Os Tigres de Westeros
24 Edric IV
Edric
Imaginou que seria fácil libertar sua tigreza dos caçadores, mas logo nas primeiras horas seguindo suas pistas, isso se mostrou uma inverdade. Dentro da pele do animal, Edric devia ter matado bons homens dos texugos, pois os sobreviventes perseguiam o capitão com persistência. Cruzar a fronteira das terras Brax não os impediram de continuar sua busca por ele. Não conseguirei salvar Raseri com estes batedores no meu encalço. Ele tinha certeza, de modo que passou as últimas horas do dia da Mãe traçando um plano para contê-los e após colocá-lo em ação, aguardava pacientemente em cima de um salgueiro. Esta floresta contém armadilhas naturais, apenas as acentuei. Repetia a si mesmo, torcendo para que funcionasse. Edric Hill estava exausto, mas evitava cochilar para não arriscar entrar na pele de seu animal e ser pego no corpo de capitão. Assim, estaria perdido.
Com seu arco esticado e uma seta pronta, esperava que os últimos texugos cruzassem a trilha abaixo dele. Seu pensamento devagava. Onde estará meu pai? Será que falhei como batedor?Como essa, várias outras questões atormentavam a mente do capitão. Lirinon, não sinto mais sua presença. Perguntava-se se era pela distância que o cavalo tomara ou por sua morte, quando ouviu os primeiros passos lhe cobrirem de adrenalina. Eles chegaram. Esgueirou-se um pouco mais no grosso galho onde estava, tomando cuidado para não cair. Já basta um tornozelo ferido. Seu coração pulsou forte e assim que seus olhos noturnos alcançaram os inimigos, discretamente, ele rosnou.
Eram seis. Maldição, seis! De imediato, julgou que algumas de suas armadilhas deviam ter falhado. A ponte falsa estava óbvia demais. Culpou-se. Antes de passarem por ele, Edric já tinha notado que só havia um arqueiro no grupo, e justamente no jovem, que o capitão mirou. Em parte, sentiu um pesar ao atravessar a cabeça desprotegida do rapaz com sua seta, mas esta mágoa passou rapidamente, assim que os outros cinco alarmaram-se.
Edric escondeu-se. – Godric caiu! Ele está aqui! Protejam-se! – Gritou gravemente um deles, enquanto os outros o amaldiçoavam: – Demônio! Aberração! Partirás deste mundo hoje! – E o mais alto, organizava-os: – A flecha veio de cima, procurem nas árvores.
O capitão segurou a respiração, enquanto sacava outra flecha em movimentos lentos. Ninguém persegue um tigre na floresta. Sou o maior caçador de Monte Tigre. Falava a si mesmo, aspirando confiança de que acertaria sua segunda seta no alvo, o que não aconteceu. Todavia, não falhara por completo. O perseguidor mais alto, que dava ordens, fora atingido. Não na cabeça, entre as fendas de seu capacete, como devia ser, mas de raspão no pescoço, o que também o fez cair num espirro de sangue, mas gritando e apontando: – Ali! Ele está ali!
Rapidamente, Edric saltou da árvore, caindo no solo com um rolamento treinado e sacando sua terceira flecha. Proporia uma trégua se pudesse, o capitão não gostava de derramar sangue em vão, mas quando viu os quatro homens com as cores Lyddens vindo em sua direção, não pestanejou e matou um deles, fazendo-o engolir sua seta e voar pra trás com o impacto do projétil em sua face, caindo moribundo no meio do mato. Quantos mais precisarão morrer? Seu instinto dizia que sua sede de sangue estava completamente saciada. Por que me seguir?
O cheiro da flora ao seu redor somado com a revigorante luz do luar, fortaleceram Edric Hill.
Sou o caçador e não a caça. Seus três inimigos gritavam como porcos selvagens ao invadir a mata em sua busca. Estão assustados, posso sentir o medo deles. Controlou tais pressentimentos, sabia que se investisse neles, seu instinto poderia levá-lo até a pele de sua tigreza. Edric também sabia que podia correr dos três batedores Lyddens restantes até que o último deles estivesse cravejado com suas setas, mas não iria tão longe, devido ao seu tornozelo ferido. Então, com sua quarta flecha pronta para ser disparada, limitou-se a esperar que os perseguidores o alcansassem. Segundos depois e eles já tinham chegado.
