Ellyot

Um dia havia se passado desde que seu tio lorde regressara com o corpo de sua filha mais velha, Belle Belvedere. Um dia como a maioria dos dias do Estranho, de luto e silêncio, negro, mas não vazio. Muita coisa aconteceu e Ellyot não saberia enumerá-las. Mas recordava-se agora de cada uma delas.


O primeiro drástico acontecimento fora antes mesmo do lorde retornar, Lyz fora salva por Daronn, mas enquanto seu primo herdeiro salvava sua amada, a fortaleza foi atacada. Elly permaneceu na Torre Nobre com sua tia Senhora Olga e sua mãe Fiora, protegendo-as. O conflito não chegou até ele e no final, descobriu tratar-se de uma emboscada de criminosos que acabou distraindo toda a guarda remanescente do castelo, permitindo assim a fuga do cão Hector Clegane. Eu devia ter capturado ele, certamente meu tio me faria cavaleiro. Algum ouro também fora roubado, mas a maioria dos bandidos fora morta ou capturada. Nossa única perda foi Sor Silas Sarsfield. O antigo escudeiro de sor Belick, quando o mesmo ainda era herdeiro. Morreu honrasamente nos cofres Belvederes. Assim, Elly ficou sabendo.


Nesta mesma noite, Ellyot procurou sua prima em seus aposentos, mas a mesma não quis saber dele, ignorando-o. Ele ainda está transtornada com o sequestro. Ele concluíra na hora e respeitou. Através do herdeiro, ficou sabendo que ela não foi ferida ou violentada, apenas feita refém de um criminoso chamado Corvo Branco, pois Abelar Greenfield a vendera a ele.


Com a chegada do Lorde na manhã seguinte (sem seu pai), as notícias da derrota do Grisalho e da morte de seu irmão sor Gullian também vieram para o deleite de todos na fortaleza. O Senhor-do-Ferro também trouxe um novo protegido, Leonydas Lydden, um texugo ruivo e cantor. Além de Julliet Peckledon, a herdeira de Pico Infinito. Tais convidados não provaram de muitas honrarias naquele dia funebre, mas a manhã do Dia da Mãe finalmente chegara e como de costume na família dos tigres, um calmo cerimonial, em homenagem a Isabelle Belvedere e Sor Silas Sarsfield, foi feito com amor e alegria. Não haviam mais lágrimas a serem derramadas. Exceto minha mãe, que permanece angustiada com a detenção de meu pai em Den Profundo, mas o nosso mestre-de-armas sabe se cuidar. Elly pensava.


Todos estavam reunidos no grande pátio da fortaleza, bem vestidos e perfumados. O sangue da batalha ocorrida dois dias antes já havia sido completamente varrido e a enorme quantidade de pessoas brindando a vida de Belle e aos feitos de sor Silas apagava as memórias ruins e recentes. Várias receitas de pães recheados foram servidas, assim como vinho e sucos para os menores. Ellyot já tinha dezessete anos e podia beber, seu olhar não desgrudava de Lyz ao lado de sua mãe num palanque de madeira-negra montado, onde também sentava-se seu tio Lorde Belick. Ela não olha pra mim... Será que me condena um covarde? Seu coração doía dramáticamente diante do gelo de Lyz. A cadeira destinada a seu primo Ronn estava vazia e Ellyot sabia o porquê graças ao seu avô Brumm que confessara a ele na noite anterior que Daronn seria sagrado cavaleiro após o cerimonial, na Assembléia do Lorde. E eu serei seu escudeiro. Imaginava, apesar da pouca proximidade dos dois, já tinha este plano traçado a algum tempo com o primo. O primeiro a ser cavaleiro, fará o outro escudeiro. Assim os dois alcançariam seus objetivos mais rápido. Com a aproximação deste evento, Ellyot parecia ser o mais ansioso dos tigres presentes na cerimônia, mas não o que mais bebia. Como sempre, seu tio Avahan, que retornou do exílio, bebia ao lado dos grandes barris, para não perder tempo.


Seus irmãos mais velhos Elder e Evert preparavam os tão esperados assuntos na Tribuna, enquanto o mais novo Erick, brincava com seus cães treinados diante dos cavaleiros. As bandeirolas de várias casas estavam expostas ao longo das ameias, dando um clima de torneio ao pátio, recordando-lhes da aproximação do grande evento em Harrenhall. Uma grande atenção estava voltada ao bastardo do lorde, seu primo Edric, que trouxera sua amante e suas duas filhas para a fortaleza, e o Senhor-do-Ferro abraçou todas elas como da família. Ellyot sabia que a Senhora Olga estava repudiando tal ato, já que nunca amou o bastardo como filho. Se essa tal de Myriah ficar por aqui, terá que fazer sua própria comida. Ele previa diante das miradas maléficas de sua tia para a saliente esposa do capitão. De repente, as notas de uma canção conhecida soaram e o balbúrdio da festa migrou para um murmúrio, e quando os primeiros versos foram cantados pelo Texugo-Vermelho, todos calaram-se.


