Os Tigres de Westeros
15 Belick I
Belick
Lembraria de sua filha eternamente com uma torta de limão nas mãos e o sorriso sujo, mas agradecido e admirável. E não como a vira morta. Toda curvada em um caixão pequeno e negro, os olhos arregalados de terror e os seios para fora por alimentar seu filhote até a última gota de vida. Mais uma Belvedere morta no parto. Uma eterna maldição. Belick lamentou profunda e intimamente enquanto cavalgava para longe de Den Profundo, o também amaldiçoado, castelo da família Lydden.
Em apenas uma noite, sua casa estava fora de controle. Seu antigo amigo o traiu levando sua filha caçula e possivelmente, trocando-a por ouro e homens como um traidor. Ele era o líder da minha cavalaria, lutou ao meu lado contra os Reis das Nove Moedas. Belick ainda não conseguia acreditar naquilo e não saberia exatamente o que faria quando alcançasse Abelar. E agora, não voltarei de mãos vazias, mas com o corpo da mais velha. Uma vontade de chorar quase que inevitável lhe veio, mas o lorde segurou. Estava ao lado de seus cavaleiros e não podia parecer fraco.
O céu estava completamente cinzento e a nova noite começava a alastrar-se no horizonte, mas a lua não podia ser vista. Imaginava se sua senhora podia vê-la da Torre Nobre, entristecida e ansiosa por seu retorno a Monte Tigre. Um dia, eu pensei que quanto mais aliados eu tivesse, mais protegido estaria. Agora sei que quanto mais amigos estiverem ao meu lado, maiores são as responsabilidades de mantê-los seguros. E o Senhor-do-Ferro falhara quanto a isso. Negou ajuda ao seu Alto-Cavaleiro e o mesmo fez o que fez. Mas pagará por isso. E os cães... Os cães verão o que farei com Hector. Belick aprendera a amar o rapaz protegido, mas a vida de sua filha fora entregue nas mãos de um meistre calouro e agora, ele pagaria na mesma moeda. Será que irei conseguir? Não havia uma culpa declarada sob os Cleganes, os Lannisters certamente não o apoiariam numa investigação. Essas questões e incertezas, esses pensamentos e pesares, circulavam pela mente do Senhor-do-Ferro na vanguarda de suas tropas. Até que um de seus batedores, Chuck, o mais alto, apareceu diante deles.
– Senhor, um acampamento. Samwell mandou avisar que há um acampamento mais a frente.
O batedores estava esbaforido, era um calouro qualquer. – São eles? Viram algum brasão verde? – Indagou seu soldado, que certamente não passava de um informante que sequer vira o tal acampamento. – Senhor, não sei dizer... Mas posso levá-lo até Samwell.
Seu irmão tomou voz sem permissão e disse: – Eu vou verificar. – Não era para ele estar ali, talvez por isso esteja tomando a iniciativa. Porém, Belick também percebia que Avahan não se sentia muito confortável ao seu lado, ainda se pune pelo passado. Sor Elmmer II, seu mestre-de-armas e primo, ficara sob custódia no lugar de Han no castelo Lydden. Lorde Belick não precisou ordenar, o mestre-de-armas ofereceu-se por espontânea vontade e no final das contas, o Senhor-do-Ferro achou uma boa jogada. Prefiro ter a força bruta de meu irmão ao meu lado, do que a antiga técnica de Sor Elmmer com a espada. No fundo, ele esperava que Abelar se entregasse diante do exército que trouxera. – Todos iremos. Certamente são eles, os cavalos precisam descansar. Vamos pegá-los. – O lorde queria por um fim àquela missão e retornar para suas terras. Já imaginava que sua filha caçula não estava mais com Abelar, devido as informações obtidas pelo ordinário Lorde Lyonel. O que meu pai faria? Indagou-se.
