Os Tigres de Westeros
28 Lucyus III
Notas iniciais
Lucyus
Lá estavam eles. Mais de cinquenta homens. Quinze lanças, quinze espadas, dez arcos e dez machados. O capitão Hother lhe garantira que apenas os melhores e mais honrados haviam sido selecionados para a empreitada, mas ficou claramente decepcionado quando soube que ele mesmo estaria ausente. Alguém precisa comandar a base. O Adido lembrou-lhe e como um bom subalterno, Hother acatou.
A noite não era das mais silenciosas, nem das mais escuras. Obrigando o Justiceiro Cruel a traçar um novo caminho até o Patas & Rodas, pois o sigilo é fundamental para o sucesso do assalto. Tomaram vielas alternativas e becos escuros. Ullon enfileirava-se na vanguarda com Creighton e uma tropa mesclada de espadas e lanças. Como uma enorme poça de sombra em movimento, Lucyus vinha logo atrás com seus dez novos arqueiros. Waymar, Benner, Edmyn, Orteen, Qarl, Cley e outros quatro cujo vinho tomado no coquetel apagara os nomes. O Sacerdote Jared os seguia com outros dez soldados e alguns garotos de vermelho a quem chamava de discípulos. Capitão Marq ficara na retaguarda com homens a cavalo e aguardaria o sinal de Lucyus para agir. Estamos chegando... Lucky sequer piscava, seu coração acelerado o impedia de ouvir os próprios passos. O Patas & Rodas ergueu-se a frente deles.
Completamente apagado, sem qualquer sinal de movimento além dos morcegos que saciavam-se nas árvores quintal. Mais um indício de que não criam cavalos por aqui. A tropa se dividiu. Creighton e Ullon subiram a rampa que dava acesso ao casarão central, enquanto o Sacerdote comandou o resto do contigente para o portão maior do aras. O Adido seguiu o Comandante, em uma 'troca de coberturas'. Felizmente, não havia porteiro ou caseiro para recebê-los. Ou para morrer de prima. De imediato, não forçaram a entrada. Ullon Utherydes começou o cerco sobre o terreno oblíquo e selvagem. Enquanto Creighton sutilmente quebrava o cadeado da portinhola. Mas todo cuidado fora em vão, por que o Sacerdote mais abaixo, já incendiava o grande portão, entrando no covil, gritando as palavras de seu Deus Estrangeiro. – O que ele está fazendo? Lucyus? – O capitão Creighton perguntou em choque ao notar a cena de longe.
— Está na hora, vamos! – Foi o que conseguiu responder e em seguida, uma ordem: – Arqueiros, dêem cobertura! Mirem nas janelas superiores.
O sentido de perigo do Justiceiro devia estar alinhado, pois assim que as tropas entraram pela portinhola, besteiros tentaram uma recepção. Não surtil efeito. Os inimigos não estavam em uma torre, não havia ameias favoráveis. Assim que as janelotas abriram, a maioria foi recebida por setas certeiras. E os mais rápidos, só puderam esquivar-se enquanto o esquadrão de Creighton invadia, matando os desarmados do pátio central. Lucyus e seus arqueiros prepararam rapidamente uma segunda saraivada. O Justiceiro Cruel passou pela portinhola.
Um lampião a sua esquerda revelava um bandido moribundo, surpreendido pelos homens de Creighton na guarita. Tal tropa já engajava-se em direção ao casarão sul ao mesmo tempo em que os machados quebravam a porta do casarão norte para a entrada do Sacerdote, conforme o planejado, excento pela fumaça que trazia um forte cheiro de madeira queimada. Lucyus e os arqueiros garantiram a cobertura mais uma vez, disparando contra os besteiros ainda vivos.
O sucesso não fora como o anterior. Nenhum criminoso fora ferido dessa vez, porém nenhum deles também havia sido alvejado. Está dando certo. Calculou o Adido. Avançou com sua coluna de arqueiros em direção à Creighton, emparelhados no casarão sul. Como ele estava mirando nos janelões da mansão a frente deles, onde Jared entrara, seus homens repetiram o gesto e aquilo lhe garantiu mais um êxito na missão.
Quando Creighton derrubou a porta dupla para invadir ao sul, outros besteiros apareceram no telhado norte para alvejá-los pelas costas. Todavia, bastou subir um pouco a mira e disparar. Sua seta atravessou o peito do primeiro, que despencou de lá de cima, rachando a cabeça ao atingir o solo. Outros dois foram feridos por Waymar e Benner. Apenas Qarl fora ferido de raspão. Lucyus não podia arriscar uma segunda saraivada de virotes.
