Notas iniciais
Este é o capítulo favorito do jogador Igor Callazans, dono do personagem Daronn.

Daronn

Camponenes de todas as classes estavam presentes, rostos conhecidos e estranhos. Mercadores, ferreiros, praceiros, caçadores, chaveiros, fazendeiros, tecelões, pedintes, taverneiros, artistas, pedreiros, mineradores e até um septão. Famílias inteiras da Vila do Estrangeiro e era exatamente o amor paternal que Daronn esperava despertar naqueles corações. Para seu pesar, não haviam guardas, apenas a sua gente comum. Alguns eram apenas curiosos, mas a maioria erguia os archotes e olhares na direção do herdeiro. Tenho a atenção deles. Então, em meio ao vento úmido do anoitecer, seu discurso começou.


— Ó Povo Estrangeiro! Há setessentos anos nós moramos aqui. Em Monte Tigre, fazemos nossas vidas, extraímos nossas colheitas, criamos nossos filhos. – Daronn tinha todo fôlego jovial do mundo. Continuou: – Somos família buscando prosperar. Somos um em prol de todos e sempre seremos. – Ele queria arriscar a participação de seus ouvintes, mas sabia que ainda era cedo, seus observadores permaneciam capiciosos.


— Somos todos tigres, todos temos o ímpeto dentro de si. – Diante daquela afirmação, Daronn notou alguma desistência. Eles não se vêem como tigres. Imaginou, então apelou: – Vocês sabem quem eu sou! Sou o futuro governante de suas terras! Sou o futuro Lorde Belvedere, Senhor-do-Ferro. Eu tenho ouvido muitos de vocês no salão de meu pai. – Mirou onde já sabia que encontraria um conhecido: – Veja se não é Clow Deviles? O pastor que teve suas ovelhas furtadas? Nós não lhe recompensamos? – Clow balançou a cabeça positivamente e o herdeiro sentiu alguns sorrisos de satisfação em sua direção. – Taulian Hill, não foi seu filho que caiu numa cilada de jogos? Benner, onde está ele? Lembro-me que o salvei, pagando sua dívida. – Infelizmente, o garoto de quem o herdeiro falava, não estava ao lado de seu pai. Então as silhuetas de um recém-conhecido chamaram-lhe a atenção. – Aí está! Lem Pestanas! Eu acabei com a fera que matou seu líder ontem a noite! Ainda tenho ferimentos da batalha... – Ouviu alguns camponeses comemorarem sua afirmação. Está dando certo. — A família Belvedere governa esta terra há séculos e nunca permitiu que nada faltasse a seus ancestrais, assim como agora, eu não permito que sejam enganados, ameaçados, chantageados ou até assassinados. – O silêncio instarou-se na forma de medo. – Sim... O crime assola nossa Vila novamente. Levaram uma de nós. Minha irmã Lyz de treze anos. – Daronn tinha certeza daquilo. A carroça de Edgard Cupim. Era ela, era minha irmã. Assim, ele também tinha uma direção a seguir. – Podia ser a filha de qualquer um de vocês, mas não... É pior que isso! – Alguns pestanejaram diante de sua declaração, mas ele logo explicou: – Se levam a filha do Senhor-do-Ferro, certamente, levarão a filha do taverneiro, do pedreiro, do pastor. Vejam a que nível chegou. – Pela primeira vez Daronn ouviu alguém gritar: – Um absurdo! – Em direção àquela voz, ele somou: – Sim! Um absurdo que não podemos aceitar!


Os archotes levantaram-se e ele ouviu um grito de clamor inédito em sua vida. A força daquele grupo ao seu redor, gritando a seu favor, arrepiou-lhe por inteiro. Aquilo serviu-lhe como estímulo, Daronn deu seguimento: – Hoje iremos fazer mais do que combater o crime com as próprias mãos! – O herdeiro pousou o punho no cabo de sua espada valyriana, alguns gritaram em seu apoio. – Hoje iremos defender nossa família! Quem sequestra crianças não tem lugar entre nós! – Um brado intenso por parte dos mais velhos ressoou diante dele.

