Lucyus

Homens para fazer o que ele estava fazendo, era o que mais tinha a sua disposição agora. No entanto, o mais novo Comandante do Exército Belvedere, estava decidido a sondar com seus próprios olhos o covil inimigo para mais tarde traçar uma estratégia junto de seus capitães reunidos no Forte do Ferro e realizar uma poderosa investida contra os criminosos que ali estivessem. Se tudo der certo, a paz em Monte Tigre começará hoje. Lucky apostava mesmo possuindo leves ferimentos dos confrontos anteriores.


Corvo Branco, um desertor que o ameaçou ao castrar e matar seu arqueiro Justin, havia fugido das terras Belvederes, e de acordo com Gwayne Gyles, o delator protegido pelo herdeiro Ronn, restava apenas um grande vilão para limpar a corja de uma vez por todas: Barão Burton, um fora-da-lei acusado de falsificar ouro. Quando anunciou o desejo de caçá-lo para o Comandante Ullon, o velho alertou que Burton possuía vários estabelecimentos na Vila do Estrangeiro, incluindo uma guilda mineradora. Todavia, seu informante Medgar Moribald jurara a Lucyus que a base dos negócios ilegais de Burton, era o Patas & Rodas. Medgar nunca me enganou ou falhou em suas informações. Portanto, lá estava Lucky, circulando furtivamente o perímetro do estábulo e buscando memorizar os detalhes. O Sol acabara de se pôr, por isso, o Justiceiro Cruel não era notado por curiosos ou pelos bandidos.


Apesar da proximidade com o centro da Vila do Estrangeiro, onde as construções amontoavam-se umas sobre as outras, o alto cercado do estábulo garantia um enorme pedaço de terra para os cavalos. Duas verdadeiras mansões erguiam-se no centro e um celeiro mais ao norte. Contudo, tais estruturas não chamavam atenção devido a vegetação que encobria seus limites: Mato-alto ao norte, o mesmo capim cortante estendia-se até o lado oeste, muitas árvores a leste, com um possível fosso escavado. Ou seriam covas-rasas? As entradas ficavam no sul, separadas por um declive: Uma portinhola mais acima, que dava acesso a mansão central, e um portão-de-carroças mais abaixo, que dava acesso amplo a mansão frontal e ao aras dos fundos. Lucky concentrou-se mais nos fundos, pois em meio ao matagal, a chance de ser visto era menor e podia se aproximar mais. Não havia sinal de cavalos. O capim crescido e a ópera cantada por grilos confirmavam isso. Porém, o cheiro de bosta equina predominava. Devem estar no celeiro. Imaginou. Não notou qualquer movimento suspeito também.


O Justiceiro Cruel pensou em pular a cerca dos fundos, escalando as trepadeiras, pois tinha a escuridão a seu favor. De fato, Lucyus enxergava melhor a noite do que de dia, além de que em cada canto sombrio, via uma poça negra onde mergulhar e esconder-se. Todavia, considerou muito arriscado, pois se fosse notado, todo seu plano posterior poderia ruir. Por fim, conferiu a quantidade de andares das mansões e deduziu quantos homens elas poderiam alojar. Com cinquenta soldados, derrubamos facilmente este covil. Calculou retirando-se dali. Primeira parte da missão cumprida, Adido. Falou consigo mesmo, tomando uma boa dose do vinho de seu cantil.
Fez o caminho de volta a pé, camuflando o rosto com o grande gorro negro de sua capa e escolhendo vielas alternativas. Lembrou-se das últimas palavras de seu tio lorde antes de partir de Monte Tigre para o torneio de Harrenhall: “Mostre a eles o motivo pelo qual lhe escolhi, sobrinho. Mantenha nossos soldados seguros como manteve meu filho enquanto estive fora. E logo será você no lugar de Aladale, comandando toda a artilharia de nossa família. Eu confio em você.” O primeiro passo foi dado. Ele sabia.