— Vocês quatro, levem Qarl até o Comandante Ullon. Dêem o fora daqui! – Ordenou bruscamente para os anônimos mais próximos e dirigiu-se com o resto para a entrada do casarão sul, na retaguarda de Creighton. Como foi o último a entrar, ainda avistou um de seus homens ter o pescoço perfurado por um virote inimigo na tentativa de dar cobertura ao ferido Qarl. Sem comando, eles são cegos. Criticou sem lamentar ou buscar vingar a perda. Entrou pela porta quebrada nas suas costas.
Foi como adentrar na recepção do sétimo inferno. O salão principal era grande o suficiente para abrigar uma verdadeira guerra e foi exatamente isto que o Justiceiro Cruel viu ao pisar no caos. Muitos gritos, de ódio e de dor. Corpos e destroços por todos os cantos. A sua frente, o corpo de Edmyn ainda tremia em espasmos, mas os pedaços de sua cabeça no piso ensanguentado confirmavam sua morte. Waymar, Benner e Cley estavam à esquerda, atrás de uma grande mesa virada em forma de barricada. Osteen estava sozinho à direita, atrás de um piano destruído. Este casebre está pegando fogo. A fumaça era tanta que Lucky tinha certeza. Ao menos ainda podemos respirar. Sem parar para entender o confronto que estendia-se a frente do saguão onde seus arqueiros passavam maus bocados, o Justiceiro Cruel foi de encontro a Osteen.
No caminho de oito passos, não só ganhou cobertura através da fumaça, como disparou contra um clandestino que acertaria o corajoso Osteen. O sangue da barriga do inimigo jorrou no arqueiro destemido e ele pôde esconder-se atrás da pilastra novamente. Virotes voaram, nenhum dos seus pareceu cair. O suor tomava conta de seu rosto e cabelos, preparou a quinta flecha do assalto e gritou: – Osteen! Reagrupe! Way, Cley, Ben, comigo!
Levantou-se e mirou. Avistou um soldado rolando escadaria abaixo, a correria era tamanha, combate por todos os lados, Lucky não saberia apontar um alvo seguro. Os inimigos estavam cobertos por seus próprios soldados. Cley cometeu o erro de disparar sem comando e quase matou o Capitão Creighton. Todavia, assim que Osteen cruzou a recepção para reagrupar-se, o Justiceiro notou a brecha dos besteiros do piso superior. Frechas no teto, como escotilhas. Garantiu a vida de seu bravo arqueiro com uma flechada certeira acima. O sangue criminoso escorreu como uma infiltração maligna. Ainda me restam quinze setas. Correu para junto de seu grupo. Um virote pregou a ponta de sua capa no chão, mas ele não caiu, o tecido que rasgou. Sorte. “A noite é sua, Lucyus” As palavras de seu avô Egon ressoaram.
— O que estão esperando? Preparar! – Os quatro o olhavam consternados. – NO TETO!
Agaichou-se junto deles e ouviu os baques dos projéteis que fincariam neles se a mesa virada não fosse tão resistente. Os cinco agora esgueiravam-se atrás dela.
— Senhor! Fomos feridos! – Respondeu Cley, tirando as mãos ensanguentadas do quadril.
— Seja forte! Ninguém mais morrerá. – Apesar do diálogo, Lucyus não tirava os olhos do teto e assim que pontuou, notou um feicho de luz apagar-se. Disparou como contra a nuvem e logo uma rubra chuva grossa caiu sob eles. – Estão vendo? Eles estão lá em cima!
— Mas senhor, nós não conseguimos acertá-los. – Benner queixou-se de uma maneira que quase não deu para ouvi-lo.
— Não somos você, Justiceiro! – Cley berrou, claramente atormentado pela dor.
O seu sexto sentido, aquele cujo avô mencionara, aquele que permitiu a soberania do Justiceiro Cruel, estava realmente aflorado. Lucyus não só via as brechas do teto como uma armadilha sobrepujável, como ouvia o ranger do piso superior revelando o deslocamento inimigo. Notou que Cley morreria em seguida, e nada fez. Ele estava com sua sétima flecha em posição e poderia até acertar novamente, ou alertar, ou empurrar o soldado. Nada fez.
Por ironia, Waymar salvou o ferido 'desertor'. Repetindo a ação anterior de Lucyus, alvejou o algoz de seu amigo através de uma brecha larga e óbvia. Orteen, que também atirou, mas sem sucesso, foi o primeiro a falar:
— Todos somos justiceiros esta noite, Cley! Concentre-se, o piso acima de nós é completamente vazado.
Tal declaração fora motivadora até certo ponto, mas não conseguiu salvar a vida do desesperado Cley. A princípio, agiram como uma excelente artilharia. Lucyus disparava primeiro, arriscando-se e quando não acertava, seus arqueiros conseguiam. A troca foi intensa, rápida e dolorosa. O Justiceiro Cruel foi atingido de raspão na testa, Cley fatalmente no nariz e Benner nas duas pernas. Contudo, não haviam mais besteiros para acertá-los. E eu ainda tenho dez flechas. Vidas começam e vidas terminam, a justiça têm de ser feita. Lucyus refletiu sem pesar.