— Levantem seus machados! Ergam suas foices! Que seja o nosso sangue e não o de nossos filhos! – Daronn sentia o peso que cairia sob sua família se Lyz nunca mais fosse encontrada.


— Vamos pegá-los! – Um gordo, com avental de padeiro, gritou e outros gritaram com ele.


— Eles vão pagar por isso, senhor! – Uma menina berrou em seguida, estridentemente.

— Somos todos tigres! – Lem Pestanas destacou-se ao afirmar, o caçador olhava intensamente para Daronn. Eu paguei sua dívida. Obrigado... Amigo. Agradeceu o apoio em pensamento, esperando que de algum modo, ele pudesse ouvir e entender.

— Este dia será datado como o começo de uma Era de Paz em Monte Tigre! Vocês estão comigo? – Finalizou esperançoso, brandindo seu aço lendário e todos, sem exceção, responderam ao seu chamado. Lyz, eu vou salvá-la. Ele a amava tanto que não podia conceber a ideia de perdê-la.


Conseguira o levante que desejava. Centenas de pessoas somavam-se em uma coluna organizada, seguindo-o com o calor de tochas em fúria, ancinhos afiados e picaretas pontudas. Por um breve momento, Daronn pensou na gravidade do que estava fazendo, em quantas vidas inocentes estava arriscando, mas isso logo passou, quando a esperança de rever sua irmãzinha preencheu-lhe o coração novamente. Sigam-me! Eu sei onde eles estão! – O herdeiro não contava mais com a companhia de seu primo Lucyus e seu irmão Edric. Ambos ficaram responsáveis por acionar a guarda da Vila, mas sumiram, assim como todos os soldados, o que deixava Daronn mais aflito. Seu alazão negro relinchou. – Sim, Fúria. Você está aqui comigo. – Os dois, homem e animal, pareciam um só ao avançar na vanguarda da plebe, imponentemente. O ímpeto é nosso!


Percorreu ruela a dentro, subindo barranco e somando mais gente a sua causa. Todos me consideram, todos me amam. Daronn pensou. Finalmente, um guarda apareceu, pra sua sorte, um conhecido: Torgon, da noite anterior. Justamente na hora em que o herdeiro escolhia alguém confiável, talvez Lem Pestanas servisse. Mas a guarda era a guarda, soldados são mais confiáveis. – Soldado! Que bom encontrá-lo! Junte-se a mim. – Convocou imediatamente. Da altura do cavalo, o homem parecia pequeno diante dele.

— Sim, senhor! Imediatamente!


— Para que lado fica a casa do carpinteiro Edgard Cupim? – Tentou não falar tão alto, para que nem todos da coluna próxima o ouvisse.

— Estamos perto! É por aqui. – E o fiel militante abriu caminho como novo guia.

Mais alguns metros a frente e iria arrepender-se disso, mas como eu saberia? Daronn pouco fora levado no povoado em sua infância, estive mais vezes no Bigode do Tigre do que na Vila do Estrangeiro. Refletiu ao perceber que não recordava-se dos lugares por onde passava, e assim, os virotes vieram dos terraços e varandas, surpreendendo-lhes. Não a ele, que notou alguns segundos antes e ainda ordenou que Torgon se protegesse, mas o soldado não teve tanto reflexo e foi alvejado. Quantos virotes Daronn não saberia dizer, mas sem pensar naquilo, avançou com Fúria (que trajava uma grossa barda) para proteger o lanceiro de futuros projéteis. – Peguem eles Povo Estrangeiro! – Ordenou e a população seguiu suas palavras instantaneamente, invadindo os estabelecimentos clandestinos. No fim da rua, entre dois casebres com lojas no térreo, estendia-se um chalé com um enorme quintal. Lá, avistou seu irmão adentrar com alguns homens. Edric! Pensou em gritar, mas percebeu a cautela da tropa do capitão e manteve-se quieto, concentrado na defesa. Todavia, os virotes vinham em todas as direções e seu escudo estava bastante danificado, assim como a força de seu braço. Como Torgon ainda respirava, Daronn pôs-se na frente mesmo assim, sendo alvejado de raspão por três vezes, uma na canela e duas nas costas. Meu soldado não irá morrer hoje. Nunca havia perdido ninguém. E nem quero.


