Os Tigres de Westeros
25 Daronn V
Daronn
Uma flâmula púrpura com um cágado negro bordada tremeluzia no mastro principal. Ao lado dela, os tigres Belvederes pareciam rugir com a velocidade que o navio tomava. O Zõbrie Riza fora a única embarcação em Vale Negro que suportava todos os seus sessenta homens, suas carroças-de-boi e até seus touros e cavalos. No entanto, o cavaleiro não teria escolhido aquele barco estrangeiro, caso houvesse uma melhor opção, pois fora seu capitão Torgon que negociara com o myrês Comandante Sollomon e o mesmo viera até Daronn com algumas suspeitas sobre a tripulação. “Marujos desnutridos e medrosos.” Porém, por ser a única escolha disponível, ele ignorou seu capitão, afirmando: “Como o Comandante trata sua tripulação não importa, desde que cheguemos em Ponte Dourada o mais rápido possível.” Mas agora vejo marcas que me incomodam em seus marinheiros.
Ao menos, a nau era muito veloz e Vale Negro já havia sucumbido no horizonte atrás deles há horas. Uma floresta viva espiava-os das margens próximas, a fauna curiosa acompanhava sua comitiva através de pássaros e roedores. A primavera já chegou aqui. Daronn escutava seus escudeiros falarem sobre rapozas enormes das Terras Fluviais, porém não pôde contemplar muito da vista no convés, pois na maior parte do tempo, ficara enfurnado nas cabines inferiores, ajudando Ibbe a curar as fortes náuseas de sua mãe grávida. Ela também não terminou seu luto. Os três: Olga, Lyz e Daronn, permaneciam juntos como ficavam na Fortaleza. E lá ele estava quando seu segundo escudeiro surgiu esbaforido sem bater na porta:
– Primo! Sor! Um porto há vista! Outras náus! Outras casas!
Sem pensar duas vezes, Daronn pegou Elly pela orelha e o levou para fora do aposento, brigando: – Não está vendo que minha mãe está dormindo? Se ela acordar, farei questão de lhe jogar no rio. – Ele sabia que o primo não aprendera a nadar.
Ellyot pareceu chocado na medida certa, um dia ele irá aprender, e desculpou-se:
– Perdão, sor. É que imaginei que você devia ser o primeiro a saber.
– Tudo bem, escudeiro. – Fez uma pausa para planejar. – Fale com os outros e peça a Ibbe para confeccionar uma carta sobre minha chegada para os senhores locais. Vamos descer, minha mãe não passa bem. – Daronn concluiu.
– O barco é rápido demais... – Elly sugeriu.
Daronn o ignorou com um suspiro, despachando-o para cumprir suas ordens, e foi até o convés superior. Lá encontrou seus homens: Os capitães Torgon e Sepulcro, seu primeiro escudeiro Aeron, além da maioria dos infantes e arqueiros. Subindo até o timão, avistou o porto que seu primo noticiara. Um longo cais estendia-se na ribanceira de uma sossagada vila, onde atracavam-se três grandes navios-de-guerra. Nas márgens, uma espaçosa praça acoplava-se ao embarcadouro, dando lugar a barracões, palanques e poços. Da altura em que estava, viu com exatidão os trêmulos brasões das náus desafiarem-se entre si, disputando a maior envergadura. O vencedor era um peixe branco em campo cinza com detalhes dourados. O segundo maior apresentava uma mulher em fundo azul. E o menor deles ostentava duas coroas, uma negra e uma violeta, em campo verde. Esses últimos são os Hawthorne. Daronn havia notado o símbolo das coroas no peito do protegido arrogante Wynton, no dia anterior.
Sem que lhe pedisse, Aeron aproximou-se e começou a falar sobre os escudos aportados:
– A truta alva pertence a Casa Keath de Septo de Pedra. Os Vance usam a donzela no mar anil como símbolo. E as coroas são dos Hawthorne, sor.
– Errado, escudeiro. – Lyz apareceu subitamente, corrigindo-o: – A donzela é da Casa Piper de Donzelarosa.
– Bravo, maninha! – O cavaleiro aplaudiu. Sem virar para Aeron, provocou: – Deveria lhe fazer minha primeira escudeira. Seria mais útil que estes linguarudos.
