Lucyus

Dormiu muito pouco naquela noite. Chegara depois da hora do lobo na Fortaleza, após matar um taverneiro que escravizava crianças, vingando-se assim, da corja que assassinou Justin Hossman, seu arqueiro. Não poderia deixar sem troco. O Justiceiro Cruel pensou ao lembrar-se da mensagem na caixa. “O próximo será o seu.” Deixe que tentem, a cada homem meu que matarem, eu mato vinte deles. Uma seta para cada um. Justiça e morte entraram na vida de Lucyus aos treze anos, seguidos de um acontecimento real, quando ele se sentiu exposto e a mercê da criminalidade, sentimentos estes que endureceram o coração do rapaz, transformando-lhe no herói noturno da Vila do Estrangeiro, seis anos depois.


Na volta da hora da coruja, a trombeta de alarme foi soada e a busca pela filha do lorde começou. Ninguém a encontrava em lugar algum, procuraram até nos esgotos da Fortaleza, mas não obtiveram sucesso. A Senhora Belvedere estava aos prantos em seu quarto e os gritos que dava com Lorde Belick eram ouvidos em toda Torre Nobre. Até que Ellyot, um dos primos distantes de Lucky, confessou ao Senhor-do-Ferro que tinha visto os Greenfield levar sua filha. Aquilo enfureceu seu tio, que antes do nascer do Sol, mobilizou quase todo o contingente Belvedere para ir atrás da criança. Deixando a Fortaleza vazia e desprotegida, sob comando de “sor Amoras”. O arqueiro percebeu, mas nada disse ao seu tio consternado, apenas o viu partir no mesmo momento em que viu Daronn chegar. Por que não falei?


Repensava suas origens ao olhar pela janela de seu quarto na Torre Nobre. As gotas de chuva no vidro quase cobriam a briga que acontecia lá embaixo. O pobre Correntes-de-Vento todo ensopado discutia com o herdeiro furioso que tentava celar seu alasão negro. Enquanto assistia confortável, Lucyus bebia um vinho fervido com canela para levantar-lhe os ânimos. Em sua mente, um plano para ir atrás de Lyz estava sendo traçado, se Daronn conseguir sair, irei com ele para dar-lhe cobertura. Assim pretendia.
Levantou-se e terminou de enxugar os cabelos molhados, vestiu-se com sua túnica de linho, cota de malha, jaqueta de couro rígido, cinto onde sua lâmina braavosi era carregada, assim como sua bolsa de moedas; E claro, a aljava, o arco de curvatura dupla e sua boa capa grossa de couro negro que usava para camuflar-se a luz do luar. Mas é cedo... Um tanto quanto arriscado. Não tinha outra opção, seu tio lorde não lhe dera ordem alguma, portanto, Lucyus preferia se expor nessa missão. Além do mais, o Justiceiro Cruel tem que salvar sua prima.


Quando chegou ao pátio, passou pela confusão sem ser percebido, atravessando por baixo das ameias, na sombra. Apenas ouviu o que estava sendo dito enquanto dirigia-se ao estábulo.
— Você me drogou, doente! – O herdeiro gritava com Fúria já selado, mas não montado.
— Não tive outra escolha, o Pequeno Senhor deve obedecer seu pai e ficar aqui! – O meistre desculpava-se e insistia ao mesmo tempo. Sor Amoras, ou sor Eddison Turnberry, encarregado de chefiar a esquadra restante da Fortaleza, observava ao longe, protegido da chuva.

— Pequeno é você, Ibbeorn! Solte-me! – Daronn gritava como uma criança, quase chorando. No entanto, a última fala de seu primo, chamou-lhe atenção:
— Eu sei onde ela está! Deixe-me salvar minha irmã!


Se há pistas, será mais fácil do que pensei. Lucyus torcia para que seu primo mais novo estivesse falando a verdade e não utilizando-se de argumentos falsos. Chegou ao estábulo.