Naquele ponto, as tropas de Creighton já sobressaíam como vitoriosas. Perseguindo os bandidos feridos casebre adentro e o salão principal era um quadro macabro pintado em preto, cinza e vermelho. A fumaça ardia os olhos e os pulmões. Haviam duas opções na mente do Adido, seguir o plano e manter-se com Creighton, ou auxiliar o Sacerdote Jared no outro casarão.
— Comigo, homens! Vamos sair daqui antes que o fogo desabe sobre nós. – O sangue de sua testa escorria até os olhos, em uma cegueira ardida.
Waymar e Orteen arrastaram Benner para fora, deixando o corpo de Cley e os restos de Edmyn para trás. Lucyus saiu na vanguarda, expondo-se. Quando voltou ao pátio, notou que a grande parte da fumaça vinha na verdade do casarão onde o Sacerdote entrara. Metade da mansão norte estava despedaçando-se em chamas e a outra metade parecia ceder a qualquer momento. Em meio a isso, cavalos corriam na lateral direita rumo ao portão abaixo. Alguns deles montados por bandidos. Covardes. A décima flecha do Justiceiro impediu um deles.
— Levem Benner para o cerco, protejam-se! Olho vivo! – Completou a ordem apontando para o segundo andar do casarão sul atrás deles. – Ainda podem haver mais.
Eles já estavam indo, mas Waymar parou para olhar pra trás e perguntou: – E o Senhor, comandante? – Lucyus não respondeu. Já estava correndo sozinho para dentro do fogaréu.
Subiu a porta frontal do capuz, tapando a boca para não respirar muito gás. Saltou por entre as chamas da entrada violada e em um rolamento treinado, levantou-se no interior com sua décima primeira seta engajada na corda. Um homem que mais parecia um demônio de fogo vinha em sua direção. Sua aproximação fora notada muito antes, pois estava gritando como um louco incendiário. O Justiceiro apenas esquivou-se, deixando o homem chocar-se com a parede atrás de si e cair no chão, assado.
— SACERDOTE! – Gritou fogueira a dentro, tentando prosseguir por um caminho mais seguro. Um pequeno pedaço de tronco caiu sobre ele e as brasas chamuscaram suas costas. Não houve resposta. Quando levantou, percebeu que a corda de seu arco havia queimado na colisão. Maldição. O teto rangeu fortemente e Lucyus saltou para longe, evitando um segundo ferimento. Desta vez não fora um suporte a desabar, e sim grande parte do segundo andar. Poeira, fogo, pedra, madeira, fumaça e de repente, Jared ergueu-se nos escombros. Com ele, dois vilões. Um desconhecido e um conhecido. Não pode ser. Donnel?
Um monstro ressuscitado com o mesmo cutelo gigante usado no último confronto em punho. Completamente chamuscado e lesionado. O gordo braço esquerdo estava quebrado e haviam cortes em todo seu peito. Mas ele estava vivo e ali. E pior, o outro era tão grande quanto ele. Devia ter não menos do que um metro e noventa. Possuía uma capa negra e um porte muito mais atlético que o Carnificina. O Justiceiro notou suas feições de fúria, o inimigo estava endiabrado.
— Você matou minha feiticeira, miserável! Vai pagar por isso! – Ameaçou enquanto arrastava-se pelos destroços. Um dos soldados saltou por cima dele. Lucyus estava longe, mais próximo de Donnel. Jared pode se virar. Sacou sua lâmina braavosiana e sua adaga.
Leve e rápido, como foi treinado, alcançou o infâme Donnel. – Você é a prova deste covil de merda! – Ele jogou-se para cima de Lucky, sendo perfurado, mas sem perder a força. Um segundo depois, batia a cabeça do arqueiro no chão, como se fosse um melão. A dor na nuca quase o apagou nos dois primeiros impactos. Jared o salvou. Tirou o inimigo de cima dele.
O Justiceiro ficou de pé por pouco tempo, teve que se jogar no chão para não perder a cabeça machucada na lâmina do outro rival, que dera cabo do soldado e vinha atrás de Jared. A esapada de Lucyus havia sido perdida, mas sua adaga ainda estava na suada mão esquerda. Como um verdadeiro tigre ou unicórnio, saltou do chão em direção ao inimigo desconhecido, e ao invés de garras ou chifres, colocou sua adaga entre as costelas dele.
— Diga o seu nome e não o esquecerei, criminoso. – Ordenou enquanto o sangue quente dele escorriam em sua mão esquerda.
— Burton. Barão Burt... – E começou a engasgar no próprio sangue.
Minutos depois, a justiça foi completa. A vitória era dele, o Comandante-Adido Lucyus Belvedere Brax.
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