Os Teus Acordes

23 Só por via das dúvidas


"Oi! ❤" Lilia digitou no chat de grupo que dividia com Luiza e Marília.

Como toda mensagem que enviava, estava devidamente acompanhada de um coraçãozinho no final.

"Oi!" Luiza e Marília responderam.

"Então, como vocês sabem, enquanto cuidam das roupas e dos acessórios, ou seja, do estoque, eu estou responsável pela parte financeira." Marília escreveu.

"Sim, sabemos." Luiza retrucou.

"Pois bem, a boa notícia é que nessas duas semanas vendemos mil reais em roupas!"

"O QUÊ?" Lilia digitou com vários corações.

"Isso mesmo!" Marília continuou seu raciocínio. "Mas precisamos de muito mais do que isso, garotas. Vamos precisar comprar outras roupas para revender."

"Mil já é um ótimo começo." Positiva, Lilia retrucou.

"Sim, é um começo que, com toda a certeza, me deixou muito feliz. Mas ainda não é nada próximo de dez mil."

Por trás do monitor, Luiza suspirou e apoiou a cabeça nas duas mãos. Se espreguiçou e digitou:

"Independentemente do quanto consigamos, saibam que estou muito feliz e agradecida pelo que estão fazendo."

"Nós amamos você." Marília respondeu, sem rodeios.

Lilia encheu o chat de corações coloridos e figurinhas de pequenos animais dançantes.

"Lilia, recomponha-se, mulher." Marília brincou.

"Esse é meu jeitinho de me expressar! Não gostou, me processa." Escreveu, enviando mais meia dúzia de cachorros, gatos e até calopsitas.

Luiza e Marília gargalharam. A leoa do grupo continuou seu raciocínio:

"Apenas relembrando: com os dez mil, mais os cinco do pai da Luiza, teremos a base que precisamos para pleitearmos um desconto para o implante, principalmente pagando à vista. Luiza, alguma notícia dos hospitais públicos? Alguém te contactou?"

"Ainda não..."

Lilia enviou uma grande figurinha de um coração choroso.

"Lilia, quantos corações você tem por aí?" Luiza perguntou.

"Você adoraria ver..."

"Não, por favor." Marília respondeu.

Lilia bufou e se despediu, enviando mais um punhado de figurinhas.

Marília e Luiza também se despediram e Luiza desligou o computador. Quando se virou, Souza estava apoiado na lateral da porta.

"Podemos conversar por um minuto?" Perguntou sorrindo, porém com os olhos cansados.

"Todos os minutos para você, pai!" Luiza sorriu, tentando o animar, em vão.

— Filho... – Silvia bateu à porta de Tomás. — Precisamos conversar.

— O que houve? — Antes sentado em frente à escrivaninha, se virou parcialmente.

— Ontem, quando você passou o dia fora, acabei sem querer acessando suas coisas no computador.

— Como que isso aconteceu "sem querer"?

— Eu ia desligar para você. Tinha esquecido ele ligado. Ok, não gosto de rodeios em uma conversa, Tomás. Vi no seu histórico um curso de LIBRAS.

— Calma. — Tomás desligou o monitor e se voltou completamente para a mãe. — Você mexeu nas minhas coisas? No meu computador, sem a minha permissão?

— Você é meu filho, Tomás! Eu sou a sua mãe!

— Sim, eu vejo isso. Só não sei se você vê, mãe, que eu não tenho mais treze ou quatorze anos. Não sou um adolescente mais. E mesmo que fosse, não teria direito à privacidade?

— Vai desviar do assunto?

— Você me espionou e está querendo discutir sobre um curso online que estou fazendo?

— Não te espionei! — Silvia se enfureceu, espalmando a mão na parede.

Logo se controlou, respirou fundo e continuou a falar:

— Você está perdendo tempo, Tomás! Eu preciso te alertar. A vizinhança tem olhos e ouvidos e todos sabem que você está perdendo tempo, se dedicando tanto, para uma relação nada promissora!

