Avahan

Romney, seu sobrinho e escudeiro, prestara-lhe serviço a alguns meses. Não irei atrás dele, perdoe-me. O cavaleiro descupou-se em pensamento com sua falecida irmã Louise. Assim que retornara do exílio, nomeou o garoto como escudeiro para proteger-lhe e desde então, convivera diariamente com o órfão. Avahan sempre se dera bem com sua única irmã, devido a ferocidade dela, também presente em Rom.

Avahan podia imaginar o paradeiro do sobrinho, e apesar da chuva, podia rastreá-lo e perseguí-lo até a primeira estalagem que parasse ou tenda que erguesse, porém tivera visões na fogueira feita próxima a Den Profundo, foram exatamente estes vislumbres que o impediram de adentrar na toca dos texugos. O cavaleiro estava sonolento, mas buscava recordar-se do que supostamente vira. Uma garota, Lyz, minha sobrinha. Sendo trazida até mim, através de uma carruagem bem esculpida. O Tigre-do-Leste indagou-se sobre a deserção de Romney. Se eu tivesse contado a ele, será que ele acreditaria? Talvez não tivesse fugido.


Ainda não conseguia acreditar no ocorrido. Não devia tê-lo deixado sozinho. Aonde ele está agora? Poucas vezes durante sua jornada neste mundo, o sentimento de perda o nocauteava desta forma. Não que Avahan fosse insensível, mas aprendera a trajar uma armadura por baixo da armadura desde que Mayrê e Nikay foram assassinadas. Agora May cuida de nossa filha junto ao Senhor da Luz. Suas assombrações diziam o contrário.


Em momentos como estes, Avahan enxergava suas garotas no canto da visão, assustando-o como fantasmas exilados do paraíso de R'hllor e esforçava-se para transformá-las em aluniações amargas da bebida cladestina que tomava. Elas estão em paz. E Romney é crescido o suficiente para cuidar de si mesmo, já Lyz...


Não era um grande temporal que tamborilava nas nuvens daquela noite, mas a chuva era constante e insolente. Avahan odiava ficar molhado, lembrava-lhe suas viagens pelo turbulento Mar Estreito. Ao menos, piso em chão firme agora. O tecido grosso de linho que vestia por baixo da cota de anéis estava tão empapado que grudava em sua pele, causando-lhe um incômodo para respirar. A cabeça do cavaleiro latejava de dor e seu olho bom fechava-se a cada trote de Mancha-Negra, exigindo minutos de descanso, mas ele não se permitiria uma pausa, o cavaleiro estava pronto para enfrentar o que estava por vir. Não posso decepcionar Belick, ele me trouxe de volta. O sabor do vinho na boca era seu único conforto, algo que aquecia seu corpo. Mantém a chama viva. Outro consolo era ter seu martelo protegido por uma grossa pele animal.


Primeiro, ouviu o arrastar de algum veículo pesado aproximar-se. Depois, avistou o comboio vindo contra ele aceleradamente, mas distante. Posicionou-se imponente no meio da trilha barrenta com seu alasão de guerra, e apesar da chuva, retirou a flâmula azul Belvedere com o tigre branco, fincou sua lança e ergueu o estandarte impetuoso que, mesmo molhado, ganhou vida com a fria brisa matutina. Quem quer que seja, irá parar. Imaginava. Não tinha muitas visões nas chamas, mas quando elas ocorriam, estavam sempre certas. Assim, salvara-se por várias vezes nas arenas de batalhas de Essos. Um destino que não desejo a ninguém. O comboio aproximou-se e Avahan observou de queixo erguido.


Uma enorme carroça fechada imergiu do horizonte nebuloso. Guiada por dois homens encapuzados com couro negro e puxada por dois cavalos, que a julgar pela rapidez, eram de boa raça. Mais dois homens vinham a cavalo flanqueando o veículo. Esta é a carroça que vi nas chamas... Seis rodas e oito patas enlamadas. Em contradição, seu olho esquerdo queimado não ardeu. O que isto quer dizer? Ele se perguntava sem ter tempo para encontrar respostas. Naquele instante, todo sono e dormência haviam secado, assim como a dor pela perda do escudeiro. O coração começou a palpitar com uma boa dose de adrenalina, tomou um gole de vinho para aquecer-se um pouco mais e guardou o odre.


