Os Tigres de Westeros
12 Aeron I
Aeron
Sorrisos nunca lhe faltavam, apesar de sempre haver motivos para isso. Na última noite, todos os planos de Aeron foram por água abaixo. A chance de lutar em Harrenhal e derrotar pela segunda vez Jaime Lannister. Ou Sor Jaime... Ele não tinha certeza se o pequeno leão já havia sido sagrado cavaleiro, mas rumores diziam que sim, após lutar bravamente contra a Irmandade da Mata-do-Rei. Agora estou longe de me tornar Sor Arthur. Aquele era seu verdadeiro nome, Arthur Chyttering, mas ninguém além de Sor Edmund, seu cavaleiro exilado, sabia disso por ali. Pelo menos até ontem era assim.
O Cavaleiro Sorriso, como seu antigo mestre era conhecido em virtude do seu humor constante, confessara ao Lorde Belvedere estar envolvido na tramoia dos irmãos Greenfield para raptar sua filha. O Senhor-do-Ferro poupou sua vida, mas o expulsou de suas terras. Todavia, em seu gabinete particular, o lorde recebera os dois. Sor Edmund confessou estar a serviço da Senhora Sarah Chyttering, minha mãe, para proteger seu verdadeiro herdeiro. “Fora do Monte, tropas cavalgam para todos os lados... Não posso arriscar levá-lo, peço que ele permaneça aqui sob seus cuidados, senhor.” Ele disse e Aeron ficou incrédulo. Nunca imaginara ser deixado para trás após quatro anos ao lado do sor Sorriso. Resta-me um segundo plano. Ele sempre tinha um na manga, não era do tipo que olhava para o lado vazio da caneca. Pensando nisso, constatou que sua vigésima caneca, já estava quase sem vinho, então encheu a vigésima primeira.
Sim, estou bêbado. Aeron assumiu internamente. Precisava encher a cara para afogar as mágoas, encontrar seu melhor sorriso, ou o que me resta, e vesti-lo para o Lorde Belvedere, torcendo para que aceite meus serviços como escudeiro. Ou me tornarei um soldado nesta fortaleza, sem qualquer perspectiva além de alguns cobres semanais. Um bom plano para Aeron, mas Arthur era progênito das terras cróceas e tinha que almejar mais. Não posso deixar minha mãe como refém de meu tio assassino. Todos os pensamentos circulavam na cabeça, enquanto refletia vagarosamente no subterrâneo da Torre Baixa, onde os tonéis de vinho ficavam. Não sabia se estava ali pela bebida, ou para isolar-se, mas de qualquer modo, Denys Cabeça apareceu avisando-lhe: – Sor Edmund solicita sua presença nos portões, para a revista, Aeron. – e seu sossego chegou ao fim naquela manhã. Aeron levantou-se com alguma dificuldade. Não devia ter bebido sentado. — Você está bem? Ainda consegue empunhar sua espada? – O escudeiro do Cavaleiro das Amoras duvidou de suas capacidades.
Arthur focou-se rapidamente, alcançando o cabo da espada de seu colega de função, o rapaz roliço e cabeçudo ainda tentou impedir, mas Aeron era mais novo, porém mais forte e mais ágil. Num piscar de olhos, levou o lado afiado até o pescoço dele. Denys levantou as mãos em um susto. – Há! Está vendo? Eu que bebo, mas é sua cabeça grande que rola monte abaixo.
— Pare com essas brincadeiras tolas, Aeron! Sor Edmund não perdoará seu estado. – Ele falava com rancor, Aeron sabia o motivo. Ele odeia o fato de eu ser melhor que ele, mal sabe que tive um treinamento adequado a um cavaleiro no castelo onde nasci. Ninguém saberia, sentiu-se sozinho depois de muito tempo. De que adiantam as verdades quando trancadas? Mais valem mentiras expostas. Tropeçou no último degrau da saída seguido por Denys. Não estou bem, ele está certo, preciso lavar-me e recuperar as energias. Sentia a mente pesada, a vista turva e as articulações um pouco atrofiadas. Direcionou-se para a Torre Armada.
