Edric

Fazia mais de um inverno que não entrava naquela mata onde passara grande parte de sua infância. Aos doze, havia construído até mesmo uma pequena casa de árvore que nomeara de Paraíso, seu lar por muitas noites em que retornava a Fortaleza já tarde e o velho Marc do Portão não permitia sua entrada à mando de Olga Lyberr, a esposa de seu pai. “Volte sem carrapatos ou carrapichos, moleque! ”Um bastardo, é tudo que ela acha que eu sou. Tinha nojo da mulher, no entanto, amava o filho dela, seu irmão Daronn.


E graças a ele, estou aqui, mancando.
Seu calcanhar doía a cada passo dado e quando passaram por um córrego, pensou em tirar as botas para lavar o ferimento, mas perdera a coragem ao tentar. – Concentre-se, irmão. Tenho certeza que Meistre Ibbe irá curar-te quando regressarmos. – Falou Ronn, o caçula.

— Correntes-de-Vento? Há curandeiros melhores na vila, é para lá que irei quando esta loucura terminar, Daronn. – Pisou em falso e quase caiu. Apesar de ter espaçadas árvores e pouquíssimos arbustos, o Bigode do Tigre era repleto de raízes com um solo tão irregular que era impossível cavalgar sem quebrar a pata do animal. Também parece impossível andar com apenas um pé. — Você vai ter que me ajudar.


Daronn estava entusiasmado e nada temeroso, acreditava fielmente que mataria a besta. – Se você não consegue andar sozinho, é melhor voltar. Eu vou sozinho daqui. – A arrogância de Ronn era seu maior defeito, Edric já a conhecia.

— Sabes que não posso voltar por onde viemos... Até por que se eu cair de novo, certamente morrerei sozinho, Ronn.


Foi uma queda feia. Enquanto seu irmão pendurou-se na corda com maestria e leveza, quase como um pantomimeiro saltador, Edric andava comendo demais nos bordéis e exercitando-se pouco, desacostumado com seu peso, perdeu o equilíbrio e caiu de uma altura que deveria matar-lhe, se ele estranhamente não tivesse caído em pé como um gato. Tudo está voltando, começou esta manhã na assembleia. Contudo, torceu o calcanhar e agora, arrastava uma das pernas floresta a dentro.


Desmaiara mais cedo e sua consciência vagou até o corpo de Azul, o gato de seu irmão, assim como fazia com Raseri, sua antiga companheira selvagem. Quando fizera dez anos, encontrara a tigresa filhote, possivelmente abandonada por estar ferida na barriga. Ao invés de sacrifica-la, Edric cuidou, criou, treinou e amou a felina. Entretanto, quando tornou-se um homem e completou quinze dias de seu nome, seu avô alistara-o na Guerrilha dos Sombras do Monte, como soldado. “Há tigres que não nasceram para empunhar espadas... Esses também tem garras.” O falecido sentenciara. Desde então, só fora ao Bigode do Tigre uma vez, um ano depois, para procurar ervas e curar sua filha Erin e não viu Raseri.


Talvez as pegadas que perseguiam fossem dela, eram profundas demais, porém a tigreza podia ter crescido. – Acho que já passamos por aqui, Ed. – Daronn disse ao chegarem em outro córrego.

— Silêncio. – Ordenou, pois ouviu um zumbido peculiar a frente. Avançaram cautelosamente, o herdeiro mantinha a lâmina lendária da família na baínha. – Talvez você devesse sacar sua arma, Ronn. – O zunido aumentou, mas Daronn apenas manteve-se abaixado enquanto avançava ao lado dele. – O que é isso? Parece insetos. – Edric viu mais a frente, uma carcaça enorme em decomposição, as moscas banqueteavam-se, zumbindo.


— Não há nada além de carne podre... – O caçula era um péssimo caçador, não tive tempo de treiná-lo.