Seu falecido pai Egon havia sido um exemplo de Senhor-do-Ferro, quase um ídolo para Belick, e pensando em agir como ele, cavalgou Syrian com imponência e soberania, sua guarda de cavaleiros o seguiu. A noite caíra de vez e a neblina do inverno passado começava a planar sob a terra, Chuck desceu de seu garrano e sinalizou silêncio, Belick fez o mesmo e todos o seguiram, amarrando seus alasões e palafréns nas finas árvores espalhadas pela mata.
– É por aqui, senhor. – O batedor seguiu por um terreno tortuoso, subindo declives de barro ainda molhado, cercados por matagais baixos, mas traiçoeiros com seus espinhos. Fizemos bem em não vir a cavalo. Belick constatou, pensando em promover o batedor quando tudo aquilo acabasse. Somente quando chegaram no final da trilha improvisada que o lorde entendeu por que saíram tanto da estrada.
No gume deste planalto, estava Isaac, seu capitão dos Sombras do Monte, agachado e ladeado por alguns de seus homens, entre eles, Samwell. Assim como seu pai, Belick gostava de decorar o nome de cada um dos integrantes do seu exército. No entanto, não sabia o nome dos outros três guerrilheiros presentes. Agachado, os alcançou. Então observou a vista de lá de cima. Tendas acanhadas formavam um acampamento escondido entre o penhasco onde estavam e uma densa mata que dividia as terras Lydden com a Estrada do Ouro. Irão para o Vale da Prata ou para as terras Clegane? Aquela dúvida soou em sua mente assim que os viu. Belick conhecia o objetivo de Abelar, mas não os meios que ele traçava para alcançá-lo. De qualquer jeito, acaba de falhar. – Desceremos sobre eles, agora mesmo. – Os batedores se entre-olharam cabisbaixo e Avahan disse: – Irei informar os cavaleiros. – O capitão Isaac pestanejou: – Senhor, vejo mais de quinze tendas e trinta cavalos, eles estão em grande número... Não seria melhor esperar a coluna chegar? – A voz aguda e indecisa dele incomodava Belick. Ele não tem ideia de quantos somos. O Senhor-do-Ferro havia deixado um terço de seus infantes em Den Profundo, uma esquadra para proteger meu primo. Além disso, estavam longes demais e acabariam com o fator surpresa. Belick Belvedere já havia lutado em uma guerra, ao lado de Tywin Lannister e Aerys II Targaryen, o Rei. Penetraremos facilmente este fajuto acampamento ilícito.
O capitão e seus homens o olhavam impassivos, foi então que o lorde dera-se conta de que deixara-lhes sem resposta. – Fiquem calmos, vocês só nos darão cobertura com suas flechas e virotes, caso for necessário. Daquele cume mais abaixo... – Apontou para a direção. – Podem ver? – Falava com todos, mas indagou diretamente o capitão, que respondeu: – Sim, senhor. Às suas ordens.
Avahan chegou com seus cavaleiros, eram ao todo quinze: Os primos Moreland e os primos Ferren, Axell Lorch, Breno Myatt e Frank. Além de seus escudeiros cuja maioria Belick assistia nos treinos, entre eles: Elron, Jason, Edwyle, Igon e Jonos. Todos bons rapazes e capazes. Sentiu falta de Daronn naquele momento, ansiava por tê-lo como escudeiro, sagrá-lo cavaleiro. Todavia, seu legítimo herdeiro demonstrava-se um tanto quanto ignorante, lembrando-lhe o comportamento temperamental de seu irmão Avahan quando adolescente. Eles se parecem tanto que se Avahan não estivesse no exílio, eu suspeitaria de traição. Associou sadicamente olhando para a figura de seu irmão caolho com um machado nas costas. – Homens. Vejam o que eu vejo ali embaixo. Nossos inimigos dormindo sob nosso ouro, sob nossa honra. Não vamos permitir que Abelar saia impune. Vamos enquadrá-los, vocês estão vendo a tenda verde e branca? É para lá que iremos de tocaia, vocês estão comigo?
