Os Teus Acordes
14 Sagradas batatinhas
Luiza se sentou na cama, respirou fundo e bocejou. Olhando para os lados, viu que Lilia dormia em um colchão e Marília, em uma poltrona com um livro no colo. Tão típico de Marília... Luiza se levantou e a cutucou, apontando para a cama, pois estava preocupada com a dor na coluna que ela poderia ter por passar tantas horas naquela posição.
Marília, ainda sonolenta, se arrastou até a cama e voltou a dormir. Leu até tarde novamente, não foi? Luiza sorriu, pegou o livro da poltrona e o colocou na escrivaninha. Lilia acordou logo, nunca dormia demais, ao contrário de Marília, de quando lia a madrugada inteirinha. Algumas vezes Lilia ia com sono para a escola, porque tinha esquecido de silenciar as notificações do celular durante a noite. A madrugada era justamente o momento em que, empolgada, Marília enviava inúmeras mensagens sobre o romance da vez a ser devorado. Estranhamente, Lilia não reclamava disso. Apesar do cansaço que sentia, parecia gostar de receber aquelas mensagens eufóricas e aleatórias durante a madrugada.
Luiza foi até seu pai, que estava sentado na mesa bebericando café e comendo alguns biscoitos. Deu um beijo na bochecha, sinalizou "bom dia" e Souza, retribuindo-lhe o gesto de afeto, respondeu:
"Bom dia, formiguinha."
Poucos momentos depois, Lilia apareceu na sala esfregando os olhos.
"Bom dia, tio. Bom dia, Luiza." Lilia cumprimentou.
"Bom dia, Lilia." Ambos responderam, sincronizados.
"Luiza, vamos fazer o negócio das roupas agora ou mais tarde?" Lilia perguntou, enquanto Souza espiava o diálogo com o canto de olho.
"Não sei, você é quem sabe. Só preciso de um tempo para tirá-las. Preciso tomar um pouco de coragem." Luiza respondeu, franzindo os lábios por conta do apego com as suas coisas.
Enquanto isso, Souza sem querer quebrou o biscoito com a mão. A conversa estava tomando um rumo um pouco... íntimo.
Não tinha nada contra sua filha se relacionar com outra mulher. Na verdade, Lilia é tão boa garota que para Souza é preferível sua filha estar com ela do que com Tomás. O problema é que aquela conversa estava explícita demais para se ter diante de um pai. Sabia que Luiza já tinha dezoito anos, já a viu apaixonada por algumas pessoas, sempre muito tímida e reservada sobre seus sentimentos. Mas ter consciência dessa forma era... diferente. Luiza é sua bebê, para sempre sua formiguinha, não queria saber de lidar com genros ou noras. E se tivesse que lidar, não queria saber explicitamente das relações de sua filha, pelo amor de Deus! Suplicou internamente. Pigarreou.
"Garotas, não queria falar dessa forma, mas vocês poderiam, sei lá, não falarem dessa forma?"
"Não entendi." Lilia inclinou a cabeça ingenuamente.
"Também não, pai. Algo te incomodou?"
"Não! O amor é livre, eu sou o maior defensor disso. Só não quero saber em quais momentos minha formiguinha está exercendo o amor livre. Digo, o ideal é que seja em casa mesmo, em um ambiente seguro e confortável, com preservativo e tudo mais." Souza terminou de mover suas mãos trêmulas e as paralisou no ar por um momento. "Por Deus, meninas! A Marília está no quarto também!"
O homem respirou fundo e terminou de expor seu pensamento com o rosto tomado por uma vermelhidão intensa. Sempre soube que chegaria o dia da conversa, mas imaginou que a conversa seria apenas com sua filhinha, em um contexto menos imediato ou repentino, ele diria.
Lilia e Luiza se entreolharam pelos dois minutos mais longos da vida de Souza. Quando se é conectado com alguém, quando a ligação é tão forte, às vezes a vida te presenteia com um ou outro superpoder. Você fica intuitivo, fica superforte para enfrentar as adversidades da vida com aquele alguém amado e, pasme, ganha a capacidade de conversar telepaticamente em algumas situações. Cientistas não explicam, e talvez não seja exatamente telepaticamente, só que Lilia e Luiza se olharam com uma intensidade que dialogaram sem o auxílio das palavras em si. Lilia se aproximou primeiro, pôs a mão na cintura da Luiza. Ela se aproximou, se virou de frente para a amiga, apoiou os dois braços em seus ombros. Souza inspirou e expirou cada vez mais rápido. Tentou compreender que sua formiguinha havia crescido e estava namorando. Mais do que namorando, estava namorando a amiga de longa data! E se declarando na frente dele!