Gordon era o único cavalariço que restava na estrebaria, estava tão sonolento quanto todos que permaneciam acordados pela noite em claro e sequer respondeu os cumprimentos do arqueiro. Lucky selou Uni, seu corcel cinzento, rapidamente e pôs-se para fora dali. Quando subiu a ladeira de cascalho e chegou no pátio principal, não acreditava na cena que via. O meistre arrastando-se com sangue nas mãos e na túnica, o herdeiro montado em Fúria com sangue em sua espada lendária e ameaçando os guardas da muralha: – Abram este portão, ou eu enforcarei cada um de vocês! – Daronn estava tão aflito que não notou a presença do primo, até que ele o alcançou milhas fora dali, colina abaixo.


— Diminua esse ritmo, primo, ou irá cair antes de seus inimigos. – Lucyus avisou sob chuva forte, o solo estava totalmente escorregadio e o herdeiro descia imprudentemente.

— Você também, primo? Fúria é o melhor cavalo de Monte Tigre, nunca irá cair. – E como um habilidoso cavaleiro, ele saltou com seu alazão negro sob um grande buraco empoçado de barro. Incrível. Lucyus não tinha essas habilidades, muito menos seu corcel tal vigor.

— Mas deixe que eu lhe acompanhe, primo! Espere por mim! – Gritou quando Daronn virou uma curva mais abaixo, ficando fora de visão. Para seu júbilo, quando dobrou a curva com Uni, o herdeiro o esperava.

— Bom contar com sua ajuda, primo Lucyus. Você conhece a Vila do Estrangeiro melhor do que eu. – Daronn saudou.

— A honra é minha, Ronn. Por que a Vila se os Greenfield desertaram do Monte? – Lucyus indagou. Na Vila, seremos alvos fáceis.


Sor Abelar sabe que meu pai irá alcançá-lo antes do Espinhaço Verde, certamente vendeu Lyz antes disso. – O herdeiro acusou.

— Você acha que ele seria capaz, Ronn? – Lucky questionou, pois a conduta do velho Alto-Cavaleiro era quase admirada por todos da Fortaleza.

— Ele talvez não, mas Gullian, seu irmão, com certeza sim. – Daronn realmente expremia convicção no que dizia, parecia ter vislumbrado a verdade.

— Vamos a Vila então.


Cavalgaram juntos desde então, tão rápido que Lucky lembrou-se das corridas que competiam antes do último inverno. Que não acaba nunca. Todavia, não galopavam em dias chuvosos como esse, nem ladeira abaixo e muito menos ainda com Daronn entorpecido. O herdeiro cambaleava de tempo em tempo em cima de sua montaria. – O que o meistre fez?

— Serviu-me uma alta dose de Leite da Papoula contra minha vontade. – Daronn respondeu.

Avistaram os portões da Vila do Estrangeiro, nas ameias, Lucyus podia contar meia dúzia de guardas.

— Vamos manter o ritmo! – Incentivou o primo a continuar galopando rápido e praticamente, invadiu a vila, sem dar qualquer satisfação aos soldados de vigília. O herdeiro o acompanhou e logo o ultrapassou. Uni era de boa raça, mas Fúria era de boa linhagem.


Seu primo demonstrou-se realmente perturbado com o sequestro da irmã, visto que atropelou um cão com seu animal. Daronn não é cruel assim. Lucky acreditava.
Alguns guardas já os perseguiam, mas eram facilmente despistados pela velocidade que imprimiram até chegarem na Dama de Braavos, uma taverna famosa no local que o arqueiro nunca tivera o prazer de entrar.

— Acha que Abelar venderia Lyz para uma casa de prostituição, primo? Eu creio que não. – Lucyus não entendia a razão de terem parado ali enquanto Daronn já desmontava e amarrava Fúria na haste.

— Fique e cuide dos cavalos, eu já volto. – Ordenou. Cuidar dos cavalos? Lucyus não queria ter sua presença notada, pois apesar de gradualmente por causa da chuva, o Sol já acordava a Vila. Não posso ficar aqui.


Entrou no salão rubro-negro de móveis escuros e polidos, devia ter limpado as botas.


