Os Tigres de Westeros
3 Daronn I
Daronn
Era seu dia de assumir o cadeirão da Fortaleza Belvedere na assembleia da tribuna, ato que o herdeiro cumpria com prazer desde que fizera catorze dias de seu nome. Quando meu avô confiara a mim tal tarefa pela primeira vez. De lá pra cá, o primogênito era a voz do povo para a nobreza. Filas e mais filas de mercadores, camponeses e anciões lotavam o pátio interno, pois sabiam que seriam ouvidos. O cheiro de esterco era alcançado na mais alta das torres, como se um torneio acontecesse a cada dia da donzela em Monte Tigre.
Como de praxe, o jovem nobre trajava um de seus belos gibões. A peça escolhida para a ocasião era azul marinho, mangas longas, botões de prata, dois tigres bordados em fio branco no peitoral. Apenas falta-me a Sineta Belvedere para ser um verdadeiro Senhor. Também portava sua espada de aço valyriano Dente-de-Sabre que herdara de sua família.
— Bom dia, Elder. As audições foram organizadas? – Perguntou para seu primo castelão, que o recebera na ante-sala da tribuna.
— Sim, primo. Houveram ocorrências de prioridade um, acha que devo alarmar seu pai? – O castelão, quatro anos mais velho que Daronn, estava atônito e ofegante.
— Que ocorrências são essas? – O herdeiro perguntou entusiasmado, pois após dois anos de assembleia, já estava cansado de lidar com as mesmas questões, como empréstimos de ferramentas não devolvidas, desvio de gado, balanças de peso desajustadas, donzelas corrompidas e outros problemas menores da população.
— Temos duas mortes. Uma na floresta, outra na Vila do Estrangeiro. – Assassinatos! Daronn adoraria colher o prestígio de solucionar tais crimes.
— Não avise meu pai sobre estas ocorrências, apenas peça que um de seus irmãos o convide para a tribuna nesta manhã.
— Imaginei que preferiria assim... Mas primo, se Lorde Belick vier questionar meus serviços por tal falha? – Elder estava assustado, pois comumente, não era ele o auxiliar da assembleia, e sim o meistre da fortaleza, Ibbeorn. Que certamente está se sentindo mal e não compareceu, enviando meu primo em seu lugar.
— Sua posição está garantida, castelão. Não tema seu cargo, pois começarão a duvidar de suas capacidades se souberem de suas dúvidas. – Ele ainda tentaria indagar algo, mas Daronn o atropelou como sempre fazia: – Fez bem em não avisar o pai. Vamos dar preferência a estes dois casos, quem nos apresenta eles? Eu conheço algum deles? – Havia uma série de nomes importantes da Vila que o herdeiro fizera questão de decorar.
— Temo que não, senhor. Gwayne Gyles, um mercador de peras fala pela morte do soldado. No segundo caso, Lem Pestanas conta-nos sobre a morte de um caçador no Bigode do Tigre.
— Conheço Lem Pestanas, certa vez, permiti que sua guilda aumentasse o preço das peles na Vila. – E nunca mandei que abaixassem novamente. Daronn lembrava-se.
— Pois bem, devo pedir para Evert convidar o Lorde para começarmos ou podemos soar a trombeta? – Elder está inseguro e nervoso. Ele percebeu. Talvez tão ansioso quanto eu.
— Soe a trombeta, meu pai pode pegar a carroça andando. – Serviu-se de um caneco de água, esperou a introdução da cerimônia e adentrou na tribuna.
Centenas de olhos o miravam a caminho do cadeirão. Para sua surpresa, seu primo Lucyus estava presente, ao lado de seu irmão bastardo Edric na terceira fila da coluna esquerda, os três trocaram sorrisos entre si. Eram amigos de infância, que nos dias de hoje, pouco se falavam. Seu gato de estimação também estava lá, Azul.
Antes de sentar, fez uma homenagem ao público e recebeu outra em troca. O cadeirão de pedra estava morno como sempre, pois Azul dormia ali em noites que precediam as assembleias do herdeiro.
— Apresente-se Lem Pestanas, tutor da Guilda Presa Afiada.
O velho Lem levantou-se da primeira fila e tomou sua posição no tablado. Envergava-se numa túnica de peles, com seu arco longo sobreposto a grossa aljava que pendia atrás de si. Tirou o pigarro da garganta antes de abrir o discurso.
