Daronn

Não conseguia acreditar que seu irmão desmaiara naquele momento, deixando-lhe para matar uma das bestas. – Acorde, irmão! Não me deixe! Nós conseguimos! – Um soluço brotou-lhe de dentro, interrompendo sua fala. Não pode morrer, não pode morrer. Seu irmão bastardo abriu os olhos e Daronn sentiu-se o homem mais aliviado e feliz de todo mundo conhecido. – Por que és assim tão frágil, irmão? Que baita susto! – Reclamou enxugando as lágrimas.


Finalmente a tensão se dissipava de seu corpo e lentamente, as dores começavam a surgir onde as garras da Fera Negra o arranharam. – O que aconteceu? – Ed, o tonto, perguntou.

— Partíamos para cima de uma das feras quando a segunda me atacou. – Daronn abriu um sorriso – Você errou umas duas flechas enquanto eu me defendia e contra-atacava, aí como um louco desvairado, saltou para cima da primeira besta que vimos, para me salvar, mano. – Quase emocionou-se de novo. Realmente eu não teria chance contra as duas.

— Faria novamente. Vamos sair logo daqui. – Edric pediu num gesto cansado, depois de abraçar-lhe.


— Antes preciso fazer algo... – O herdeiro deixou no ar da noite na mata enquanto tomava providências, caminhou até o corpo morto da Fera Negra e com Dente-de-Sabre golpeou o pescoço até desprender o crânio do animal. – Não foi fácil te defender e matar este macho ao mesmo tempo. – Revelou ao bastardo que aproximava-se devagar, seu tornozelo está cada vez pior, Daronn reparou. – Quando você entrelaçou-se com a outra besta, Fera Negra saltou em fúria para te devorar, mas quase como você, eu me pus na frente. A diferença é que não abracei o animal insanamente, mas atravessei-lhe a carne do peito, perfurando seu coração em um golpe certeiro com a ponta afiada de Dente-de-Sabre. – Daronn orgulhava-se de seu ato. É a primeira vez que banho minha lâmina em sangue. Sentia-se saciado e dolorido em parcelas iguais. – Deveríamos ir atrás da segunda besta, duas cabeças impressionariam mais.


— Precisa mesmo disso? São tigres, Ronn. – O bastardo indagou, tentando dizer algo a mais que o herdeiro não “pescou”.

— Como provarei que matei a besta que nos assola, Ed? Preciso levar o crânio do animal para que Lem Pestanas saiba que pode confiar em seu futuro lorde. Você estava na assembleia, irmão, você sabe. – Daronn insistiu. Minha palavra é minha honra.


— O tigre é o brasão de sua casa, Ronn, perceba o sinal que os antigos Deuses nos apontaram. Era um casal de tigres, irmão, como daqueles vistos apenas em livros empoeirados ou para além do continente desconhecido de Sothoros. – Ed disse.

Daronn estava impressionado com a reflexão sagaz de seu irmão bastardo àquela altura da missão. Talvez ele tenha razão, tigres realmente são raríssimos, devíamos capturar o que fugiu.

— Além do mais, eram um tanto grandes, não é mesmo? – Lembrou-se da envergadura de Fera Negra quando saltou sobre ele, mais de dois metros acima do chão. – Possivelmente, animais atrozes, irmão, desista desse prêmio, sua palavra bastará para o caçador.

— Nunca. Palavras são vento quando atitudes não podem ser provadas. – Afirmou com dureza. – Consegue me seguir? – Perguntou secamente ao bastardo, impedindo-lhe de continuar com aquela premissa ignorante sobre deuses. Se Deuses existissem, demônios como esses certamente não caçariam em nosso mundo. Pensou, mas preferiu ficar quieto.


Eles avançaram pausadamente, os ferimentos ardiam, os músculos de Ed tremiam de exaustão, Daronn também sentia pontadas de dor, mas parecia restar-lhe muito mais fôlego e disposição do que em seu irmão bastardo. Contudo, o herdeiro não conhecia aquela mata o suficiente para orientar-se a noite, então o caçador era quem indicava o caminho.


— Não podemos ser vistos ao entrar na Vila, capitão. – Ordenara de maneira descontraída, colocando a mão em seu ombro e oferecendo-lhe apoio para continuar a caminhada difícil entre as raízes escorregadias.

— Por que não? – Edric perguntou inocentemente, aceitando a ajuda.

— Pois se souberem que estou na Vila, o pai pode descobrir e eu gostaria de descansar um pouco. Talvez, voltar só de manhã. – Daronn justificou.


