Os Tigres de Westeros
6 Romney I
Romney
Muitas vezes, o cavaleiro a quem jurara serviço, considerava-o uma criança incapaz e isto era o que mais incomodava o garoto. – Eu consigo, sor. Caso ela esteja correndo perigo, posso não salvá-la sozinho, mas voltarei para avisá-lo. – Confirmou de forma confiante, esperando que sor Avahan parasse de olhar fixamente as brasas da fogueira que tinham acendido, mas ele não parecia pesar as palavras de Rom.
— Fique alerta. Fique quieto. – Ordenou o sor, Rom cumpriu, retomando sua vigília.
No horizonte negro a frente deles, o solo rachava-se em um enorme penhasco, onde uma rampa de gado descia até Den Profundo, castelo da família Lydden. A missão era simples: Bater terreno para Lorde Belick e descobrir se Belle corre perigo nas mãos dos cães e texugos. Porém, com os acontecimentos da viagem até ali, seu tio estava um tanto quanto relutante em entrar na cova dos texugos a noite. E não quer deixar o coche comigo de novo.
Os dois haviam confiscado uma carroça repleta de açafrão, especiaria essiana valiosíssima nos Sete Reinos. Estava sendo guiada por um charlatão e seus capangas na altura da fronteira entre as terras dos tigres e dos texugos. Enfrentaram os contrabandistas com o ímpeto Belvedere, Rom até matou o segundo homem de sua vida com um belo corte na garganta e feriu um terceiro, contudo, os Lyddens chegaram depois entitulando-se donos da carroça, então os ânimos inflamaram-se. A essa altura, Romney estava com as rédeas na mão, sozinho e cercado por texugos. Eram mais de vinte a cavalo e outros trinta a pé. Seu tio ficara para trás, perseguindo os contrabandistas e o escudeiro havia seguido com o tesouro. “Desça já daí, moleque. Esta carroça pertence aos Lyddens de Den Profundo. Sou Sor Leonard Lydden, herdeiro de Lorde Lyonel Lydden, senhor do Custeio.” O cavaleiro barbudo dissera. Entretanto, ele avançou a carroça em direção ao impostor, talvez de forma imprudente, mas não queria tornar-se um refém.
De madeira grossa, reforço de ferro e puxada por dois touros, a carruagem abriu caminho entre o cerco, mas não sem atropelar um deles. Como eu saberia que era o irmão do herdeiro? O garoto aleijou o segundo filho do Lorde Lydden e quando sor Avahan o alcançou em seu alasão negro, Rom assumiu o ato. Seu tio havia insistido para que fossem de encontro aos texugos deixados para trás, o que causou um embate. Sor Leonard queria levá-lo a julgamento em Den Profundo, enquanto sor Avahan insistia pela Fortaleza Belvedere. O destino do garoto fora decidido num duelo de cavaleiros, Rom estava nervoso, mas pronto para fugir caso seu tio caísse. O que não ocorreu.
Como em todo julgamento dos Deuses, a justiça prevalecera. Sor Avahan descera seu martelo repetidas vezes sobre o escudo redondo do texugo, amassando-o até quebrar. Os estilhaços quase cegaram o homem, que tentava revidar quando ganhava algum espaço. No entanto, o terreno era curto, delimitado pelos escudos dos soldados Lyddens e logo o impostor chocou com um deles e foi ao chão. “Mate-o! Mate-o!” O escudeiro gritou para Avahan, sua voz era única em meio a torcida do Texugo-Marrom. Rom não sabia por que o queria morto, talvez para que seu tio estivesse tão envolvido quanto ele nesse caso. No fim, decepcionou-se. Sor Avahan estendeu a mão para Leonard, que assumiu a derrota e cedeu tanto a carroça, quanto a cabeça de Romney. Por hora. Imaginava...
— Divida seus planos comigo, tio. Por favor. – Insistiu o garoto que já não aguentava mais o silêncio do cavaleiro mirando as brasas.
— Sobrinho, creio que devemos voltar para Monte Tigre. – Sor Avahan revelou de forma relutante. – Perdemos muito tempo com problemas na estrada, não conseguiremos passar desapercebidos se a Baixada Den estiver em completa escuridão, e também não quero te deixar sozinho aqui, com esta carroça. – Concluiu.
— E deixar sua sobrinha Belle em apuros por quilos de açafrão? Acha que o pai dela irá aceitar isso como sucesso, tio? – Rom provocou, não queria abandonar a missão. Nunca vi minha prima, mas não quero decepcionar meu tio Belick. O lorde era um pai para ele, pois fora deixado ainda bebê na Fortaleza Belvedere, já que sua mãe morrera quando o parira em Valcorno, castelo da Família Brax, seu sangue por parte de pai. – Você acha, tio? – Insistiu diante do silêncio do cavaleiro.