Denys ainda tentou interceder, mas Arthur rapidamente o despistou. O gordo tem medo de chuva, talvez seja feito de farinha. Isso que ele é, um enorme saco de farinha. Haha. O jovem comemorava em pensamentos ter conseguido despistar o amigo tão rápido. Subiu os dois lances de escadas até seu quarto, na entrada, onde antes havia o brasão de Sor Edmund, um sorriso rubro-negro, agora havia apenas uma lacuna vazia de pedra. Nos veremos em Harrenhall, sor. Se assim, o Guerreiro desejar. Arthur cruzava os dedos e rogava ao Deus.
Lavou a face na bacia da cabeceira, pegou a tolha e levou ao rosto. Também enxugou seu cabelo longo e loiro como o de seu pai. A água fria o despertou e Arthur logo ouviu um barulho incomum, como um quebra-quebra naquele andar. O que será isso? Não trocou de vestes, visto que suas roupas estavam organizadas numa mala, pois achava que partiria com o Cavaleiro Sorriso. Tudo me leva a ele. Forçou-se a esquecer e foi até o corredor, procurar pela fonte do barulho. Logo notou que dois cômodos a frente, no quarto de sor Avahan, a luz atravessava para o corredor, portanto a porta estava aberta. Aproximou-se cuidadosamente.
Olhando pela fresta, reconheceu Romney Brax de costas, revirando gavetas da escrivaninha, pastas de couro da estante e um báu no canto. Até o colchão havia sido movido, o cômodo estava sendo revirado. Aeron não lembrava-se de Rom na busca da madrugada, nem de sor Avahan... Então apenas perguntou ao entrar: – Romney... É você? – O garoto tomou um susto dos grandes.
— Haha, perdoe-me, não quis assustá-lo. – Desculpou-se com um sorriso ao confirmar a identidade do arruaceiro. Seu aspecto era dos piores, o rosto sardento estava inchado e as olheiras eram como as do Ancião Brumm. Por um segundo, ele achou que Rom iria chorar, mas ao contrário, envergou-se, mirou os olhos amarelados e disse:
— Tudo bem. Agora retire-se daqui, quero ficar sozinho.
— O que aconteceu aqui? – Indagou apontando para a bagunça feita. – Você não parece nada bem. – Arthur concluiu. O escudeiro não dera-lhe muita atenção e continuou vasculhando a escrivaninha. – O que está procurando, Romney? – Ele não respondeu, Aeron era curioso e não acreditava que o Tigre-do-Leste fosse aceitar tal desordem em seus aposentos, então continuou tentando arrancar respostas. – Onde está sor Avahan? – Aquela pergunta o fez parar. Talvez não fosse exatamente a pergunta, pois Rom também parecia ter encontrado o pergaminho que tanto procurava.
— Em algum lugar entre o Monte Tigre e Den Profundo. – Respondeu sem tirar os olhos do documento em suas mãos. – Aqui está, finalmente.
— O que é isso, Rom? – Aeron perguntou, tentando aproximar-se e novamente o garoto Brax o mirou, com seus olhos amarelados e petulantes, ordenando:
— Afaste-se. O assunto é meu, não seu, escudeiro. – A voz engrossou, parecia que sua vida dependia do pedaço de papiro em suas mãos. Ele tem quase a minha idade. Arthur refletiu, pelos treinos, ele sabia que Romney Brax era um dos únicos que igualava-se a ele em termos de agilidade, percepção e astúcia. No entanto, parece estar cometendo uma burrice. Aeron cessou o avanço, mas chantageou:
— Compartilhe o assunto, ou terei de contar o que aconteceu aqui ao Cavaleiro das Amoras.
— Conte o que quiser, estou indo embora. – Enrolou a folha e de peito inflado, tentou ir até a saída do quarto, obviamente Aeron intercedeu e de maneira mais rígida do que esperava. A bebida... Arthur culpou-se ao perceber que pressionava o garoto Brax na parede com o cotovelo na altura de sua garganta, sufocando-lhe. Durma Romney, durma. Ele sacodia-se e chegou a socar o estômago de Aeron, que manteve a pressão e Rom logo começou a ficar azul.
