Os Teus Acordes

7 A lanchonete do seu Zeca, o velhinho grisalho


— Marília, poxa! Hoje é dia de batatinhas! — Lilia reclamou.

— Hoje é quinta, Lilia. — Marília respondeu.

— Todos os dias são dias de batatinhas, não é? — Lilia retrucou, traduzindo suas palavras com as pequenas mãozinhas para Luiza. — Concorda, Luiza?

“Concordo.” Luiza gesticulou, prendendo a risada.

Lilia e Luiza estavam jogadas na cama de Marília, enquanto ela permanecia sentada estudando. Estavam revisando a matéria do dia, como costumavam fazer e Lilia já estava exausta, como costumava ficar. As três sabiam aonde aquelas reclamações chegariam.

— Lilia, se eu prometer que vamos para a lanchonete, você termina de estudar pelo menos esse capítulo com a gente? — Marília perguntou impacientemente.

Lilia traduziu com as mãos o que Marília havia dito e acrescentou, animadamente, um “sim!” em resposta.

Marília bufou pensando nas provas, que estavam tão próximas. Lilia suspirou pensando nas batatinhas, também tão próximas e Luiza riu das amigas que, mesmo passando pela mesmíssima situação praticamente toda tarde, ainda não haviam se acostumado nem à rotina de estudos, nem às idas à lanchonete de cada dia. As batatinhas do seu Zeca eram muito gostosas e muito baratas, fazer o que, não é mesmo?

Após um longo capítulo, Lilia se levantou com um pulo da cama, enquanto Marília se levantava e se espreguiçava pacientemente, alongando todos os músculos que deviam ser regularmente alongados. São o completo oposto uma da outra. Luiza pensou e sorriu.

A lanchonete do seu Zeca é, possivelmente, o local que o trio de amigas mais vai da cidade. Talvez até mais do que a própria escola, já que estão por ali até em alguns finais de semana.

O restaurante, o favorito de Lilia, tem a temática dos anos noventa. Cores vibrantes em todo canto, bancos de vermelho vivo e uma linda e antiga Jukebox. Seu Zeca é um velhinho já grisalho que adora as meninas e elas o adoram também. Diante tudo isso, a lanchonete se tornou um lugar perfeitamente aconchegante para se sentarem e conversarem por horas.

Lilia foi a primeira a entrar pela porta, dando seus vários pulinhos de alegria.

— Boa tarde, seu Zeca! — Cantarolou e se jogou no assento de sua mesa favorita.

— Boa, Lili! — O velhinho respondeu de trás do balcão.

— Boa tarde! — Marília entrou, tocando novamente a campainha de cima da porta e foi se sentar ao lado da amiga.

— Como você está hoje, Marílinha? — Seu Zeca sorriu, deixando o avental na bancada e indo em direção a porta.

“Boa tarde, Zeca! Tudo bem?” Luiza sorriu.

“Oi, Luiza! Por aqui estamos na agitação cotidiana, mas bem, graças a Deus! Aproveitem a tarde, meninas!” O velhinho respondeu.

Após alguns dias de frequentação das meninas ao seu restaurante, há anos atrás, Zeca reparou que uma delas não falava. Com discrição e curiosidade, instigou uma conversa e reparou que, na verdade, ela apenas não ouvia.

É um mito, e ele havia aprendido pesquisando, a crença de que surdos também são mudos. Na realidade, mudez é uma outra coisa e é muito raro observar ambas as características juntas. O surdo muita das vezes apenas não desenvolve a fala, pois parte da aquisição da linguagem falada se dá por meio da absorção e compreensão dos sons formadores de sílabas, palavras etc. Por isso muitos surdos também não desenvolvem perfeitamente a escrita.

Algo que seu Zeca aprendeu rapidamente também foi que os surdos que entendem a LIBRAS e, simultaneamente, o português, são bilíngues. Isso acontece porque a primeira é aprendida geralmente como materna e a segunda como estrangeira.

Ficou tão maravilhado com todas aquelas informações e observando, vez ou outra, em sua lanchonete a relação das duas ouvintes que se dedicaram a aprenderem a língua dos sinais para trocarem ideias com sua amiga, que ele mesmo decidiu que aprenderia para atendê-las melhor. Aprender uma nova língua nunca é fácil, certo? Mas ele podia tentar.

Se inscreveu em cursinhos online e em menos de um mês já sabia o básico. Em menos de três meses já conseguia conversar com a Luiza e demais pessoas surdas. Isso acabou, sem querer, impulsionando a sua lanchonete, tornando um lugar ainda mais agradável e bem dito na vizinhança pelo excelente tratamento com seus clientes. Vendo essa propagação das críticas positivas, Zeca investiu sem acessibilidade no restaurante e, bom, isso já é outra história. Seu pequeno restaurante logo se tornou um restaurante conhecido, um point da cidade, e agradecia, principalmente, à Luiza por ter sido a grande motivadora disso, mesmo que sem querer. Em troca, o preço original das batatinhas se tornou vitalício para o trio tão querido.

Zeca retornou ao balcão dos pedidos e Luiza, Lilia e Marília se acomodaram, animadamente conversando sobre o filme internacional que sairia na próxima semana e que estavam ansiosas para assistir. Filme internacional no cinema, para Luiza, era sinônimo de filme com legendas, o que a deixava bastante feliz. O que não a deixou feliz, na verdade, foi ver Tomás entrando pela porta da mesma lanchonete.

