Os Tigres de Westeros
27 Anne I
Notas iniciais
Anne
Ela queria que ele avistasse o amor, que ele sentisse a sina que de repente os uniu. Por isso fez o que fez, da forma que fez. Expôs sua intimidade àquele homem, que devia ser um estranho e não era. Que devia ser quente como brasa e fora frio como a lagoa que os cercavam. Ao menos, ele foi transparente como a água. Agora, horas depois da frustração, ela entendia melhor o cavaleiro. Será que Marwyn errou em suas previsões? Questionava-se em vão, pois sabia a resposta. Ele nunca errou, eu que errei.
Sua herança fora conquistada através de sua determinação. Desde o primeiro galope sozinha, fugindo de Castelha, até seu recente cargo de capitã da Artilharia dos Espinhos, impedindo seu pai doentio de violentar Tyta, sua irmã mais nova. Por que os Antigos me concederiam um marido facilmente? Não tinha uma solução para aquela questão, assim como não tinha palavras para responder sua irmãzinha inconformada.
— Não é que eu queira me casar com ele, Tyta. É o destino. – Não acreditava que pudesse conceber aquela desculpa cafona, mas naturalmente, ela saiu. Isso é estar apaixonada? refletiu.
— E onde foi parar a Anne que queria ser a arqueira mais conhecida dos Sete Reinos? Coff, coff, coff... Pelo que me lembro, ela sequer pensava em casar-se e ter filhos.
— Entenda, Tyta, essa hora chega para todas nós. Se formos espertas o suficiente, conseguimos casar por amor. – Tentou ensinar a irmã e percebera que soou muito como sua própria mãe, pois Tyta retrucou como ela retrucava, uma década antes:
— E você o ama, Anne? Em tão pouco tempo? – O ciúme era nítido no tom da caçula.
— Não sei, mas estou muito tentada a concordar que sim, Tyta. – Respondeu sinceramente e concluiu: – Você ainda não o viu.
— Você casa com ele quando o amar então. – Bufou endireitando-se na cama.
— Ele precisa me cortejar... Essas coisas levam tempo. E como saberei quando eu estiver sentindo amor?
— Quando sentir por ele o que sente por mim, Anne. – A capitã ficou pensando na réplica da irmã. – E não é tão difícil casar por amor assim... Em Castelha, sim, mas não em Dorne. No deserto há centenas, coff, coff, de princesas governando seus próprios castelos através de suas próprias armas. – Apesar da tosse, a caçula milagrosamente já falava facilmente, graças ao Meistre cedido por Daronn.
— Centenas? Para de ouvir as canções de Ageratta... Elas não representam a realidade, maninha. – Alertou a capitã no leito, secando o suor de exaltação da irmã com panos úmidos.
Sua irmãzinha ainda ardia em febre, mas não recuperara apenas o fôlego, como também a astúcia, pois ela não parecia ceder aos seus desabafos. E olha que Tyta cresceu romântica, acreditando no amor. Ela não quer é que eu parta de Barreira dos Espinhos. Anne refletiu.
— O que Marwyn lhe contou afinal? Parece que a enfeitiçou. – Indagou Tyta, cruzando os braços e fazendo carão. A mais velha acabou revelendo tudo sem pensar:
— Há três luas, ele me acordou no meio da noite para narrar seu pesadelo. Uma donzela estava se afogando no nosso rio e todos fomos socorrê-la. A mãe foi a primeira a mergulhar e um monstro submerso a atacou.
— Mas não há monstros no rio... O que isso tem a ver com seu casamento? – Tyta criticou, se fazendo de sonsa. Anne apenas fechou o semblante por ser interrompida infantilmente, afinal, a caçula era impaciente, mas inteligente o suficiente para perceber quando a situação era séria. Às vezes, ela é mais sagaz que alguns de meus soldados. – Tudo bem, era um sonho. Continua...
