Os Tigres de Westeros
4 Avahan I
Avahan
Já era tarde, o delicioso pato servido no almoço com cebolas, batatas e queijo, ainda era digerido dentro do estômago de Avahan e o cavaleiro sentia-se entupido, talvez por isso, tivesse sido o último a chegar no escritório de seu irmão para a reunião do conselho.
— Fique aqui até segunda ordem, Romney. – Ordenou a seu sobrinho e escudeiro que o seguiu até a porta.
Quando entrou, notou que o Conselho Belvedere estava maior naquele dia da donzela. Lorde Belick, seu irmão, encabeçava a extremidade norte da mesa. Ao seu lado direito, uma cadeira vazia aguardava por Avahan, do lado esquerdo, seu sobrinho Daronn acomodava-se. Tio Brumm, seu filho Sor Elmmer II e seu neto Elder, o castelão, sentavam-se lado a lado; O convidado do almoço também estava presente, Sor Abelar Greenfield, o Alto-Cavaleiro de Monte Tigre, bem como meistre Ibbeorn, o doentio erudito com quem Avahan pouco falava.
— Boa tarde, senhores. – Saudou enquanto tomava seu lugar em meio àqueles sete, todos o cumprimentaram em resposta.
A luz pálida de um dia frio invadia levemente o gabinete, porém candelabros auxiliavam a iluminação. Graças a isto, Avahan mirou seu único olho nos papiros sob a mesa, não conseguia mais ler o idioma comum, devido aos seus dez anos de exílio e escravidão em Essos. Mas para isso, tenho um escudeiro. Confortava-lhe o serviço de seu sobrinho, que na sua opinião, também devia estar presente naquele conselho.
— Senhores, sejam todos bem-vindos a esta mesa, antes de começarmos, gostaria de compartilhar uma boa notícia convosco. – O lorde mirou firmemente nos olhos de cada um e só continuou quando alcançou o olhar de Daronn. – Serei pai novamente, Lady Olga está grávida pela quarta vez. – Todos o parabenizaram e desejaram-lhe outro filho homem, Daronn e Avahan até abraçaram o Lorde. Um brinde de vinho foi feito a saúde do Belvedere vindouro.
— Obrigado a todos, tenho certeza de que será um homem tão valente quanto meu primogênito. – O herdeiro sorriu orgulhoso – Agora, dando início a este Conselho, trago a vocês outra questão sobre minha linhagem. Lyz, minha caçula, tornou-se mulher esta manhã. Logo, pretendentes surgirão e não posso deixar de pensar em boas alianças para o caso.
Como fez uma pausa longa, houve tempo para comentarem e quem fez isto fora tio Brumm, aos seus oitenta e um anos. – Meu sobrinho Belick, ainda que tenha se tornado mulher, Lyz não seria muito nova para casar? Ela tem treze anos.
Treze anos... Metade da minha idade. Avahan calculou. Ainda lembrava-se da pequena como um bebê, pouco a vira desde que retornara para seu lar.
— Jovem para se casar, mas não para estar prometida, Velho Brumm. – O lorde respondeu.
— E como prometida, já poderíamos colher o fruto desta aliança com antecedência. – O meistre somou sua voz e opinião. Ideiais e nomes começaram a surgir na mesa.
— Tio, como você bem sabe, até que minha prima Estér tenha filhos, eu sou o legítimo herdeiro dos Ferren.
O castelão mal começara sua proposta e o herdeiro o interrompeu:
— Se depender da beleza de Estér Carranca, você deve herdar todo o Vale Negro, primo. – O tom sádico da piada divertiu Avahan, que segurou o riso, afinal, não conhecia a carranca.
Já Elder, manteve a compostura com algum esforço e retrucou:
— Respeite minha família por parte de mãe, primo. São nossos principais aliados, eu poderia me casar com Lyz e reafirmar este velho laço.
— Não sei se a ideia agradaria Lorde Ferdinand Ferren, mas podemos sondar sua proposta, sobrinho. – Elder abriu um sorriso largo, era apenas cinco anos mais novo que Avahan, mas não tinha habilidade alguma na luta. Um fraco, assim como todas as sementes Ferren.
— Irmão, também tenho uma oferta para apresentar. Hoje após o treino, esbarrei com Sor Axell Lorch, o cavaleiro da Mantícora que nos serve, e o mesmo mostrou-se interessado na mão de sua filha Lyz. – Lorde Belick fechou o cenho, pareceu pensar por alguns segundos antes de esboçar seus ciúmes.