Os primos Moreland, sor Leobald e sor Gerold, foram os primeiros a acenar positivamente, enquanto sor Avahan abriu voz: – Até o fim, irmão. – Belick gostou de ouvir aquilo, ele confiava em Avahan apesar de tudo. Sangue do meu sangue.
– Acabaremos com o Grisalho? – Perguntou o Gatuno do Montês, sor Breno.
– Não acha que ele merece? – Inflamou sor Narbert Ferren, o furão mais jovem.
– Apenas sigam-me, teremos cobertura dos Sombras do Monte. – Todos o obedeceram.
Como os verdadeiros tigres de Westeros eles invadiram o bivaque inimigo. Silenciosos e ardilosos, apesar das pesadas armas e armaduras que portavam, o barro molhado facilitava a cautela; Ferozes e impiedosos, quando encontraram os primeiros sentinelas de plantão, nocauteando dois e tirando a vida de um que quase gritou; Ágeis e objetivos, ao entrar no barracão verde e branco, rendendo o Grisalho no colchão de penas, totalmente desprevinido, assim como seu irmão sor Gullian e suas respectivas esposas. Logo os cães começaram a latir e a trombeta de alarme foi soada, mas o Senhor-do-Ferro e sua cavalaria já haviam dominado o líder traidor, que soou como um velho fracassado ao ser derrotado tão facilmente. E pensar que era meu Alto-Cavaleiro... – Abelar Greenfield, eu ordeno que entregue-me minha filha agora e ninguém mais morrerá. – A raiva sobrepujou seu tom de voz, deixando clara sua intenção de matar. – Lo-lor-lorde Belick! – O velho gaguejou.
Além das cortinas de linho, o Senhor-do-Ferro ouviu o diálogo entre seu irmão e Gullian:
– Você o ouviu. Onde está minha sobrinha? – O Tigre-do-Leste interrogou.
– Muito longe daqui! – Ele surrou com as palavras. – Não faça iss... – Então um barulho forte de impacto seguido do ronco grave de uma colisão. – Ele está bem. Não o matei. – Avahan informou já que Belick não tinha contato visual com ele, apenas sonoro.
– Onde ela está? – A fúria crescia em seu peito, ainda tinha alguma esperança e ela acabara de morrer com o confronto no quarto ao lado. – Ela está em Monte Tigre. – Confessou o grisalho para o pesar do lorde. – Você irá pagar por sua traição. – Afirmou com ira.
– Você também é um traidor, Lick, fui seu amigo de guerra, seu confidente, seu Alto-Cavaleiro, e até seu irmão quando o mesmo estava exilado. E quando um bastardo toma conta das terras de minha família, você prioriza um torneio imbecil do que a honra de meu nome? Você me traiu e os Deuses sabem disso. – O Grisalho desabafou ao lado de sua esposa Mercedess, que chorava silenciosamente. – Que seja feita a justiça dos Deuses então. Se o que fez foi certo, veremos. – O Senhor-do-Ferro guardou sua espada longa na baínha e desamarrou sua manopla, jogando-a no colo do traídor. – Eu lhe desafio para um duelo de Cavaleiros. Se eu vencer, tudo que você tem, exceto sua esposa, será meu, pois fora conquistado com o ouro da traição que lhe acuso. – Finalizou amargamente e o inimigo cerrou os olhos ao analisar seus termos. – E se eu ganhar? – Perguntou ousadamente.
– Todos os homens que eu trouxe até aqui estão comprometidos a sua causa, exceto eu. – E como Belick desejava, Abelar concordou previamente: – Termos aceitos, Belick.
– Me chame de Lorde Belick. E meus termos não acabaram. Seu irmão também é um traidor e irá lutar também. Como meu campeão, escolho sor Avahan, afinal ele também perdeu seu alasão em virtude das suas ambições e culpas. Quatro cavaleiros na mesma luta. Você aceita?
– Sim, Lorde Belick. – O Grisalho finalizou após engolir a seco alguma reclamação.