Os passos enlamados de Daronn apontavam para um corredor profundo a direita do balcão, onde uma bela mulher lustrava o mármore negro com um pano umedecido.

— Favor tirar o capote, queridinho. O rapaz é seu amigo? – Ela estava um pouco assustada, como quem tentara interromper o ímpeto de seu primo. Tirou o capuz sem pensar duas vezes e logo deparou-se com a insensibilidade da mulher. Não que Lucky fosse feio, mas faltava-lhe os traços nobres de seus pais, todos diziam que seu nariz era um pouco torto e sua barba não crescia de maneira uniforme, além de ser magro demais.

— Sirva-me um vinho quente. Ele está comigo, já deixaremos vocês em paz. Imagino... – Soltou no ar e parou de falar no mesmo instante em que percebeu o relinchar de Fúria lá fora.

— Você é algum tipo de guarda do castelo? Também não pode perambular armado aqui dentro, pois v... – Lucyus silenciou a mulher com um gesto e de prontidão, caminhou lentamente até a porta dupla por onde entrara.


Ao perceber um movimento suspeito, armou seu arco com uma seta e mirou pelas janelas. Claramente estão tentando roubar nossos cavalos. Lucyus acreditava apesar de achar difícil com tantos guardas. Quando o arqueiro teve a certeza de que não tratava-se de soldados, uma flecha quase o atingiu, se não tivesse desviado-se ao quebrar o vidro da janela por onde atravessara. Enquanto a balconista gritava, Lucyus Brax não pensou duas vezes. Após três passos largos a frente, ganhou alcance nos cavalos e acertou o peito de um bandido que cerrava as rédeas. Percebeu que o alazão de seu primo já havia coiceado e pisoteado alguns deles e agora, mordia o alvejado por Lucyus. Onde está Uni? Já não via seu cavalo ao lado do de seu primo. Foi quando o titã apareceu. O arqueiro derrubou uma das mesas e escorou-se.


Quase quebrando a porta quando entrou, um enorme gordo trajado em couro rígido com um avental encardido de sangue portanto uma espécie de cutelo gigante e enferrujado, gritou no salão: – Só queremos o Justiceiro Cruel! Sabemos que ele está aqui! – A voz gravíssima.


O coração de Lucyus explodiu em adrenalina quase saindo por sua boca. Uma segunda flecha já estava pronta, só precisava de posição para atirar. Assim fez ao ouvir a primeira passada do mutante em sua direção, levantou-se e disparou a queima roupa contra o alvo fácil, depois chutou uma cadeira na direção de seus inimigos e virou-se para o corredor. Daronn já estava lá, com seu escudo em punho e Dente-de-Sabre na mão destra, reluzindo todo o tom escarlate do ambiente de maneira intimidadora. – Sou Daronn Belvedere, filho de Lorde Belick e futuro governante desta Vila. Identifique-se e abaixe sua arma, ou morrerás. – Seu primo determinou insana e corajosamente perante ao monstro e seus seis lacaios.


Hahaha-Hahaha, chamam-me de Donnel Carnificina, por destroçar meus inimigos...
Lucyus já estava ao lado de Daronn com uma terceira flecha preparada. Notara Edric atrás deles, também com o arco engatilhado. – Peguem os arqueiros, o garoto é meu. – Ordenou odiosamente aos capangas.

No mesmo instante que avançaram sob os três, o herdeiro fechou habilmente as duas portas a sua frente, dos quartos laterais, formando uma barreira com uma brecha central para posicionar seu braço e o escudo além. – Disparem! – Ele decretou enquanto formava uma base solida de apoio com as pernas. Sua flecha e a de Edric atravessaram certeiramente pelo vão, encontrando pele e músculo do lado oposto. Um estrondo. O primeiro impacto caiu sob o herdeiro, que quase pestanejou quando seu braço por pouco não quebrou. – Vamos, atirem! – Lucky estava pasmo com a força do primo e esquecera-se de carregar, mas o bastardo não.