O comboio parou, ainda que próximo demais, parou. Não seriam capaz de atropelar um tigre. Avahan confirmou sua certeza. Identificou de imediato seu Alto-Cavaleiro, Sor Abelar Greenfield, juntamente do irmão Sor Gullian com as rédeas na mão. Nos flancos, devem ser os escudeiros, a julgar pela estatura. Avaliou os rapazes vestidos em couro rígido.


— Sores! Em nome de Lorde Belick Belvedere, o Senhor-do-Ferro, parem esta carroça imediatamente. – Ele clamou como uma ordem primária. Talvez o vinho tivesse elevado sua voz acima do desejado, grave e rouca como sempre, soou intimidadora até para ele mesmo.


O velho Abelar pareceu chocar-se com a premissa de Avahan. Talvez por ser o líder da Cavalaria em Monte Tigre. Na verdade, Avahan não acreditava que os Greenfields estariam envolvidos em algo tão baixo como aquele, mas ele vira uma mensagem nas chamas e isto não devia ser em vão. Preciso compreender de fato os caminhos apontados pelo Senhor da Luz.


— Não sabia que o sor podia ver tão bem, já que escondo o rosto. – O grisalho tirou o capuz. A chuva logo encharcou seu cabelo, escurecendo-o. Dias ruins para o Alto-Cavaleiro. Avahan sentiu no semblante do homem, um tanto quanto cabisbaixo. – Nós já paramos, sor. O que o cavaleiro deseja de nós? – Perguntou.


— Diga logo, pois estamos debaixo de chuva. – Seu irmão grosseiro praguejou rispidamente.


— E por que pegam esta chuva toda? – Arreou a lança, começou a guardar a flâmula encharcada. Formulei mal minha pergunta. Pensou.

— Meu irmão está morto. – Os Greenfield se entre-olharam – Seu bastardo Damian Hill ocupa ilegalmente o Assento do Espinhaço Verde em meu lugar. Estamos retornando para fazer a justiça do Rei, o que está acima do serviço para Lorde Belick. – O grisalho explicou.


— Cabe a meu irmão ajudá-lo nesta tarefa, Alto-Sor. – Avahan disse.

— Todavia, ele negou-se. – Abelar afirmou enquanto Gullian cuspia em desprezo. – Já não sou mais o Alto-Cavaleiro... Entreguei meu distintivo esta noite. – O cavaleiro grisalho confessou.

— Não acredito que meu irmão tenha tomado essas atitudes em vão, sores. – Avahan defendeu, sor Gullian pareceu incomodado.

— Dê-nos licença, Tigre-do-Leste. – Avahan odiava quando desprezavam tal alcunha, todos os cavaleiros do Monte Tigre sabiam disso, principalmente seu recém-destituído líder.


Batalhar com ambos seria um prejuízo, não um risco. Nos treinos para o torneio, provara-se capaz de derrubar os dois e Avahan tinha certeza que também os venceria em um combate real. Entretanto, com seus dois escudeiros cercando-o, teria chances de perder, são quatro.


Os garotos eram homens feitos e bem armados. Não há por que derramar sangue. Torcia internamente. – Temo atrasar sua empreitada, porém caso o sor chegue tarde demais por culpa disso, comprometo-me em ajudá-lo nesta reconquista. – Tentou ser educado e aveludar a voz, mas isto era difícil demais para ele.

— O que quer afinal, Avahan? – Gullian questionou de forma rabugenta e impassiva.

— Precisarei revistar a carroça.


Alguns segundos com o som da chuva caindo sobre eles antes de qualquer resposta por parte dos irmãos cavaleiros. – Não precisamos da ajuda do Tigre-do-Leste – Resmungou Sor Gullian clamando por atenção, mas Avahan sequer olhara diretamente nos olhos daquele patife.

