Notas iniciais
Aviso: Este capítulo não é para os fracos. Forte teor de violência e chances de repulsa.

Hector

Seus agonizantes pesadelos concretizavam-se um a um diante dele, de modo que, não sabia mais o que era real e o que era utopia. Perdi esta linha ao perder a noção do tempo. Imaginava o cão com o rabo entre as pernas. Os piores dias de sua vida estavam sendo vividos, talvez os últimos dias dela. O que foi que eu fiz?


Não lembrava de ter apanhado tanto, mas a primeira vez que abrira os olhos, todo seu corpo tremia e sangrava. Se tinha algo que Hec tinha aversão era sangue, fosse de animais, fosse de inimigos, fosse o seu próprio. Portanto, voltara a desmaiar, não pela dor e sim pela viscosidade dos ferimentos. Entretanto, na segunda vez, conseguiu evitar, pois o sangue já estava seco, assim como todo o buraco ao seu redor. Fora colocado numa espécie de bueiro de terra, onde só podia ficar em pé, impossibilitado de sentar-se de tão estreito. Ele não era exatamente claustrofóbico, mas quando a dor esvanecera, seus membros logo começaram a formigar, e ainda assim, persistiu. Estes foram os dias orgulhosos, antes de...


Depois que a solidão e medo o preencheram, e ele se sentiu esquecido no mundo... Começou a gritar por socorro, então uma portinhola se abriu acima, uma grade grossa de ferro foi revelada pela luz antes que ele se cegasse. E a água veio. Água fria, porém em abundância. Não havia melhor forma para calá-lo. Considerou uma benção aquele líquido gélido fortificado pelo clarão que tomou sua visão. Com os resquícios de sua astúcia, aproveitou para tomar uma boa dose de água, como se já esperasse tal abordagem. Porém, quando seu cativeiro fechou-se em escuridão acima dele, Hector passou mal.


O minúsculo ambiente úmido fedia além do comum. Não portava nenhuma de suas vestimentas de modo que seus dejetos escorreram pelas pernas e exalaram um fétido odor. Ele ficou enjoado e para piorar, vomitou a benção que acabara de consumir. Desmaiou mais uma vez, ou dormi, já não tinha consciência do que fazia exatamente ali. Quando acreditou ter fôlego novamente pra gritar, não pediu misericórdia, mas apostou na ganância de seus sequestradores. – SOU HECTOR CLEGANE! SOU UM NOBRE! FILHO DE UM LORDE! – Não precisou insistir muito até que a luz o cegasse novamente. Fora içado como um animal preso na lama de um rio, cercado por rostos desconhecidos e mal encarados. Estava num celeiro, repleto de palha e outras celas como a dele no chão. Uma prisão subterrânea. Onde estou? Não havia brasão em lugar algum e quando os desconhecidos perceberam que ele notava os arredores, logo intercederam:


Quem você disse que é? – Hec não conseguiu perceber quem perguntara, haviam tantos estranhos ao seu redor, mas respondera com a verdade, usando todas as suas energias, do início ao fim:


– Sou Hector Clegane, filho de Lorde Hothor Clegane com a Senhora Emily Bushy. Servia a família Belvedere como Emissário Oficial há poucos dias. E quem são vocês? – Teve a ousadia de perguntar, procurando arregalar os olhos, ainda doídos pela claridade.


Um algoz se aproximou dando-lhe um soco na barriga que quase quebrou sua costela e botou suas entranhas para fora pela boca. Tossiu sangue e ouviu: – Nós quem perguntamos aqui.


– Se é Emissário dos Tigres, o que faz no Pico-Infinito? – Uma voz mais fina perguntou.


– Eu era um protegido lá. Mas f... – Tentava explicar quando um brutamontes o interrompeu: – Protegido? – Outro capanga antecipou-se à explicação de Hec: – Um refém, Narak. Um refém... – Sentiu os olhos pesarem sobre ele, com desprezo. Narak. Lembrou-se do carroceiro que o colocou naquela emboscada.


– Garoto, limite-se a responder minha pergunta. Nós já sabemos o que você fazia lá, mas o que faz aqui? – A voz aguda parecia ter respeito, pois todas as outras calavam-se quando ela soava. Hec começou a respondê-la: – Eu fui salv... – Comecei mal. Pensou e reformulou rapidamente, cheio de dor. – Eu fugi de Monte Tigre.


Outro soco, por milagre no lado oposto, mas não menos doloroso por isso. Hector sentia-se como um saco de carne podre, pronto para ser jogado fora. Não sou ninguém. – Nos diga a verdade, moleque! – O brutamontes que batia antes de falar, ordenou. É tudo que estou tentando fazer. Ruminou sem ousar dizer. Ao contrário disso, as palavras saíram por sua boca com humildade e desespero em doses iguais: – Fui salvo por sor Sargon Hill, o Bastardo de Prata. O cavaleiro me trouxe até Pico Infinito. Esper... – Mais uma vez fora interrompido. No entanto, não por um soco e sim pela voz suave e fina: – E onde está o cavaleiro?


