Os Teus Acordes

6 Uma compositora anônima, mas não tão anônima assim


Zachary confortavelmente se sentou – se jogou – em sua cadeira gamer de trezentos reais. Estava hiper acomodado, quando sua mãe, da sala, gritou:

— Zacquizinho! Zacquizinho! É seu amigo que está no portão! Vem abrir!

— Oh, mãe, tem como abrir pra mim? – Zacquizinho gritou de volta, engasgando com as batatinhas chips que estava saboreando enquanto assistia a uma partida online de seu jogo favorito.

— Não, Zac! Não “tem como"! – Sua mãe retrucou aos berros. – Hoje vai ser o capítulo que o Serafim rouba a criança da Cristal! Sem condições! Daqui não saio, daqui ninguém me tira!

— Tudo bem! – Zac gritou.

— Tudo bem. – Repetiu para si mesmo e preguiçosamente esticou suas pernas, seus braços e sua coluna.

Se levantou. Pegou uma blusa que estava jogada na cama e cheirou: não estava tão ruim assim. A vestiu e foi até o portão, balançando a chave entre seus dedos.

— Entra aí, mané! – Zac deu as costas para voltar para dentro, porém imediatamente farejou o cheiro de hamburger fresquinho e fritas recém saídas do óleo. – Isso aí é o que eu estou pensando?

— Ué, não prometi hamburgão? – Tomás sorriu abertamente e levantou as duas sacolas de papel para que Zachary sentisse melhor o cheiro. – Sou um homem de palavras.

— E que lindas palavras! Só que você me prometeu anteontem, não é? Depois de toda decepção, uma grande surpresa! Gostei! Vem, entra aí!

Zachary pegou uma das sacolas de Tomás e abraçou com todo amor e carinho: poucas eram as coisas entre o céu e a terra que Zac amava mais do que videogames e lanches. Dentre essas coisas, uma delas: comer bons lanches enquanto joga videogames. Ah, era como realizar um sonho toda vez.

— Agora não sou o mané, não é mesmo? – Tomás sussurrou, rindo silenciosamente.

Quando entrou na pequena casa – tão menor que a dele, mas tão mais aconchegante – a mãe de Zac imediatamente saltou do sofá e apertou Tomás em seus braços:

— Ah, meu filhinho postiço! Que bom que apareceu, já estava desconfiada de que tinha acontecido alguma coisa! – Quando Tomás abriu a boca para responder, a mãe de Zac a cobriu com um dedo e logo o abraçou novamente. – Sem tempo para conversas, minha criança. Hoje é o dia que o Serafim...

— Rouba a criança da Cristal. – Tomás completou a fala e os olhos da mulher sorriram.

— Isso, meu bem. Você sempre vem com as palavras certas, não é, meu pequeno músico prodígio?

Aquilo foi como um aperto no coração de Tomás ou um soco em seu estômago, não soube diferenciar.

Ele e Zachary são amigos desde que se entendem por gente. E, com a amizade de longa data, Tomás também desenvolveu um laço de longa data com a mãe de Zac, já que ele sempre preferiu ir até a casa de Zachary brincar, ao invés do contrário. E apesar de Zachary só ter entendido o porquê disso quando cresceram mais um pouco ao observar a relação de Tomás com a mãe e como se sentia em sua própria casa, nunca questionou. Tomás sempre foi uma figura mais do que bem-vinda.

A mãe de Zachary é e sempre foi para Tomás uma mãe que ele nunca teve. A peça que faltava no quebra cabeça da sua vida, das suas relações. Mas a parte mais triste disso, para ele, é que ele tem mãe. Só sentia como se não tivesse. Sempre haveria um vazio nele reservado para Silvia.

Com a maturidade e muitos conselhos, inclusive do próprio Zachary, parte desse grande lote afetivo seu havia sido entregue para a dona de casa que agora assistia animadamente a novela das nove, sem sequer piscar os olhos. Suspirou. Talvez fosse, realmente, o pequeno músico prodígio dela, de Silvia poderia ser o filho médico que tanto desejava. Todos sairiam felizes nessa, não é mesmo? Era o que pensava, ainda que não se incluísse no todos.

Hamburgão! — Zachary comemorou quando chegaram ao quarto.

Se jogou novamente em sua cadeira, girou uma, duas vezes, para demonstrar sua animação e ligou o monitor do computador.

— Que filme acompanhará esse momento tão glorioso? Talvez uma stream? Você já viu stream daquele jogo de estratégia. Aquele que você, com mais quatro pessoas aleatórias, luta contra um time inimigo e tenta conquistar suas torres. E aí tem monstros em uma enorme e inexplorada selva e... — Zachary reparou no que costumava chamava “expressão de paisagem” estampada no rosto de Tomás e continuou a falar. — E acho que farei isso mesmo: colocarei uma stream de três horas desse jogo. Um torneio! Você assistiria comigo sem reclamar, certo?