— Quem deu a ordem de vistoria, sor? – Sor Abelar Greenfield indagou para lhe deixar sem saída, mas Avahan tinha convicção no que estava fazendo. Preciso checar a carroça, ela é grande demais. Seis rodas.


— Como disse, atuo sob ordens de Lorde Belick, senhor de Mont... – Foi interrompido rispidamente pelo áspero irmão de Abelar:

— Nós sabemos quem ele é! Não precisa repetir a mesma trolha, Avahan.


— Como disse, Gullian? – Avahan engrossou o tom da voz, já irritado com as insolências.

— Estamos debaixo de chuva e com pouco tempo para tais formalidades cansativas. Sabemos que esta ordem não lhe foi dada, pois o sor sequer sabia de nosso intuito e demissão, o que me lembra que saístes do Monte Tigre antes de nós. Portanto, tu és um...


— Irmão de um amigo querido e aliado. – Abelar tomou a voz, cortando-lhe na úmida conversa da mesma forma que o irmão fizera anteriormente. Contudo, antes que Avahan pudesse agradecer, disse: – Perdoe-o, sor. Meu irmão está tendo uma péssima manhã, assim como eu. Estamos de luto. – Abaixou o olhar, mas fechou a cara quando percebeu que Avahan não pestanejaria. – Tenho certeza que os votos de um cavaleiro ainda estão frescos para ti, portanto sei que o Tigre-do-Leste não está mentindo.


Avahan continuava ouvindo tudo que eles tinham a dizer, pois não estava certo sobre o que vira nas chamas agora que seu olho perdido não ardia ou dava qualquer sinal. Também não era fácil aborrecer o cavaleiro com petulâncias como as dos irmãos prostrados a sua frente. Fiz meu voto a onze anos atrás, mas ainda lembro de meus deveres, deixe ele tentar me afetar.


— Entretanto, lembro-me da ordem que lhe foi atribuída e esperava encontrá-lo em Den Profundo, cavaleiro. O que aconteceu? Onde está seu escudeiro? – Aquela última pergunta lhe atingira como uma faca quente. Se Rom estivesse aqui, esta conversa já teria acabado.


— Lamento, mas o sor fora destituído, devo reportar-me apenas para Lorde Belick quanto a esta missão. Sor Gullian está certo, não devemos perder tempo debaixo deste aguaceiro, vamos a revista. – Avahan disse enquanto desmontava de Mancha-Negra, que resmugava borrifando pelas narinas.


— Mas é claro... – O grisalho disse em tom odioso – Escudeiros, ajudem o sor a desarmar-se para a vistoria.

Avahan já estava no solo alagadiço, com barro até o tornozelo de sua bota, quando eles aproximaram-se devagar a cavalo. Perto demais.

— Afastem-se.


Avahan tirou a lança das costas e eles pararam diante da ameaça. O vento assobiou e molhou o Tigre-do-Leste por completo. – Não deixarei meu martelo nas mãos de pirralhos.


— Eu fico com ele. – Disse o ousado irmão de Abelar, de cima da carroça.


Eles escondem algo. Nesta carroça caberiam até cinco sobrinhas. Raciocinou enquanto aproximava-se da carroça Greenfield e respondeu ao patife:

— Só por cima do meu cadáver.


Estava a um metro e meio do grisalho, lado a lado com um dos alazões Greenfield que puxavam a carruagem, mas antes que pudesse alcançar os arreios ou escada, o velho praguejou: – Você não me dá outra escolha. – E acelerou a carroça com tanta força, rapidez e desespero, que não houve como reagir.

— Para os Sete Infernos, Tigre-do-Leste! – Gullian ainda gritou.


Avahan tentou agarrar-se como podia, mas estava escorregadia demais e ele caiu, quase sendo esmagado. A queda foi dura, as talas de ferro protegeram suas principais articulações e não chegou a quebrar, nem torcer nada. Mas a maior dor veio logo em seguida, ao ouvir os relinchos agonizantes de seu garrano ao ter três patas esmagadas no brutal atropelamento. Não! Mancha-Negraaaaa!

Notas finais
Espero que gostem!