— Acalme-se, moleque! Minha sobrinha estará em casa daqui a dois dias, não há o que temer. Vamos voltar. – O cavaleiro que tomava as decisões, ao escudeiro restava consentir e auxiliá-lo. A responsabilidade será dele também. Todavia, o fato de ter aleijado um texugo o atormentava. Eu precisava voltar com mais do que açafrão, precisava salvá-la.
Um tanto chateado com seu tio, Rom permaneceu quieto e emburrado na volta. A madrugada estava completamente nublada, não fazia tanto frio, por que possivelmente choveria. E nós pegaremos essa chuva. Não tomaram nenhuma trilha, pois não queriam ser rastreados, sor Avahan montado em Mancha Negra e Rom guiando os touros. Seu tio também parecia amargurado e deixou o silêncio instaurar-se entre eles. Se eu pudesse voltar atrás, preferia esperar que Daronn fosse sagrado cavaleiro, ele certamente me tomaria como seu escudeiro. Pensamentos rancorosos como esses passavam pela mente do garoto.
Com o passar do tempo, Rom foi ficando incomodado com aquilo. Passaram por uma grande aventura durante a tarde e ele ainda tinha todos os detalhes na cabeça. Ao fechar os olhos, via claramente o semblante de desespero daquele criminoso quando cortara sua garganta e fizera seu sangue jorrar. O garoto tinha apenas treze anos e já matara dois homens, e queria mais. Acho que Daronn nunca matou ninguém. Ele suspeitava. – Avahan, precisamos ir mais devagar para vermos onde estamos pisando. – Alertou o escudeiro, pois a neblina da aurora já plainava espessa sob eles, de modo que nem o Monte Tigre era visto a frente, nem o solo por onde passavam.
— Mantenha seus olhos em alerta. – O cavaleiro ordenou. Tenho que ser seus olhos, afinal, ele só tem um. Contudo, pouco se via ao redor deles, ainda assim, Romney notou um ponto de luz.
— Olhe ali, sor! Parece uma fogueira. – E apontou a oeste deles.
— Reduza, Romney. Vamos averiguar, pode ser uma estalagem. – De repente, o cavaleiro sentira-se motivado de novo. Ele está sem vinho, é isso. O garoto percebeu, duvidava que Avahan mudaria de rota por algum outro motivo.
Não era uma taverna, e sim uma fogueira, como o escudeiro vira. Haviam tendas mal armadas ao redor, um tanto quanto camufladas pela cor que confundia-se com o terreno. Rom, percebendo a dificuldade do cavaleiro, informou: – Três barracões e uma fogueira, sor.
— Quantos cavalos pode contar? – Perguntou o cavaleiro, sussurrando. Romney nem tinha reparado nos animais, mas quando direcionou sua visão para eles, percebeu algo terrível.
— Sor, há uma gaiola com gente dentro! – Exclamou e seu cavaleiro sinalizou para que falasse mais baixo.
— Hmm, pode ser da Patrulha da Noite. – Romney duvidava, não havia nada negro na lona das barracas, nem nas celas dos animais.
— Para mim, são clandestinos, sor. Note que acenderam o fogo como nós, sem fumaça. Também não querem ser vistos, tio. – O garoto advertiu.
— Sim, pode ser. Eu vou descobrir quem são. Fique aqui com o açafrão e Mancha-Negra. – Avahan mandou.
— Como assim ficar aqui? Está me deixando de fora? – Romney perguntou insatisfeito.
— Obedeça minhas ordens e um dia, irá comigo. Eu que tenho que lhe proteger e não o contrário. – As palavras saíram secas vindas da boca de seu tio, Rom ainda não conseguia aceitar, imaginava que teria ação e ele queria estar nela.
— Sou seu escudo e seus olhos, sor. Não permitirei que vá sozinho, amarramos nossos animais naquela estepe. – Mostrou a fina árvore morta atrás deles.
— Não. Você fica. – Você não é meu pai. Queria gritar, mas não teve coragem e não podia.
— Agora eu posso ficar com a carroça? O que espera encontrar lá?
— Sangue e morte. – Disse o cavaleiro ao dar as costas para ele e partir sozinho em direção ao acampamento, com seu martelo pesado em uma das mãos, uma tocha na outra e o grande escudo de ferro nas costas. Soava como um velho herói chamado de Azor Ahai, Rom sabia pouco sobre, mas dizia-se que ele sempre carregava fogo consigo, seja em tochas ou em sua espada incendiária, Luminífera. Todavia, o ocorrido não fora nenhum ato bravo ou heróico.
Romney observou incrédulo. Estranhamente, os cães não latiram. O cavaleiro louco sem sua bebida, ateou fogo nas tendas e quando os homens saíram de lá de dentro, assustados, foram surpreendidos um à um pelo martelo de sor Avahan. Quando finalmente a luta começou, eles pareciam somar apenas seis. Romney já havia amarrado a carroça e Mancha-Negra na estepe e partira para o acampamento sem pensar duas vezes.