— Pulamos na água para salvá-la. Só que de acordo com Marwyn, a donzela indefesa transformou-se em uma das sereias perversas das canções de Ageratta e enfeitiçou nosso irmão mais velho, Darwyn. – Fez uma pausa. Tyta servia-lhe com toda a sua curiosidade. Devo contar? Ela já está crescida. Anne tentou omitir o pior: – Foi quando o monstro puxou a mãe para as profundezas. Marwyn disse que nós não soltamos a mão dela e todos morreríamos afogados, se não fosse pelo Tigre. Se não fosse por sor Daronn Belvedere.
— Ele matou a criatura? – A criança medrosa questionou encolhendo-se debaixo das cobertas.
— Sim. Ele matou o peixe. – Quando Anne pontuou, Tyta arqueou as sombrancelhas, finalmente entendendo onde a mais velha queria chegar.
— Os Keath! Eles são o peixe! Coff! Coff!— Falou mais alto do que devia e do que podia.
— E os Piper são a donzela. Fale mais baixo, maninha. Eles estão hospedados aqui e pelo pesadelo de Marwyn, devemos ficar atentas a estes convidados. – Alertou.
Anne ficara uma virada de lua sem falar com sua irmã, pois a mesma entrou em um estado tão exausto que não conseguia nem acordar, o que dirá dialogar. Ibbeorn, o meistre de Daronn, havia lhe pedido que a deixasse descansar, mas quando Anne contemplou o novo estado de Tyta, tudo que quis foi passar horas conversando com a caçula. Por isso, continuou debatendo os mistérios do pesadelo de Marwyn:
— Ao menos, Lorde Yan Piper não tem nenhuma filha para enfeitiçar nosso irmão Darwyn.
— E a mamãe? – Tyta indagou de forma dramática e adulta demais para sua idade. Não acredito que ela está falando sobre essa possibilidade. Yan Piper e mamãe?
Tudo começou há três anos antes, quando Anne tinha apenas dezoito anos. Symond Hawthorne, seu pai, traíra a mãe delas com uma meretriz e fora flagrado. A Senhora Cassana não deixou barato e imprudentemente, para vingar-se, revelou que Tyta não era filha dele, e sim de um de seus cavaleiros: Sor Bonifer Bolling, das Terras da Tempestade. Desde então, o desamor do homem pela caçula cresceu absurdamente e logo veio a situação veio a público. E ano passado, descobri tudo que ele vinha fazendo.
O desumano pai que os Deuses lhe deram, estava violentando Tyta nas madrugadas, numa insana tentativa de vingar-se da Senhora Cassana. E agora, seu pau criminoso não existe mais. Restou-lhe um buraco, coberto com o gelo da Muralha.
— O que que tem? – O ódio tomou conta de sua voz sem querer, ao lembrar de tudo aquilo.
— Você sabe... – Ela deixou no ar, referindo-se possivelmente a depravação da mãe delas.
— A Senhora Cassana ainda está de luto pelo que ocorreu. – Finalizou rudemente. Às vezes, sua astúcia é impetulante, maninha. Gostaria de ter dito, mas calou-se.
— Coff.. E a sereia? – Tyta até sentou-se no leito para perguntar. Toda essa história está ajudando ela a se recuperar também. Anne esperava estar certa. – Marwyn contou o que acontecia com ela e Darwyn?
— Não. – Mentiu e usou um pouco da verdade para disfarçar: – Ele me disse que a parte seguinte do sonho fora uma visão do meu casamento com Daronn. Entende agora por que digo sobre destino?
— Nossa mãe estava no casamento? Ela sobreviveu também? – Tyta estava claramente impressionada com o pesadelo. Anne começava a se perguntar se tinha feito certo em abrir a boca. Ela é minha única confidente, minha maior aliada. Pois sua mãe e melhor amiga não dava crédito algum para as visões de Marwyn. E Darwyn, muito menos.
— Não. Ele não a viu por lá.
Fora a mesma pergunta que Anne fizera a Marwyn, mas a resposta, fora diferente. Ela não pode saber que a mãe talvez morra. Não descansaria com tal suspeita no coração. E a capitã pretendia proteger a Senhora Cassana com a própria vida, se preciso fosse.
