Os Teus Acordes

25 Jornada glacial


Zachary pediu um sorvete de baunilha. Lilia quis um de chocolate belga com menta.

— Que moça sofisticada você é! — Comentou.

— Levo sabores muito a sério, querido. Juro que se inventassem um sorvete de batata-frita, sei lá, eu não pararia de comer.

— Tenho certeza que não. — Zachary gargalhou.

Depois de serem atendidos, sentaram em dois pequenos bancos no canto da sorveteria e se deliciaram com o sorvete que tinham em mãos. Lilia levava aqueles momentos muito a sério realmente. Zachary reparou, pela forma que ela olhava apaixonadamente para sua casquinha, que a iniciativa de um diálogo não partiria da garota.

— Então... — Começou a falar, recebendo em troca um olhar e uma boca cor de sorvete. — Você sabia que nove em cada dez casais de girafas são formados por machos? Se nós olhássemos mais para a natureza, o humano não seria, assim, tão preconceituoso.

Zachary arrancou Lilia de seu torpor gelado.

— É? — Ela engoliu o sorvete que tinha na boca.

— Sim! Existem muitos animaizinhos com comportamento homossexual. Bom, não sei dizer se podemos dizer que eles são homossexuais. Não me sinto confortável em falar isso porque vai que incomoda alguém, não é? Não tenho a intenção de ofender ninguém jamais.

— Não me incomoda, nem me ofende. — Lilia respondeu no ato.

— Eu quis dizer que não tenho a intenção de incomodar ou de ofender pessoas que são... — Zachary explicou, mesmo tendo a certeza de que Lilia tinha entendido.

— É claro que você quis dizer isso... – Respondeu, sem graça, e mordeu (mordeu!) um pedaço do sorvete.

Zachary achou aquilo muito estranho. Foi a primeira vez que viu Lilia sem graça com algo. Não que se conhecessem há muito tempo, mas, pelo pouco que a conhecia, o fato de ter mordido o sorvete era algo alarmante. Afinal, quem é que leva tão a sério o sabor do sorvete e simplesmente o morde? Todos sabem que não é assim que se aprecia, estava convicto disso.

Caíram novamente na silenciosa e estranha situação do diálogo findado. Não pensou muito, tentou falar a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

— Lilia, você lê? – Perguntou, levemente nervoso.

Lilia apenas se virou para ele com uma expressão interrogativa. Se apressou para consertar:

— Digo, gostar de ler. Sei que você lê. Aliás, não teria nada contra se não lesse, mas imagino que saiba ler. — Gaguejou.

— Eu sei ler, Zac. — Sorriu.

Logo se perguntou o porquê de ter pensado em leitura. Tudo bem, era realmente um assunto em potencial se ela gostasse. Mas tão aleatório... Pelo menos conheceria um pouco mais sobre ela.

— Eu gosto dos romances. — Respondeu prontamente. — Mas não só deles. Tenho estado em uma fase de ler blogs. — Continuou a falar, passando a tomar o sorvete da maneira correta e demonstrando, dessa forma, um conforto maior com o assunto.

Blogs, é? Já li muito. Lá pelos anos 2011, 2012... Amava os de comédia. Quem nunca ouviu falar do "Le Ninja", não é?

— Eu! Eu nunca ouvi. — Lilia riu e sujou os lábios de menta com chocolate outra vez. — Mas se te divertia, provavelmente era bom.

— Ainda existe, é que eu parei de acessar lá por 2012 mesmo. O tempo passa, a gente muda...

— Eu que o diga... — Lilia bufou, transmutando da expressão suave de uma conversa tranquila para uma mais pesada.

— Você mudou muito, querida? — Zachary se arriscou.

Sentiu que estava caminhando sobre ovos hipotéticos. Lilia pegou uma mecha dos cabelos ruivos e começou a brincar, fingindo estar distraída. Zachary não pôde deixar de reparar que, dentro do estabelecimento, sem o sol forte e costumeiro das ruas, as sardas de Lilia estavam menos aparentes, mas ainda estavam ali, emoldurando seu nariz, como uma pintura natural de seu rosto. Afastou o pensamento. Foco!

— Quem é que não mudou, Zac? Mudar é absolutamente normal e saudável. O problema é quando a gente não aceita isso. As coisas se transformam, as pessoas se transformam e, bom... — Suspirou. — Relações também.

Zachary a olhou com atenção. Adorava que o chamava de Zac, aquilo o deixava bobo, mesmo que precisasse manter a compostura. Falando de compostura, ajeitou a coluna e se pôs ereto. Aquela conversa soava como um desabafo. E em situações de desabafos precisamos estar atentos, abertos a ouvir e concentrados, com toda certeza mais concentrados do que Zachary, que contornava com os olhos a boca de Lilia.

— Sim, relações mudam. – Afirmou, sentindo uma ponta de esperança no peito.

— Mas acho que a Marília não entende isso. — Bufou.

Zachary franziu o cenho. Marília? Oh... Repassou toda as vezes em que vira as duas juntas.

Oh... As respostas atravessadas de Marília, a paciência de Lilia, a lealdade de ambas...

— Você gosta da Marília. – Concluiu, tão para si mesmo que quase sussurrou.

— Claro que gosto. Mais do que gosto: amo! Ela e a Luiza são as minhas melhores amigas. E a Marília ocupa esse posto há bons anos, viu?

— Não, Lilia. Você... — Zachary pigarreou. — Gosta. Gosta mesmo da Marília.

Lilia voltou a morder o sorvete, chegou até mesmo a torcer o rosto em uma pequena careta, graças aos seus dentes sensíveis.

— Por que você está dizendo isso?

— Por que você disse que a Marília não entende que relações mudam?

Lilia o observou da cabeça aos pés, tentando ganhar tempo. Porque falou aquilo, não sabia. Simplesmente saiu. Só que certas coisas simplesmente saem o tempo todo, isso não necessariamente significa nada. A não ser que, é claro, signifique.

Observando a discussão que Lilia travou com ela mesma, Zachary a interrompeu:

— Não precisa me responder. — Ele falou e observou que Lilia começou a respirar rápido demais.

Segurou seus ombros, a encarou por alguns segundos, a abraçou e, no seu ouvido, disse:

— Uma vez eu li em um livro que temos o amor que achamos merecer, certo, Lilia? Vocês já vivem um amor, a lealdade entre as duas é linda. Tenho certeza de que ela não julgará seus sentimentos. Mas você nunca terá a resposta que tanto quer se ficar parada, aqui, tomando sorvete comigo.

Lilia arregalou os olhos. Sentiu que realmente ganhou um grande amigo da noite para o dia e agradeceu aos astros por isso. Quando se desvencilharam, sorriu largamente e lhe deu um beijo na bochecha. Zachary sabia, simplesmente sabia, para onde Lilia estava correndo quando ela passou quase que voando pela porta. Que bom que não estou apaixonado. Pensou, terminou de comer a casquinha de seu sorvete e simplesmente ficou ali parado por um tempo, digerindo a situação que ele ajudou a formar. Era o certo a ser feito, então por que doía tanto?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.