Tomás balançou a cabeça, ainda com o olhar distante.

— Ok, mané, você nem está me ouvindo. — Zachary bufou e pegou uma batatinha de Tomás.

Fez menção de jogar nele, só que preferiu comê-la. Pegou outra batatinha de Tomás e agora, sim, lançou em um arremesso perfeito diretamente para seu nariz.

— Zac! — Tomás chiou.

— Oh! A Bela* finalmente acordou! Vamos lá, o que é que está rolando?

Tomás sonoramente bebeu seu refrigerante pelo canudo e deu uma enorme mordida em seu hamburger.

— Ok, você não quer falar. Pode ao menos dar alguma pista do que está te perturbando tanto a cabeça?

— Por que você tem tanta certeza de que tem algo me perturbando?

— Tomás, você jamais aceitaria assistir três horas de stream sem luta.

— Três horas? — Se assustou. — Você está doido, Zachary? Eu sequer jogo qualquer coisa! Pra que vou ver três horas de steam?

Stream, Tomás. E, bom, exatamente. Você estava com a cabeça tão cheia e tão distante que topou isso sem nem questionar.

— Não topei nada!

Zachary bufou novamente.

— Já pode falar o que tanto está te distraindo, manézão?

Foi a vez de Tomás bufar.

— Tem uma garota...

— É claro que “tem uma garota”. Sempre “tem uma garota”.

— O que você quer dizer com isso?

— Que é por isso que prefiro os jogos! Nenhum jogo me deixa nesse estado hipnótico que você entrou! Pelo menos não enquanto eu não estiver jogando ele. Nenhum deles têm esse poder de estarem onipresentes nos meus pensamentos, independentes da distância.

— Ok, talvez precisemos conversar sobre sua relação com os jogos mais tarde.

— Vai sonhando!

— Continuando: tem uma garota. Ela não está onipresente nos meus pensamentos. Eu só estou um pouco... Minha mente está inquieta.

— Isso é nítido.

— É. É que eu meio que fui um babaca com ela.

— Ah, Tomás, Tomás, o que foi que você fez? Não aprendeu nada com minhas aulas de como se chegar em uma garota?

— Olha, anime não são exatamente aulas de romance. Eu sei que você discorda, Zachary, mas dificilmente eu vou precisar de ajuda em uma situação em que estou super afim de uma garota com superpoderes, e sabe por quê? Porque, provavelmente, quase cem por cento de certeza, ela não terá superpoderes.

— O seu ceticismo suga minhas energias.

— Posso imaginar. A Lu...

— Ui, já está até íntimo, chamando pelo apelido. O que foi que perdi dessa história, hein?

— A Luiza é uma... fã? Não sei dizer. Ela gosta bastante das minhas músicas, seus comentários sobre elas são tão sensíveis e cheios de admiração. As palavras que usa são tão... bem usadas, tão certeiras e bonitas. E quando fui ver o perfil dela, ela é tão... linda. Mais até do que as palavras que usa. Seus cabelos cheios, sua pele cor de noite, seus olhos...

— Tá, tá, pode parar de babar pela garota e contar a história, ainda estou desfrutando do meu delicioso lanchinho, se me der licença. Não quero ficar imaginando cabelo de ninguém enquanto isso.

— Não está mais aqui quem falou! Bom, confesso ter me encantado um pouco pela Luiza.

Um pouco.

Sim, algo que os animes não ensinam, só que é um aprendizado necessário, é que não devemos nos apaixonar de primeira. Conheça muito bem a pessoa e só então, não é?

Não é? Só então você racionalmente entrega os seus sentimentos tão friamente calculados, entendi.

— Responsabilidade afetiva. Sempre jogar limpo com o próximo e ter cuidado com os sentimentos de todos. Isso inclui os seus também.

— Lindas palavras. — Ponderou Zachary enquanto mastigava. — Se ela fala tão bem quanto você, vocês formam um casal insuportável.

Tomás gargalhou.

— Não somos um casal, Zachary.

— Pois é, pelo que está me falando vocês sequer se conhecem.

— É aí que está, nos esbarramos sem querer na rua. Isso foi anteontem, inclusive.

— Ah, anteontem, o dia da fatídica promessa do hamburger.

Tomás gargalhou novamente.

— Perdão pelo vacilo, tá? Minha mãe me enquadrou, não consegui explicar alguns termos lá da biologia celular para ela. Me perturbou por longas horas e o único momento no dia em que descansei a cabeça longe dela foi quando precisei ir no mercado comprar algumas coisas que ela mesma havia esquecido.

— Justificado. — Zachary respondeu e botou mais um punhado de batatinhas na boca. — Continue.

