo para sua amada. Apenas de relance, mas ela notou o luxo. Então, Aeron despediu-se do séquito, pois naquela torre, todos já estavam aconchegados, e voltou-se para seu quarto reservado. Fechou a porta atrás de si e sorriu sozinho. Ninguém percebeu nada, Julliet está a caminho. Seu pau já ficava duro com as imagens que vinham em seus pensamentos devassos. A noite está só começando. Contudo, estava cansado e esbaforido. Contemplou mais uma vez o luxo dos aposentos.
Tapeçarias em padrões de vermelho e dourado, soando como um cômodo de hóspedes em Rochedo Casterly. Por sorte, não havia o verde dos Ferren em lugar algum. Almofadas amarelas e escarlates de cetim enfeitavam as quinas e a cama. A mobília toda escura e reluzente de tão polida. Havia até uma banheira entre cortinas minuciosamente tricotadas em um jaquelado. E estava no mais impecável estado: Com água fervida e seus vapores condensando em um convite. Toda a prata dada ao castelão Talbart Chelsted fora um bom investimento. Até o cheiro do cômdo era suave e agradável. Terei uma noite de amor, com uma donzela. Posso fazer meu primeiro filho hoje. Imaginou Aeron, que apesar de jovem, já tinha estado com mais de quinze mulheres, mas nenhuma delas era uma nobre e linda donzela. Refletiu empolgado. Tirou a roupa e decidiu tomar um banho.
A banheira confortávelmente morna o recebeu como uma cama e Aeron adormeceu. Já tinha bebido muito e quando abriu os olhos... Tudo estava perdido. A mecha em cima da cama havia sumido. Ele estava nu e vergonhosamente enrugado. Já era dia... Perdi minha lady.
Fale com o autor