— Então a notícia já vazara até a Torre Armada? Não se pode ter segredo algum nesta Fortaleza? – Virou-se para Ibbeorn – Meistre, para quem você contou?
— Não contei nada a ninguém, Senhor. – Defendeu-se o doente.
— Acalme-se pai, eu mesmo fui o primeiro a saber. Minha irmãzinha acordou-me com o lençol manchado esta manhã. Quem deletou o ocorrido? Um escudeiro espionava nosso encontro matinal, mas eu o enquadrei. Chama-se Jason e serve a Sor Breno Myatt, o Gatuno de Montês. – Daronn confessou.
— Senhor, apesar de nova, sua filha se tornará uma linda mulher, todos sabemos disso, por isso, seus cavaleiros mais honrados apostam entre si por este matrimônio. – Foi a vez da voz calma de Sor Abelar aconselhar. Avahan não gostava muito de como seu irmão olhava para o Alto-Cavaleiro. Se tornaram grandes amigos, como nós devíamos ser.
— O que Sor Axell nos oferece além de seu corpo liso e sem cicatrizes? – O lorde ainda estava inconformado.
— Segundo ele, possui algumas fazendas nas terras de sua família, além de uma torre com uma forja. – Avahan afirmou, preferindo deixar o suborno de três dragões de ouro de fora da conversa. Não aceitei de qualquer modo.
— Penso que é pouco para Lyz. – Daronn opinou e seu pai concordou em seguida.
— Sor Axell serviu como escudeiro ao meu lado na Rebelião Tarbeck, eu contemplei pessoalmente a conduta do homem, ainda moleque. Creio que é um pretendente honrado. – Avahan defendeu o antigo colega de guerra, por mais que não lembra-se com exatidão dos fatos contados.
— Um corvo para Lorde Ferdinand em Vale Negro e outro para Lorde Lorch em Pedra da Mantícora. Anotados. – Finalizou o meistre.
— Não me parece certo enviar estes corvos agora, Ibbe. É cedo demais. – O herdeiro argumentou.
— Concordo com meu filho, prepare as cartas, mas não as envie até minha ordem, meistre. Devemos calcular o dote exato a oferecer, não deve ser tanto quanto Lyz merecia, porém, temos terras pra cultivo, muito ferro e cerca de quatrocentos dragões de ouro para ofertar. Certo, Elder? – Lorde Belick revelou, Avahan achou desnecessário, pois não confiava em todos os presentes, entretanto, deixou o irmão a vontade.
— Talvez, seiscentos dragões. Um torneio pela mão de Lyz arrecadaria muito mais, é como as famílias andam fazendo por aí. – Elder contou.
— E arriscar a mão de minha filha a um cavaleiro errante? Nunca. – Encerrou o assunto soando muito como seu falecido pai Egon. – Outras notícias me preocupam. Soube dos casos ocorridos na assembleia de hoje presidida pelo meu filho e comentadas no almoço. O crime retornou às nossas terras e precisamos combatê-lo. – Encarou o Alto-Cavaleiro e continuou: – Pergunto-lhe, sor Abelar, podemos dispôr de cavaleiros de confiança para pernoitarem na Vila em busca destes assassinos?
O grisalho ficou pensativo e sor Elmmer II, mestre-de-armas, falou pela primeira vez a mesa: – Permita-me opinar sobre a ideia antes da resposta de sor Abelar; Cavaleiros lutam guerras, justas e liças, não são o tipo de guerreiro para se enfiar no meio do povo atrás de justiça, podem ser facilmente emboscados quando em menor número e terreno estreito. Melhor enviarmos lanceiros e arqueiros para somar a guarda local.
— Sor Elmmer tem razão, senhor. Há muito que seus melhores cavaleiros treinam para o grande torneio de Harrenhal, não estão prontos para enfrentar a corja com tamanha proximidade do evento. Ninguém quer arriscar perder um braço antes de enfrentar Rhaegar, sor, se é que me entende. – O Alto-Cavaleiro grisalho concluiu.
— Que seja, sor Elmmer, prepare um esquadrão especial para vigílias noturnas na Vila. Nós não podemos ficar calados.
— Assim farei, primo. – Em seguida, servos entraram para servir outra rodada de vinho. Avahan bebia bastante, não era seu favorito, mas em dias frios como este, era sempre bom estar de peito quente.
A reunião prosseguiu através de Daronn: – Outro caso importante, é a descoberta de um felino atroz no Bigode do Tigre.
Lorde Belick fechou o semblante: – Já estou a par disso também, filho.