— E foi justamente aí que esbarrei com a Luiza.

— Ah, que droga.

— Sim.

— Já te vi com a cabeça quente. Você se torna um menininho mimado e insuportável.

— Muito obrigado. Sei que posso contar com você para elevar minha autoestima sempre que precisar.

— Sempre, mané! — Zachary brindou o ar com seu copo de refrigerante.

— Eu enviei um e-mail pedindo desculpas para ela. É engraçado, porque eu já ia enviar um e-mail para ela para conversar sobre minhas músicas que ela tanto amou, mas, aí, vi que era a menina do esbarrão. E foi exatamente aí que reparei ter sido um babaca. Eu nem me desculpei na hora!

— Que criminoso!

— Zachary, é sério. — Outra mordida em seu hamburger. — Ela ainda não me respondeu.

— É claro! Crime foi você ter recorrido ao e-mail. Tão formal. Parece até que está tentando entrevistar ela para um emprego. Já ouviu falar de Instagram? Facebook?

Ok, geniozinho do flerte, mas sou adepto das longas cartas à moda antiga, ok?

— Exceto pelo fato que, bom, não são à moda antiga, certo? Se não me engano, o primeiro e-mail a ser criado foi por volta de 1965. Ok, é um pouco antigo, sim.

Tomás rosnou baixinho.

— Gosto de e-mails.

— Ok, vô. Ela não respondeu, tá. Só que você enviou quando?

— Ah, hoje de manhã. Digitei durante a aula de embriologia.

— Boa, garotão. Perde o semestre, mas não as palavras.

Foi a vez de Zachary gargalhar, porém Tomás não conseguiu se segurar e o acompanhou nas risadas. Enquanto riam e comiam batatinha, Tomás contava mais detalhes da sua curta história com Luiza e repetia de diferentes formas o quanto esperava o e-mail dela, que, inclusive, pensou que nunca chegaria. Até que, de repente, chegou.

“@UmTomasReal,

E aí? Estou bem, sim. E você?

Suas músicas são impecáveis, você caprichou. E, não fique animado demais, mas sua mãe também, como eu disse naquele comentário. Exceto pelo fato de você ser um músico elegante, babaca e pateta (em suas palavras!)

É claro que te desculpo! Todos temos dias ruins às vezes. Te desculpo principalmente por ter gastado tantas palavras bonitas em um e-mail para mim. Estou quase imprimindo ele para emoldurar de tão refinado que é. Ficará bom na parede do meu quarto com uma moldura, você não acha?

Bom, você não acha nada, já que não conhece meu quarto. Mas fica o convite. Não para conhecer meu quarto, é claro, mas para me conhecer sem que nos esbarremos bruscamente no meio da rua mais uma vez.

Meu Deus, como sou terrível com as palavras!

Vamos fazer o seguinte: dirigirei novamente meu olhar deveras atento para suas músicas, caso você dirija o seu para a minha também. Fechado? O arquivo é este anexado no e-mail. E, presta atenção, é segredo! Se mostrar para alguém, esse e-mail irá se autodestruir e você nunca mais verá meus tão atentos e observadores comentários sobre suas músicas, ok?

Saudações de uma compositora anônima, mas não tão anônima assim,

@ApenasLu”

— Tá namorando! Tá namorando! — Zachary estava, o tempo todo, atrás de Tomás enquanto ele lia o e-mail.

Só saiu de trás dele para pular e balançar os ombros do amigo enquanto repetia “tá namorando, tá namorando!”

— Zac! Ei, Zac! — Tomás reparou que Zachary já havia lido tudo e tentou acalmá-lo. — Não estou namorando! Nós nem nos conhecemos.

— Ainda, querido. Ainda. Ela te convidou até para conhecer o quarto dela. Seu mel está na validade mesmo, hein, garotão! — Zachary riu e continuou pulando.

— Zachary! Ela é apenas uma garota que acabei de conhecer, ok? Aguenta, aí, cara. Come seu lanche e vamos assistir alguma coisa. Depois eu respondo com calma o e-mail.

A carta à moda antiga, você quis dizer.

Tomás desviou do assunto, porém não conseguiu resistir e ficou sorridente o resto da noite. Deu, inclusive, o restante de seu hamburger para Zachary. Já estava mais do que satisfeito e sabia o quanto o amigo valorizava um bom hamburger.

Escolheram um filme para assistir e a mãe de Zachary apareceu com um balde de pipoca (haja espaço no estômago!) Tomás agradeceu e discretamente, durante o filme, respondeu Luiza. Não queria deixá-la esperando nem mais um minuto sequer. Por mais clichê que fosse, seu coração estava pulando de alegria. Não tanto quanto pulava Zachary.

* Menção à “Bela Adormecida”, conto de fadas clássico.