Aquela pergunta dita de forma maliciosa fez Hec pestanejar. Eles irão atrás dele. Eram muitos e o Bastardo de Prata estava ferido. Porém, quando viu o brutamontes mexer-se, evitou mais um golpe e respondeu: – Na Vila Estribeira, no Peixe Pulguento.


– Agora você falou a minha língua, garoto. – Uma mulher se revelou na luz, jogando o gorro de malha para trás após se aproximar. Ela era terrivelmente cruel e bela. A pele branca e lisa, não fosse por cicatrizes bem localizadas, como se ela mesma se cortasse. Os olhos temíveis e centrados nele. – O cavaleiro provará sua palavra. Caso ele não esteja lá, considere-se morto. Enquanto isso, será tratado como um nobre. – Todos começaram a rir e Hector ficou feliz, pois dissera a verdade, então riu também. Ele já estava de joelhos pelos socos que levara, mas tomou um empurrão que o jogou na terra do celeiro. Bateu a cabeça sem jeito no chão e seu ouvido direito começou a zumbir. Ele reclamou alto: – Como um nobre, ela disse! O que está fazendo?


– O garoto verá como tratamos os nobres por aqui... – Foi a última coisa que ouviu, antes de apagar com alguma pancada. Pois em seguida, estava em seu mínimo cativeiro novamente, mas agora, seus algozes mijavam em cima dele ao invés de jogarem água. O que foi que eu fiz? Não acreditava ter traçado aquele destino pra si próprio. Todavia, não haviam deuses em seu panteão para culpar. Nunca pisei em um septo, tampouco em um bosque sagrado. Se algum Deus existe, manifeste-se agora e terá minha eterna devoção. Ironicamente, ao cogitar aquilo, a líder do bando com quem Hec conversara arriou as calças em cima dele e foi a última a mijá-lo. Para o deleito de seus capangas, cagou também. Isso significa que estou morto, mesmo sendo nobre. Julgou depois de uma crise de tosse. Vomitaria se tivesse algo para vomitar. Sentia-se fraquíssimo e mover-se ali era quase impossível, mas cuspiu as fezes que escorreram por sua face. A portinhola fechou-se e seu mundo tornou-se mais negro ainda. O rosto de Lorde Belick veio-lhe a mente, fostes como um pai pra mim e ainda assim, te traí. Hector começa a culpar-se de fato pelo seu fim. Não devia ter fugido.


Uma eternidade nas trevas pareceu se passar até que o libertassem da fossa novamente. Por vezes neste período, Hec preferiu morrer de uma vez à passar por tantas dores. Já não sinto mais meu braço. Todavia, sobrevivera para ver seu salvador ser pego pelos criminosos. Sor Sargon Hill, mais ferido que um boi abatido com pedaços de pau, estava estirado a sua frente, inconsciente. Para seu alívio, notou que o Bastardo de Prata ainda respirava. Com dificuldade, mas respirava. Todo o sangue no corpo dele fez Hector desmaiar também.


(...)


Acordou com a luz do Sol sob seu rosto, aquecendo-o. Estava deitado num colchão de palha. Ainda que muito dolorido, estava limpo e vestido, com o braço enfaixado. Uma súbita esperança preencheu seu coração, Hec não pôde evitar e clamou: – Deus, diga seu nome e lhe servirei em eterna gratidão. – Tomou um susto quando a resposta surgiu ao seu lado, em carne e osso, e não de forma divina:


– Ravella Cobra. É o meu nome, cão. Nunca pensei que alguém fosse melhor que eu nisso. – A mesma mulher que cagara nele, agora parecia tratá-lo com respeito, mas Hec não entendera o que ela quis dizer e nada respondeu. Ainda estou aqui. Ele pensava ter sido salvo de algum modo daquela corja, contudo estava enganado. – Digo, em ter tanto azar. Você é a pessoa errada, no lugar errado, no momento errado nas mãos erradas, Hector Clegane.


– Onde está sor Sargon? – Questionou evitando conversas descenessárias.


– Você é um tolo. Tão surdo quanto cego. Olhe ao seu redor, garoto. – Ela apontou para o leito ao lado, onde o Bastardo de Prata descansava. – Aí está seu salvador.


