Os Teus Acordes
24 Tocando múmias por aí
— Ok. "123.765.489-0", "123.765.489-0", "123...", espera, "7" e mais o que mesmo? — Zachary murmurou.
Mais uma tarde de sol. Ar fresco, pássaros cantando, um excelente dia para... Isso mesmo! Buscar a encomenda de sua mãe nos correios. Zachary resmungou.
— Não dá, não dá, Zachary, para você esquecer o cpf da sua mãe mais uma vez! — Reclamou e coçou a testa, se esforçando para lembrar.
No meio da breve crise de Zachary, Lilia atravessou a rua e esbarrou no garoto. Zachary se sentiu como se tivesse sido imediatamente expulso de seu diálogo interno e inserido em uma situação que não sabia dizer se era agradável ou não. Bom, é a Lilia. Mas é a Lilia. Encantador e assustador ao mesmo tempo. Coragem, Zachary! Pensou.
Na realidade ele, como já tinha refletido antes, sentia que Lilia tinha o dom de deixar todos à sua volta confortáveis. Só que precisava começar a admitir para si mesmo, principalmente depois da conversa com Tomás, o efeito que ela causava nele.
— Zachary! — Lilia vibrou.
— Lilia! — Zachary tentou imitar sua animação, mas, nervoso, acabou falando alto demais.
— Você por aqui!
— Sim, é, eu moro aqui perto.
Por alguns momentos, enfrentaram o silêncio de uma conversa levemente constrangedora, que não sabiam nem como continuar, nem como terminar. Quando Lilia fez menção de se despedir, Zachary se arriscou mais uma vez:
— Ei, você não vai acreditar no que eu descobri ontem.
— Provavelmente vou, sim, mas devo ficar bem chocada. Você sempre traz as curiosidades mais impressionantes sobre bichinhos!
— Lisonjeado! — Se curvou, fazendo Lilia rir. — Você sabia que os gatos têm uma região no cérebro responsável pelas emoções idêntica aos humanos?
— Incrível! – Lilia falou, verdadeiramente impressionada. — Como você sabe tanto?
— Gosto de desvendar a natureza nas horas vagas. Além disso, ter mais o conhecimento me ajuda a exercitar a imaginação. Isso é muito bom para rpg's.
Lilia o olhou boquiaberta.
— Incrível, realmente incrível.
— Tenho muitas outras curiosidades aqui dentro da minha cabeça. — Mencionou, apontando para o topo de seu corpo. — Poderia te contar várias, se me acompanhasse em uma nobre jornada glacial.
Foi a vez de Lilia se curvar.
— Honrada em partilhar desse conhecimento com o senhor. Mas por aqui não temos muita neve.
— Por aqui não, minha dama, mas na sorveteria temos. O que são os sorvetes, afinal, além de bolas de neve saborosas?
— Você tem um ponto. — Lilia respondeu, sorrindo de orelha a orelha.
Aquele tinha sido o convite mais natural e criativo que ela já recebeu para sair. Ok, talvez não o mais criativo. Certa vez, um participante do coral da escola reuniu todo o grupo no corredor apenas para cantar "Magic" do Coldplay e convidar Lilia para um almoço casual. Mas o de Zachary estava bem perto de ser o mais criativo.
— Tem algo para fazer agora? — Tomado por uma súbita coragem, perguntou.
Lilia respondeu que estava livre e que adoraria tomar um sorvete e, por algum motivo, Zachary se lembrou repentinamente da encomenda da mãe.
— Correios!
— Correios?
— Eu estava indo para os correios. Meu Deus, esqueci!
— Eu só estava dando uma volta, posso te acompanhar. Se não for incomodar, é claro.
Jamais me incomodaria em andar ao seu lado. Ele pensou, mas, tendo perdido seu acesso de coragem, não deixou que isso saísse de sua boca:
— Normalmente é super entediante ir aos correios, vai ser ótimo ter com quem conversar.
Zachary e Lilia caminharam até o correio. Ele esqueceu o cpf de sua mãe mais uma vez, é claro! Por sorte, Lilia não tinha esquecido o celular em casa feito ele e o emprestou.
A nova dupla de amigos da região pegou a encomenda nos correios e foi em busca do pedaço de neve saboroso. No outro lado do bairro, Luiza e Souza foram para mais uma consulta médica.
O doutor explicou que existia a possibilidade de o custo do implante ser reduzido em até metade do valor, caso paguem os quinze mil à vista. Luiza ainda não tinha conversado com Souza sobre o brechó. Não queria levantar expectativas antes de ter algo realmente promissor, apesar de acreditar no seu sucesso. Souza só tinha conseguido economizar cinco mil com o passar dos anos. Além de ter criado sua filha sozinho, seu emprego não o pagava tão bem assim. Os anteriores, então, muito menos.
Quando chegou em casa, Luiza foi tomada por uma apreensão enorme. E se não desse certo? E se ela nunca conseguisse realizar o seu sonho, tão importante para ela, tão banal para outros jovens que podiam dançar com seus fones de ouvido diariamente, mesmo que andando na rua? Tomás enviou uma mensagem, puxando assunto. Perguntou se também tinha visto as mesmas nuvens que ele no céu, porque, mesmo que não estivessem juntos no momento, o espaço entre eles os conectaria. Romântico, mas Luiza não estava no clima de vivenciar romances. Prometeu a si mesma que responderia Tomás assim que acordasse. Só que, naquele momento, apenas deixou o celular na escrivaninha e se deitou.
Quando acordou, sentiu sede e foi até a cozinha de pijamas e pantufas. Tinha sonhado com Tomás, era verdade. Dançavam na chuva e a música era, ao mesmo tempo, alta e suave. Não esperava, no entanto, que Tomás estivesse sentado no meio da sala conversando com seu pai. Se escondeu atrás da parede e se esforçou para ler os lábios de Tomás a distância. Sabia que fuxicar era ruim, mas ser tão difícil de fazê-lo já a fazia considerar como uma pequena penitência.
— Sinto muito, não sabia que era tão caro... Na verdade, não sabia do implante. Quando ela estiver pronta para falar sobre e se quiser desabafar, serei de todo ouvidos.
A frase fazia completo sentido e, além de tudo, era fofa demais. Pontos para a Luiza, tanto em relação às suas habilidades para ler a conversa alheia quanto pelo seu parceiro. Observou que Tomás se enrubesceu. Novamente se esforçou para ler:
— As minhas intenções com a lu são as melhores, pode ter certeza. Ela ilumina meus dias e toda vez que toco qualquer múmia, sinto sua presença.
Ok, agora Luiza ficou confusa. Tentou trocar "múmia" por "música". É, fez mais sentido. Souza estava interrogando Tomás, era óbvio. Luiza podia viver com esse fato. E também podia esperar um pouquinho mais para saciar sua sede. Voltou para o quarto e começou a ler um livro, até que Tomás apareceu em sua porta e perguntou se podia entrar.
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