Os Teus Acordes

15 Lilia é um nome potente


Quando Luiza e Lilia chegaram, Marília acenou. Estava confortavelmente sentada em um dos bancos vermelhos e brilhantes do canto com um suco de maracujá apoiado sobre a mesa. As três se aconchegaram e Lilia tirou o celular do bolso.

“Essas foram as roupas que a princesa aqui conseguiu abrir mão.” Lilia sorriu, cutucando Luiza.

“Desculpa.” Respondeu, um pouco envergonhada.

“Estou brincando com você, boba. Tem bastante roupa aqui. Juntando com as minhas e as da Marília... Acho que temos um brechó em potencial nas nossas mãos.”

Elas sorriram e, depois pedirem duas águas da casa, brindaram.

“Um brinde ao nosso brechó!” Lilia sinalizou.

“Outro brinde ao implante coclear!” Marília acompanhou.

“E por último, mas não menos importante, um brinde à nossa amizade!” Luiza terminou o discurso.

Emocionadas, se abraçaram e pediram as batatinhas. O futuro, daquele momento em diante, parecia bonito.

Era sábado e, como de costume, de quinze em quinze dias tinha músicas ao vivo na lanchonete do seu Zeca.

Cumprimentaram o velhinho e ofereceram ajuda para afastarem algumas mesas. Após a arrumação, voltaram para o seu lugar e as luzes ficaram mais fracas.

Um feixe estava centralizado no pequeno palco improvisado. Nele, subiu seu Zeca e uma intérprete para avisar a todos que a apresentação musical iria começar. Agradeceram a presença de todos, desde os clientes mais fiéis até os conhecedores/pesquisadores do melhor lanche da região e explicou que as notas fiscais viriam com um adendo: o couvert musical. Era opcional, referente a dez por centro do consumo da mesa, e completamente direcionado para o músico. Colocou o ponto final em sua fala dizendo para ninguém se sentir pressionado a pagar nada, mas também explicou a importância do trabalho e da valorização dos artistas.

Seu Zeca tirou o chapéu, o posicionou em frente da barriga e se dobrou, cumprimentando a plateia. Luiza fincou os pés no chão. Amava sentir a vibração das músicas ao vivo tão de perto. O cheiro de hamburger, fritas e refrigerante cedeu espaço ao aroma de gelo seco que saiu da máquina de fumaça e, no meio daquela bagunça gasosa, surgiu ninguém mais, ninguém menos do que Tomás. Luiza engasgou com sua água.

Marília e Lilia a olharam atônitas, sem saber o que fariam: saíam dali ou continuavam e fingiam que não tinha nada de errado na situação?

“Você está bem?” Marília perguntou, movendo as mãos lentamente.

Luiza sequer levantou as mãos para responder, apenas balançou com a cabeça que “sim” e tomou outro longo gole de seu copo.

Lilia guardou o celular com as fotos para o brechó e começou a falar que o Tomás devia uma satisfação por ter desaparecido simplesmente depois de ter dito tanta barbaridade. Marília, geralmente o ponto centrado e racional da amizade, concordou com Lilia – o que não acontecia sempre. Luiza não sabia roer unhas. Isso não é exatamente algo que se ensina para uma criança e, por benevolência do destino, nunca aprendeu sozinha. Se o tivesse feito, estaria sem unhas naquele momento. Suas pernas não paravam de chacoalhar. Em um ímpeto, se levantou. Em outro ímpeto, se sentou. Marília e Lilia congelaram suas falas e ficaram de olho na amiga, que estava realmente nervosa com toda aquela coincidência.

“Lilia.” Luiza sinalizou.

Lilia se virou, fez menção de mover as mãos, só que Marília a conteve. Apenas aguardou.

“Pode avisar ao Tomás que estou aqui e que quero falar com ele?”

Lilia permaneceu imóvel por alguns segundos, até que Marília pisou em seu pé e sua reação foi sinalizar que sim, podia, é claro que podia. Precisava apenas esperar o intervalo da apresentação.

Assim o fizeram. As batatinhas correram o risco de esfriarem, tamanho nervosismo do grupo, se não fosse por Lilia e todo seu comprometimento em jamais permitir que uma batata fique muito tempo sem ser comida sobre um prato, bandeja ou afins.

Seu Zeca foi ao palco avisar do intervalo na apresentação. Seus clientes aplaudiram — Tomás realmente tem talento para a música acústica — e Lilia basicamente saltou do banco ainda mastigando algumas batatinhas.

— Ei, você! — Ela cutucou.

