Os Tigres de Westeros
17 Hector I
Hector
Bastou chegarem a Pico Infinito, uma torre tortuosa e pontiaguda no alto de um penhasco íngreme, para os planos do Bastardo de Prata mostrarem-se falhos. Ou para meu azar mostrar-se soberano. Pois Hector caiu feio quando descia por um elevador-de-bois. O cavaleiro pesado descera primeiro, mas fora na sua vez que a corda estancou. Na queda, torceu o braço e ficou todo arranhado. Sem ter condições de seguir viagem, fora colocado em repouso em uma taverna pobre e imunda, mas ao menos podia descansar e relembrar os momentos da aventura que vivera até ali.
Saíram do Monte Tigre em meio ao caos de um motim no dia da Velha, camuflados como mercadores. O cavaleiro que o libertara dos tigres, usava uma grossa capa para tapar o peitoral reluzente. Sor Sargon Hill, como se apresentou naquele fatídico dia. “Vim em nome de seu pai, te libertar. Siga-me e sairemos daqui rapidamente.” O homem de cavanhaque fino e pestanas brancas havia dito, o que na hora, causou enorme confusão na mente de Hector. A Mão me disse que os leões me buscariam, não os cães. Retornar para Forte Mastim era a última coisa que o quarto e último filho legítimo de Lorde Clegane queria. Contudo, seguiu o cavaleiro bastardo. Eu tinha uma vida confortável como Emissário em Monte Tigre. Começava a se arrepender diante de tantas dificuldades.
Assim que chegaram a Vila do Estrangeiro, sor Sargon os coordenou até uma estalagem chamada Picaretas, onde negociou os cavalos com o dono do Patas & Rodas, um aras da Vila. O homem já parecia estar esperando o cavaleiro para fechar o negócio, Hector não sabia que teria de vender a égua puro-sangue Milly, presente do próprio Mão, Lorde Tywin Lannister. E sequer viu a cor do ouro que ficou sob posse de seu salvador. Antes do anoitecer cair completamente, eles já estavam longe dali, arrastando-se pelo barro molhado em terreno hostíl até a fronteira com as terras Peckledon. Haviam trilhas selvagens, mas disponíveis a eles. Entretanto, sor Sargon lhe informou que guerrilheiros de ambas as famílias costumavam patrulhar a área e o levou por dentro de um matagal desnivelado, cheio de fossas e insetos. Era quase um pântano. Hector lembrava com repulsa. O avanço pelo brejo foi lento e cansativo e o Clegane insistiu para que sor Sargon parasse para descansar. O cavaleiro muito contrariado, aceitou a ideia quando alcançaram terras mais firmes.
Naquela primeira noite, Hector pouco dormiu. Milhões de insetos picavam seu corpo, o sibilar de cobras o apavorava e para completar, sor Sargon roncava como um javali sendo abatido. Em seu sonho leve, matou uma cobra negra gigante com as próprias mãos, só não sabia dizer se o réptil o havia picado ou não, mas de qualquer forma, acordou todo empolado e doído. “Temos um longo dia pela frente. Em breve estaremos em Pico Infinito, e lá você será Leyton, meu mais novo escudeiro.” Hector não gostava do nome, muito menos da ideia. Não que conhecesse o Senhor local, mas seu corpo claramente não era apto para luta, e indagou: “Melhor que eu seja seu escriba, pois não sei manejar uma espada.” O cavaleiro não riu dele, nem o menosprezou, ao contrário, aprovou a ideia. “Leyton, o escriba. Responsável por anotar os grandes feitos do Bastardo de Prata. Começando pela a estória do Resgate do Cão.” Ele brincou. Seu humor mostrara-se sádico e inconstante, diferente de sua dura resistência. Assim, na pele de Leyton, um servo de castelo mal pago, chegou até o território Peckledon. Sempre fui um bom escritor de qualquer forma, minha mãos estarão eternamente sujas de tinta.
Entre a torre e um muro baixo, uma grande feira circulava o perímetro, abarrotada de gente estranha e armada. Cruzaram por barracas de peixes, de especiarias, de cânhamo, de vestes, de jóias, de ferramentas, de brinquedos e até de pássaros. Ainda que com pouco destaque pelo disfarce, a montante de sor Sargon chamava atenção pelo seu comprimento e coloração. Diante disso, Hector jurava que seriam interrompidos por alguns guardas mal encarados, mas para sua surpresa, o bastardo era um conhecido local e só pararam quando o Lorde Peter Peckledon foi alcançado, no último andar da ventilada edificação.