— H-hm, Senhor, venho em nome de minha guilda informar-lhe sobre a presença de uma besta em nossas matas. – O burburinho tomou conta do salão assim que Lem pontuou. Muitos rogavam aos deuses, mas o herdeiro interrompera as preces ao levantar a mão.
— Continue, tutor.
— Há semanas, nossos melhores caçadores estão sumindo. Colocamos nossos cães atrás deles, mas os animais não querem mais entrar na mata, sentem o cheiro da fera. – O povo voltou a fraquejar.
— Silêncio. Não há nada a temer. Por que nada sabemos sobre esses sumiços, Lem?
— Não tínhamos certeza, Senhor, até ontem a noite... – Tomou fôlego e causou a angústia geral. Lem falava teatralmente, dramatizando o caso.
— Já era tarde da noite quando apenas o cavalo de Brook, nosso líder, retornou para a Vila. Estávamos em alerta, pois o velho havia saído cedo para caçar lebres e costumava retornar com a caça para o almoço. Porém graças a isto, também estávamos em pouco número, haviam homens a procura do líder desde que o sol se punha. Éramos dois, eu e Zelph, e decidimos entrar no Bigode do Tigre para rastrear nosso velho líder. – O tom do tutor foi ficando mais baixo e sinistro, Azul ronronou no colo de seu dono, o gato preto também parecia prestar atenção. – O rastro de Pesadelo, o cavalo de Brook, nos levou até o centro da floresta. Notamos a profundidade das pegadas do animal que o atacara. Certamente, há uma besta nos assombrando, meu Senhor de Belvedere. – Abaixou mais ainda sua voz, bem como seu olhar – Imprudentemente, eu e Zelph insistimos em seguir mata a dentro. Pensávamos estar caçando a presa, mas ela que estava nos caçando. Primeiro, encontramos o corpo de Brook, só reconhecemos pelos farrapos de seu traje, o velho não merecia morrer destroçado... – O homem desmantelara-se, estava realmente de luto.
— Sinto muito, Lem. – Não pediu para que falasse mais alto, quanto menos camponeses ouvissem, melhor seria. – Vocês conseguiram fugir? Onde está Zelph? – Pela reação do caçador, percebeu que fizera a pergunta errada, mas fora distraído por Evert que adentrara no salão sem seu pai.
— Zelph não sobreviveu, ficou para me salvar. O que o tigre atroz tem de força e peso, também tem de agilidade. – Então de súbito, Lem levantou a voz: – Temos que acionar as tropas, queimar a floresta até exilar este demônio deste mundo! – O povo bravejou com ele. Todos pareceram ter ideias ao mesmo tempo e gritaram para o herdeiro, que não gostava de tanta informalidade, mas sentia-se tão acalorado quanto eles.
— Silêncio. – Assim se fez. – Não vamos queimar nenhuma árvore de nossas terras. Nem mover nossas unidades por causa de um animal. Está presente aqui hoje, o melhor caçador que eu conheço. – Lem levantou os olhos até Daronn, como se o herdeiro estivesse falando dele. – O homem conhece estas terras como a palma de sua mão e tem na aljava as setas mais certeiras que Monte Tigre pode dispôr. – A ansiedade era palpável, Pestanas mirava a plateia, em busca de tal sujeito, Daronn quebrou o suspense: – Meu irmão Edric, venha até aqui.
Seu irmão mais velho levantou-se depois de alguns segundos, ele estava completamente sem reação. Alguns mercadores mais próximos apertaram-lhe os ombros como quem deseja boa sorte a um campeão. – Não se acanhe, irmão. Suba aqui. – Daronn apontou para a cadeira à direita, apenas um degrau mais abaixo, onde sua mãe tinha hábito de sentar. Edric parecia estar sentenciado a morte. O que você tanto teme, irmão? Azul saltou para o colo do bastardo para acalmá-lo.
— C-conheço o território e prometo c-caçar a besta. – Anunciou secamente, de uma maneira pouco confiável e um tanto quanto relutante.