Tomás se virou, muito feliz e sorridente pela apresentação.

— Oi! – Respondeu ofegante. — Você gostou da apresentação?

— Sim, muito. Garoto, você leva jeito pra música! — Lilia retrucou e o abraçou.

Nem Marília, nem Luiza se surpreenderam com o gesto de Lilia. A conheciam bem e sabiam como era intensa nas suas ações. Lilia não era uma garota de copo meio cheio, por exemplo. Ele estava sempre transbordando.

— Puxa, muito obrigado! — Tomás, sim, se surpreendeu com o repentino gesto de carinho. — Então... Você é uma fã? Sinto que já te vi antes.

Ela o olhou com a boca um pouco aberta, tentando assimilar o porquê ele a viu como uma fã e então percebeu que no contexto de show e abraços, sim, fazia sentido o raciocínio do capaz.

— Fã? Não, querido. — Retrucou, rindo um pouco. — Talvez no futuro, você realmente toca muito bem.

— Lisonjeado.

— Eu sou amiga da Luiza mesmo. Lilia, prazer.

O sorriso de Tomás estava petrificado em seu rosto, mas Lilia reparou pelas sobrancelhas e por alguns músculos faciais a tensão que surgiu subitamente. Continuou a falar:

— Eu vim aqui com ela e...

— Agora me lembro de você. — Tomás a interrompeu, mantendo a voz suave. — Lilia. Prazer, Lilia, é um lindo nome.

— Muito obrigada.

— Lírio, certo? Pureza, inocência... Flor. — Tomás prosseguiu com seus devaneios.

— Sim... Gosto bastante do meu nome, confesso. — Lilia embarcou nos devaneios, sentindo um certo calor no rosto, que provavelmente estava ficando vermelho.

Costumavam elogiar muito sua aparência, mas era uma das primeiras vezes que a olhavam pelo seu nome. Sentiu que isso a humanizava um pouco mais.

— É um nome potente, Lilia. Sobre a Luiza, parece que agora ela quer falar comigo. Tudo bem. Mas eu já não estou disposto a falar com ela. Vi que agi feito um babaca, me desculpei. Agora, o que ela ganha agindo da mesma maneira? Satisfação? Pois bem, mal nos conhecemos e acho melhor que continuemos assim.

O queixo de Lilia caiu. Tomás a cumprimentou novamente, agradeceu pelo recado, pelos elogios e pela conversa e voltou para o palco. Tinha que se preparar para a próxima e última música. Lilia permaneceu de queixo caindo por alguns segundos até que impacientemente Marília se levantou, foi até ela e a puxou de volta para o banco.

“O que foi? O que aconteceu?” Luiza perguntou.

Suas mãos estavam suadas e formavam as palavras rapidamente.

“Ele te pediu desculpas?” Lilia questionou.

“Como? Não. Ele não me pediu desculpas. Queria falar com ele para esclarecer as coisas. Só isso.”

“Bom, ele acredita que te pediu desculpas. Ele realmente acredita que te pediu desculpas.”

O semblante de Luiza transpareceu a confusão que sentiu. Marília bufou.

— É por situações como essa que eu poderia falar mal de homem por dez horas seguidas. — Não conseguiu evitar dizer isso.

Luiza leu seus lábios e digeriu o que tinha acabado de ouvir. Não ficaria ali, parada, prestigiando a apresentação de quem tinha a tratado muito mal e, ainda por cima, a ignorado. Se levantou, desta vez certa do que iria fazer.

“Vou para casa.” Sinalizou.

Não deu tempo para respostas e objeções. Quando Lilia pensou no que falar, Luiza já estava fechando a porta atrás de si.

— Dê um tempo para ela. As mágoas do coração também existem para serem sentidas. — Marília suspirou.

— Nossa, nunca te vi tão... sensível. — Respondeu.

O queixo caído de Lilia ainda não tinha se recuperado por completo. Marília sorriu e lhe deu um peteleco no braço.

— Não estou sensível, estou irritada.

— E sensibilizada. Sentindo empatia pela Luiza.

— Tudo isso, é, talvez.

— Viu, só? Sensível.

Marília acabou gargalhando e Lilia a acompanhou. No meio das risadas, do típico cheiro de carne sendo preparada, dos sons dos garfos esbarrando nos pratos, copos se encontrando e bandeias sendo levadas para lá e para cá, as meninas sequer repararam que Tomás tinha terminado a música, agradecido a plateia e desaparecido do palco. Sequer se tocaram que, apressadamente, Tomás estava indo atrás de Luiza.