O interior de seu salão era repleto de tapeçaria púrpura escura, com estrelas em fios de ouro. Hector não notou outros brasões se não o próprio de Lorde Peter, um homem de meia-idade, barrigudo, de costeletas avantajadas e pestanas brancas, todo envergado em seu manto brilhante de cetim com uma mistura de peles bordada ao longo do pescoço. Algumas belas damas estavam presentes, assim como três jovens que o Clegane julgou serem pajens. Não houveram apresentações, todos retiraram-se na presença do Bastardo de Prata. “Sor Sargon Hill, demorou bastante em sua missão, imaginei que a tivesse esquecido.” Na hora que ouviu isso, o coração de Hector palpitou, mas ele logo descobriu tratar-se de outra tarefa, que seu salvador não dividira com o escriba. O bastardo entregou uma carta ao lorde, dizendo: “Senhor Peter, a missão foi cumprida. Aí está sua resposta.” O lorde corpulento não abriu o pergaminho na frente deles, mas sua curiosidade chegou até Hector. “Tens um novo escudeiro? O que houve com seu último?” Levantou a voz em direção ao Clegane que estava praticamente escondido no fundo do salão. Os olhos de sor Sargon o alcançaram com reprovação, mas em um gesto, ele solicitou que Hector aproximasse. “Este é Leyton, meu novo escriba. Registrará meus grandes feitos...” O lorde o interrompeu: “Seus grandes feitos, anh? O garoto é nobre? Parece bem cuidado! Aproxime-se rapaz.” Hector Clegane nunca esqueceria dos olhos inquisitores daquele Senhor, o mirando de cima a baixo, inclusive apalpando seus músculos. “Não serve para escudeiro mesmo. Temos um quarto, você e o garoto podem dormir aqui.” Sor Sargon negou: “Creio que minha jornada tem de continuar, pretendo encontrar meu escudeiro mais abaixo, na Vila Estribeira.” Foi quando o Lorde abusou de Hec. Escorregou sua mão nas partes íntimas do jovem, e todos puderam ver. Ele não soube como reagir àquilo, e Leyton, muito menos. “Se me dá licença, senhor.” Fora tudo que o bastardo dissera e eles rumaram para fora dali. Hector sentia-se usado, queria discutir com sor Sargon, mas o silêncio prevalecera. E aumentou quando se deparou com o elevador-de-bois por onde desceriam até o sopé da Vila Estribeira.
E agora, aqui estou eu... Acordando numa taverna velha e lamaçenta, esperando o retorno do cavaleiro para no mínimo, pagar minha estadia. Entretanto, seu quarto era tão xexelento que Hector esperava poder pagar lavando louça, ou o chão, caso sor Sargon demorasse muito mais. Já estamos na hora do galo e ele não apareceu. Calculou pela altura do Sol, ao observar o astro, escondido nas nuvens, da estreita janela de seu aposento. Cansado de esperar, o antigo emissário escolheu uma nova túnica para vestir, uma tarefa que mostrou-se difícil com um braço paralisado, e desceu para o térreo. Nos corredores, ganhou contato visual com a fornicação que ouvira a noite inteira. O cavaleiro me alojou em um prostíbulo. Foi a primeira coisa que pensou ao observar verdadeiros bacanais pelas brechas das portas. Lembrou-se de sua última transa, com Gwin Gyles, a sobrinha do delator. Na noite em que a filha caçula de Lorde Belick fora sequestrada, o antigo emissário esgotava-se no ventre da jovem, como se fosse um exímio libertino, tendo que tapar a boca dela para que seus gritos não chamassem atenção. Inesquecível. Acho que vivi tudo que eu tinha que viver em Monte Tigre. Refletiu.
Ao chegar no balcão térreo, notou movimento na cozinha, mas preferiu passar desapercebido e caminhou até saída. Ninguém o interrompeu, atravessou as portas-duplas e chegou em uma varanda que não lembrava ter passado ao entrar, com redes e mesas. Muita poeira era levantada com o grande movimento de carroças na avenida a sua frente. Havia um fluxo central de carroças mais pesadas, enquanto na calçada de cascalho, cavalos e mulas seguiam mais devagar. Mais perto ainda da varanda, andavam os pedestres amontoados entre as construções e a estrada de carroças. Novamente, sentiu-se um fantasma. As pessoas não davam a mínima para ele e todos pareciam subir o Pico Infinito com suas mercadorias, atrasados para a grande feira. Por que alguém viria de longe para comprar algo nesta pacata feira? Hector se indagava ao tentar contar a quantidade de carruagens. De repente, como em um pesadelo, o Bastardo de Prata surgira a sua frente. Estava agaichado dentro da mesma capa, por isso o Clegane o reconheceu.