Lyz o abraçou, enquanto o escudeiro escondia a fuça envergonhado. O momento breve de carinho foi encerrado quando o Comandante myrês subiu até o elevado do timão. Daronn dispensou Lyz, afim de avisar sua mãe e fazer os preparativos para o desembarque.
– Bom dia , azantys. – Ele saudou com a mesma amargura de sempre, sem deixar a pompa.
– Bom dia, comandante. – Daronn apertou sua mão. O velho era tapado a ponto de querer demonstrar sua força no aperto, tentando amassar seus dedos. Entretanto, ele não cometeria o mesmo erro e agora usava luvas. Quando a saudação acabou, o comandante perguntou:
– Como está a Senhora Sua Mãe? – Ele era um homem de Essos e não falava tão bem a língua comum, errando principalmente títulos. Azantys é cavaleiro. Daronn sabia.
– É sobre isso mesmo que tenho de tratar contigo, Sollomon. – Buscou um tom maduro em sua voz e continuou: – Sei que só passamos meio dia de viagem, mas minha mãe não suporta a rapidez de seu navio, apesar de eu muito apreciar.
Assumindo o controle da náu, ele ofertou: – A Tartaruga pode ir mais devagar, isso vai custar mais ouro. – E sorriu, esbajando seus três dentes-dourados na arcada frontal. A gengiva era negra como o símbolo de sua fragata. Daronn não queria perder tempo com negociações e ofertou: – Pagarei por sua espera, não deve levar mais que um dia em terra firma para Ibbe curá-la e prepará-la melhor para continuarmos a viagem.
Atracaram e assim que fechou o acordo com o comandante, afirmando que apenas um grupo de seus homens o acompanharia e o resto ficaria no Zõbrie Riza, Daronn pôs-se para fora dali. Também ansiava pisar em terra firme, talvez por ser a primeira vez que navegava na vida. Todavia, nem bem pisara no deque e fora interrompido pela aproximação de dois soldados trajados em verde. Ambos flanqueavam um capitão de rosto tampado pelo capacete. Todos montados. O capitão não parecia um cavaleiro, magro demais, apesar de usar ombreiras e caneleiras, além de cota-de-malha por baixo de sua túnica oliva, negra e rosa.
– Boa tarde, senhores. Sou sor Daronn Belvedere, herdeiro de Monte Tigre no Ocidente. Gostaria de permissão para desembarcar com minha família, conforme escrito nesta carta. – E ergueu o pergaminho de Ibbe para o capitão, que pegou sutilmente sem desmontar. – Não vejo muitas pessoas. Aconteceu algo? – Agora de perto, notava que a praça do cais apesar de espaçosa, estava vazia e silenciosa. Um dos soldados respondeu-lhe com certo rancor:
– Os Lordes estão almoçando no...
O batedor mais baixo o interrompeu: – Basta Igor! O cais está fechado, sor.
O capitão continuava a analisar as palavras do meistre sem sequer tirar o elmo e Daronn assegurou: – Não pretendo almoçar com seus senhores. Só desejo descansar um pouco... – Como viu que soou como súplica, trouxe o verdadeiro problema à tona, instigando: – Ou vocês deixaram uma mulher grávida passar mal? – Aquilo mexeu com o capitão, que ergueu a cabeça, retirando seu elmo. O cavaleiro assustou-se ao ver longas madeixas libertarem-se para revelar que o capitão na verdade era uma linda mulher. Uma bela e imponente dama. Que antes de falar, mirou-lhe um olhar profundo e ele sentiu um misto entre desejo e admiração no gesto.
– Onde está essa grávida, sor? Perdoe meus homens. – Sua voz tinha um ímpeto familiar, sem deixar o tom feminino de lado. Os soldados abaixaram a cabeça, em sinal de respeito.
– Minha mãe, Senhora Olga Lyberr, prepara-se para o desembarque com Lyz, minha irmã e o nosso meistre Ibbeorn. – Quando pontuou, notou que ela arqueou as sobrancelhas finas em alegria. A mulher certificou ao comemorar: – Um meistre? Meu irmão estava certo, um milagre chegaria a nós. – Daronn sorriu com a observação. – Acredita que nenhuma dessas duas Casas aportadas possuem um meistre a bordo? – Perguntou sem esperar a resposta. – A propósito, não me apresentei. Sou Anne Hawthorne, filha da Senhora Cassana Ferren.