Na terceira chuva de virotes, o herdeiro já estava esperto quanto os besteiros mais certeiros e conseguiu evitar todo o dano, tanto nele quanto em Torgon, que resistia bravamente em seu encalço. Mesmo com o som da batalha, e com ele a clara evidência de confronto, seu irmão não retornou do chalé para ajudá-lo, o que muito o perturbou. Então, assim que os besteiros começaram o confronto com a população, Daronn avançou com Fúria, como se fosse um falcão entre as nuvens, com toda a velocidade e liberdade que lhe fora dado como dom. Encontrou vários disparos em seu caminho, um deles quase penetrou na cocha de seu alasão, mas a armadura de sua montaria prevelecera e o futuro cavaleiro ganhou terreno com facilidade.


Apesar de todos os ferimentos até ali. Apesar da poção de leite-da-papoula fornecida pelo mal caráter do meistre. Apesar da noite sem sono. Daronn estava inteiro e pronto para o combate. Ao aproximar-se do chalé, observou através das janelas o conflito que ocorria lá dentro, seu irmão parecia rendido, assim como seus homens. O herdeiro não pensou duas vezes, bateu as esporas em Fúria e ainda disse para seu alazão: – Derrube todos eles! Derrube todos eles! – Sabia que o animal podia sentir sua intenção e a prova era a forma como invadiu a casa de Edgard Cupim.

Como um touro endiabrado, seu alazão derrubou a porta com impulso e segundos depois, atropelou meia dúzia de bandidos no corredor. O herdeiro permitiu que o instinto do animal o guiasse enquanto descia Dente-de-Sabre num golpe vorpal, rasgando um dos oponentes na metade. Assim que o sangue jorrou, seu irmão disparou uma flecha, cujo alvo Daronn julgava ser o líder.

— Mate-o! É o Corvo Branco! – Edric afirmou apontando para o velhote de alta estatura, armado com uma lâmina fina e um punhal. O homem que trajava negro conseguira tempo para desviar da flecha de seu irmão, mas acabou por colocar-se na direção de Fúria, que o arrastou corredor a dentro. O grito agonizante das vítimas ficou para trás, Daronn abandonou o confronto ao rastejar o criminoso, encravando sua lâmina no ombro do homem e aproveitando-se do fulgor de seu cavalo naquele ambiente fechado.

O oponente só conseguiu libertar-se nos fundos da casa, após colidir e quebrar duas colunas de tijolos com seu próprio corpo idoso. Levou-me para o lugar certo. Daronn contemplou mais uma vez sua sorte ao ver sua irmã flaqueada por dois homens e Edgard Cupim. Ela estava amordaçada, mas não havia sinal de sangue em seu vestido. – Lyz! – Aquilo o distraíra e Corvo Branco recuperara-se para golpeá-lo com seu punhal, mas Fúria estava atento e desviou a tempo. Sua irmã tentou falar algo que a mordaça não permitiu, o espaço era estreito e seu alasão estava agitado, fugindo das facas dos bandidos enquanto o herdeiro errava alguns ataques com medo de ferir sua irmã. Assim, também pela primeira vez, Daronn e Fúria se desconectaram. O cavalo partiu em disparada para o quintal enquanto o herdeiro queria permanecer no conflito. Daronn não chegou a cair do cavalo, apenas saltou de forma desalinhada, evitando também, um novo golpe do punhal criminoso. A queda só serviu para acordá-lo mais e recordar-lhe de suas capacidades. Em um piscar de olhos, um dos bandidos que pensava usar sua irmã como refém, teve a ponta afiada de Dente-de-Sabre espetada no peito. Entretanto, no instante seguinte, Corvo Branco saltara com Lyz para fora dali, escapando-lhe por entre os dedos. Na ânsia de salvá-la, acabou sendo ferido pelo porrete do bandido que restou no pequeno quintal. O golpe quase o apagou, no entanto, o segundo veio de forma lenta e o herdeiro rolou para o lado. Não sabia se tinha força para levantar antes do terceiro ataque, portanto usou suas pernas para derrubar o inimigo. Ele e Daronn levantaram-se juntos, mas o bordão não era páreo para sua lâmina, que cortou madeira, pele, músculo e osso, no primeiro golpe. Ficou completamente coberto de sangue e nervoso. Lyz...