— Uma carcaça pode dizer muita coisa, Daronn. – Edric lembrava-se do treinamento na Guerrilha, – Veja se o sangue ainda está quente... – O herdeiro sem qualquer repulsa, verificou.

— Não, gelado como pedra. Que bicho é esse? – Perguntou.


— Um leão das montanhas, irmão. São raros em nossas terras. – Afirmou, certa vez, fugira de um predador parecido em um sonho na pele de Raseri.

— Ah sim, agora entendi, este aqui é o rabo, mas não lhe falta uma pata? Só vejo três. – O caçador analisou sorrateiramente a descoberta do seu irmão, realmente a pata direita do leão havia sido completamente arrancada, olhando a ferida mais de perto, encontrou uma possível presa da besta, mostrou para Daronn uma garra que media quatro polegadas.

— A unha bate com o tamanho dos cortes, eles lutaram, noite passada talvez. – Calculou Edric por alto.


— Então estamos perto da besta? – O caçula perguntou ansioso em meio ao zumbido.

— Ou ela perto de nós. Certamente estamos em seu território de caça. – Edric temeu o pior, podia ser Raseri em sua fase adulta, não imaginava o tamanho que ela estaria agora. O que farei? Contarei a Daronn o dom que descobri sozinho? Ele acreditaria em mim? Edric perguntava-se, mas preferiu não arriscar distrair o jovem naquele momento. Ele está confiante, é bom que permaneça assim. Realmente a carcaça não era velha e Edric calculava que em alguns minutos floresta a dentro, chegariam no ponto indicado por Lem Pestanas no mapa como covil do monstro.

— Não vejo a hora, Ed. – Foi quando o capitão tentou lembrar se seu irmão já derramara algum sangue, certamente não com Dente-de-Sabre. Disso ele tinha certeza.


— Você está sorrindo, Ronn? Isto não é uma brincadeira, vamos, saque a espada. – Ordenou seriamente, mas com Daronn, suas ordens sempre soavam como simplórios conselhos de irmão mais velho. Contudo, o herdeiro lhe obedeceu e sacou sua herança. Nunca vira seu avô empunhando aquela arma, mas de algum modo, vendo Daronn brandir o aço valyriano de brilho fosco e lâmina larga, só lembrava-se dele. – É realmente muito leve? – Perguntou curioso, sempre quis testá-la.

— Uma mão basta para empunhá-la, é fantástica. – Ronn elogiou. Seguiram em silêncio e atenção, a penumbra dominava tudo, pois não estavam com suas tochas acesas.


— Você não percebeu ainda? – Edric perguntou aos sussurros.

— Você viu algo? Do que está falando?

O caçador testava a percepção de seu irmão, que parecia um pouco obcecado demais e não sentir o cheiro que ele sentia. – O fedor de podre no ar, já estamos a metros da carcaça e ele permanece... Estamos perto do covil. – Alertou.


O avanço seguinte ao aviso de Edric fora tão silencioso, que qualquer barulho próximo a eles era suspeito e acabava revelando-se nada além de sustos ou pequenos animais, como morcegos. O caçula também parecia estar atento aos animais noturnos, pois perguntou: – Morcegos em todas as árvores, mas onde estão as frutas? – A pergunta de Daronn precipitou-se em ecos profundos na floresta negra.

— Eles alimentam-se de sangue. – Respondeu, pois assim acreditava. Seu calcanhar já estava dormente.


— Os Whent tem morcegos em seu brasão, não é mes.. – De repente, viu algo grande mover-se a frente e sinalizou para Daronn que parou de falar.


Um enorme calafrio passou-lhe pela espinha enquanto puxava uma de suas vinte setas da aljava. Projetava seu alvo em direção a uma sombra, tenebrosamente esgueirada atrás de uma árvore morta e suas moitas de raízes e galhos caídos. – Está vendo? – Murmurou tão baixo que não acreditou quando Daronn sinalizou positivamente. Através de códigos, entendeu as coodenadas sugeridas por seu irmão mais novo. Ele me pede cobertura e avança sobre aquilo? A coragem de Daronn embaraça-o, pois colocava todos a sua vontade e risco.