O herdeiro levou os olhos até seu pai e continuou:
— Eu resolverei pessoalmente o caso, libere Edric de seus serviços e nós caçaremos a besta. – A maioria já parecia esperar este discurso, Avahan claramente era o único a surpreender-se com a coragem do sobrinho.
— Filho, soube que você reatou a esperança do povo com este discurso. Todavia, não permitirei esta loucura, você irá acompanhado de meia centena de soldados. Caso contrário, esqueça. – Determinou o Senhor do Ferro Ocidental.
— Tropas só me prejudicariam na missão, pai. Dois caçadores chegaram até o animal sem serem notados, cinquenta homens certamente não teriam o mesmo sucesso. – Daronn parecia ter tudo planejado.
— Com o crime em alta, é perigoso demais que o herdeiro leve sua espada lendária acompanhado apenas do bastardo para uma aventura a noite na mata, ainda mais com metade da população sabendo disso. – O chato do seu primo Elmmer II começara a falar mais depois da quarta taça de vinho.
— Irmão, quantas vezes nos arriscamos nesta vida? E quantas vezes colhemos glória para nossa Casa em resultado disso? Creio que devemos explorar a determinação de Daronn e deixar com que combata tal fera. Porém, eu irei também. – Sor Avahan falou, estava ansioso para sair do pátio de treino, desde que chegara de Essos, exercitava-se todos os dias para o grande torneio, só que a adrenalina fazia-lhe falta.
— Tenho outros planos para você, irmão. – Belick revelou para a surpresa de Avahan. Alguma missão? Não houvera nenhuma desde que chegara. – A proibição continua, filho. Caso desobedeça minhas ordens, será punido como um soldado e destituído de cargos e funções. – A ordem fora clara e seu sobrinho possivelmente não iria desobedeça-la, mas pelo rubor em sua face, precisava contestá-la mais.
— Eu dei minha palavra ao homem, Belick. Não pode me negar o direito de cumpri-la. – O tom estava tão inflamado que Ibbe tossiu de nervosismo e o tio Brumm intercedeu.
— Um caso de prioridade um deve ser solucionado pelo Lorde Belvedere, Daronn. Falta-lhe décadas até este dia. Bem sabes que deveria ter acionado seu pai quando a ocorrência chegou até suas mãos, ou mandado que meu neto assim o fizesse. – Encarou Elder por alguns segundos de maneira lúcida. – Fizestes uma promessa vazia, que não podes cumprir sem o aval de seu Senhor.
O neto tentou justificar-se: – O lorde fora acionado a meu pedido por Evert, vô.
— Ninguém me avisou sobre assassinatos em tempo. Esqueçam esta história por hora, estamos no ano da Falsa Primavera e a caça está escassa de qualquer forma. O Bigode do Tigre fica interditado até segunda ordem e Daronn, não ouse me desobedecer. – Sem dizer qualquer palavra, o herdeiro levantou-se e deu as costas, retirando-se do gabinete. Infantil...
Como o herdeiro deixara a porta aberta ao sair de maneira rebelde, os criados entraram novamente para servir mais vinho. O lorde liberou o meistre e Elder para irem atrás de Daronn e impedir qualquer burrada, em seguida, solicitou ficar a sós com Avahan e os cavaleiros sor Elmmer e sor Abelar retiraram-se, mas o tio Brumm ficou. – Você fique, tio.
Quando a privacidade da conversa foi garantida, seu irmão começou: – Um corvo chegou pela manhã, os Cleganes estão a caminho. Dizem que Belle cometeu um crime contra seu marido. Estou preocupado...
As palavras realmente estavam sobrecarregadas com aflição, Avahan esperou o Velho Brumm tomar voz. – Não tenha receios, enquanto Hector Clegane estiver entre nós, sua filha estará viva.
— O que eles pedem? Um julgamento por combate? Uma nova troca de reféns? – Avahan não aguentou e perguntou.
— Não sei dizer, irmão. Mas se minha senhora descobre tal notícia é capaz de abortar meu quarto filho. O assunto é sigiloso e preciso que você o resolva para mim.
— Meu martelo é seu, Senhor. – Avahan lembrou.
— Eles estão hospedados em Den Profundo, devem chegar em dois dias. Antes disso, você cavalgará rápido até os texugos e sondará a situação. Caso tenha que resgatar minha filha da mão dos cães, confio em seu sucesso. Caso contrário, apenas traga-me informações úteis antes da chegada deles.
Avahan levantou-se. – Não temos tempo a perder, irmão. – Cumprimentou o irmão e o tio, então partiu montado em Mancha Negra para Den Profundo em missão, seguido por Romney, seu escudeiro familiar.
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