Com isso em mente que o Justiceiro Cruel chegou até o Forte do Ferro, uma forticicação digna de ser chamada de fortaleza, situada praticamente no centro da Vila, funcionando como estoque do ferro colhido na Garganta do Tigre, a mina Belvedere. Havia solicitado ao Comandante Ullon Utherydes que todos os capitães possíveis fossem reunidos e o aguardassem, e assim ele fizera.


– Adido, os capitães Dykk, Creighton, Mark, Justin e Quentyn estão a sua espera. Além de Hother organizando as tropas. – Apontou com seu queixo para um homem alinhando recrutas. O velho grisalho de longas pestanas alertou: – Mas temos um impasse. – Lucyus esbanjou sua faceta de impaciência e o veterano comandante concluiu: – Um sacerdote está presente e insisti em participar desta reunião. Capitão Quentyn é um fervoroso d'Os Sete e não desejava compartilhar da mesma mesa que este profano clérigo.


Não cedeu palavra alguma ao comandante. Lucyus estava satisfeito por ele ter cumprido sua parte e reunido cinco capitães, superando suas expectativas. Portanto, um conflito de religiões não o interromperia de dar sequência em seus planos. Enquanto caminhava ao lado de Ullon, notou olhares hostís em sua direção por parte da maioria dos soldados. Eles sabem que sou o Justiceiro Cruel. Envergou-se em sua capa, exibindo sua boa forma na postura. Em breve, saberão que sou seu novo comandante.


Subiram alguns lances de escadas forte a dentro, até chegarem a uma ante-sala, onde um homem muito alto, de rabo de cavalo e cavanhaque mal feito, esperava. Nas costas, uma capa grossa capa vermelha sobrepujava um escudo e um mangual pesado. O grandalhão também olhou para Lucky como se o conhecesse, mas diferente dos demais, não esbajanva um semblante negativo.


– Lucyus Belvedere Brax, um prazer conhecê-lo pessoalmente, comandante. – Entendeu a mão em um gesto e ele gostou daquilo, até por que no dia anterior, tinha visto tal homem na Fortaleza Belvedere. Logo que apertaram as mãos, ele se apresentou: – Sou Jared Vermelho, sacerdote do Senhor da Luz e filho de Jack, o ferreiro dos Tigres. – Lucyus deu um breve sorriso, mas manteve sua faceta de dúvida, como quem exige maiores esclarecimentos. O sacerdote percebeu e explicou-se vagamente: – Sou um Clérigo de Rh'llor. – Vendo que tal título nada significava para Lucyus, ele apelou: – Além de minha clava, possuo outra arma, as premonições que o Senhor da Luz me concede nas chamas.


– E meus filhos são gramequins selvagens. Não amole o Adido, pagão. Esta reunião é reservada para membros do exército Belvedere. – Comandante Ullon intimou com sarcasmo.


Lucyus não conhecia muitos deuses além d'Os Sete trazidos pelos Ândalos a Westeros e transpareceu isso em seu olhar para o sacerdote, após as palavras de Ullon. – Eu vi que você enfrentará algo que suas flechas não podem perfurar esta noite. O Grande Outro lhe aguarda no estábulo. Porém, se eu lá estiver, podemos mudar este destino. – Estábulo?! Talvez o vinho de seu cantil fosse culpado, pois a afirmação do sacerdote causou um arrepio em Lucyus. Um medo como ele não sentia há muito tempo, desde o incidente na floresta com seus primos. O Grande Outro? Pensou em perguntar, todavia sua decisão estava tomada.


– Jared Vermelho participará da reunião. – Afirmou, tomando a frente e abrindo a porta.


Para seu contentamento, um coquetel fora organizado no espaçoso salão de reuniões do Forte-do-Ferro. Uma ampla mesa centralizava o cômodo, com vinte e dois assentos a disposição. Os capitães sentaram-se próximos a ponta norte e para lá, ele, Ullon e Jared dirigiram-se. Antes de observar os homens, chamou um soldado para encher sua taça. Quando notou um flácido capitão mirando o sacerdote impetuosamente com o olhar, nada disse. Deixando para o comandante Ullon Utherydes a abertura do discurso daquela reunião.