Apesar da penumbra, Edric pôde enxergar a maldade nos olhos deles. Sentem-se no direito de me julgar um monstro. No fundo, o capitão não sabia se de fato era um, pois antes que eles o cercassem, um quarto texugo, jazia morto pela sua quarta seta, que perfurou-lhe o baço, trazendo-lhe uma morte lenta e dolorosa. Enquanto ele gritava de dor, os outros dois avançaram para cima do capitão. Ambos usavam sabres afiadas, mas apenas um possuía um escudo redondo de madeira.
Não ofereceram qualquer rendição. Partiram pro ataque. Pela frente e por trás, Edric quase foi atingido. Jogou-se para o lado evitando o esquartejamento, mas teve o azar de ser atingido exatamente no tornozelo dolorido, um corte na altura de seu calcanhar. Não sentiu dor naquele instante e com um novo rolamento desajeitado, sacou sua quinta flecha e mirou no que não possuía escudo. Constatou que apesar de esbaforidos, os dois últimos sobreviventes também tinham reflexo e energia para saltar rapidamente e foi isso que acontecera. Seu alvo saltou para um arbusto assim que Ed disparou a flecha, e o pior: O escudo redondo também saltara, dando cobertura e defendendo habilmente seu projétil. Eles são bons guerrilheiros. Aquela apuração só inflamou o perigo e com ele, a emoção da batalha.
Ao avançar em sua direção, o guerrilheiro com escudo passou por uma brecha iluminada pela luz da lua e Ed notou o texugo dos Lyddens entalhado em sua defesa. O capitão não conseguiria ganhar terreno novamente, pois seu pé sangrava dentro da bota. Muito menos subir em uma árvore. Sacar a sexta flecha não lhe garantia nada também, pois o inimigo engajaria no corpo à corpo. Decidiu guardar o arco nas costas e sacar sua espada curta para defender o golpe. Entretanto, o guerrilheiro não abriu a defesa para atacar com sua sabre, ao contrário, empurrou o capitão com seu escudo de texugo barranco abaixo. Ed não conseguiu esquivar do empurrão e rolou pelo desfiladeiro de raízes e arbustos espinhosos. Para piorar, sua espada curta escorregou de seu punho no momento da queda e uma das setas de sua aljava raspou-lhe na nuca, causando uma ardência. Não posso morrer. O que será de Raseri? Seu coração quase parou ao perceber que se preocupava mais com sua tigreza enjaulada do que com seus filhos orfãos.
Abriu os olhos novamente e deu conta de si. O guerrilheiro descia o declive em seu encalço. Ed sacou seu arco só para perceber que o cabo também tinha torcido na queda. Restava-lhe apenas a adaga que seu avô lhe dera. Enquanto o guerrilheiro de escudo descia, houve tempo para o capitão levantar-se e desembainhar sua última esperança. Venha para a morte, texugo.
Em posição de batalha, aguardou até que seu oponente estivesse frente a frente. Covardamente, ele manteve sua sabre e escudo, apelando contra os ferimentos e o punhal de Ed. Pretende tirar a minha vida. A certeza chegou em seguida, quando o outro guerrilheiro sobrevivente surgiu no seu flanco direito, rogando: – Quais são suas últimas palavras, Tigre?
Eram dois contra um e Edric estava surrado como um bêbado brigão de taverna. Pensou em implorar por uma rendição, alegando ser filho do Senhor do Ferro, mas ele sabia que isso significaria abandonar Raseri. – Venham provar o ímpeto Belvedere, covardes! – Ed gritou.
Eles obedeceram.
Como se estivesse na pele de seu felino, o capitão saltou com fúria para cima do guerrilheiro em seu flanco, e como o mesmo não possuía escudo, não conseguiu defender seu golpe por completo. Assim como Edric também não conseguira defender sua sabre por completo. Ambos se feriram. A sabre inimiga cortou-lhe o braço da adaga e Ed perfurou o texugo na barriga, logo sentiu o sangue inimigo escorrer quente entre seus dedos. – MORRA! – Berrou com ódio bem na cara do maldito. Acabou entrando em êxtase e completou: – Quais são suas últimas palavras, Texugo?!
Aquilo dera tempo para o guerrilheiro com escudo golpeá-lo nas costas com sua sabre. Edric sentiu a lâmina alcançar sua carne e com o impacto, perfurou ainda mais a barriga do inimigo que engasgava-se com o próprio sangue abaixo dele. Quase sem forças, o capitão arrancou a adaga e rolou para o lado, antes que o segundo golpe o atingisse. Assim, a sabre terminou de matar o oponente que agonizava, encravando-se em seu peito. O guerrilheiro de escudo lamentou: – Oh, Sam! Perdoe-me! – E retirou sua lâmina do corpo do amigo.