— Perdendo tempo? Relação nada promissora?

— Todos têm comentado que o médico da vizinhança está saindo com a menina surda de uma família mediana! As pessoas falam, Tomás! E agora isso? Deixar de estudar para aprender LIBRAS? Se fosse para lidar com seus pacientes, tudo bem!

Tomás encarou Silvia. Conhecia de longa data seu temperamento instável, sua postura elitista, só que ouvir daquela maneira... Tomás não tinha palavras. Não havia o que responder. Para ele, Silvia se afundou na própria ignorância. Qualquer discussão seria apenas uma dor de cabeça a mais.

— Tomás? Tomás! Para onde está indo?

O garoto apenas se levantou e, sem proferir uma palavra a mais, saiu do quarto. Silvia o seguiu com passos apressados, mas Tomás não se virou e, em questão de segundos, já estava na rua, mesmo sob os protestos da mãe.

"Me contaram da noite de ontem..." Souza assumiu.

Luiza se alertou. Então, seu pai sabia que havia beijado Tomás na frente de toda a lanchonete. Ele continuou com o que estava dizendo:

"Eu tenho medo, Luiza. Não quero que se magoe. Sei o quanto ama música e posso ver o quanto está gostando de um garoto. Mas músicos? Sempre tenha um pé atrás com músicos, principalmente os ouvintes. Talvez ele não te compreenda, filha. Talvez ele não te entenda o suficiente."

Luiza se sentou na cama e pediu para que Souza viesse para seu lado. Assim ele o fez.

"Pai, eu entendo sua preocupação." Assumiu e, apesar das palavras, sorriu.

"Mas eu vou me magoar. Isso é fato. Todos nós vamos nos magoar alguns dias pelos mais variados motivos. E, infelizmente, não tem como proteger aqueles quem amamos disso. Porque a mágoa faz parte da vida, e quando equilibrada com momentos de alegria é saudável e essencial. Nos ensina a valorizar os outros momentos bons. Posso vir a me magoar com o Tomás, sim. Mas vale a pena eu me privar de viver o que estou sentindo por isso?"

Souza ficou estupefato. Sua formiguinha cresceu bem sobre seus olhos e, ao mesmo tempo, de um dia para o outro. Ele não tinha acompanhado. Falava com maturidade e propriedade sobre um assunto que nem o próprio sabia lidar muito bem. Estava sem palavras.

"Eu te amo, pai. E gosto do Tomás. Não te escondo isso." Abaixou as mãos e suspirou.

Ainda sem palavras, Souza apenas a enlaçou em seus braços e deu um beijo no topo de sua cabeça. Ao passo que estava preocupado, também estava orgulhoso. E, no meio de toda aquela confusão sentimental, apareceu Tomás. Insistentemente, o garoto batia na porta. Souza se levantou, se perguntando quem era, mas já com suspeitas.

— Boa tarde, senhor! — Tomás endireitou a coluna e ofegou.

Estava suado, claramente tinha corrido para chegar ali.

— Você é o Tomás, certo?

— O próprio. Acho que nunca nos apresentamos formalmente antes. É um prazer te conhecer. — Sorriu e, mesmo com a mãos molhada, a estendeu.

Logo reparou no seu suor, a espalmou na calça e retomou o gesto. Souza estava confuso, não entendia o porquê de tanta inquietação no jovem, mas a segurou mesmo assim e se cumprimentaram.

Souza reparou que, mesmo suado, com os cabelos alvoroçados pelo vento, Tomás tinha um charme. Poderia até mesmo admitir um dia que formava um par bonito com sua filha.

— A Luiza está? — Tomás perguntou.

— Vou chamar. Entra, senta um pouco e, bom, recomponha-se. — Sorriu.