– O Justiceiro Cruel chega do topo do Monte como reforço para nosso destacamento. Os capitães aqui presentes devem reportar-se a ele em minha ausência. Proponho um brinde de boas-vindas ao Adido Lucyus Brax.


Todos os nomes citados por Ullon ganhavam vida em sua frente. Lucyus os analisou de maneira positiva: Soldados experientes e respeitosos, que apesar da idade, trajam seus cargos de maneira capaz. O desafio era saber até onde ia a honra de cada um e quem seriam os corruptos entre eles. Pois certamente há traidores, para o crime estar como está...
Eles brindaram e todos se apresentaram. Antes de falar, Lucky reparou em cada um deles.


A sua esquerda estavam: Dykk, sonolento e mais concentrado em sua taça de vinho do que nas palavras de Ullon, branquelo e de rosto cumprido com cavanhaque negro e uma franja torta na testa. Parecia cego de um olho, mas talvez fosse só uma mancha em sua vista. Este irá dormir antes que possamos definir algo; Creighton, outro velho capitão semelhante a Ullon devido as pestanas e costeletas branas, mas com uma brutal diferença: Olhava diretamente nos olhos de Lucyus. Este parece ser o mais confiável. Ele também distinguia-se por sua forma física, exibindo peitoral largo e braços fortes. Ao seu lado, Quincy, o capitão devoto.


Acomodados no lado oposto, estavam: Justin, um guerrilheiro apático com corpo de meistre, tossindo curvado, cabeludo e grisalho, não trajava armadura, apenas uma capa de couro trançado e um corselete que um dia fora azul. Está tão velho que nem carrega mais sua espada. Lucyus notou; Mark, ostentando uma boa armadura com ombreiras prateadas e uma grossa capa branca repleta de pequenos tigres azuis bordados. O cabo de sua espada longa também chamou atenção de Lucky, devido a uma robusta turmalina sintilante. Tão polido e pomposo, mas sem qualquer marca de batalha. Toda aquela pompa fez Lucky suspeitar dele de imediato. Este parece ser o mais jovem, se eu e Jared não estivéssemos aqui.


– Não devemos esperar o capitão Hother? – Lucyus indagou diretamente Ullon.


– Não é preciso. Ele ficou com a missão de reunir os soldados em praça. – O velho comandante na ponta da mesa justificou.


– Todos os capitães deviam estar presentes. – Fez lembrar.


– O garoto não fará falta. Quanto menos ele souber, melhor. – Ninguém comentou, mas tal afirmação não fez sentido para Lucky, que perguntou com frieza, olhando nos olhos daquele pomposo capitão: – Por que diz isso?


– O jovem capitão Hother é um calouro. Foi eleito pelos homens, após ser confirmado como favorito pelo seu antecessor, antes de sua morte. – Creighton respondeu antecipado.


– Pois bem, não vejo motivo para ele não estar aqui. – Lucyus ressaltou, provocando Mark, que ficou pasmo de imediato. Quem não deve, não teme.


Então, aquele que parecia cego e bêbado de vinho, emendou com alguma educação: – Se me permite, até agora também não vejo motivo para estar aqui, tenho homens a comandar, escoltas a ordenar, rondas a f...


Dykk. – O comandante interrompeu. E virou-se para Lucyus, dizendo: – O motivo para a ausência do calouro é óbvio. Ninguém melhor que o favorito entre os homens para reuni-los com urgência. Muitos estiveram de serviço na madrugada, outros pela manhã. Estes estão sendo reconvocados, para isto, Hother será útil. – Utherydes parecia ter finalizado. Lucky não estava satisfeito com a resposta e insistiria, mas quando puxou ar para falar, Ullon continuou: – Talvez seja a hora do Justiceiro Cruel contar-nos seu plano e suas medidas.