— Entendo perfeitamente, durma comigo e amanhã lhe apresento suas sobrinhas. – Ed planejou carinhosamente.

— Finalmente, mano! Só preciso entregar este crânio na Guilda de Lem Pestanas antes, então poderemos ir para sua casa.


— Não tenho casa na Vila, Ronn. Durmo na Dama de Braavos, uma taverna muito luxuosa, você vai gostar. – Edric falou. Daronn não aprovou muito a ideia, imaginava um lar mais familiar para suas sobrinhas do que uma taverna, mas não estava em condições de negar qualquer cama que fosse.

— Aposto que sim, Ed. Estamos chegando? – Perguntou ansioso a seu guia, a lua já cruzava a metade do céu nublado.

— Sim, descer é sempre mais rápido. – Ed declarou.

— Então... Antes de chegarmos, pode me contar como fez a outra besta fugir daquela forma? – O herdeiro interrogou acintosamente. Houve uma pausa antes da resposta.


— Os animais são como nós, maninho. Apenas demostrei ao tigre o quanto eu te amava e isso bastou-lhe para procurar outra presa. – Edric tentou dizer de maneira sábia, mas Daronn não daria crédito a tais conhecimentos.

— Hahaha, então devíamos ter resolvido tudo em uma conversa, Ed. – Ele caçoou.

— Seria menos doloroso. – Seu irmão mais velho retrucou.

— Quando você tem esses ataques, sente dor? – O herdeiro quis saber.

— A dor provém da mordida no braço e do calcanhar torcido, maninho. – Ed explicou, mas algo dizia a Daronn que ele estava escondendo algo. Não restava tempo para suspeitas, a Vila do Estrangeiro ergueu-se perante eles através de sua muralha de troncos grossos. Uma obra de meu bisavô Elder III, o Lorde Fera-Negra. Fora pensando nisso que Daronn dera-se conta de que nomeara a besta morta com o nome de seu bisavô. Mudarei de alcunha.


Não que precisasse, pois Lorde Elder III trouxera vergonha e difamação à sua família. Transgrediu ordens Lannisters e foi enviado para a Muralha, deixando o poder na mão de seu avô Egon, aos dezesseis anos. Mesma idade que a minha. Todavia, não gostaria de desrespeitar seus ancestrais e começou a buscar novos nomes para o crânio que carregava.


Passaram por um canal vazio, onde um riacho deveria correr, mas apenas terra seca se encontrava por ali. – Não há água na Vila? – O herdeiro quis saber do capitão.

— Nunca houve água neste canal, irmão. É uma obra que já dura dois séculos. – Edric respondeu-lhe. E nunca reclamaram na Tribuna. Daronn refletiu diante da resposta.

— Quando eu for Lorde, isso vai mudar. Passamos por dois córregos no Bigode do Tigre, podemos juntá-los e encher isso aqui. – O futuro Senhor-do-Ferro planejou sorrateiramente, pois entravam de maneira discreta na Vila. Como a vizinhança estava dormindo, a maioria das ruas estava escura e deserta. O silêncio só fora quebrado pelo soar de uma canção conhecida: A Donzela e o Urso.


O telhado vermelho destacava a taverna. As paredes externas eram de um rosa claro, bem descascado pelo tempo. – Limpe as botas aqui antes de entrar – Apontou para uma tigela que servia para saciar a sede de cavalos na frente da taverna. Daronn seguiu a higienização após o irmão, mas quando ele ia subindo pela varanda de madeira escura, questionou-lhe:

— Vai entrar pela frente? O que eu faço com isto aqui? – Mostrou a cabeça da besta sem nome.

— Esqueça esse troféu. Vamos brindar nossa vitória com cerveja e bocetas, irmão. – O bastardo convidou.


— Não... Vou até a Guilda, depois eu volto para bebermos. – Daronn respondeu.

— Nem pensar, é um ritual de praxe, Daronn. Depois do primeiro sangue, você tem que dividir a cama com uma mulher. – Edric Hill insistiu. – Rebecca!!! – Gritou da varanda, Daronn desceu os degraus da escada e parou na calçada, o bastardo veio atrás. – O que está fazendo? Você também foi ferido, vamos entrar. – O bastardo fazia-se de desentendido. Daronn tinha uma resposta na ponta da língua que daria cabo de seu irmão, mas preferiu evitá-la.


— Tenho um homem de vigília me aguardando, preciso ir na Guilda primeiro. Depois eu volto aqui, quero conhecer minhas sobrinhas. – Desculpou-se o herdeiro.