Um golpe baixo inesperado, Rom acertou as bolas de Aeron com o joelho esquerdo, que por fim, cedeu. No entanto, enquanto o herdeiro Chyttering recuperava-se dos choques doloridos no saco, Rom buscava retomar fôlego para sair dali. O que Arthur não permitiu, fechando a porta e colocando-se na frente.
— O que está fazendo? Você vai morar em uma cela por isso, garoto! – O jovem Brax ameaçou, mas Aeron cagou para aquilo.
— É você quem deve explicações, Romney. – Afirmou, intimidando-o. Assim que pontuou, para sua surpresa, Rom sacou a lâmina da baínha.
— Ou morará numa cova, Aeron. Saia da minha frente.
Arthur, de prima, sacou seu florete e assumiu a base de luta. – Não me faça feri-lo, apenas entregue-me este documento e vamos ter com sor Edmund. – Tarde demais, o rapaz estava enfurecido e investira contra Arthur. Um salto para trás e tudo que Romney acertou fora a maçaneta da porta, abrindo-a. Maldito. Ele é esperto. Só que Arthur era rápido e quando Rom pensou que fosse escapar, a ponta fina de sua lâmina braavosiana tocou-lhe a nuca. Arthur forçou um pouco mais para espetar o arruaceiro. – Nem mais um passo.
Romney obedeceu, mas rasgara o documento em pedaços antes de se render por completo. Horas mais tarde, Arthur estaria bastante agradecido por isso, mas naquele momento, apagou o moleque com um soco seco e certeiro.
(…)
Suas pálpebras pesavam toneladas e os músculos contraíam-se toda hora, sua cabeça também doía e a garganta estava seca a horas, desde que a longa e entediante Assembleia do Meistre começara. Camponeses suplicando por tratamentos e cuidados, mercadores oferecendo seus produtos farmacêuticos, treinadores de corvos oferecendo serviços e até outros assuntos financeiros mais burocráticos e chatos do que esses.
A revista no portão tinha sido um fracasso, Aeron notara vários mercadores e seus guardas entrando armados, mas como sor Edmund era um dos únicos cavaleiros presentes, não tivera coragem para negar a entrada dos mais poderosos. Devido a isso, era para todos estarem alarmados, mas o rumo tedioso com que o meistre coordenava a corte, apagara a atenção até do melhor soldado. Eu. Arthur acreditava. Não tinham muitos para proteger caso as caravanas ressolvessem pegar em armas. Somos vinte. Sor Edmund, Denys, Roger, Kyle, Lester Lento, Lester Sarsfield, seu tio sor Silas Sarsfield , os mantos-azuis Raymun, Ricasso e Jonos, os nove arqueiros que não sei o nome e o sacerdote novo. Aquele último chamava muito a atenção de Aeron, não pela longa capa vermelha ou pela altura gigantesca, mas pelo imponente mangual que carregava entre suas costas e escudo.
— Isto não são corvos. São pombos negros, Mestre Harlan. – O emissário acusara, elevando o tom e acordando Aeron de seus pensamentos e planos.
— Como ousa, moleque? Não está vendo que são corvos? Minhas aves crocitam como corvos!
Uma discussão iniciou-se, o meistre engasgado no cadeirão Belvedere, não soube interceder. Segundos depois, a baderna tomara o local e tomates começaram a ser arremessados na corte. O primeiro acertou em cheio a fuça do castelão Elder IV, que começou a fugir. Sor Edmud como um tolo, para tentar acabar com a algazarra, feriu um comerciante baderneiro e seus guardas logo começaram o combate. Em instantes, a luta começou dentro da Tribuna.
As ordens do cavaleiro no comando mal eram ouvidas. Arthur percebeu que o motim já devia estar armado pela aquela corja de canastrões, pois seus mercenários logo infiltraram-se corredores a dentro atrás do meistre e seus guardas, verdadeiros foras-da-lei, atacavam os escudeiros para matar, não para nocautear. Em meio ao caos, Aeron defendeu-se de algumas investidas e conseguira distanciar para enxergar a batalha como um todo.