Tomás achou graça. Realmente estava com a aparência bagunçada. Se sentou no sofá, sentiu o hálito com suas mãos (nunca se sabe, não é mesmo?) e aguardou, se esforçando para parar com a agitação das pernas.

"Tomás!" Luiza sinalizou, radiante.

Souza reparou que Luiza criou um sinal para ele.

"Luiza!" Tomás respondeu.

Reparou também que ensinou seu sinal para Tomás.

— Ok, pombinhos, fiquem à vontade, mas não tão à vontade assim. Se lembrem de que estou de olho. Dizem que as paredes têm olhos e ouvidos e, sim, têm sim: os meus. — Souza disse e encarou o casal, arrancando algumas risadas de sua filha e palpitações de Tomás.

"O que você está fazendo aqui?" Luiza perguntou, quando viu que seu pai tinha entrado na cozinha.

Com as mãos um pouco trêmulas, retirou um papel do bolso, o entregou e gesticulou:

"Sabe? Teu olhar é porta, é lar

Para a alma que quer acordar.

Sabe, teu sorriso é aconchego, é abraço

É onde quero morar.

Sabe? Essas rimas são simples, tão tolas

Mas são o que posso te entregar.

Porque pouco tenho, meu amor.

Pouco tenho fama ou fortuna em meu nome.

Pouco tenho o que muitos têm.

Pouco tenho, mas tenho rimas bobas pra te dizer

Que se por aqui eu estiver com você, tudo bem."

Luiza olhou atentamente e se apaixonou por cada movimento que as mãos de Tomás fizeram, formando palavras e frases. Tomás respirou fundo:

— Compus para você.

"Eu vi." Falou, emocionada.

— Foi bem difícil aprender, bom, traduzir essa canção. Mas com dedicação e paciência, acho que deu para entender.

"Consegui entender tudinho."

Tomás se calou por alguns instantes. O cabelo de Luiza estava preso, algumas madeixas teimosamente voaram. Seus olhos escuros o encararam e sua boca, grossa e perfeitamente delineada, o convidou. Se distraiu por um momento, só que precisava manter o foco. Se ajoelhou em frente a ela, bem quando Souza voltou para sala em silêncio.

— Pode até ser que seja cedo demais, mas tudo o que sinto por você é tão intenso... — Admitiu, enquanto estendia um pequeno e reluzente anel.

Souza prendeu o ar. Sim, isso com toda certeza é cedo demais. Luiza também prendeu a respiração, sequer piscou.

— Lu, toda vez estou perto de você, sinto que estou dançando sobre as nuvens. Uma vez que conhecemos essa sensação, não podemos deixá-la simplesmente escapar sobre nossos dedos. Aceita dançar sobre as nuvens ao meu lado?

"Tomás, você está me pedindo em noivado?"

Muito mais pelo nervoso do que realmente pela situação ser engraçada, Tomás gargalhou.

— Não, não! Ainda somos muito novos e eu não quero te assustar. Queria saber, lu, se você quer ser minha namorada. — Pausou sua fala e olhou para trás. — Com a benção de seu pai, é claro. Por isso estou aqui.

Luiza piscou diversas vezes. Seus dias estavam se tornando uma montanha russa que só subia e ela não queria saber da descida. Gostava da sensação. Souza abençoou.

"Sim!" Com os olhos lacrimejando, Luiza pulou em seus braços, sendo envolvida por um longo e romântico beijo, interrompido pelo pigarro de seu pai. Tomás delicadamente pegou sua mão e vestiu seu dedo com o anel.

Naquela noite, Tomás ficou para o jantar e assistiu a um filme abraçado com sua nova namorada e ao lado de seu sogro. Em uma das interrupções para Souza ir na cozinha preparar mais pipoca, Tomás se virou para Luiza:

— Só por via das dúvidas, você ia aceitar ser minha noiva?

Imediatamente, Souza voltou para a sala e se virou para eles com atenção. Luiza abraçou Tomás e riu:

"Você é inacreditável!"