Um soldado entrou para servir mais vinho e acender outros candelabros. Todos permanceram em silêncio, se entre-olhando. Ullon, Mark, Dykk, Creighton, Quincy e Jared esperavam a resposta de Lucyus, enquanto Justin permanecia só ouvindo, de olhos na janela. Quando o soldado saiu, as taças estavam cheias, mas ninguém bebeu. Por fim, ele revelou:


– Sim, tenho um plano. Só que os capitães foram convocados para minha apresentação como Comandante-Adido da Infataria Belvedere. Agora que conheço cada um de vocês, devo dispensar os que não serão necessários: Dykk, retome seus afazeres na Garganta do Tigre, dentro de alguns dias, irei pessoalmente a mina e ao povoado, acompanhar e auxiliar sua guarnição da melhor forma. – O cego ia levantar voz, mas ele não permitiu e continuou sem pausa: – Justin, volte com seus homens para o portão e mantenha seus batedores em movimento. – O homem que parecia estar dormindo, levantou de imediato, apertou sua mão como sinal de bom entendimento, mas não chegou a falar nada. Retirou-se rapidamente do recinto. Dykk aproveitou o momento para erguer-se também. Antes de sair, o cego falou:


– Dentre estes capitães, eu tenho a maior tropa a comandar. Agradeço a dispensa, mas seu suporte não se faz tão necessário na Garganta, Justiceiro. O crime reside na Vila, acredite.


Aquelas palavras soaram capciosas para o novo comandante. Desconfiava de todos que o tratassem como Justiceiro Cruel. Minhas atitudes sempre foram mal interpretadas pelos guardas da Vila do Estrangeiro. Imaginava não ser diferente entre seus capitães. Respondeu a Dykk: – Se puder apontar no mapa, faça agora mesmo. – Um silêncio para um trocadilho infame. – De qualquer forma, devo conhecer a Garganta. Aguarde-me. – Lucyus prometeu.


– Que assim seja, senhores... – E retirou-se de vez. Com eles dois, capitão Quincy também fora, alegando que não estava bem de saúde. O septo da Vila ficava longe e Lucyus não queria deixar o bairro Malvina desguarnecido, então também dispensou o devoto incomodado.

– Escutem senhores, sei que alguns de vocês consideram as atitudes do Justiceiro Cruel como um prejuízo para Vila. E agora que estão de frente a mim, exigirão milhares de respostas, pois certamente, alguns de seus homens encontraram minhas flechas. Darei todas as explicações que precisarem depois. Por hora, basta dizer que fiz o que fiz pensando no povo e fui perdoado por Lorde Belick Belvedere, seu patrono.


Fez uma breve pausa para que suas palavras recaíssem com pesar sobre os dois capitães restantes. E continuou: – Assim como fui promovido a Comandante-Adido. Portanto, neste novo cargo, não precisarei mais agir sozinho. Conto com a colaboração de vocês para agirmos de imediato, surpreendendo nossos inimigos e trazendo a paz de uma vez por todas.


Capitão Creighton demonstrou ser o mais empolgado e logo solicitou que um mapa da Vila do Estrangeiro fosse disposto no centro da mesa. Ullon e Mark olharam de esguelha, e isto fez com que Lucyus começasse a confirmar quem era quem. Contudo, minutos mais tarde, quando todo o plano de invasão no Patas & Rodas fora traçado, ambos os suspeitos fariam parte da emboscada. Não há melhor momento para testar a honra de um homem. E Jared? O sacerdote ficou responsável pela vanguarda do portão-de-carroças, acompanhado de dez bons homens, para enfrentar o tal perigo macabro. Minhas flechas voarão essa noite.

Notas finais
Espero que gostem! Muita ação está por vir no próximo capítulo de Lucyus! (continuação - cáp. 27)