— Está bem, vamos entrar por trás e tu irás direto para um banho com Rebecca. – A meretriz sujeita da oração do bastardo já envergava-se varanda acima, com um olhar devasso e interessado na conversa dos dois.

— Não me deitarei com ninguém esta noite, capitão. – Chamou-lhe pela patente, afim de disfarçar sua origem.


— Chamou-me, capitão?! O que é isso nas mãos dele?! – Ela soou como uma donzela. Mas não é, está longe disso. Daronn imaginava ao observar as curvas suntuosas do corpo da puta.


— A cabeça da besta que matamos, Becca. Somos heróis e hoje, meu irmão, o herdeiro de Monte Tigre, precisa deleitar-se com um corpo como o seu. – Edric planejou profanamente.


— Basta! Nada contra sua beleza, Rebecca. Não irei gerar bastardos. – Esclareceu sem olhar nos olhos do irmão.

— Qual o seu problema com bastardos, Daronn Belvedere? – Edric engrossou o tom e aproximou-se demais, Daronn era dois palmos mais baixo que ele.

A puta vinha descendo exaltada, falando: – O herdeiro! O herdeiro! Fique comigo, meu Senhor! – Tão oferecida. Uma conquista sem batalhas, não tem glórias. Daronn avaliou da forma que via. Outra prostituta já vinha ao encontro deles e o jovem encontrava-se sendo praticamente arrastado pela mulher taverna a dentro.


De repente todos pararam em virtude de uma carroça que vinha subindo a ladeira a toda velocidade. Os relinchos vieram primeiro e já alertaram os dois irmãos, quando conseguiram alcance, o capitão arrastou-se até o meio da rua para forçar a carruagem a parar. Daronn aprovara, mas considerou o ato arriscado. Felizmente, o carroceiro parou. Era uma carruagem de traseira grande e coberta, toda de madeira sem reforço de ferro, mas muito bem esculpida nos adornos. – Boa noite, capitão. – Disse o velho condutor.

— Edgard Cupim. Que pressa é essa? Assustou a mim e ao herdeiro de Monte Tigre. – Daronn olhou para Edric com reprovação, mas o bastardo não pareceu notar.

— Perdoem-me rapazes! Tive um assunto familiar a tratar com urgência, mas não atropelei ninguém. – Afirmou o tal Cupim.

— Passará pela Guilda Presa Pedileta, Edgard? – Daronn perguntou.

— O jovem vai pra lá? Suba.

Assim, conseguiu uma carona e despistou o plano pecaminoso do bastardo.


— Quem é você, rapaz? Está ferido? – Edgard perguntou assim que tomaram alguma distância.

— Sou Daronn Belvedere, herdeiro de Monte Tigre. – Ele apresentou-se. – Chegaremos rápido? Possuo alguns ferimentos leves, mas quero retornar ao castelo.


— Prazer. Sou Edgard Cupim, esculpi a escrivaninha do senhor. – Daronn gostava muito do móvel que ganhara de seu avô, despertara nele o hábito de escrever.

— Uma bela peça, assim como essa carroça. – Então o jovem ouviu um grito sufocado vindo de dentro da traseira do coche. – O que foi isso? – Questionou.


— Minha filha. Vou castigá-la, encontrei ela aos beijos na rua essa hora. – O velhote confessou.

— Nem pensar! Pare essa carroça agora mesmo. – A percepção heroica de Daronn indicava um mal feitor ali. Não se pode condenar alguém por amar. O velhote parou a carroça, entretanto, quando Daronn menos esperava, ele o empurrou. Ferido e empoeirado, nada pode fazer. – Será preso por isso, velho! – Foi tudo que deu para gritar, ele conduzia rápido. Sentiu a primeira gota de chuva cair sobre sua face.


Continuou caminhando um tanto quanto perdido até encontrar alguém e pedir informação. Felizmente, os primeiros a aparecerem foram guardas Belvederes. Ao menos, assim pensava Daronn, porém os dois lanceiros vieram em sua direção cheio de suspeitas e arrogâncias.


— Ei! Você aí! Está armado? – O guarda mais alto perguntou sob a luz do poste a óleo, quase apagando.

— Sim, estou a caminho do Presa Predileta, sabe onde fica? – Daronn estava cansado e precisava ser objetivo.

— Entregue-nos sua arma. Quem é você, garoto? – O mais alto continuava como porta-voz, o mais baixo que também é o mais gordo permanecia com a lança apontada para o peito do herdeiro.

— Sou o primogênito de Lorde Belick Belvedere, seu Senhor e Comandante. Agora digam-me, estou perto da Guilda?


— E o que você tem aí? – Apontou para o crânio sangrento e fedorento em sua mão esquerda.