Porém, desta vez a flecha de Edric acertara a porta esquerda que Daronn sustentava, quase perfurando a nuca dele. – Cuidado, Ed! – O herdeiro exigiu sem olhar pra trás, pois saltava para fugir de golpes baixos vindos da brecha. Mas também revidou e quando Dente-de-Sabre cortou carne do lado oposto, Lucyus já tinha outra seta na mira e garantiu um abate para eles. Acertei entre os olhos. O arqueiro havia treinado com a própria corja no último inverno.


As portas não aguentaram um segundo baque e romperam-se em estilhaços na altura do escudo. A batalha então virara-se contra eles. Donnel havia sido ferido, mas não perderá a chance de golpear meu primo exposto com o rompimento das portas. O cutelo desceu como uma guilhotina só para encontrar o escudo de Daronn, que amassou com o golpe, mas não quebrou. – Morra!! – O monstro gritava em fúria. Atrás deles, uma escada dava acesso ao piso superior e uma saída para os fundos. Paralelamente ao ato rápido do herdeiro de escorar-se em outras duas portas, capangas sorrateiros surgiram na retaguarda, Lucyus alertou sobre o cerco:

— Há outros aqui atrás. – Por um segundo, os irmãos viraram para observar.


— Cuide deles, primo! – Daronn gritou ao segurar outro impacto da pesada ariéte que Donnel formava com seus homens tentando engolir seu primo de uma vez. Houve tempo o suficiente para disparar e derrubar um dos quatro antes de guardar o arco e sacar sua lâmina braavosi.

— É o Justiceiro Cruel! É ele! – Os lacaios confirmavam, o que o arqueiro achava estranho, pois não lembrava-se de ter deixado inimigos vivos para reconhecê-lo.


O estardalhaço de outro desabamento viera detrás. Lucky não concentrou em outra coisa, se não lutar. Haviam três alvos, um careca com uma rede, um encapuzado com uma foice e um alto com uma clava. Defendeu-se da foice que veio cortar-lhe o braço, encravou ligeiramente seu florete na garganta do mais alto e a rede caiu sobre ele, jogando-lhe no chão. O pirata careca, sem força, tentou arrastá-lo em vão, mas Lucyus parecia enrolar-se e machucar-se em parcelas iguais. – Ajudem-me! – Precisou gritar para que uma flecha do bastardo atingisse o baço do seu algoz, que caiu agonizando. Enquanto estava no chão, escapou de duas ceifadas da foice sob suas pernas, mas na terceira, conseguiu dar uma rasteira no lacaio e derrubá-lo.


O sangue fervia-lhe a face e o corpo quando o Justiceiro Cruel enforcou o homem com os nós da rede que o prendia. Com os inimigos da retaguarda imóveis e sangrando, virou-se novamente para o corredor atrás de si. – Ed, tire-me daqui. – O bastardo estava mais perto, Daronn enfrentava Donnel diretamente, mas o corredor era apertado para o monstro, que graças a isto, não conseguia aplicar seus golpes vorpais. No entanto, Daronn já está sem escudo. A peça estava torneada e amassada sobre o braço do primo. Ed não lhe deu atenção e Lucky esforçava-se para se soltar.

— Agora, Edric! – O herdeiro gritou ao abaixar-se e seu irmão bastardo perfurou o couro do peito do gigante com uma seta. Sangrando e praticamente sozinho, o Açougueiro carnificina pôs-se em debandada.


Ed começou a auxiliar Lucky a desenredar-se e Daronn perseguiu os criminosos até a varanda externa do salão, onde gritou: – Vocês serão presos! – Uma trombeta soou uma única e longa vez. Os guardas! Lucyus supôs alarmado.

— Precisamos alcançar a casa de Edgard Cupim. Ele está com Lyz, Ed sabe chegar até lá? – Quando seu irmão confirmou com a cabeça, ele continuou – Eu vou com Fúria, e vocês?

— Pelos telhados. – Responderam quase em uníssono. Assim, seguiram em sua missão.

Notas finais
Espero que gostem!