— Mamãe corre perigo então. – A caçula parecia realmente recuperada. O fôlego de sua inteligência retornara. Se pudessemos conversar enquanto você estava insconsciente, acordaria muito mais cedo, maninha. Anne estava feliz. Feliz pela saúde da irmã.
— Fique calma. Nada irá acontecer com a mãe. O Tigre chegou para nos salvar.
Neste exato instante, como que por ironia, Jake Salutte, um de seus homens, entrou sem bater. – Capitã, desculpe-me a intromissão, mas venho lhe informar que o Lorde Hawthorne irá duelar com nosso convidado sor Daronn Belvedere dentro de instantes. Assim que soube, achei que devia lhe avisar.
— O que isso agora? Por que eles irão lutar, Jake? – Indagou de imediato.
Sua irmã antecipou-se: – A sereia já o enfeitiçou, Anne! Ela já o enfeitiçou!
(…)
Encontrou cada alguns de seus homens enquanto descia para o local onde o confronto fora marcado. Cletus, Harmond, Melwyn, Brus... Nenhum deles sabia dizer o motivo da luta. Eu devia ter soldadas. Elas saberiam. Ao menos, eles estavam em seus postos de vigília como a capitã ordenara. O Salão do Mel estava vazio como num dia fúnebre e ela já estava se dirigindo para a parte exterior quando um assobio a fez parar. Junto dele, um forte arrepio quase a derrubou. Não pode ser. Ela olhou pra trás e nada viu além do Cadeirão Hawthorne.
Anne tinha certeza que era o assobio de Symond, o homem que um dia fora seu pai. Ou alguém brincando com quem não devia. Acirrou os olhos e procurou em todos os cantos de sua visão. Não havia ninguém no mesanino, ninguém no altar, ninguém na lateral.
— QUEM ESTÁ AÍ? – Ela urrou na tentativa de dar um susto no charlatão. Porém, o eco de sua voz alimentado pela solidão só a apavorou mais ainda.
A arqueira puxou sua adaga e decidiu conferir por conta própria. Tinha escutado aquele assobio nitidamente. Não posso estar ficando louca. “Marwyn é um pouco louco, se você acreditar nele, ficará também” Darwyn sempre lhe dissera. Loucura é não acreditar no próprio irmão. Sua consciência falou mais alto. Todavia, não encontrou ninguém onde vasculhou. Deve ter sido um pássaro. De qualquer forma, pôs-se para fora dali.
Quando chegou até o pátio, toda a justa já estava armada, até pavilhões haviam sido erguidos e bancos organizados em forma de arquibancada. Apenas uma corda dividia a arena e escudeiros apressados corriam para encher os baldes de lanças para a disputa. Anne reconheceu um deles.
— Kevan, por que Darwyn irá lutar contra Daronn? – Indagou.
— Por honra, minha lady. – Ele devolveu continuando seus afazeres.
O velho argumento dos cavaleiros. Será que se ofenderam? Não havia como continuar o inquérito, Kevan a deixou pra trás. E foi aí que ela entendeu. A luta já está acontecendo! O pavilhão Hawthorne tapava sua visão, mas logo seu irmão surgiu cavalgando em direção a outra extremidade. E de lá, vinha o tigre. Com uma postura bem mais preparada que Darwyn. Não havia nada que ela pudesse fazer... Um segundo depois, lanças e escudos se encontraram, seu irmão quase fora morto. A ponta do Tigre deslizou antes de quebrar-se e se não fosse pela habilidade de Daronn, teria perfurado o pescoço de seu irmão. Ela notou.
Senhora Cassana assistia bem ao centro. Seus olhos se encontraram com os de Anne e a capitão percebeu de imediato que sua mãe aprovava tudo aquilo. Sorria e bebia ao lado de Lorde Yan Piper como se já estivesse em Harrenhall.
Anne podia tentar acabar com tudo aquilo, dar um sermão na futilidade de tal competição arriscada. Afinal, os dois lados a importavam bastante, talvez de igual maneira. Quando sentir por ele o que sente por mim, Anne. As palavras de Tyta lhe vieram a mente.
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