Encontrou sua irma mais a frente, depois de cruzar uma espécie de feira, onde alguns inimigos tentaram pará-lo, sem êxito. Um bigodudo teve o abdômem rachado e um magricela perdeu a mão. Ninguém é páreo para meu aço valyriano. Corvo Branco tinha dificuldade para arrastar Lyz, já que ela se debatia de todas as formas possíveis. Muito bem, irmãzinha. Os alcançou em um casebre praticamente vazio, jogando-se para cima dos dois, antes que o Corvo pudesse colocar a lâmina no pescoço de sua irmã caçula. – Nãããããããããooooooooooo!!!


O rijo velhote já estava todo quebrado pelo atropelamento, agora caíra de vez com o impacto da armadura de Daronn. O herdeiro também se ferira, assim como sua irmã, mas no fim do salto, ele estava entre os dois. Antes que o Corvo pudesse reagir, a lâmina valyriana encostava-lhe no pomo de adão. – Me dê um bom motivo para não te matar, Corvo Branco.


— E-Eu... Eu sou tão Belvedere quanto seu irmão bastardo. – Resmungou tentando se levantar pausadamente. De perto, Daronn podia ver que o homem tinha um aspecto formidável, músculos e armadura lhe davam a aparência de um verdadeiro cavaleiro.

— O que quer dizer com isso, criminoso? – Em um ato quase tolo, Daronn forçou a espada na guela dele, quase o matando, mas apenas cortando um pouco.

— Sou filho de Lorde Elder III Belvedere. O Fera-Negra. – Ele anunciou, fazendo a lâmina do herdeiro cair naturalmente, direcionando-se ao seu coração. Lyz moveu-se e Daronn arrancou sua mordaça, então ela gritou:

— Não o mate, Ronn, não o mate.


Lorde Elder III, o Fera-Negra. Ele lembrava-se. Seu bisavô que fora para a Muralha por ter desafiado os impostos Lannisters. Será possível? Ao perguntar-se, sua consciência pareceu ter encontrado as semelhanças de seu avô Egon naquele delinquente. – Ainda assim, raptou minha irmã! – O herdeiro insistiu, pensando mesmo em matá-lo. Não quero frustrar Lyz.


Ela não foi violada ou maltratada de forma alguma. Pergunte-a. – Seu tom de voz era perigoso, forjado como uma lâmina de traiçoeira. E Lyz gritou em concordância:

— Pare, Ronn! Ele não me fez mal algum!

Sua lâmina afastou-se do alvo, que sem pensar duas vezes, fugiu. Daronn quase foi atrás dele, mas precisava proteger sua irmã, agora salva. E suas feridas ardiam como brasas...


Quem apareceu no instante seguinte foi o Capitão Edric, seu irmão, com alguns de seus homens. Não olhou para Daronn, abraçou Lyz antes. Os dois também se amavam. Todavia, o herdeiro gritou-lhe sua última ordem: – Corvo Branco fugiu! Ele foi por ali! – Apontou para o fim do corredor escuro. – Alcance-o, irmão! – Edric tensionou sua flecha novamente e sumiu na escuridão.

Notas finais
Espero que gostem!