E quem é você, disse o altivo senhor,
A quem eu devo me curvar tão baixo?
Apenas um gato com um manto diferente,
Essa é toda verdade que eu sei.


Em um manto de ouro, em um manto vermelho,
Um leão ainda tem garras.
E as minhas são longas e afiadas, meu senhor,
Tão longas e afiadas como as suas...


O tão conhecido e famoso refrão chegaria, se o músico não fosse bruscamente empurrado pelas costas. O herdeiro, trajando uma nova armadura polida e uma longa capa azul-marinho, que interrompeu-lhe. – Não cante esta canção! Não é o momento pra isso. – Claramente, Daronn ainda não superava a morte da irmã mais velha. – Enquanto houverem cordas, haverão as canções que eu quiser tocar, tigre. – O Texugo-Vermelho respondeu com arrogância nivelada. Então, com uma fúria incompreendida, Ronn pegou o banjo das mãos de Leonydas e o partiu em dois com uma joelhada. – Não há mais cordas... Imagino. – O cantor olhou para o lorde em seu palanque. O Senhor-do-Ferro ficou mais quieto do que devia, então Edric intercedeu. – Eu gostaria de fazer um brinde diferente! Não a minha linda irmã Belle ou ao destemido sor Silas, mas a este jovem herói! Daronn Belvedere! Que com sua rebeldia e audácia, resgatou nossa irmãzinha do crime. – Todos aplaudiram, esquecendo-se do escândalo que estava para começar. O herdeiro abriu um enorme sorriso e começou um discurso:


– Tive a honra de convidar os verdadeiros heróis para esta cerimônia, por isso estamos tão numerosos hoje. Taulian Hill, um pai sem igual e bravo guerreiro, matou três bandidos e feriu um quarto, apresente-se amigo! – O camponês carrancudo ganhou espaço entre os demais ao seu redor e foi devidamente aplaudido. – Clow Deviles, talvez o pastor mais esperto de nosso povo, que guiou nossa gente como ovelhas para cima dos inimigos, cercando-os e impedindo a morte de muitos inocentes. – Um homem de meia-idade, com um bordão e um queixo enorme, sorriu em direção a Daronn, levantando seu caneco de cerâmica. Todos saudaram o homem, inclusive o Senhor-do-Ferro. – E como não falar em Lem Pestanas? O sagaz e humilde caçador que agiu como um verdadeiro arqueiro, dando-nos cobertura com seu arco e possibilitando minha investida no inimigo! – Quando pontuou, o herdeiro parecia fazer um discurso de guerra, apesar de estar muito menos afoito que sua plateia calorosa e bêbada.


– Todos serão recompensados por seus bravos atos. – Lorde Belick levantou-se do assento no palanque. – Sigam-me até a Tribuna, onde farei as devidas premiações. – Mais uma onda de aplausos e a ansiedade transformou-se numa besta que devorava o interior de Ellyot. É chegada a hora... Ele olhou para seu primo, que estava cercado de bons amigos e pouca atenção lhe deu, assim como sua amada prima, que descera do palanque com a Senhora Olga sem lhe direcionar nenhuma piscadela ou palavra. O que foi que eu fiz? Culpava-se bastante.


A Tribuna dos Tigres estava tão decorada quanto o pátio lá fora. Só que por ser bem menor, lotou-se rapidamente e a maioria da plebe ficou do lado de fora, observando a assembleia interior. Ellyot conseguiu um bom lugar na segunda fila, entre seus irmãos Evert e Erick. O arauto do Senhor-do-Ferro logo soou e as formalidades começaram. Seu irmão mais velho, Elder, o novo castelão, se adiantou e num tom de tenor, começou a introduzir Belick pelos títulos, os reais e os caprichosos: – Contemplem o Senhor-do-Ferro Ocidental, Escudo do Povo Estrangeiro, Protetor do Monte, a Perdição de Maelys Blackfyre, o Tigre-de-Ferro, Lorde Belick Belvedere, primeiro de seu nome e Senhor da Fortaleza Belvedere. – Todos ajoelharam-se enquanto seu tio tomava lugar no cadeirão dos tigres. Assim como sua esposa e seus dois filhos. Daronn e Lyz.