O silêncio estabeleceu-se no salão, até o momento em que Daronn desembainhou Dente-de-Sabre e declarou: – E eu, Daronn Belvedere, herdeiro de Monte Tigre e futuro Senhor do Ferro Ocidental, prometo-lhe Lem Pestanas, a cabeça do animal. Para que pendure em sua parede e lembre-se todo dia, que seu líder fora vingado. – Aplausos e assobios, todos acreditavam nele, apesar de mais jovem e mais baixo que Edric.
— Muito obrigado, meu Senhor de Belvedere. O povo será eternamente grato por livrar-lhes desse mal que recaiu sobre nossas terras. – Lem demonstrou gratidão antes de descer do tablado.
Mais alguns segundos de euforia geral, o tabelião terminava de escrever e seu irmão aproveitou para chamar-lhe aos sussurros: – Não está pensando que só nós dois podemos caçá-lo, não é?
— É claro que estou, como nos velhos tempos, pretendo chamar Lucyus também. – Edric fechou a cara. O herdeiro notou que Lem acomodara-se, olhou para Elder e o castelão deu seguimento a cerimônia:
— Gwayne Gyles, Mercador da Vila do Estrangeiro, apresente-se ao tablado. – O mercador de peras era um desconhecido, no entanto, ostentava alguma riqueza em suas vestes, mas não possuía jóias até onde Daronn pôde ver.
— Senhor, trago até esta corte meu relato e desabafo. Desde que o Senhor Listrado nos deixara, – estava falando de seu avô – a Vila tem sido alvo de corrupção e homicídios. As rondas diminuíram e a noite, quase não vemos guardas de vigília. O pior de tudo, é que um tal de Justiceiro Cruel apareceu, supostamente em nome do povo, para fazer justiça com as próprias mãos, ou flechas. – Fez uma pausa e olhou para alguém da plateia, o herdeiro não identificou a direção exata. – Digo o pior de tudo, pois bem sabemos que um só homem não é capaz de liquidar a mafia que instalou-se entre nós. Ao contrário, apenas inflamou nossos inimigos, que aumentaram seus impostos para arcar com essas investidas.
— Espere um pouco, não há mortes na Vila há mais de três semanas. Vocês só pagam impostos a nós, do que está falando, Gyles? – O futuro lorde já havia aprendido a dosar as acusações vindas da plebe.
— O crime está enraizado, Senhor. Veja com seus próprios olhos, desde que esse Justiceiro Cruel chegou, nossas crianças dormem assustadas.
— Vejo que encontrou um grande culpado, Gwayne. Por acaso pode apontá-lo para nós? Ou este Justiceiro é tão misterioso quanto esta corja que os assola com impostos ilegais? – Daronn estava inamistoso perante àquelas acusações. Esforçava-se para manter a segurança da Vila e por vezes, alguns beberrões, em geral desconhecidos, vinham fazer alarde.
— Sim, Senhor. Ele está entre nós. – A platéia fez um ohhhh espontâneo em resposta, mas ninguém manifestou-se como tal sujeito. O mercador permaneceu inseguro e nada disse.
— Elder, por favor. – Daronn solicitou ao primo que tomasse a voz como auxiliar, então ele improvisou:
— O homem que atende pela alcunha de Justiceiro Cruel, caso esteja presente nesta corte, apresente-se perante o Senhor de Belvedere. – O silêncio e a expectativa aumentaram, ninguém moveu-se, apenas viraram-se para todos os lados em busca do bem feitor.
— Parece que está enganado, Gwayne, ou o perdeu de vista? – Provocou.
— O Justiceiro Cruel é... – Uma maldita pausa e por fim, acusou: – Lucyus Brax Belvedere, o capitão dos Flechas Azuis, seu primo, meu Senhor. – Novamente o ohhhh da plateia que animava-se com um dia incomum. Toda atenção voltara-se para o arqueiro quando levantou e dirigiu-se ao tablado.
— Primo, este homem lhe acusa de cometer atos heróicos porém estúpidos, o que sente sobre isso?
Antes que Lucyus pudesse responder, as atenções se voltaram para outro capitão. Seu irmão bastardo começara uma convulsão na cadeira mais abaixo. Quase foi ao chão, não fosse pelos reflexos de Daronn.
— “Chamem o meistre! Chamem o meistre!” – O herdeiro gritou alarmado. Edric espumava pela boca, tremia-se frenéticamente, suas pupilas sumiram e seus olhos estavam brancos como a neve que cessara a mais de um ano.
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