– O que está fazendo aqui embaixo, moleque?! Não lhe mandei ficar em seu quarto. – Quando brigou com ele, o capuz escorregou e Hector percebeu que o bastardo tinha apanhado bastante. – Onde está seu escudeiro, sor? O que houve com seu rosto? – Tentou tocar a face do cavaleiro orgulhoso e tirar a parte grudada do cabelo na ferida do supercilho, mas sor Sargon impediu. – Não toque em mim! Suba agora mesmo! – Ele parecia furioso, Hector obedeceu calado mais uma vez. Somente um empregado da cozinha os avistou subir os degraus para os cômodos superiores, o bastardo deixou um rastro de sangue no piso de madeira velha, mas o servo não deve ter notado, pois não se meteu. Lá em cima, sor Sargon explicou desabafando:
– Meu escudeiro está morto. Pobre rapaz, tão bravo. Mas este mundo não é mais um lugar para valentões... – Pareceu que continuaria, mas fechou as janelas e começou a desarmar-se. Hector tentou auxiliá-lo a desamarrar o peitoral, mas o bastardo parecia estar nos seus piores dias e o repeliu, dizendo: – Você é meu escriba e não meu escudeiro, moleque. Acabei de lhe dizer uma frase digna de uma canção... Eu sei me virar. Eu vinguei Joseth, cortei suas cabeças com a Fio da Morte. – Hector permanecia apenas escutando. – Eu vinguei meu amigo. Você devia vê-lo em combate, era tão bom que eu prometi que Fio da Morte seria dele quando o sagrasse cavaleiro. Infelizmente, o rapaz não sabia defender-se... Por isso mesmo não o sagrei. Ainda que não utilize escudo em combate, um verdadeiro cavaleiro deve saber usar. Encontrei seu escudo no covil dos bandidos, não tinha um arranhão... Ele não usou o maldito escudo! – O Clegane não sabia o que dizer perante as queixas e desabafos do bastardo, que conforme falava, ia se preparando para um longo descanso no leito onde Hector havia dormido. Várias partes do corpo do homem estavam cortadas, porém nenhuma delas parecia estar sangrando muito. São feridas antigas? Hec não entendia. – Tenho uma missão pra você, Leymon. – Ele disse antes de fechar os olhos. – É Leyton, sor. – Corrigiu o cavaleiro.
– Leymon, Leyton, tanto faz... Ambos sabemos quem você é, cão. – Sor Sargon falou.
– Mas eu pensei que fosse para... – O Clegane ia justificando-se, mas o bastardo o cortou:
– Escute com a atenção o que vou dizer. Você subirá até a Torre Peckledon e guiará o meistre de Lorde Peter até aqui. Nós dois precisamos de seus cuidados. Pegue na minha bolsa quatro dragões de ouro, isso com certeza convencerá o Lorde Estrelinha a ceder seu curandeiro. Entendeu? – Perguntou por fim. Hector não acreditava no que acabara de ouvir.
– Mas eu também estou ferido, não sei se consigo. E você viu o que Lorde Peter fez comigo... Se eu subir sozinho... – Queixou-se, fechando o semblante.
– Escute, moleque. Não há ninguém em quem eu possa confiar nosso ouro além de você nesta bosta de Vila. Portanto, você terá que servir. Nem parece ser filho do homem, não herdou a coragem de seu pai? – O cavaleiro indagou. Aquilo irritara Hector, que odiava seu pai Lorde Hothor. Ele nunca fora um pai de verdade. Então foi até a mochila do cavaleiro, e não pegou apenas alguns dragões de ouro, como toda a sua bolsa de moedas. Melhor garantir uma viagem rápida até lá em cima. Pensou ao lembrar-se da avenida de carroças. Sem despedir-se do cavaleiro que tentava descansar, Hector deixou o quarto. Lá embaixo, teve que dar uma breve explicação para o taverneiro sobre o sangue no piso, mas o mesmo aceitou um punhado de vintens pela sujeira. A bolsa está cheia. O ouro de Milly está aqui.
Fora do Pulgas, Hector rapidamente encontrou um grupo de carroceiros parado em frente a um chafariz seco e empoeirado. – Senhores, bom dia. Algum de vocês faria a gentileza de me levar até a torre Peckledon? – Saudou com um sorriso. – Olha, o pombinho está machucado. Quem quebrou sua asa? – O mais forte deles debochou. – Isto é apenas uma torção. Nada que um nobre como eu não aguente. – Hector deixou escapar e logo um deles perguntou:
– Você é algum nobre, menino? – O Clegane gaguejou, lembrando-se que devia ser Leyton, o escriba. Para sua rara sorte, um deles parecia ser sensato e disse: – Haha, não ligue para meus amigos, eles não tem modos. Me chamo Narak e vou levá-lo até o topo, sinhô. – Todos pareceram calar por respeito a Narak.
– Pensei que teria que acionar aqueles guardas. – Hector disse apontando para os lanceiros armados na outra extremidade da praça. – Não será necessário, venha comigo. – Eles andaram lado a lado, cruzando por algumas carruagens até que chegaram em uma carroça pequena, guiada por uma mula. – Oh não, não... Me desculpe... Preciso chegar mais rápido.
– Ninguém faz este trajeto mais rápido que eu e Bolly. Somos lentos mais subimos pelas vielas mais íngremes da Vila Estribeira. É bom que o sinhô não vai saculejar muito, se é que me entende. – Afirmou exibindo um sorriso desdentado. – Está bem, vamos. – Hector não tinha muito tempo a perder, e o homem pareceu honesto.
Mas não era. Alguns metros depois, depois de um papo torto do carroceiro pedindo que Hector o ensinasse a escrever, a portinhola da carroça se abriu. Verdadeiros criminosos o cercaram e bateram em seu braço torcido. Hector tentou gritar por ajuda, mas tudo que conseguiu fora jogar-se para fora da cabine. Então sentiu um forte impacto na testa e seu mundo enegreceu.
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