Apreciando a intimidade rápida que ganhara com a capitã, Daronn comentou: – Tenho muitos tios e primos entre os Ferren. E tenho a impressão de que já lhe vi...
– Talvez em seus sonhos... – Ela inacreditavelmente sugeriu. – Venham! Tragam seu meistre e são mais que bem-vindos! – Sem permitir que ele agradecesse, ela perguntou: – Prentedem ir a pé? Castelha fica a algumas milhas daqui. Onde está o cavalo do herdeiro?
Só então que o cavaleiro reparou na bela e robusta égua puro-sangue que a Hawthorne montava. O animal usava uma preciosa barda toda entelhada em coroas negras no couro, com detalhes cravejados em rubis violetas. O mesmo padrão que se estendia na longa capa da capitã. Assim que terminou de contemplar a beleza da montaria a sua frente, Daronn assobiou para um de seus escudeiros a bordo do Zõbrie Riza e gritou: – Tragam Fúria!
Seus dois pajens prontificaram-se a cumprir a tarefa e logo que seu corcel subiu para o convés, causou um estardalhaço feito um animal selvagem. Elly quase foi coiceado, enquanto Aeron puxava as rédeas com força. Vendo toda a dificuldade perante aquela cena violenta, a capitã riu alto em uma espécie de deboche ou apreciação, e sua égua agitou-se no deque, balançando a crina branca escovada. Ela é competitiva, assim como sua dona. Daronn divertiu-se com aquilo. E por mais que desejasse, o herdeiro não esperou até que seus escudeiros conseguissem trazer seu cavalo, ao invés disso, foi até Fúria, acalmando-o e montando dignamente. Muito bem, meu amigo. Acariciou o couro negro do bichano e num galope caprichoso, foram juntos até o deque.
Não demorou muito para que o cavaleiro confirmasse a competitividade da mulher.
Assim que se pôs a sua frente, esbanjando um sorriso ostentador, ela lançou: – Um belo puro-sangue, sem dúvidas. Mas será que é páreo para Jonquil? – E novamente sem esperar sua resposta, disparou em direção a praça do cais, deixando seus homens para trás, mas não Daronn Belvedere. O tigre cavalgou seu alasão com maestria na ponte, passando com ímpeto pelos soldados boquiabertos. Então, uma corrida não combinada começou.
Num incrível galope, cruzaram toda a sinuosa vila chamada Barreira de Espinhos. Em vários momentos, Anne tentara despistá-lo, porém Fúria era o melhor cavalo de Monte Tigre e estava mais leve, portanto, mantinha-se na competição. Ainda assim, não consigo alcançá-la. Queria gritar que aquele joguete não era justo, pois ele não sabia onde era o ponto de chegada. E o cavalo não corre na frente da égua. Entretanto, a capitã pareceu não se importar, rindo alto quando ele quase emparelhava-se.
Após superar uma barricada natural de ervas espinhosas que cercava e dava nome a vila, Daronn se viu em uma espécie de túnel vegetal, com saídas laterais para fazendas de mel, flores e maçãs. Não parou para prestar atenção no movimento local ou no deslocamento de carroças, estavam em uma via reta agora e Daronn não aguentava mais comer poeira. Instigou sua montaria para o galope mais rápido que conseguia. Enfim, a capitã começava a perder.
– É só seguir reto? Castelha fica ao sul? – Perguntou com um sorriso debochado após colocar uma pequena vantagem sobre Anne e Jonquil. Fúria vibrava como um touro.
– Acha que me passou? – A capitã gritou de modo cômico.
– Não é justo se eu não souber a direção correta! – Ele esclareceu, sem conseguir evitar que ela iguala-se a distância entre os dois. – Quer que eu a siga? Ou quer que eu a vença? – Um carroção pesado ocupava a trilha a frente, restavam as laterais entre as pilastras espinhosas do túnel para passar. Arriscado. Ela fingia não escutá-lo. Daronn guiou Fúria pra direita, dando uma leve escorada em Jonquil. – Responda-me, lady!
– Pegue a esquerda quando avistar a bifurcação da cerejeira. – Anne confirmou.