Não conseguia ver os olhos da besta, eles deviam brilhar a noite. Refletiu, seu coração saltava do peito e mantinha o animal sob sua mira, ele estava imóvel. Focou sua visão na mancha viva de grande porte que camuflava-se nas trevas de maneira ardilosa e selvagem, então entendeu tudo, mas era tarde demais. Ele não está olhando para Daronn, e sim para...


Outra fera negra atacou Daronn pelo seu flanco esquerdo, que por sorte, era o lado do escudo. O herdeiro resistiu ao salto impetuoso do felino gigante, mas sem evitar a queda, rolou para trás tecnicamente.

— Acerte-o! – Gritou o herdeiro entre as duas bestas, por trás de sua defesa.


Edric agora conseguia distinguir Raseri, que era na verdade a maior delas, exatamente a que não atacara. Um pouco exitante, Edric atirou contra o animal que saltara sobre seu irmão, acertando-lhe em algum ponto não visto, mas ouvido com o urro de dor do bicho. No instante em que se contorcia pelo ferimento, Daronn avançou com ímpeto, abaixando a guarda e descendo Dente-de-Sabre num golpe vertical. O bichano, grande porém ágil, esquivou-se parcialmente, tendo seu rabo cortado pelo aço valyriano como rabanete, um jorro de sangue acompanhado do bramido agonizante da besta foram notados. Ainda assim, o monstro parecia ter força e vigor para continuar, pois manteve-se vivo no combate, oferecendo perigo com suas garras e impedindo que seu irmão o ferisse novamente.


Notou Raseri saltando de sua moita para atacar Ronn, a flecha seguinte já estava pronta, mas Ed Hill não conseguia atirá-la em direção a tigreza que criara. Ao invés disso, trancou sua respiração, alvejou uma segunda vez o tigre negro desconhecido, que só notara a presença dele agora e correu arrastado em direção a sua felina. Num salto forçado tentou alcançá-la antes de Daronn e conseguiu. Ambos emaranharam-se, homem e animal, enquanto sentia os arranhões de Raseri e suas presas no braço, sentia o gosto de seu próprio sangue na boca e a ponta dos dedos dormentes.


Tudo em preto e branco. Quase sete anos depois, vestia a pele de sua tigreza novamente. Sua alma estava nervosa e conturbada, por isso, Edric não teve comando das primeiras ações ao entrar no corpo. Quatro vezes mais pesada que o homem, Raseri caiu sobre Daronn com suas garras longas. Todavia, o corajoso herdeiro não cedera e defendia-se, mantendo o equilíbrio dentro de sua armadura. Ele gritava alguma coisa que Edric já não podia entender. Não o ataque Raseri, ele é nosso amigo! Conteve a fúria de sua tigreza com a força de seu pensamento.


Afastou-se rapidamente de Daronn. Sentia uma forte atração pelo cheiro do outro animal. Não sabia dizer exatamente qual o aroma exalado, porém dava a entender que era tão poderoso quanto Raseri.


Ao saltar para longe dali, notara o peso maior em seu corpo. Não pode ser, Raseri está com um porte atroz. Edric sentia o coração do felino palpitar como se fosse o seu próprio. Subitamente, notou que outros cinco corações menores batiam no seu ventre, chutando-lhe intensamente por dentro. Minha tigreza está grávida.


Tudo fez sentido para Ed Hill. A outra fera possivelmente tratava-se do novo macho de Raseri, e eu sangrei-lhe. A alma de Raseri estava relutante em ceder o comando. Só pode ser por isso. Tentou retornar ao local, mas foi acordado por tapas e de supetão, abriu seus olhos humanos novamente e a primeira coisa que notou foi o azul dos olhos de Daronn.

— Acorde, irmão! Não me deixe! Nós conseguimos! – Ele cantava a glória, mas chorava copiosamente.

Notas finais
Espero que gostem!