O nariz de Lilia tocou o de Luiza e o acariciou. Continuaram o movimento por alguns momentos até que irromperam em risadas.
Souza riu, muito sem graça, tentando compreender o porquê de estarem rindo. Tentou não constranger a filha durante sua declaração de afeto e carinho. O amor é lindo, mas muito esquisito. Concluiu, um pouco mais relaxado.
"Pai, eu e a Lilia não namoramos." Luiza começou a explicar.
"Não? Vocês estão apenas... Como os jovens falam hoje em dia mesmo? Ficando?" Souza retrucou.
"É claro que não!" Lilia se intrometeu. "Sem ofensas, Luiza, só que você não faz o meu tipo." Brincou.
Luiza riu, respondeu que Lilia também não era muito o que ela esperava em um parceiro e continuou a se explicar:
"Olha, eu achei lindo o seu posicionamento sobre o amor livre. De verdade, pai. Estou muito emocionada e orgulhosa. Geralmente pessoas mais velhas são mais..."
"Caretas." Lilia cutucou Luiza e sinalizou.
"Eu diria preconceituosas. E mesmo sendo muito, muito errado, eu entendo. Vocês nasceram, cresceram e viveram em uma outra época. Tiveram uma outra educação e está tudo bem com isso, certo?"
Souza sorriu com os dizeres da filha. O orgulho que Luiza sentia era recíproco. Em sua opinião é muito difícil encontrar um jovem com tamanha empatia para entender que cada indivíduo é um indivíduo, e que uns amadurecem mais do que outros. Uns mais rapidamente, outros mais lentamente e está tudo bem com isso, contanto que não façam mal a ninguém.
Lilia, ainda em contato com a amiga por telepatia, deu continuidade ao seu raciocínio:
"O ponto é: não estamos juntas, tio Souza! Estávamos falando das roupas porque queremos abrir um brechó."
— Ah! — Souza, ligando os pontos, finalmente compreendeu o que estavam falando.
"Exatamente, é isso. Precisamos olhar meu armário. Isso é o que faremos com as roupas. E eu preciso de coragem, pois sou apegada a algumas, mesmo não usando mais." Luiza concluiu seu pensamento e riu mais uma vez. "Você tinha que se ver! Estava vermelho!"
Souza finalmente riu legitimamente. Talvez por alívio, talvez pela situação ter sido engraçada mesmo. Não era aquele o dia que sua formiguinha começaria a namorar, graças a Deus.
Lilia e Luiza voltaram para o quarto com a leveza que situações engraçadas trazem. Marília estava esquisita, pareceu se forçar a sorrir.
"Você tinha que ver o que aconteceu agora!" Lilia começou a gesticular, finalizando com uns pulinhos.
— Eu vi. — Marília disse.
"Eu vi, Lilia. Hoje é dia de comer batatinhas no seu Zeca, não é?" Marília continuou a falar, claramente desviando o assunto.
"Todos os dias são dias de batatinhas!" Lilia sequer reparou, dando mais alguns pulinhos.
Luiza reparou na mudança de postura de Marília. Optou por permanecer quieta sobre isso.
"Então vamos." Marília disse, se espreguiçou e saiu do quarto.
Lilia saiu flutuando atrás de Marília e Luiza pegou sua bolsa e seguiu as duas. Lilia congelou no meio do corredor, cutucou Marília e se virou para Luiza.
"As roupas!"
"Vamos olhar algumas roupas, tirar fotos e iremos para a lanchonete do seu Zeca, que tal?"
Lilia sorriu, porém Marília sentiu que precisava de ar e explicou isso para as meninas. Voltou para casa e combinou de encontrá-las de tarde para conversarem e lancharem. Quando Marília saiu, Luiza se voltou para Lilia:
"Você entendeu o que aconteceu aqui?"
"Marília sempre foi meio esquisita, parei de tentar entender faz tempo." Lilia respondeu, se virando para o armário novamente. Luiza também retornou seu foco para as roupas e toda a idealização do brechó. Quando deram por si, já era a hora sagrada das batatinhas.
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