Sem qualquer dúvida, o herdeiro pôs-se a frente, tomando a passagem da esquerda do carroção. Eles dividiram-se. Raspou nos espinhos, não feriu-se, mas quando fazia a ultrapassagem, um grande galo apareceu em sua frente. Fúria atropelou a ave e isto concedeu uma vantagem a capitã que ele não conseguiria reverter. Honrado como só ele era, parou para dar um gamo de prata para o carroceiro, por matar seu pássaro sem querer. Seu alasão estava ofegante e inquieto, e por isso, o cavaleiro desistiu de alcançá-la. Já sei onde ela está.
Não muito distante, encontrou a bifurcação da árvore vermelha. Uma placa encravada no solo dizia: “Bosque Sagrado”. Daronn nunca pisara em um anteriormente e não sabia se devia ter cautela, então manteve o cavalgar médio, preciso terminar esta loucura e voltar para os meus homens. Minha mãe deve estar se perguntando onde estou. Ele mesmo se perguntava isso agora. Muitas árvores ao seu redor possuíam folhagem escarlate, tonalizando o ambiente de forma peculiar. Até os insentos pareciam rubros, como borboletas, joaninhas e besouros. Não dava para negar a magia que emanava aquela fauna e flora. O aroma era adocicado.
Enfim chegou no final da trilha, que desembocava em uma grande clareira centralizada por um lago de águas cristalinas. Uma cascata cumprida servia de fonte e lá de cima, Daronn a viu pular. Completamente nua e leve, Anne mergulhou. O herdeiro desmontou e começou a despir-se, ficando apenas com a roupa de baixo. Vamos, volte para a superfície. Torceu enquanto não havia nem sinal da capitã. Será que bateu a cabeça? O cavaleiro duvidava. Ela pulou com maestria.
Seu instinto heróico não permitiu que se questionasse muito. Daronn não era um exímio nadador, mas mergulhou em busca da dama, deixando Fúria com Jonquil, e todos os seus pertences na superfície. Até Dente-de-Sabre. Estava aflito.
Submerso, reparou um feixe de luz no fundo da cascata, entre alguns enormes pedregulhos. Como não avistou o corpo da capitã, para lá se nadou. Descobriu tratar-se de uma gruta secreta natural, um pouco difícil de alcançar. Por pequenas brechas, a luz do Sol atravessava o solo, transformando o lugar em um baile de luzes e reflexos, de vários tons diferentes. E lá estava ela, esbanjando suas curvas molhadas, sorrindo de lado com malícia. O que ela está pensando? Daronn havia prometido sua virgindade a Alice Lyberr, seu prima e futura esposa.
– Anne, este lugar é lindo. – Comentou, tirando os olhos do corpo feminino, tentando evitar constrangimentos maiores.
– Marwyn, meu irmão mais novo, falou-me de você. – Ela disse, aproximando-se como uma sereia de águas doces lendárias. Devo estar sonhando... Ele pensou em se beliscar.
– Não conheço Marwyn Hawthorne algum... Não entendo... – Ela chegou tão perto, que ficou inevitável não admirar sua beleza madura.
– Meu irmão tem sonhos verdes. Isto é, premonições. – Ela tentou pegar no cadaço de seu calção de lã molhado, mas ele afastou-se brevemente. – Não tema! Ele nunca errou antes. Nós iremos nos casar. – Ela afirmou sobre seu destino. Como assim? Irei me casar com uma Hawthorne? Não que ela não fosse bela, mas uma promessa tinha valor para o cavaleiro.
– Deve haver algum engano. Estou prometido. – Ela murchou e ele não esperou sua resposta, tirou sua própria roupa e disse: – Vista-se. Temos que voltar.
(…)
De pele fresca e cabelos molhados, eles encontraram a comitiva nobre que partia rumo a Castelha. Daronn foi apresentado na vanguarda ao Lorde Darwyn Hawthorne, filho da Senhora Cassana e sobrinho de Lorde Ferdinand Ferren. O jovem lorde reprimiu sua irmã diante de todos os presentes devido ao passeio que fizera com ele. Mas no fim, a família Belvedere poderia se hospedar de bom grado nas terras Hawthorne. Os Piper também vieram, já os Keath permaneceram no cais por algum motivo que àquela altura, Daronn não conseguira descobrir. Pressinto problemas, sairemos daqui em breve.
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