Sua respiração ofegante devido ao peso de suas placas. Também estou nervoso. A adrenalina provocada pelo derramamento de sangue começava a circular em seu corpo. Passou por entre dois barracões e chegou no cerne da batalha, já ferindo um homem de costas, cortando-lhe os ligamentos da perna. O cavaleiro notou sua presença no mesmo instante e gritou: – Para fora daqui moleque! Suma! Suma! – Enquanto defendia-se, esquivava e dava o troco em fortes pancadas que ecoavam longe. Romney tomou um banho de água fria, ficou em colapso por alguns segundos, sem saber o que fazer. Por que não me quer ao seu lado, sor? Só por que eu aleijei um texugo? Enquanto pensava, quase perdera a cabeça para um machado inimigo. O escudeiro não vira a aproximação, mas o cavaleiro empurrou o bandido forçando sua falha. Então, bem próximo de Romney, gritou: – SUMA!!! – O garoto então, correu assustado de volta a carroça, não fora perseguido por ninguém. Restou a ele, assistir o massacre que seu cavaleiro fizera no acampamento clandestino. Ele me trata como uma criança. Como um cavalariço. Não sou nada para ele, além do sobrinho que deve proteger. A decepção recaíra sobre Rom, sua vida parecia estar fadada à servidão, aos bastidores.
Contemplou a vitória solitária do tio, que retornara apenas com um corte provocado por uma flecha que o atingira de raspão na coxa. Também trouxera algumas vítimas, dois velhos e uma mulher. – Cuide deles, dê água, agasalhos e comida. Vou interrogar os outros. – Novamente tão seco quanto seu avô Egon. Deu as costas sem deixar Romney falar qualquer coisa.
Restou acolher as ordens. – Sou Romney. Como se chamam? – Perguntou ao cortar as amarras dos punhos deles, começando pela mulher, que não era nada jovem.
— Adelay, menino. – Ela disse ao ser solta. – Estes são Roger e Stwart, meus amigos. – Completou quando Rom os soltou também.
— Adelay, Roger e Stwart, vocês estão seguros agora. Estaremos em Monte Tigre antes do Sol nascer e lá encontrarão refúgio ou recomeço.
— O garoto fala bem... – Afirmou Roger, exibindo um sorriso desdentado. – É filho de algum Lorde? – Perguntou.
Romney sentiu-se honrado, de fato, havia se esforçado para falar nobremente. – Filho de Lorde Robert Brax e sobrinho de Lorde Belick Belvedere, Roger. Aguardem aqui, vou buscar água. – E assim eles fizeram. Estavam bastante machucados.
Romney foi até atrás do coche, pegou seu odre e levou até o tonel de água que tinha no interior na carroça. Enquanto enchia, Adelay apareceu. – O que tem aqui, garoto? Armas? – A curiosidade da mulher não o agradou e pior, ouviu o relinchar de Mancha-Negra lá fora.
— Água e agasalhos, senhora. – Mentiu e saiu da carroça.
Roger tentava montar no alasão de seu cavaleiro e Stwart tomava as rédeas dos bois. Romney sacou sua espada sem pestanejar, o aço tiniu. – O que pensam que estão fazendo? – Interrogou bruscamente os três. A mulher foi para cima de Romney como se ele fosse uma criança com um brinquedo que não soubesse usar. O escudeiro não perdoou, perfurou a barriga de Adelay com a ponta afiada. Morra sua ladra. Roger galopou com Mancha-Negra, assim como Swart com a carroça, houve tempo para Rom agarrar-se nos fundos do coche e adentrar.
O velhote pareceu não perceber ou Romney fora rápido demais, encravou sua espada na nuca do criminoso, completando a quarta morte de sua história. Que a justiça seja feita. Jurou dentro de si. Depois que os bois pararam, chutou o corpo de Stwart para fora e guiou a carroça em uma perseguição a Roger. Para sua sorte, Mancha-Negra era um cavalo altivo e negara-se a seguir os comandos do bandido, apesar dos ferimentos que ele causava-no. – Renda-se, velho. Ou matarei você também. – Gritou enquanto ladeava a carroça com o alazão de seu tio em fuga.
— Deixe-me em paz, moleque! – Foi tudo que o velho conseguiu dizer antes que Romney se jogasse em cima dele e ambos rolassem no solo abaixo com velocidade. Quando ele levantou, Roger estava estatelado com o osso da perna exposto e coberto de sangue. – Perdão, menino, perdão! Tenha misericórdia. – O velho gritou ao sentir o olhar sanguinário do garoto. Talvez ele não soubesse o valor de uma vida, talvez ele não soubesse o valor de uma morte ainda. Matou seu quinto inimigo. Farei história fora dos bastidores.
Romney fugiu. Suma, ele me disse. Sumirei. Deixou Mancha-Negra para trás e rumou para longe, sem saber exatamente se iria para Valcorno ou para Monte Tigre. Não posso mais servir sor Avahan, falhei com ele. Não sou escudeiro para ele. Assim pensava o garoto pesaroso quando as primeiras gotas de chuva caíram.
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