Aquele restaurante era um dos seus lugares seguros no mundo, além de sua casa, é claro. Ver Tomás bem ali, invadindo seu espaço... não entendeu, mas seu coração palpitou e suas mãos congelaram no ar.

Marília olhou para trás para observar o que estava acontecendo, enquanto Lilia se deliciava distraidamente com suas batatinhas.

“Tomás, o músico.” Luiza discretamente explicou.

“Quem?” Marília retrucou.

“Tomás.” Soletrou mais devagar. “O que ele está fazendo aqui?”

“Eu não sei.”

“E por que está vindo em nossa direção?”

“Eu não sei.”

“Meu Deus!”

“Você está muito estranha.”

“Fala! Pode falar, eu acompanho com a leitura labial.”

“Mas...”

— Luiza? — Tomás se apoiou na mesa.

Lilia protegeu seu prato de batatinhas. Tomou um susto com o estranho se apoiando aleatoriamente na sua mesa. Ok, não parecia ser tão estranho assim, já que conhecia Luiza.

Lilia fez menção de perguntar com as mãos quem era ele, mas Marília lhe deu uma cotovelada e interrompeu, enquanto Luiza sorria:

— Oi, quem é você? — Marília perguntou diretamente.

— Uau, que objetiva. — Tomás riu, tentando descontrair, só que já estava um tanto quanto tímido e aquela pergunta o havia acertado como um pequeno foguete. — Sou Tomás... Conhecido da Luiza, certo, lu?

Marília e Lilia arquearam as sobrancelhas. Ninguém, simplesmente ninguém, chamava a Luiza de “lu”. Luiza, por sua vez, novamente sorriu, se esforçando para captar a maioria das palavras que aquele músico rapidamente falava. Observou sua boca se mexendo a cada letra, o suor em sua testa, o cabelo preso em um coque, alguns cachinhos insistentes fugindo de seu penteado, enfim... Na internet, todo produzido, era lindo. Na vida real, todo natural, era de tirar o fôlego. Suspirou. Mas não caidinha por ele, é claro que não!

Lilia levantou novamente suas mãos e recebeu uma pisada no pé de Luiza, em resposta.

— Ai! — Reclamou. — Vocês estão malucas!

— Ei, Tomás, nós estávamos debatendo um assunto um pouco importante e urgente. Se importa de falar com a “lu” depois? — Marília disse, tentando não soar debochada.

— É claro... — Tomás respondeu, gaguejando um pouco e pigarreando no final.

Zachary notou o seu desconforto e pôs as mãos no ombro do amigo enquanto encaminhava ele para a mesa.

— Essa é aquela mesma Luiza do e-mail? Que te chamou para o quarto dela e tudo mais? – Perguntou, apoiou a cabeça nas mãos e bufou. – Não entendo porque as pessoas são tão diferentes pela Internet.

— Zachary... – Ele formulou seu pensamento, reflexivo.

— O que é?

Luiza não havia dito uma palavra sequer quando se esbarraram. Nem o xingou, sequer pediu desculpas ou mesmo licença para evitar o esbarrão. Tudo bem que ele também não havia pedido licença. Mas alguém que estava visivelmente flertando com ele sequer responder um “oi"? Apenas sorrir e balançar a cabeça como aqueles bonequinhos de carro?

— Acho que ela está apaixonada por mim. – Concluiu, como naturalmente concluiria qualquer pessoa de ego inflado.

— E você baseia seu pensamento em..? – Zachary reconhecia um ego inflado quando via um.

Era bastante experiente nisso, graças aos seus jogos multiplayer online.

— Está tão apaixonada que não consegue trocar nem uma palavra comigo!

— Entendo. – Zachary coçou o queixo e olhou para a mesa ao lado, enquanto Tomás pedia seus milkshakes.

Luiza estava sentada em frente às outras duas meninas: a grosseira e a confusa. É, ele as organizaria assim em sua mente. A grosseira claramente ficou desconfortável com a presença de Tomás. Ciúmes talvez? Não fazia sentido. As três pareciam ser muito próximas, a confusa não ficaria, bom, confusa. Então ele viu Luiza timidamente mover as mãos no ar. Zachary havia feito uma vez curso de LIBRAS online. Se interessava por aprender assuntos novos e não só isso, pela ideia de que ninguém deve ser excluído por uma barreira invisível de linguagem.

— Ela é surda. – Pontuou, finalmente.

— E, então, iremos passear em um fim de tarde com nosso golden retrivier chamado “Jorge”. “Jorge” é um bom nome, não é? – Tomás interrompeu o seu futuro imaginário estritamente planejado e suspirou. – O que você estava dizendo?

— Ela é surda, Tomás. – Zachary repetiu e deu um longo gole em seu milkshake. – Presta atenção nas mãos.

— Isso é algum tipo de fetiche? “Presta atenção nas mãos.”

Zachary revirou os olhos. Tomás podia ser bastante irritante quando passava por qualquer processo de negação, seja ele qual for. Outro gole no milkshake.

— Você está viajando. Gesticular muito é normal, coisa de garota.

— A menina pode até ser surda, mas com certeza escuta mais do que você, mané.

Zachary se recostou na cadeira e bufou. Tomás apoiou a cabeça nas mãos e os cotovelos na mesa, observou atentamente Luiza, que continuava a gesticular discretamente para as amigas. Estava tão adorável... Os cabelos escuros presos em um coque improvisado, as unhas pintadas de laranja, a camiseta de banda... Tudo nela tinha vida e era autêntico. É, Zachary estava viajando, gesticular é só coisa de garota mesmo, pensou.