Neste segundo, Edric jogou sua adaga na direção dele, aproveitando-se de sua distração. Todavia, o homem era um excelente guerreiro e com seu reflexo, levantou o escudo, defendendo-se. Estou morto. Sobrava-lhe apenas os punhos para confrontar o oponente, que nem ferido estava. Se eu tivesse garras ou presas, não estaria indefeso. Ed não tinha forças para uma briga. Estava quase desvanecendo. Não suplicarei por minha vida.
Seu algoz ergueu-se e mortalmente, caminhou em sua direção. Tinha cabelo negro e grande como o de seu pai, as pálpebras e lábios tremiam de tanto ódio por Ed. Ergueu a sabre em sua direção e sentenciou: – Não farei como Sam. Não quero saber suas últimas palavras, demônio. – E desceu num golpe vorpal, que racharia seu crânio ao meio. Contudo, não foi isso que aconteceu.
Subitamente, como se estivesse vivendo um pesadelo até então, um cavaleiro e sua montaria brotou a direita deles. Como em um relâmpago, cruzou com o guerrilheiro, dando-lhe uma porrada tão forte que amassou sua cabeça e pedaços do seu cérebro foram cuspidos na cara de Ed, além de um banho de sangue. O capitão quase desmaiou de susto e fraqueza, mas precisava saber quem era seu salvador, então manteve-se consciente. O homem não usava capacete, mas sua vista estava escura demais para distingui-lo.
– Descanse agora, sobrinho. Você está salvo.
Reconheceu a voz de seu tio sor Avahan Belvedere, o Tigre-do-Leste. Edric Hill não pensou duas vezes, apesar de querer agradecer seu tio, não podia descansar e informou: – Minha tigreza, sor... Minha tigreza foi capturada por caçadores que estão a duas milhas daqui apenas. Ajude-me a retomá-la! Ajude-me a trazer este felino de volta pra casa!
(...)
Horas depois, mas ainda antes do amanhecer, observou pela janela seu tio regressar com seu felino acorrentado em bom estado. O rabo cortado foi culpa minha. Por estar muito ferido, o capitão ficara aguardando em uma estalagem da aldeia Tronco-Branco, em Valcorno. Todavia, seu coração não o permitira descansar. Ele até desejou isso, conforme planejado com sor Avahan. Eu iria descansar e entrar na pele de Raseri para ajudá-lo, mas não consegui. Talvez pela aflição que o dominava, talvez pelo animal estar morto, todavia, agora com sua tigreza em segurança, tinha certeza de que era pelo medo de perdê-la. Preciso treinar meus poderes. Constatou humildemente pela primeira vez na vida.
– Imagino que eles não aceitaram o ouro. – O capitão enfaixado disse ao cavaleiro sem levantar da cama.
– Como se alguma moeda fosse pagar pelo couro raro daquele tigre, sobrinho. – Explicou o Tigre-do-Leste.
Sor Avahan estava coberto de cinzas, também havia algum sangue seco em seu peitoral. Os Belvederes já haviam negociado com o dono da estalagem, um celeiro reservado para quando Raseri chegasse, portanto, estavam em paz agora, mas seu tio negava isso: – Não poderei ficar aqui. E creio que o incêndio na guilda dos caçadores locais ofereça risco a esta estalagem. Alguns bebuns me viram com sua tigreza no caminho. – Ele fez uma pausa para beber uma boa dose de seu cantil. Ed não falou nada. Seu tio continuou: – Vamos para o Castelo dos Chifres comigo, sobrinho. Seu pai lhe aguarda lá.
– Não posso. Combinei com ele que não mostraria Raseri a corte Brax. – Ed lamentou.
– Então não saia daqui até segunda ordem. Avisarei ao meu irmão sobre sua situação e alguém lhe trará novidades. – A voz grave de seu tio era sempre alarmante, mas o hálito de alcool tirava um pouco dessa seriedade.
– Está bem, tio. Eu aguardarei.
Sem perder tempo, ele apertou a mão de Ed, devolveu-lhe sua bolsa de moedas e retirou-se do aposento. Edric por fim, conseguiu descansar através do silêncio. Não sentia-se sozinho com sua fera tão próxima no celeiro anexado a estalagem. E até a pele dela, ele escorregou, para confortar sua alma.
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