Com um gesto, Lorde Belick colocou todos a vontade e começou: – Neste último Dia da Mãe do Ano da Falsa Primavera, trago-lhes notícias boas e ruins. Como todos sabem, minha primogênita faleceu em seu parto, mas deixou-nos seu filho: Grelic. Uma criança que está sob custódia dos Cleganes até que possamos trocá-la por Hector. – Todos ouviam em silêncio, Ellyot percebeu o olhar direto do Senhor-do-Ferro para o Cavaleiro das Amoras, sor Eddison Turnberry, que ficara responsável pela Fortaleza em sua ausência. Mas a princípio, a maioria parecia não notar a ausência do emissário real. – Por outro lado, anuncio hoje a futura chegada de um novo tigre: Elgon Belvedere, meu quarto filho que cresce forte a cada dia no ventre de minha Senhora. – A platéia saudou posivitamente, aplaudindo. Que boa notícia. Elly pensou. – Decreto que, em virtude da demora da primavera, Olga deve ter este filho em seu lar, Forte Felino, na Campina. – Sua tia pareceu de acordo com a ideia, sentada ao lado do lorde, esbanjou um simpático sorriso. O Lorde Belvedere continuou: – Também é do conhecimento dos presentes que sor Abelar Greenfield fora condenado um traidor e destituído de seu posto de Alto-Cavaleiro. Coube-me a difícil tarefa de escolher entre meus cavaleiros mais confiáveis um substituto a altura. – Uma pausa e Ellyot podia jurar que o nome de seu pai, Elmmer II, seria mencionado. Todavia, estava enganado. – Sor Avahan Belvedere, o Tigre-do-Leste, apresente-se. – Seu tio, que apesar de bêbado tinha os passos firmes, submeteu-se diante do seu senhor, no centro do salão. – Juras perante os deuses e a vida de tua família, que com teu martelo, defenderás esta Fortaleza e guiarás a Cavalaria Belvedere sob quaisquer circunstâncias? – Pelo tom de voz do lorde, ele esperava qualquer resposta de seu irmão, mas o tão esperado sim veio. – Juro solenemente, meu senhor. – E assim, um novo Alto-Cavaleiro tomou posse no Monte Tigre. Meu pai sentiria isto como uma ofensa, Elly agradeceu a ausência dele por um instante.


– Já seu escudeiro e meu sobrinho, Romney Brax Belvedere, é acusado em Den Profundo de ter aleijado o segundo filho de Lorde Lyonel Lydden e deverá ir até lá sofrer julgamento. Eu mesmo serei um dos juris, mas por hora, Romney está destituído de seu cargo de escudeiro.

Aquela afirmativa pareceu alegrar bastante seu primo Rom, mas Avahan fechou o semblante.


– Anuncio também nesta corte, minha intenção de nomear meu filho Edric Hill um legítimo Belvedere por ter auxiliado no resgate de sua irmã através de sua coragem e experiência. Solicitarei isto ao nosso Rei Aerys II pessoalmente em Harrenhall. Levante-se filho, e diga-me se aceita tal honraria? – Na primeira fileira, o capitão dos Sombras do Monte, trajando seu melhor manto de pele-de-tigre e sorriso disse: – Será uma honra, pai. Nunca deixei de ser um Belvedere de qualquer forma. – Alguns riram e a maioria aplaudiu Ed, mas ao lado do lorde, a Senhora Olga torcia-se de raiva na cadeira, Elly pôde ver. Enquanto Daronn esbanjava um semblante confuso e Lyz sorria perfeitamente. Depois de um abraço entre pai e filho, a Assembleia deu seguimento: – Não foram apenas as flechas desse capitão que garantiram a segurança de minha família e do meu povo, – direcionou o olhar para seu outro primo na primeira fila – levante-se Lucyus Brax Belvedere, antigo capitão dos Flechas Azuis e novo Comandante-Adido na Vila do Estrangeiro. – O misterioso primo levantou-se, mas com ele, levantou-se um gorducho veterano em cota-de-malha.


– Meu Senhor, como Comandante da Infantaria Belvedere, tenho de ser contra tal ato. – Com ele, outro homem reinvidicou: – Como Comandante da Artilharia Belvedere, estou com Ullon Thuriel e não aprovo tal promoção ao meu capitão, pois o mesmo é acusado da morte de inocentes na Vila do Estrangeiro. – Então um balbúrdio semelhante a cerimônia anterior instarou-se. O Lorde imponente em seu cadeirão de rocha sólida, quebrou o tumulto:


– Silêncio. Tais alegações serão examinadas por mim. Por hora, continuarei as promoções. Lucyus, sente-se, por favor. – E assim, num total constrangimento, o arqueiro fez. – Por fim, devo agraciar meu filho legítimo por ter sido o herói que vocês todos já sabem. – Ele virou-se para o lado para encarar o sorriso orgulhoso de Ronn. – Mesmo quando eu lhe ordenei para esperar-me, você agiu com o nosso famoso ímpeto e trouxe-nos dias melhores, por isso, levante-se Daronn Belvedere. – O próprio lorde levantou-se com ele. É agora. Ellyot estava de dedos cruzados. – Nomeio-lhe cavaleiro. Dê-me Dente-de-Sabre. – Enquanto o herdeiro abria o manto para desembanhar a famosa espada lendária, um septão aproximava-se com uma bacia repleta de óleo. Ellyot desejava estar no lugar do primo, mas sabia que agora seria apenas uma questão de meses. – Repita as palavras comigo, filho. – O ritual tão decorado por Elly começou. O Senhor-do-Ferro ergueu o fatal e afiado aço valyriano que reluziu de maneira esplêndidas com as luzes da manhã que invadiam o salão da Tribuna. O septão jorrou a primeira pincelada de sete óleos naturais no peito aberto do herdeiro. Conforme seu pai encaminhava as palavras, tocava a ponta de Dente-de-Sabre nos ombros de Daronn, esquerdo e direito, alternando. Seu primo repetiu as palavras com firmeza e determinação, sem vacilar. Ellyot também sussurrava os votos, bem baixinho. A cada pontuação, uma nova pincelada de óleo abençoava seu primo.


– Em nome do Estranho, juro Misericórdia; Em nome da Velha, juro Sabedoria; Em nome da Donzela, juro proteger todas as mulheres; Em nome do Ferreiro, juro Resistência; – Começaram a falar em uníssono, como pai e filho, por decorarem os votos. – Em nome da Mãe, juro proteger os mais fracos; Em nome do Guerreiro, juro Bravura e, em nome do Pai, juro acima de tudo, Justiça. – O Senhor-do-Ferro entregou a espada ao mais novo cavaleiro e saudou: – Levante-se como um homem, levanta-se como um cavaleiro, sor Daronn Belvedere, a Muralha do Monte Tigre. Todos aplaudiram e ficou evidente que sor Daronn começaria um discurso, mas seu pai o interrompeu, calando a todos e continuando: – Não fará sua vigília. Pois tenho uma ordem que você não poderá abster-se. – Ordem? Elly estava surpreso.


– Consagro-te Escudo Juramentado da Senhora Olga Lyberr Belvedere, sua mãe. Caberá a ti, a missão de escoltá-la até Forte Felino, aguardar o nascimento de teu irmão e após isso, reunir nossa família em segurança em Monte Tigre. – Seu tio sentenciou. Daronn estava boquiaberto e com a respiração exaltada. Isso significa que não iremos para o Torneio de Harrenhall. Ellyot entendeu a fúria de seu primo. Todavia, para sua surpresa, o herdeiro estava por demais satisfeito com a honraria e não arriscou um ato rebelde, apenas solicitou:


– Será uma honra ser o Escudo Juramentado da Senhora Olga, senhor. Tal missão será devidamente cumprida. Terei a disposição um pelotão, imagino? – Lorde Belick sorriu satisfeito com a réplica e respondeu: – Trinta lanceiros, vinte arqueiros, uma esquadra de respeito.


– Meu Senhor, tenho sua permissão para fazer algumas nomeações para esta tropa imediatamente? – Ele vai me nomear seu escudeiro. Elly tremia nas extremidades. Irei com eles para Forte Felino, Lyz deve ir também. Torcia. O herdeiro pegou o pai de surpresa, mas ele afirmou com a cabeça, então sor Daronn continuou: – Gostaria de nomear um capitão para minha infantaria. Que o Comandante Ullon Thuriel permita-me desfalcar seu contingente com a retirada de um de seus soldados, Torgon, aproxime-se. – Um homem alto e troncudo, de barba mal-feita e pele morena, com uma clara experiência em batalha, levantou-se e caminhou em direção ao centro do salão. – Aceita tal honraria? – O comandante Ullon levantou-se em sua cadeira. – Eu permito, soldado. – E Torgon contagiou todos com um sorriso abrupto e cômico, sendo aplaudido pelos demais. – Faremos um brinde a isso! – Ele saudou e a euforia aumentou. – Também quero eleger meu escudeiro de imediato. – E todos acalmaram-se para ouvir a continuação das promoções, menos Elly, que estava a ponto de desmaiar. – Que venha até mim um amigo, – somos mais que isso, somos primos, sangue-azul, – um rapaz que mostrou seu valor na última emboscada que tivemos neste mesmo salão, há menos de dois dias atrás. – Sim, eu protegi nossas mães. Ellyot estava com o peito inflamado de orgulho. – O escudeiro que derrotou sozinho dois criminosos, prendendo um terceiro. Aeron! – Os aplausos ensurdeceram Ellyot, que sentou-se sozinho no banco, desolado. Quase desmaiou... Quem é Aeron?

Notas finais
Espero que gostem!