O Clegane queria levantar-se e tocar o cavaleiro, verificar se ele estava bem. Mas notar sua respiração pesada bastou. O javali voltara a roncar. Ficou feliz por isso e a esperança tomou seu peito novamente. Percebeu uma jarra e duas canecas na mesa ao lado, e Ravella o serviu de imediato. Ela parecia esperar que ele dissesse algo, então, depois de um longo gole, Hec disse:


– Talvez eu seja o homem mais azarado de Westeros. – Ela riu diante do comentário, mas o humilhou em seguida: – Você é apenas um garoto ainda. Não um homem. – Diante de seu cenho fechado, ela continuou: – Magro e fraco como um moleque, medroso e covarde como um septão. Oras, como pode desmaiar ao ver sangue?


Apesar de terrível, as cicatrizes de sua face já não eram mais tão aterrorizantes. Então, ele respondeu: – Ao menos sou inteligente e astuto como a Mão do Rei, que pagaria uma fortuna para ter minhas informações. – Deixou soar. A ganância de seus algozes já haviam sido testada anteriormente e agora estava mais preparado para barganhar por sua vida e pela do cavaleiro.


– O Senhor Mão, você diz? – Ao que ele acenou positivamente, Ravella continuou: – Infelizmente, sua sorte não brilha, garoto. Acontece que nós vendemos escravos via Água Negra, mas nosso comprador partiu há poucos dias e não temos uso pra você. Esse bastardo – apontou para sor Sargon – certamente resistiria até a Tartaruga voltar, mas você... Você morrerá antes disso, seja na fossa, seja na cama. Não temos muita comida pra reféns e nenhuma vontade de negociar com sua família Clegane ou com os Lannisters. Meus homens não estão dispostos a isso, nem eu. – Finalizou cruelmente, como se ele fosse um nada.


– Não entendo. Então por que ainda estou vivo? – Esta era a grande questão diante da fala de Ravella Cobra, sua sequestradora maligna. No entanto, não pareceu uma indagação trivial, ao passo que ela respondeu rapidamente:


– O ouro que nos trouxe... Tanto em sua bolsa de moedas, quanto na armadura do cavaleiro. Além de sua espada bem forjada... Pagam mais alguns dias de vida pra vocês dois. Contudo, vejo que ainda tenho algo a receber em troca deste favor. Devo saber quais informações o Senhor Mão pagaria uma fortuna para ter.


Pense, Hector, pense. Forçava-se a pensar em como barganhar com aquela mulher tirânica que parecia conformada em dar cabo nele e em seu amigo. – Diga-me de uma vez e prometo que terá mais um dia de vida. Quem sabe não consegue energia para escrever algumas cartas de despedida? Te arrumarei papiro, tinta e as enviarei.


A cada frase que ela completava, uma nova ameaça ela fazia. Isso tirava Hector do sério, impedindo de raciocinar de tanto medo. – Você está decidida a me matar, não é mesmo? O que eu te fiz? Que perigo ofereço a você e seu bando?


– O perigo do falatório. Temos muitos inimigos e se souberem que soltamos um de nossos capturados. Irão rir de nós. Não me faça usar minha adaga, Hec. Não quero que você desmaie novamente, diga de uma vez o que o Senhor Mão quer saber de você.


– Se vou morrer de qualquer jeito, não trairei novamente meu verdadeiro pai, Lorde Belick.


O que acabei de dizer? Não sabia o motivo pelo qual confabulara tais palavras, todavia, era tarde para voltar atrás diante daquela Cobra, uma vez ditas, seriam essas suas palavras finais. Ravella sacou uma adaga fina e pontiaguda de sua bota e levou até o pescoço de Hector, encurralando-o no colchão de palha em alguns segundos. – Vai bancar o honrado agora, garoto? Preciso te lembrar que você delatou o 'seu amigo' aqui ao lado? – Pressionou a lâmina contra sua garganta, Hec parou de respirar. Se ele falasse, a ponta da lâmina perfuraria seu pomo de adão, então arregalou os olhos como quem queria dizer algo. Ela não se importou, talvez não acreditasse nele, talvez tivesse prazer em matá-lo logo.


No segundo em que a ardência da ferida começou, Ravella Cobra foi arremessada para longe dele. Sor Sargon saltara para cima dela, gritando: – FUJA, HECTOR, FUJA!


Enquanto a luta entre os dois começava violentamente. O cão tentou levantar, mas suas pernas vacilaram e ele caiu. Ergueu-se com vigor e força de vontade, foi até a porta do quarto, mas antes de abri-la, olhou pra trás. Sor Sargon já havia sido picado pela adaga da Cobra. Um jato de sangue varou o apertado aposento. Hector estremeceu. Fechou os olhos e abriu a porta. Deu de frente com o carroceiro, Narak, apontando uma besta para sua cara. Hector levantou as mãos, em um gesto de rendição, mas Narak puxou o gatilho impiedosamente. Sua vida chegou ao fim da forma que começara, sem nenhum motivo especial.
Ao menos, levei o segredo do Metal Secreto Belvedere comigo para tumba.

Notas finais
Espero que gostem! Isso é George R. R. Martin Style, amigos. Rs