— A cabeça do Demônio Negro. Eu o matei. – Daronn exclamou, esperando colher algum reconhecimento, mas tudo que obteve foram mais suspeitas.

— É um louco ou um mentiroso. – O gordo gritou e tentou fincar a lança no herdeiro, que graças a seus bons reflexos, saltou de costas, sendo atingido no escudo traseiro.

Em algumas passadas, estava dentro de uma fonte seca, usando-a como muralha ao seu favor. Os guardas o perseguiram. O gordo era ansioso e tentara o atingir novamente, de forma imprudente desta vez. Avançou com a lança para dentro da fonte e Daronn sacou sua arma esquivando-se e quebrou o cabo da lança com um só golpe de Dente-de-Sabre.

— Se me ferir, será morto por meu pai.


— Basta dessa imprudência, Zycco. Olhe pro aço do rapaz, ele está falando a verdade.


Discutiram um pouco, mas o sensato guarda chamado Torgon convenceu Zycco a parar com a tolice antes que alguém se ferisse. O alto e bom soldado insistiu em lhe escoltar até o castelo, Daronn ainda quis passar pela Guilda, mas realmente estava tudo fechado e decidiu não acordar ninguém. Era tarde e apenas guardas eram vistos na rua. As ordens de meu pai foram obedecidas. Concluiu. Passou por uma cena de crime, onde guardas foram alvejados por setas de penas azuis e acusavam o Justiceiro Cruel de tal homicídio. Seria meu primo um assassino de inocentes? Iria conversar com ele em breve. Sua cabeça pesava. Fora apresentados a mais de doze bons homens antes de finalmente deixar a Vila do Estrangeiro.


A chuva os assolava, mas também lavava todo o sangue e terra do herdeiro. Contudo, Daronn estava tão afoito para chegar em casa que amaldiçoava a chuva por atrasar a subida no barro com os animais. – Maldição! Assim chegaremos junto com o Sol. – Os homens se entre-olharam, mas apenas Torgon replicou:

— Chegaremos em breve, meu Senhor. Fique atento, pois bons homens já caíram nesta estrada.


O soldado estava certo, nem bem Daronn reclamou e chegaram aos portões Fortaleza Belvedere. Por coincidência, estavam se abrindo no exato momento em que o avistaram. Um bom herói ao seu lar retorna. Daronn cantarolava orgulhosamente em sua cabeça. Todo cansaço e indisposição dera lugar a maior das ansiedades. Vou mostrar o crânio ao meu pai.

— Sigam-me, soldados. Garantirei descanso e recompensa à vocês pela escolta. – Prometeu.


Estava suspeito quanto ao portão, apesar de carregarem o estandarte Belvedere. Será que Ibbe contou? Estão atrás de mim? Perguntou-se quando enxergou Lorde Belick montado em Syryan, tão armadurado quanto seu pai. Atrás dele, praticamente todo o alistamento de tropas estava enfileirado como se para guerra fossem. Ele cavalgou furiosamente em sua direção. Daronn antecipou-se:

— Meu pai, desobedeci sua ordem em prol do povo e agor…


— QUIETO, DARONN!  – Cortou-lhe com arrogância  –  Já estou ciente de sua rebelde infração perante minhas ordens! – Ele gritava apesar da proximidade entre eles. Daronn viu que uma enorme comitiva saía pelo portão principal agora. Cavalos, cães e até o falcão de Sor Silas Sarsfield. Mais de quinhentos homens armados com cerca de sete estandartes diferentes além do azul e branco Belvedere. Uma mescla de cores sem igual, onde Daronn conseguiu reconhecer a mantícora da casa Lorch, a colher dourada de Sor Harwyn Hetherspoon e outros mais. Eles estavam indo atrás de mim, por isso os cães. Daronn refletiu.


— Aqui está a cabeça da fera! Estou vivo e ela morta!  – Levantou o crânio cruento do tigre diante de seu pai. Syrian relinchou ofegante.

— Não me venha com isto agora. Entre imediatamente, peça cuidados ao meistre e não ouse desobedecer-me mais uma vez. –  O tom de ordem que ele tanto repudiava em seu pai estava claro.


— Posso ao menos saber em qual guerra meu pai lutará sem mim? –  Perguntou desapontado com a frieza do lorde.

— Nenhuma guerra, filho.  – A tristeza tomou conta da raiva no olhar de Lorde Belick.

— Então o que aconteceu? – Daronn perguntou assustado.


— Lyz foi sequestrada.

Notas finais
Espero que gostem! Para mim, um dos melhores finais de capítulo deste livro.