Uma hora depois, no meio da noite, a arena estava determinada por cerca de quatrocentos homens e seus escudos. No centro haviam uma grande fogueira cuja luz projetava a sombra dos quatro desafiantes de modo gigantesco. Sor Abelar escolhera a espada longa, assim como Belick. Mas do lado esquerdo, era a lança de sor Gullian contra o machado de sor Avahan. O quarteto aguardava o sinal da trombeta em silêncio, se entre-olhando. É até a morte, mas se ele se render, vou perdoá-lo? Belick estava furioso, não enxergava um amigo de duas décadas a sua frente, mas um criminoso que aproveitara-se disso para sequestrar a inocência de sua filha caçula. Vou matá-lo. Uma trovoada distante acabou por iniciar o combate, pois o estrondo do raio chegou até eles estridentemente. São os Deuses... O Senhor-do-Ferro pensou levantando o escudo.
Enquanto isso, o Tigre-do-Leste avançara em investida para cima de sor Gullian, que ergueu sua lança para impedi-lo, acertando-lhe o escudo. Abelar aproximava-se passo a passo, parando em posição de combate ao lado do fogo, Belick também caminhou em direção ao inimigo, girando sua lâmina longa com a mão direita. Não sabia dizer se o fervor que ardia-lhe o peito era devido a luta ou ao fogo central da arena, mas diferente de muitos guerreiros, Belick não se habituara a tal adrenalina e não gostava tanto de senti-la. Vamos acabar com isso. Lembrou-se de suas palavras, então agiu.
Gritando em fúria, atacou Abelar, acertando-lhe o punho da espada, sua manopla incrivelmente segurou a força do golpe e o velho tentou devolver um contra-ataque, mas encontrou a lâmina do lorde. Do outro lado, Gullian tentava ganhar campo para furar o Tigre-do-Leste, mas o mesmo já o cercava na quina noroeste da arena. Um golpe de cima quase partiu sua cabeça ao meio, mas Belick jogou-se para a direita e sentiu a força do Grisalho atingir seu ombro esquerdo, amassando sua placa e atingindo seu músculo. Sor Abelar ainda tentou atingi-lo quando ele esquivou, em um golpe rápido, mas Belick defendeu-se com seu escudo. O ombro doía pouco, o sangue fervia muito. Parou de prestar atenção no outro lado do combate para derrotar seu oponente de vez. Como o velho escondia-se atrás de um escudo grande nas cores de sua casa, o Senhor-do-Ferro apostou na força bruta e colidiu as defesas. Sor Abelar podia ser hábil, mas não era mais tão forte e logo cedeu terreno, quase parando dentro da fogueira, até que acertou um ataque lateral no peitoral de Belick. Foi quando Avahan gritou de dor do outro lado e isto distraiu o Grisalho. O Senhor-do-Ferro não pensou duas vezes, forçou um ataque bruto no mesmo ponto da manopla, que não partiu-se, mas a espada longa de seu oponente voou alguns metros para longe deles. – Renda-se ou morra, Abelar Greenfield. – Mirou a ponta afiada em sua direção. Ele estava cercado entre o fogo e o Senhor-do-Ferro, impossibilitado de alcançar sua arma novamente. De repente, Belick estava cheio de terra na boca, pois o irmão do Grisalho saltara sobre ele, derrubando-o no chão. Todavia, Gullian também caiu e o Senhor-do-Ferro não largou sua arma. Então, sem levantar-se, encontrou força e rapidez para levar sua lâmina até o irmão do traidor caído ao seu lado. Belick havia mirado no braço, mas sor Gullian moveu-se drasticamente e acabou sendo atingido no crânio, caindo moribundo com os olhos tão arregalados quanto os de sua filha. De sua boca, o sangue escorreu gradualmente. O martelo de Avahan mataria sor Abelar se o mesmo não tivesse suplicado: – Eu me rendo! Eu me rendo! Meu irmão...
Lágrimas, fora tudo que restou ao velho traídor. A vitória Belvedere foi garantida.
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