Ninguém estava seguro, havia choque de aço contra aço por todos os cantos do salão. Sor Edmund e Cabeça continham oito inimigos, enquanto Sor Silas Sarsfield e seu sobrinho partiram em ajuda do meistre. Os arqueiros até derrubaram um ou dois foras-da-lei, mas logo foram encurralados nos cantos do hall e cessaram as flechas para defenderem-se com seus escudos. Raymun, Ricasso e Jonos impediam que os escudeiros Roger, Kyle e Lester Lento ficassem cercados pelos oponentes, mas a luta ali era de maior diferença numérica e Arthur percebeu que os guardas logo teriam seus escudos quebrados. Não fosse pelo sacerdote que agora combatia lado a lado com o ferreiro do castelo, Jack, quebrando-os pela retaguarda.
A adrenalina já o acordara por completo quando os oponentes notaram sua presença na lateral do hall. Quatro deles vieram na direção de Arthur, dois sabres, um machado e um arakh. Seus olhos assassinos brilhavam de raiva e ganância, o que fez o Chyttering dar pra trás e fugir pela saída lateral. Quatro contra um, malditos covardes. Pensou ao perceber que o bando vinha em seu encalço como lobos sedentos. Arthur sabia que podia despistá-los como fizera com Denys mais cedo, porém, precisava ajudar seus companheiros na Tribuna e ao tirar quatro oponentes da batalha, estaria fazendo sua parte. Será que eu consigo? Já havia banhado sua lâmina em sangue algumas vezes na vida, mas nunca tirara a vida de alguém.
Não houve tempo pra pensar sobre isso, sorrateiramente se colocou de costas na parede da cozinha, esperando que seus perseguidores passassem. O primeiro, um vagabundo com o machado, teve a garganta cortada por seu florete assim que entrou. O sangue espirrou em sua face enquanto o inimigo caía moribundo. Como um gato talentoso, rodopiou por cima da mesa, derrubando jarras e ganhando terreno diante dos outros três que entraram em seguida. – Haha! Rendam-se! Ou abrirei um sorriso de sangue em suas gargantas também! – Ele ameaçou rindo como um louco. Quando Aeron ficava nervoso, ele ria descontroladamente.
O bigodudo com o sabre devia ser familiar da primeira vítima fatal de seu florete, pois não disse nada, apenas investiu furiosamente em sua direção. Arthur pegou uma cadeira com uma de suas mãos livres e jogou no velhote, ganhando tempo para enfrentar os dois que davam a volta na mesa. À esquerda, um homem musculoso e moreno, com porto de guerreiro e tranças na barba. À direita, um magrela fracote com uma lâmina enferrujada. Arthur não teve dúvidas, avançou sobre o mais fraco como uma pantera feroz e seu florete deslizou sobre o escudo do magrela, rasgando-lhe todo o antebraço por não possuir manopla. O fracote caiu gritando de dor, espalhando mais sangue pela cozinha. Neste momento, o arakh quase o atingiu, mas Arthur abaixou-se e rolou para baixo da mesa. Assim, alcançou as pernas do bigodudo. Cortou-lhe os joelhos. Minha lâmina braavosiana é mais afiada que a ambição de vocês, criminosos. Sentia-se satisfeito por banhar-se em sangue inimigo, quando o guerreiro moreno quase arrancou-lhe a cabeça. Arthur não esperava pelo golpe e escapou de supetão, tendo uma de suas madeixas cortadas. Para sua sorte, a arma do inimigo ficara presa no fundo da mesa com o golpe. Aeron aguentou a dor de puxar a cabeça e perder um tufo de seus fios loiros, e quando libertou-se, o bandido estava desarmado, tentando reaver seu Arakh.
Arthur não perdoou. Avançou certeiro como uma garça na caça de peixe. Furando-lhe o peito, um pouco abaixo do ombro esquerdo. O guerreiro largou o cabo de sua foice presa e caiu no chão. Enquanto avançava para aniquilar seu inimigo, ele suplicou em algum idioma desconhecido cujo rancor da pronúncia, assemelhava-se ao dothraki. Sem perdão ou compaixão, amargurado e surpreendido pelo destino, Arthur não pestanejou. Fincou o florete bem no pomo da garganta do homem, observou o sangue quente esguichar como um chafariz escarlate quando puxou a lâmina de volta. Quatro a menos. Respirava profundamente. Luto como um cavaleiro. Orgulhou-se o herdeiro Chyttering das terras cróceas, sorrindo.
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